Continúa a rebellião em Pernambuco.--Os rebeldes da parte do N. da

Provincia são batidos em _Mãe Catharina_ (_5 de Janeiro_); e procurando

o S. para se reunirem aos seus consocios na comarca do Rio Formoso são

batidos successivamente em _Carauna_ e _Camaragibe_ (_13 de Janeiro_),

apezar de se acharem em alguma força; entranhando-se sempre pelas mattas

afim de melhor continuarem a marcha que levavão para o S., e

incommodarem com suas guerrilhas as forças legalistas.--No entanto o

Deputado Nunes Machado e outros, que a 31 de Dezembro p. p. havião

sahido do Recife para dirigirem a revolução no Sul da Provincia, e

desembarcado na praia da Gamella, tendo conseguido reunir alguma gente,

dirigem-se para a comarca do Rio Formoso, e tomão _Barreiros_ nos

confins com Alagôas (_10 de Janeiro_). Em breve porém abandonão este

ponto por saberem que as forças de Alagôas e de Pernambuco combinadas os

ião attacar; e retirão-se para _Tentugal_.--Os revoltosos do N.

conseguem reunir-se aos do S. e dirigem-se todos para _Agua Preta_, onde

concentrão suas forças: existindo tambem outros pequenos bandos

dispersos pela comarca do Bonito, depois que forão batidos (_22 de

Janeiro_) perto da villa deste nome pelas tropas em operações n'este

ponto.--O General em Chefe Coelho, e já antes delle o Coronel João do

Rego Barros sahem para Agua Preta a bater as forças reunidas dos

revoltosos.--Estes porém abandonão Agua Preta (_26 de Janeiro_), e

avanção sobre a capital a marchas tão violentas, que a _1.^o de

Fevereiro_ se achavão mui perto della. Capitaniados por _Peixoto de

Brito_ e outros caudilhos, e de intelligencia com os seus

co-religionarios da capital, aproveitão-se da ausencia do General Coelho

e das forças a seu mando, e atacão em numero maior de 2:000 o _Recife_

(_2 de Fevereiro_). Renhida e mortifera foi a luta; mas afinal forão

victoriosamente repellidos pelos exforços das tropas e Guarda Nacional

que se achavão na cidade, ajudadas por alguns vasos, sobretudo pelo

vapôr de guerra nacional _D. Affonso_, e ultimamente pelas forças do

General Coelho que a marchas forçadas chegou a tempo de auxiliar a

defeza da cidade. O resultado deste combate foi mortandade immensa de

parte a parte, em cujo numero muitos officiaes e outras pessoas de

alguma representação na sociedade, entre as quaes um dos Deputados

rebeldes Nunes Machado; muito maior numero de prisioneiros e feridos;

dispersarem-se fugitivos os revoltosos, terminando assim a louca

pertenção de á força conseguirem seus intentos.--Os rebeldes fogem

divididos em 2 grupos; hum commandado por _Peixoto de Brito, Borges da

Fonseca_ e outros dirige-se para o N.; o outro sob a direcção de _Pedro

Ivo_, entranhando-se pelas mattas toma a direcção do S.--Em sua marcha o

grupo do N. devasta e assola a cidade de _Goianna_; porém perseguido

sempre pelo Tenente-Coronel _Falcão_, e batido em _Páo-Amarello_ (_13 de

Fevereiro_): em consequencia fogem para a Parahyba, onde se acoutão na

cidade de _Arêas_; mas são daqui expellidos (_21 de Fevereiro_) pelo

mesmo Falcão, vendo-se assim na dura necessidade de se refugiarem nas

mattas. Porêm não achando apoio na Provincia, fogem de novo para

Pernambuco (_27 de Fevereiro_); onde abandonados a maior parte pelos

seus proprios chefes entregão-se ao Governo, confiados na Clemencia

Imperial e na amnistia promettida pelo Presidente em _3 de Março_, e

para a qual se achava autorisado pelo Decr. de _11 de Janeiro_. Ainda

pequeno numero se conservou hostil sob o mando de Borges da Fonseca,

achando abrigo unicamente nas mattas; porêm estes mesmos, depois de

pequenos ataques, são afinal batidos e destroçados no lugar das

_Tres-Ladeiras_, termo de Iguarassú (_30 de Março_), sendo prisioneiros

seu chefe Borges da Fonseca e outros; perseguidos e vencidos dest'arte,

entregão-se confiados na amnistia. Assim se dissipa o grupo do

N.--Quanto ao grupo do S., conseguio elle fixar-se em _Agua-Preta_;

porêm a abandonão á approximação das forças legaes; e a _13 de Março_ he

occupada pelo Tenente-Coronel _Antonio Maria de Souza_ e forças das

Alagôas. Os rebeldes deste lado da Provincia tambem se entregão pouco a

pouco implorando a Clemencia Imperial, mesmo alguns de seus chefes (como

seja _Caetano Alves_, que em _5 de Abril_ se entregou com 324

homens).--Assim, perseguidos sem cessar, batidos sempre e obrigados a

acharem por unico abrigo as mattas, presos alguns chefes, outros

fugidos, e apresentando-se a maior parte dos seus sequazes implorando a

Clemencia Imperial; terminada se deve considerar uma luta, que por mais

de 5 mezes só servio de assolar, arruinar e desmoralisar huma das mais

bellas Provincias do Brazil; de derramar inutilmente o precioso sangue

Brazileiro; diminuir as forças do Imperio; sobrecarregar os seus cofres

de despeza immensa; e arruinar e desgraçar muitas e muitas familias. Sem

motivo mais que saciar mesquinhas e vis paixões, vingar interesses

pessoaes contrariados e não satisfeitos, conseguir a todo custo a

convocação de huma Constituinte, proclamou-se tal revolta, com vistas

futuras, si fôra bem succedida: e deste modo não se duvidou affrontar

tudo quanto ha de mais sagrado, calcarão-se todas as Leis, todos os

deveres e considerações, e ateou-se no paiz a guerra civil com todas as

suas horriveis consequencias.--O Presidente Tosta é substituido por

_Honorio Hermeto Carneiro Leão_, que toma posse a _2 de Julho_,

continuando no commando das Armas o Marechal Coelho.--Dissolvida a

Camara Temporaria por Decr. de _19 de Fevereiro_ e convocada outra para

o dia _1.^o de Janeiro_ de 1850, procede-se em todo o Imperio ás

eleições primarias para a actual 8.^a Legislatura (_5 de Agosto_); não

deixando de haver, como sempre, algumas pequenas desordens em varios

pontos. E logo depois á eleição dos Deputados para a mesma (_5 de

Setembro_).--Na côrte, o Ministerio soffre modificação. _Manoel Vieira

Tosta_ toma conta da pasta da _Marinha_ (_1.^o de Setembro_), para a

qual se achava nomeado por Decr. de _23 de Julho_; continuando com a da

Guerra Manoel Felizardo. O Visconde de Olinda deixa a pasta dos

_Estrangeiros_, que é confiada a _Paulino José Soares de Souza_; e a

Presidencia de Ministros que passa ao Visconde de Monte Alegre (_8 de

Outubro_).--No _Rio Grande do Sul_ varios grupos se reunirão na

fronteira para se desforçarem de attentados e barbaridades praticados

contra os nossos pelos Orientaes (_Novembro e Dezembro_); tornando-se

notavel o feito do _Barão de Jacuhy_ (Francisco Pedro de Abrêu).--No

entanto a guerra civil em Pernambuco, que parecia terminada, é de novo

atêada (_Julho_) pelo Capitão _Pedro Ivo_, que com falsos boatos

consegue chamar a si para mais de 400 desgraçados, reunindo-se-lhe

tambem _Caetano Alves_ que em menos-preço da amnistia que lhe fôra

concedida não duvidou alterar de novo a ordem publica e hastear a

bandeira da rebeldia. Conserva-se em posição hostil nas mattas de

_Agua-Preta_. O Presidente embalde procura chamal-o á ordem pelos meios

brandos, offerecendo-lhe amnistia com certas condições; elle, instigado

pelos réos politicos em Recife, resiste sempre, tudo recusa, e obriga a

empregar meios energicos e a força (_Outubro_). Diversos grupos

apparecem em outros pontos; pequenos encontros tem lugar, sem resultado

algum decisivo por se recusarem os rebeldes a sahir das mattas e a

acceitar combate formal: hum grupo que se achava para as bandas de

_Serra-Negra_ foi dispersado pelo Capitão _Brazil_ (_11 de Dezembro_); e

hum outro que se havia acoutado nas mattas do _Catucá_, apartando-se

d'ahi e seguindo para o N. foi batido na _Barra de Natuba_, Provincia da

Parahyba, pelo Tenente-Coronel _Innocencio_ (30 de Dezembro). Os

rebeldes, seguindo sempre o cauteloso systema de se acoutarem nas

mattas, dellas não sahem senão para commetterem depredações e

assassinatos, prolongando dest'arte huma luta summamente prejudicial ao

Brazil por qualquer lado que a encaremos, e mais particularmente á bella

Provincia de Pernambuco.

*SUCCINTO ESBOÇO

DO

ESTADO DO BRASIL AO FINDAR O ANNO DE 1849.*

*RELAÇÕES INTERNAS.*

SITUAÇÃO, POSIÇÃO ASTRONOMICA E EXTENSÃO.

O Brazil, hum dos mais vastos Imperios do mundo, acha-se situado na

America Meridional entre 4.° 30' lat. N. e 34.° 15' lat S., 37.° e 75.°

long. Occ. do meridiano de Paris, occupando assim huma superficie de

mais de 400:000 legoas quadradas.

LIMITES.

Ao N. as Guyanas e a Republica federada de Nova Granada, Equador e

Venezuela (antigas Columbia e Venezuela); a O. a mesma Republica

federada, Perú, Bolivia, Paraguay e Republica Argentina; ao S. a mesma

Argentina e a de Monte-Vidéo; a N. E., L., e S.E. o Atlantico.

LINHA DIVISORIA.

Ainda não se acha clara e definitivamente fixada: com tudo a seguirmos a

opinião mais bem fundada diremos ser a seguinte.

Começa na barra do rio _Oyapock_, seguindo-o até suas cabeceiras;

continúa pelos sêrros que dividem as agoas que vão para o N. das que se

lanção no Amazonas, passando pelas cabeceiras do rio _Branco_; vae por

este acima até a barra do _Jabary_, acompanhando-o até 9.° lat. S.;

d'aqui parte em linha recta de O. para L. até o _Guaporé_, seguindo-o

até as visinhanças da cidade de Matto Grosso; continúa até a barra do

_Jaurú_ no _Paraguay_, seguindo o curso deste ultimo até 24.° lat. S.;

aqui corta pelos campos até encontrar o _Paraná_, o _Iguassú_, e o

_Uruguay_; segue por este ultimo até a sua confluencia com o galho

principal do _Arapey_ hum pouco abaixo do povo de Belém; segue por este

galho; continua pela _Cruz de S. Pedro_ cortando em linha recta os

sêrros de _Aceguá_; busca o galho mais ao Sul do _Jaguarão Chico_; segue

por este até sua confluencia com o _Jaguarão_; continua pela costa

occidental da lagôa _Merim_, resalvando sempre a distancia para o S. de

dous tiros de canhão de calibre 24; busca o arroio de _S. Luiz_, legoa e

meia da sua barra; a _Pequena Canhada_ salvos os sêrros de S. Miguel; as

vertentes da lagôa _Palmares_; e termina na costa do mar na _Angustura

de Castilhos_.

RIQUEZA NATURAL.

He proverbial a riqueza do Brazil em todos os reinos da natureza. Em

huma extensão immensa de costa banhada pelo Atlantico são os seus mares

abundantissimos da mais variada pesca desde a rainha do Oceano, a balêa,

até os mais insignificantes peixes: assim como são tambem summamente

piscosos os seus rios, em alguns dos quaes abundão tartarugas. Em terra

ha a mais variada profusão de todos os animaes desde o tigre temivel até

o mimoso saguim, desde o condôr-rei até o delicado beija-flôr. As suas

mattas immensas fornecem toda a sorte de madeiras de construcção, de

tinturaria, de marceneria, &c: e além disto o reino vegetal offerece

tudo quanto he indispensavel á vida quer para vestuario e alimento, quer

para restabelecimento da saude. No reino mineral temos ouro, de que se

torna digna de menção a mina de Congo-Socco na Provincia de Minas

Geraes, pertencente a huma companhia ingleza que della tem extrahido

milhões e milhões de libras deste metal; diamantes, de que n'outro tempo

se extrahio quantidade enorme nesta mesma Provincia; amethystas e outras

pedras preciosas; ferro, de que existe uma mina abundantissima, e

fabrica em S. João de Ipanema na Provincia de S. Paulo: tambem consta

que existem minas de carvão de pedra, sobretudo na Provincia de Santa

Catharina; assim como de cobre, chumbo, marmore, e outros mineraes em

varias Provincias.

Si quizessemos enumerar todos os objectos que compõe a riqueza, de que a

natureza com prodiga mão adornou o nosso paiz, e especificar as

Provincias e localidades em que elles mais abundão, seria preciso

escrever volumes. Contentemo-nos pois com o que temos dito, ficando

certos de que não ha paiz no mundo mais rico em todos os reinos.

Accresce que o Brazil pela sua posição geographica, e astronomica

offerece elementos de grandeza e prosperidade que assombrão: terreno o

mais fertil possivel; variedade de climas; rios por toda parte capazes

de navegação, mesmo para barcos de mais alto bordo, até o interior; e

mil outras circumstancias todas favoraveis.

Si a Providencia dotou o nosso paiz com tantos e tão poderosos elementos

de riqueza, e grandeza, não foi certamente sem hum fim. E si pelos

_meios_ é facil chegar a comprehender-se o _fim_, devemos confessar que

Deos mesmo destina o Brazil a ser hum dia talvez a primeira Nação do

Mundo.

POPULAÇÃO.

Muito é de lamentar a falta de huma estatistica da população do Imperio.

Com tudo, segundo calculos approximativos, podemos avalial-a em 7 a 8

milhões de habitantes: dos quaes 3 milhões são sem duvida alguma

escravos.

Eis em nossa organisação social hum elemento retrogrado na civilisação,

assim como de discordia e desordens.

Quem ha que ignore a influencia da escravidão na educação dos povos? O

poder quasi absoluto que exerce o senhor sobre o escravo, faz-lhe

adquirir costumes senhoriaes, que se revelão de modo indigno nas

relações familiares e nas sociaes.--A maneira desabrida, os continuos

vituperios que o senhor lança em rosto ao escravo, que não se atreve a

dizer palavra e tudo ouve e soffre humildemente, muitas vezes se mostra

nas relações sociaes e familiares, revelando a poderosa influencia do

habito de tratar os escravos.--O continuo martyrio que o senhor faz o

escravo soffrer, já opprimindo-o com pezados ferros, já castigando-o

desproporcionadamente á falta commettida, e ás vezes innocentemente, já

fazendo-lhe soffrer crueis tormentos, e tudo isto sem querer ouvir huma

razão justificativa, huma queixa, hum ai; faz-lhe perder ou pelo menos

muito arrefecer os sentimentos nobres e generosos, a compaixão do

proximo, e até o principio do justo e injusto: barbariza-o, e a todos

que taes factos presencião quotidianamente.

E he debaixo da influencia tão immediata de taes elementos que se educa

o nosso povo!

Por outro lado, quem ha tambem que ignore a odiosidade nata, terrivel, e

justa entre o principio _escravo_ e o _livre_? A historia de todos os

povos e de todos os tempos ahi está para o demonstrar: basta lêr huma

pagina da historia do hoje Imperio do Haiti. Si a escravidão em hum paiz

he elemento opposto á civilisação; o he tambem de discordia e desordens

temiveis. He a mina sempre prompta a fazer horrivel explosão e tudo

despedaçar, logo que se offereça occasião favoravel.

Mas não pára aqui. Hum outro elemento de discordia ainda existe entre

nós. É a diversidade de raças. A nossa população compõe-se de brancos,

negros, indios, mestiços e mulatos. E quem ignora a odiosidade que tem

todos á raça branca, por se acharem em posição inferior na ordem social,

por força dos prejuizos e preconceitos da sociedade?

Ah! si não fôra o erro fatal dos nossos antepassados, primeiros

colonisadores do Brazil, hoje teriamos muito maior população, toda

composta de gente valente, laboriosa e livre. Si acariciassem os

Indigenas, si lhes fossem ensinando a lingua e chamando-os

paulatinamente á vida civilisada e ao gremio da nossa Religião e

sociedade, elles não se terião exterminado nem fugido. Como querião os

Portuguezes que os Indios, acostumados a huma vida indolente, se

sujeitassem logo a duros trabalhos, taes como os da mineração, lavoura e

outros? Como, que abandonassem logo as suas crenças religiosas, já

arraigadas em seus corações, para abraçarem a fé christã, os dogmas e

principios sublimes de nossa Religião para elles incomprehensiveis?

D'aqui a resistencia que elles oppozerão aos seus avarentos, infames e

vis oppressores. D'aqui as guerras, o odio, o exterminio barbaro até se

refugiarem no interior das mattas mais remotas.

Cumpre agora remediar de algum modo os passados erros, empregando todos

os meios de colonisar o paiz com braços laboriosos e livres,

preparando-lhe assim um futuro risonho e prospero.

RELIGIÃO.

A Religião do Estado é a Catholica-Apostolica-Romana. Porêm a nossa

Constituição, conciliando mui sábia e prudentemente o exclusivismo dos

nossos maiores em materia de Religião com a tolerancia e liberdade

religiosa introduzida depois das graves disputas de Luthero, Calvino, e

das idéas ultra-tolerantes da revolução franceza, permittio a tolerancia

religiosa limitada, isto he, concedeo ampla liberdade de consciencia

(sobretudo nunca tendo existido no Brazil a chamada Sancta-Inquisição),

com tanto que as casas destinadas para o culto não tivessem fórma

exterior de templo: é assim que vemos hoje entre nós alguns destes

templos, como sejam o Inglez e Allemão no Rio de Janeiro.

DIVISÃO ADMINISTRATIVA.

De 19 Provincias se compunha o Imperio até certa época. Todavia só 18 o

formão actualmente, depois que pelo tratado de 1828 reconhecemos a

independencia de Monte-Vidéo (antiga Provincia Cisplatina).

São ellas: no littoral _Pará_ (capital Belém); _Maranhão_ (capital S.

Luiz); _Piauhy_ (capital Oeiras); _Ceará_ (capital Fortaleza); _Rio

Grande do Norte_ (capital Natal); _Parahyba_ (capital Parahyba);

_Pernambuco_ (capital Recife); _Alagôas_ (capital Maceió); _Sergipe_

(capital S. Christovão); _Bahia_ (capital S. Salvador, ou Bahia);

_Espirito Santo_ (capital Victoria); _Rio de Janeiro_ (capital

Nicterohy); _S. Paulo_ (capital S. Paulo); _Santa Catharina_ (capital

Desterro); e _S. Pedro do Sul_ (capital Porto Alegre); no centro _Minas_

(capital Ouro-Preto); _Goyaz_ (capital Goyaz); e _Matto-Grosso_ (capital

Cuiabá).--Existe além disso, encravado na Provincia do Rio de Janeiro, o

_municipio neutro_, onde se acha a capital do Imperio a cidade de _S.

Sebastião do Rio de Janeiro_.

Para maior commodidade e melhor administração, as Provincias são

divididas em _comarcas_, estas em _termos_, etc.

E, como existem 4 Relações no Imperio, a cada huma se fixaram

_districtos_, abrangendo cada hum varias Provincias.

DIVISÃO ECCLESIASTICA.

Ha no Brazil hum Arcebispado, o da Bahia; e 9 Bispados, que são: Pará,

Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro, S. Paulo, Marianna, Goyaz, Matto

Grosso, e S. Pedro do Sul (criado este por Bulla de Pio IX, confirmada

por Decr. de 7 de Dezembro de 1848).

A divisão ecclesiastica é mui distincta da civil; porque ha muitas

Dioceses que entram por territorio de Provincias onde tambem ha Diocese.

Talvez fosse preferivel reformar esta divisão, fixando a cada Diocese

certo numero de Provincias.

ORGANISAÇÃO POLITICA.

A nossa Constituição estabelecendo e firmando no Brazil a fórma de

Governo admittio o

_Monarchico-Hereditario-Constitucional-Representativo_.

E para sua organisação reconheceo 4 Poderes: o _Moderador_, chave e

centro de todos; o _Legislativo_; o _Executivo_; e o _Judicial_. Suas

attribuições lá existem determinadas na propria Constituição.

O _Moderador_ foi confiado privativamente ao Imperador, que tem

ingerencia mediata ou immediata em todos os outros Poderes do Estado.

O _Legislativo_ é confiado a 2 Camaras, huma temporaria, e outra

vitalicia; mas as Leis que se fizerem devem ser sanccionadas pelo

Imperador antes que sejam promulgadas.--Além da Assembléa Geral, existem

as Assembléas Provinciaes, cujas Leis são sanccionadas pelos Presidentes

de Provincia.

O _Executivo_ tem por Chefe o Imperador, que o exercita por meio do

Ministerio.--O Ministerio compõe-se de 6 Ministros d'Estado, dos quaes

um é o Presidente do Conselho.--Como parte do Executivo temos ainda o

Conselho d'Estado, mas unicamente com _voto consultivo_.--E, como o

Governo precisa de Delegados seus nas Provincias, temos como parte

integrante do Poder Executivo os Presidentes de Provincia.

ORGANISAÇÃO DO PODER JUDICIAL.

Os membros que exercem este Poder são huns da massa geral do Povo, e

outros não.

Assim, os Juizes de Paz, os Jurados, e a Assembléa Geral e Provinciaes

(quando estas se constituem Tribunal Criminal nos casos em que a

Constituição e Leis o determinam) pertencem á 1.^a classe.

Porém os Juizes Municipaes, de Orfãos, de Direito, e outros, os

Dezembargadores, membros do Supremo Tribunal de Justiça, etc., não só

são de nomeação do Imperador (o que não acontece aos da 1.^a classe),

como se exige para o serem habilitações em Direito.

Os Juizes Municipaes, de Orfãos e de Direito são chamados Juizes de 1.^a

instancia.

Além disto existem no Imperio 4 Relações, que julgam em 2.^a e ultima

instancia.

Temos tambem o Supremo Tribunal de Justiça, cujos membros são tirados

das Relações por suas antiguidades. Compete-lhe na materia civel a

concessão ou denegação de revistas.

As Relações e o Supremo Tribunal tambem podem conhecer de causas crimes,

quer quando se trata de appellações e revistas para ellas interpostas

nos casos em que as Leis o permittem, quer quando se constituem Tribunal

Criminal.

Além destes Tribunaes e Juizes, temos na materia puramente espiritual os

Juizes Ecclesiasticos e a Relação Metropolitana da Bahia que julga em

2.^a e ultima instancia: bem como na materia puramente militar a antiga

organisação de Conselhos de Guerra, e julgamento no Conselho Supremo

Militar de Justiça. Sendo de notar que das causas puramente

ecclesiasticas e militares não cabe recurso de revista.

Tal he em resumo nossa organisação judiciaria no pé em que se acha

presentemente. Achamos-lhe graves defeitos; os quaes não apontamos, nem

quaes as reformas que julgamos indispensaveis; porque seria necessario

descer a considerações que nos farião desviar do fim limitado deste

nosso trabalho.

TRANQUILLIDADE PUBLICA.

Lavra em Pernambuco a guerra civil. Não poucas vezes tem o Brazil sido

victima destas desastrosas commoções, que não fazem senão retardar o seu

progresso, e enfraquecel-o cada vez mais. Tal he o triste e misero

estado a que se acha reduzida nossa bella patria, digna de melhor sorte,

e com todos os elementos e condições de hum porvir grandioso e

brilhante!

E qual a causa? Hum erro fatal, huma falsa idéa de _opposição_.

O que he a opposição, segundo a nossa Constituição, e segundo todos os

principios Constitucionaes governativos dos povos illustrados? He acaso

a resistencia desarrazoada e até armada aos principios e medidas dos

governantes? He acaso repellir sem criterio todas as medidas e negar os

auxilios? He acaso procurar dividir o paiz a ponto de se introduzirem os

odios, as vinganças, as discordias intestinas e guerras civis? Não por

certo: que a Constituição que tal permittisse seria a mais hedionda e

terrivel concepção do pensamento humano.

A opposição he a legal discussão dos principios e medidas governativas;

he a analyse justa e razoavel desses principios e medidas para se chegar

ao conhecimento de que são ou não são capazes de conseguirem o seu fim,

qual he a felicidade e prosperidade do paiz.

Sendo assim, a opposição he boa e até indispensavel; porque suscitando a

discussão obriga a maior e mais profundo exame a fim de se chegar com

mais segurança ao conhecimento da verdade.

Taes são os justos limites da opposição. E foi com estas vistas que a

nossa Constituição mui sabiamente consagrando o principio governativo

constitucional forneceo ao mesmo tempo os meios de se conseguir o

predominio dos principios: liberdade de pensamento, discussão na tribuna

parlamentar e pela imprensa, taes são os meios legitimos de alcançarmos

o triumpho das idéas.

Não se deduza, porêm, do que temos dito, que queiramos reduzir o povo ao

estado de jámais lançar mão das armas e usar de resistencia. Não; longe

de nós semelhante pensamento. Reconhecemos, com a sciencia, que ao povo

resta intacto e inalienavel o sagrado e soberano direito de oppor-se com

mão armada. E não só a sciencia, como a historia de toda a humanidade

ahi está para demonstrar este principio.--Mas em que circumstancias deve

ser exercido semelhante direito? Quando os Poderes do Estado exorbitando

de suas attribuições procurão ludibriar e escarnecer as instituições

fundamentaes, excedendo o mandado que receberão em prejuizo da nação;

quando procurão esmagar o povo e fazer delle hum automato que obedeça

cégamente a seus caprichos. Então o povo espontaneamente se levantará

todo como se fôra hum só homem, e irá pedir contas e fazer pagar caro a

quem o espesinha e calca aos pés seus direitos sagrados. Neste caso a

resistencia armada he hum direito e hum dever imperioso.

Do mesmo modo que entre as nações a guerra he hum direito supremo e

ultimo recurso; tambem nas relações internas de um povo a resistencia

armada he o ultimo recurso a lançar mão. Então he a humanidade que,

opprimida e vexada, sacode o jugo e pune os culpados.

Á vista disto, como arrogar-se huma pequena fracção de hum povo os

direitos soberanos que só ao povo inteiro competem? Tal ousadia he

punida immediatamente; porque essa fracção vê-se isolada, tendo contra

si a maioria da Nação: e por isso deverá reconhecer que o motivo que a

impellio não era verdadeiro, real e bastante poderoso para usar desse

ultimo recurso; porque aliás acharia écho em toda a parte e auxilio

prompto e efficaz, sendo a consequencia o triumpho.

A historia de todos os povos, e mesmo a nossa, ahi está para confirmar e

provar o que deixamos dito.

No extremo sul do Imperio o Barão de Jacuhy, para vingar actos de

barbaridade e vandalismo praticados pelos Orientaes contra os

Brasileiros, poz-se á testa de um punhado de homens reunidos nas

fronteiras, e passou o Quarahim invadindo o Estado Oriental: complicando

dest'arte nossas relações com o estrangeiro.--Como Jurisconsultos

certamente não approvamos semelhante acto, antes o achamos censuravel e

criminoso; porque não he dado a hum cidadão fazer a guerra por sua

conta, nem vingar-se por suas mãos das injustiças, vexames e prejuizos

que tenha soffrido; nem tão pouco provocar huma guerra estrangeira. Mas

como Brazileiros e como historiadores não só o approvamos, como

louvamos: porque as depredações e assassinatos que contra os Brazileiros

tem constantemente exercido os Orientaes; as leis barbaras ou antes a

vontade caprichosa e despotica de Oribe prohibindo a passagem de gados

do Estado Oriental para o Rio Grande; a nenhuma garantia por elle dada á

propriedade e ás pessoas; e as invasões continuas do estrangeiro no

territorio brazileiro, e roubos por elle commettidos, são factos que

altamente exacerbárão os espiritos e provocárão as represalias. Em taes

circumstancias não ha meio termo; he indispensavel mostrar ao

estrangeiro que não somos escravos, que temos brio e sentimentos, e que

não se commettem em plena paz actos só proprios de huma guerra de

selvagens, sem que sejão seguidos da justa punição de tanta

ousadia.--Mais huma pagina de gloria reserva a historia para o illustre

Brazileiro que assim procedeo.

MORAL.

Peza-nos dizel-o, mas he força confessar: o paiz acha-se profundamente

desviado dos unicos verdadeiros principios da sã moral. Por todas as

classes da sociedade, com honrosas excepções, tem lavrado os tres

grandes males que entre nós hão feito desprezar a observancia religiosa

dos principios do dever da consciencia e dos da moral christã, unicos

capazes de conduzir á verdadeira felicidade os homens e as Nações.

O _egoismo_, suffocando todos os deveres e considerações, e fazendo

predominar tão sómente a individualidade pessoal em todas as relações,

he o maior mal que hoje peza sobre a nossa sociedade: e por elle são

sacrificados todos os deveres moraes e sociaes.

Por outro lado as _paixões politicas_, de todas a mais cega, frenetica e

embriagadora, arrastão como huma torrente impetuosa os homens aos

maiores desvarios; fal-os calcar aos pés todas as leis, todos os

deveres, todas as considerações, para conseguirem o triumpho de seus, ás

vezes pretendidos e tresvairados principios. Ellas tem dividido a Nação,

levado a sizania ás familias, inimizado paes e filhos, os proprios

irmãos entre si, emfim tem trazido ao paiz os maiores males que sobre

elle pezão.

Indice chronologico dos factos mais notaveis da Historia do Brasil desde seu descobrimento em 1500 até 1849 · 第 6 / 8 段