A estes dous males junta-se ainda o _patronato_ mais escandaloso em

todos os ramos da organisação social. Homens de merito e de

independencia de caracter, que não se sujeitão nem se aviltão a andar

rastejando, quaes vermes despreziveis, são inteiramente esquecidos; e,

ainda em concurrencia com outros de muito inferior capacidade, são

preteridos, si lhes falta o forte escudo desta nova potencia intitulada

_empenho_: soffrendo com isto muito e muito a publica administração.

Este cancro terrivel tem penetrado até no augusto sanctuario da Justiça.

Estes tres gravissimos males tem profundamente corroido a nossa

sociedade, e ameação-nos de morte ou de huma revolução tal, que

abalando-a em seus alicerces e revolvendo-a em huma fervúra geral os

faça desapparecer, restituindo-nos a hum estado capaz de trazer-nos a

felicidade.

Mas esperamos da Providencia Divina que, depois de longa e fatal

experiencia, nós entremos no verdadeiro caminho e observemos os

principios da moral sancta e sublime do Christianismo.

INSTRUCÇÃO PUBLICA.

A instrucção publica, ou antes a educação de hum povo he a solida base

de sua felicidade e prosperidade. Essa educação portanto he o ponto que

mais de perto deve interessar o Governo do Estado, e merecer seus

cuidados e desvelos.

Mas huma boa educação, para ser completa deve: 1.^o dirigir-se não só á

intelligencia, mas aos sentimentos, e ao physico, isto he, a educação de

um povo não deve ser meramente _intellectual_, mas tambem _moral_,

_religiosa_, e _physica_; 2.^o estar reduzida a hum systema tal, que

nelle predomine hum pensamento, huma idéa, isto he, deve ter

_regularidade_, e _unidade_; 3.^o as pessoas encarregadas da augusta

missão de educar a mocidade devem reunir em si todas as qualidades

capazes de conseguir o seu fim; 4.^o estar debaixo da vigilancia e

_inspecção_ da Autoridade Suprema.

Entre nós a educação publica resente-se de gravissimos defeitos, que

exigem urgente reforma.

Em 1.^o lugar não ha _regularidade_ nem _unidade_; não ha systema. Cada

Assembléa Provincial legisla como lhe parece, sobre a instrucção

primaria e secundaria nas respectivas provincias. Além disso tambem os

particulares nacionaes ou estrangeiros, encarando a educação da mocidade

como huma industria, vão abrindo seus estabelecimentos de educação

primaria e secundaria, e seguindo o systema que a cada hum parece

melhor. De sorte que são tantos systemas, quantos os estabelecimentos

publicos e particulares.

Em 2.^o lugar o ensino superior nas faculdades tambem he summamente

defeituoso, já pela exorbitancia da existencia em duplicata das

faculdades de Medicina e de Direito, já pela falta da faculdade de

Canones, já pela má distribuição de materias, já por mil outras

circumstancias.

Em terceiro lugar o pessoal, a quem está confiada a educação publica

entre nós, merece tambem reforma radical. Que educação póde receber hum

menino ou hum mancebo que tem por professor hum estupido, ignorante, ou

hum bebado, immoral, vicioso, incivil? Que sentimentos de boa moral e

religiosos pode com taes exemplos receber a mocidade? Que solida

instrucção receber de hum professor preguiçoso, ou sem methodo de

ensinar, ou que falla de maneira a não se lhe poder ouvir huma só

palavra? Para ser professor, desde as primeiras letras até os estudos

superiores, exigem-se muitas qualidades reunidas, que nem todos possuem:

não he bastante ter grande instrucção, he preciso ter bons sentimentos

moraes e religiosos; saber exprimir-se com methodo e clareza; não basta

ter talento, he preciso não ter preguiça de estudar para ir sempre

acompanhando o progresso da sciencia.--Não queremos com isto offender a

pessoa alguma; apenas notamos que ha muitos que não estão no caso de

serem professores por lhes faltarem as qualidades para isso: e que o

continuarem as cousas neste estado he hum gravissimo mal.

Em ultimo lugar, não ha entre nós huma _inspecção_ sobre a educação

geral. De sorte que os particulares abrem seus estabelecimentos, sem que

a autoridade publica saiba si elles tem as condições indispensaveis para

cuidarem na educação da mocidade. Do mesmo modo os estabelecimentos

publicos não são visitados nem inspeccionados, como o deverão ser, por

pessoas encarregadas de examinarem como nelles vai a educação. De

maneira que a relaxação e o desleixo, contaminando a educação, a

infecciona desde seu principio; e em lugar de imbuir na mocidade o

desejo e ardor do trabalho, lh'o diminue e quasi extingue: e outros

defeitos, que, vistos e conhecidos, podião logo ser corrigidos,

continuão e vão lavrando com mais força.

Tal he o misero estado da instrucção publica entre nós, estado que exige

radical reforma.

Em primeiro lugar devia-se tirar ás Assembléas Provinciaes toda e

qualquer ingerencia na educação mesmo primaria. E em segundo, ás Camaras

Municipaes a inspecção que lhes confere a lei de sua criação. Tudo devia

ser confiado ao Governo e ao poder geral.

Na organisação do systema, desejariamos que elle fosse o seguinte:

escólas primarias em todas as Provincias no maior numero possivel, para

que ao menos essa educação chegasse a todos. Em todas as Provincias hum

collegio de bellas-lettras, aonde a par de huma instrucção litteraria e

scientifica proporcionada ás necessidades e ao tempo, a par de huma

moral sã, de hum verdadeiro e santo temor de Deos, o desenvolvimento do

corpo por todos os jogos gymnasticos completasse a educação. Finalmente

huma unica Universidade onde se viesse estudar o direito, a medicina, a

theologia, a arte da guerra, a navegação, &c.

Reformada assim a educação publica entre nós, encarregada ella a pessoas

que tivessem todas as qualidades indispensaveis, e organisado ao mesmo

tempo hum ministerio publico de inspecção, e abolidos muitos abusos e

vicios de que se acha ella eivada actualmente, poderiamos caminhar com

mais firmeza e melhores esperanças.

ILLUSTRAÇÃO.

A intelligencia no Brazil he o que deveria ser em hum paiz ardente, novo

e virgem, collocado debaixo dos raios de hum sol brilhante e abrazador,

de hum céo puro e matizado dos mais bellos astros. Desde o seculo XVI a

litteratura e as sciencias se cultivão com esmero e muito aproveitamento

na terra de Santa Cruz. A terra virgem e grande em tudo quanto pode

haver de bello, magestoso e sublime, não podia deixar de gerar filhos

que a honrassem e gloria lhe dessem. Os nomes de tantos poetas e

escriptores Brazileiros dos seculos anteriores ao nosso jámais serão

esquecidos.

Muito tambem deve o Brazil aos exforços dos Jezuitas, pois forão elles

que verdadeiramente cuidarão nas letras e em illuminar o povo dando-lhe

a devida instrucção, desde que com Thomé de Souza se vierão estabelecer

no paiz. Ao passo que os colonos se vião continuamente a braços com as

repetidas invasões estrangeiras, e com as guerras seguidas que lhes

fazião os Indigenas, os Padres da Companhia não cessavão de andar em

missões civilisadoras ensinando as letras, e prégando a Religião e Moral

de Christo. E a Historia não deixará de tecer elogios a Nobrega,

Anchietta, Antonio Vieira e tantos outros que com perigo imminente da

propria vida se abalançarão a tão ardua empreza. Forão os Jezuitas os

primeiros que fundarão escolas, onde se ia beber a illustração e a

sciencia.

Mas no reinado de D. José I forão elles expulsos; e o Brazil muito

soffreria, se o grande Pombal não mandasse então regularisar o ensino

publico, criando escolas em diversas partes. Porém os Brazileiros não se

contentavão com a pouca instrucção que no paiz recebião, pois o que mais

se cultivava era a latinidade: e anhelando beber mais solida e variada

instrucção, forão não poucos buscal-a á Metropole, dando assim honra a

Coimbra e gloria á patria.

Dest'arte foi sempre o paiz caminhando com passos de gigante na

illustração pelos exforços inauditos de seus filhos; até que com a vinda

do Principe Regente D. João criarão-se, além de muitas escolas, a

Academia Militar, a de Marinha, e as escolas de Cirurgia e Medicina.

Dispensando-se deste modo em parte a necessidade de ir a Coimbra, maior

numero podia cultivar as letras, e de brilhante resultado forão coroados

seus exforços.

A época porém de que data o progresso realmente maravilhoso do Brazil

neste ponto he a da Independencia. Não era possivel que o grito da

liberdade deixasse de electrisar corações Americanos. Esse grito foi a

voz do Senhor que com hum só acêno destruio o cháos fazendo apparecer a

luz brilhante e os astros que ornão hoje o horizonte e céo politico,

scientifico, litterario e artistico do Imperio. Proclamada a

independencia, reformarão-se as escolas de Medicina, criarão-se

Academias de Direito etc, dispensando-se deste modo absolutamente a

necessidade e dependencia de atravessar o Oceano para além-mar em

Coimbra receber a instrucção. E em pouco mais de 20 annos de existencia

que progresso estupendo tem feito as letras Brazileiras! Corão de

vergonha os seculos brilhantes de Pericles, Demosthenes, Augusto e Luiz

XIV, que o novo Sol Americano os eclipsa a todos! Em tão breves annos

quantos nomes illustres já tem a posteridade de inserir no catalogo dos

benemeritos!

E quaes os meios para se chegar a este fim tão maravilhoso, que deixa

abysmado de admiração o homem pensador? Além do amor nato dos

Brazileiros ás sciencias, letras e artes; além da clara e vasta

intelligencia com que a natureza os adornou; além das Escolas e

Academias francas a todos; além das Bibliothécas publicas e particulares

(pois não ha hoje homem estudioso que não possua huma Bibliothéca mais

ou menos escolhida, mais ou menos rica e abundante; do mesmo modo que

sociedades particulares, e as Corporações Religiosas); além pois de

todos estes elementos, outros se descobrem introduzidos pela moderna

civilisação: e são a liberdade de pensamento, a abolição da censura, a

liberdade de imprensa, o estabelecimento de typographias em todas as

Provincias concorrendo dest'arte para propagar os conhecimentos e

excitar a cultivar o espirito (assim não houvessem os abusos que temos

presenciado!), e finalmente a illustração que recebemos dos paizes

civilisados com a leitura das suas melhores obras e lições dos grandes

mestres.--Accresce que, não satisfeitos os Brazileiros com o estudo e

trabalho isolado, sempre reconhecerão que o concurso de muitos he o

verdadeiro meio de prosperar: assim fundarão-se sociedades scientificas

e litterarias não só no tempo do Marquez de Lavradio no Rio de Janeiro,

como muito antes na Bahia. E hoje que numero prodigioso existe!

Associações para o estudo da Historia e Geographia, para o da

Philosophia, para o do Direito, para o da Medicina, etc., etc., existem

por toda a parte: e bem assim muitos periodicos litterarios e

scientificos, que demonstrão o desejo de estudar e de propagar o mais

possivel no paiz os conhecimentos humanos em todos os ramos.

O pensamento não conhece limites ao seu vôo; o infinito he a sua méta: e

pois avante sempre, que só assim se conquistará o lugar que ao Brazil

compete na ordem das nações grandes e illustradas.

INDUSTRIA.

O Brazil tem prosperado em todos os ramos da industria, quer agricola,

quer fabril, quer commercial. Mas longe está ainda do auge a que

desejamos que se eleve.

A _lavoura_, essa alma de nossa existencia, foi sempre a predilecta; e

tem-se desenvolvido prodigiosamente, sobretudo depois de sábias medidas

em seu beneficio, e da liberdade de commercio com as nações

estrangeiras. Além das madeiras de toda a casta, além das plantas

medicinaes, o nacional e estrangeiro acha na lavoura tudo quanto

necessita, não só de generos alimentares, como tambem de algodão, canna

de assucar, café, chá, fumo, etc. (o chá cultivado com muita vantagem em

S. Paulo e Minas). Consta que se começa de novo a cultivar com vantagem

no Rio Grande do Sul o trigo, que já em outros tempos produzia com tal

abundancia que suppria a todas as necessidades da Provincia e até algum

se exportava.

Mas huma questão da mais alta importancia se suscita, e nella vai a vida

ou morte de nossa lavoura:--_Si he hum mal para o paiz e huma offensa á

humanidade e aos direitos e dignidade do homem a escravidão, e si a

nossa lavoura não pode progredir nem mesmo existir sem braços affeitos

aos rudes trabalhos que ella importa, como substituir os braços escravos

por braços livres?_--De hum lado, o estrangeiro que chega ao Brazil acha

mil modos de vida mais commodos do que os asperos e rudes trabalhos de

nossa lavoura; e como pouco trabalho e mais suave lhe dá o necessario e

mesmo mais do que o necessario, elle despreza sujeitar-se a taes

serviços: demais, como he facil manter-se sem sujeitar-se aos caprichos

e dominio de outrem, o estrangeiro prefere, mesmo quando se entregue á

agricultura, viver sobre si, independente, ainda que pobre; a

propriedade torna-lhe mais vivo o sentimento da liberdade. De outro

lado, o elemento da escravidão obsta a que trabalhadores brancos livres,

sobretudo estrangeiros, se sujeitem a trabalhar a par de escravos;

porque julgão descer da dignidade de homem hombreando no serviço com tal

gente. Por conseguinte, á vista destes obstaculos por ora quasi

invenciveis, julgamos que tempo virá em que seja possivel a tão desejada

substituição; mas que não será em tão breves annos. E, em nosso pensar,

os meios de se preparar essa reforma social, são: 1.^o, ir destruindo a

pouco e pouco a escravidão no paiz; 2.^o, promover quanto antes em

grande escala a colonisação, sobretudo de povos que se entreguem de

preferencia á lavoura.

A industria _fabril_ tambem tem-se desenvolvido grandemente. E fabricas

de tecidos de lã, algodão, e de muitos outros generos existem por todo o

Imperio; merecendo especial e honrosa menção a Provincia de Minas

Geraes, que apezar de central, he a que mais exforços tem feito desde

muitos annos, não esmorecendo com a concurrencia estrangeira. Mas ainda

resta muito a caminhar para chegar á perfeição.

O emprego das machinas e do vapor são de huma vantagem incalculavel no

progresso industrial, sobretudo em hum paiz mesquinho de braços como o

nosso. Eis, pois, o mais poderoso auxiliar de que deve lançar mão a

nossa industria para seu engrandecimento.

A industria _commercial_ tambem tem progredido maravilhosamente,

sobretudo depois que se abrirão os portos a todas as Nações do mundo. O

estrangeiro traz-nos tudo quanto necessitamos, desde generos

alimentares, tecidos de lã, seda e algodão até objectos de luxo; e

leva-nos o algodão em rama, o assucar, a aguardente, fumo, café,

madeiras, plantas medicinaes e outros objectos. Mas he de lastimar que o

commercio externo ainda seja feito absolutamente por vasos estrangeiros,

e que o nosso pavilhão não tremule nos portos das outras Nações,

conduzindo nós mesmos os proprios generos. O commercio de cabotagem,

porêm, he feito exclusivamente por barcos brasileiros; e tem florecido,

sobretudo com a introducção dos barcos de vapor. O mesmo não diremos do

commercio terrestre, porque as enormes difficuldades a vencer, a falta

de boas estradas, as longas viagens e perigos que correm os generos

retardão o seu desenvolvimento.

RELAÇÕES EXTERNAS.

Nossas relações com as outras Nações continuão pacificas e procurão

estreitar-se por meio do commercio. Comtudo não ignoramos que ainda

pendião em fins de 1848 sem solução definitiva varias questões de grande

monta. Erão ellas:

1.^o Com a Inglaterra para a revogação do famigerado bill de 1845, e não

continuar a exercer o direito de _visita e busca_ nos vasos mercantes

brazileiros suspeitos de se empregarem no trafico de Africanos, e muito

menos a sujeital-os ao julgamento em seus tribunaes; pois que tendo

terminado o prazo do tratado que lhe concedia esse direito de _visita e

busca_, e havendo cessado tambem as commissões mixtas, só ao Brazil e

seus tribunaes compete punir os que se fizerem réos de tal crime,

importando Africanos.

2.^o Com a França por usar do direito de _visita e busca_ nos vasos

mercantes brazileiros, suspeitos de traficarem em Africanos, e por

sujeital-os ao julgamento em seus tribunaes, quando nunca existio

tratado com o Brazil que lhe désse tal faculdade.

3.^o Com Portugal pelo mesmo motivo que com a França.

4.^o Com os Estados-Unidos pela questão Wise.

5.^o Com a Bolivia por causa de limites, julgando-se ella com direito á

margem direita do rio Paraguay em sua confluencia com o Jaurú nas

fronteiras de Matto Grosso.

6.^o Finalmente com Buenos-Ayres por muitos motivos de parte a parte.

Ao findar, porém, o anno de 1849 o estado de nossas relações com o

estrangeiro he o seguinte:

1.^o Pende ainda a questão com a Inglaterra por causa do bill de 1845. E

novas reclamações tem feito o Brazil pelos factos de insolente

despotismo e atrevimento com que ella nos espesinha a todo momento para

ver si assim consegue mais facilmente extorquir-nos hum tratado

commercial como ella entende mais convir-lhe.

2.^o A questão com a França pode-se reputar terminada, desde que o

Governo Francez participou ao de Inglaterra não ter direito algum a

proceder como o fizera até ali.

3.^o Com Portugal, do mesmo modo, desde que o seu Governo expedio ordens

para Africa, reconhecendo não ter direito algum de _visitar_ e _apresar_

sem tratado expresso que o autorise.

4.^o Com os Estados-Unidos tambem terminada, porque os Governos

satisfizerão-se com as explicações de parte a parte.

5.^o Com a Bolivia ainda pende; no entanto as forças Bolivianas

evacuarão o territorio, que foi occupado pelas nossas.

6.^o Com Buenos-Ayres continúa no pé antigo. Os motivos são os

seguintes: não reconhecimento pelo Brazil do bloqueio de Monte-Vidéo em

1843; memorandum do Visconde de Abrantes em 1844 aos gabinetes de

Londres e Paris sobre a intervenção nos negocios do Rio da Prata; não

reconhecimento do bloqueio de Monte-Vidéo e Maldonado em 1845; a

concessão de passaportes a Rivera; a supposta protecção dada pelo Brazil

ao General Paz; o reconhecimento solemne da independencia do Paraguay; e

até satisfações por opiniões emittidas nas Camaras! ultimamente

reclamações sobre reuniões na fronteira do Rio Grande do Sul.

NECESSIDADES DO PAIZ.

Comquanto pela rezenha que temos feito, pareça por hum lado prospero o

estado do paiz, todavia não nos illudamos. Para sua verdadeira e solida

prosperidade em tudo, necessita elle:

1.^o De boas providencias que tendão não só a abolir effectivamente o

barbaro e infame trafico de Africanos, como a escravidão no paiz.

2.^o Promover em grande escala a colonisação, com preferencia de povos

que se dediquem á lavoura.

3.^o De medidas que protejão e fação prosperar a lavoura, o commercio

interno e externo (as duas grandes arterias de nossa existencia e

grandeza); a navegação, tanto costeira como fluvial e além-mar até os

portos estrangeiros; e a industria manufactureira.

4.^o De providencias que garantão efficazmente a propriedade e segurança

individual do cidadão e estrangeiro, sem as quaes acanhado he o

progresso.

5.^o De reforma no ensino publico.

6.^o De reforma na organisação Judiciaria actualmente existente, dando

aos Magistrados a importancia e garantias que devem ter, e sem as quaes

a independencia do Poder Judicial he letra morta na Constituição do

Imperio.

7.^o De huma Lei de Eleições; pois que a de 1846 acha-se tão explicada

que já não ha Lei.

8.^o De novo regimento da Guarda Nacional, organisando-a de tal modo que

toda ella seja hum formidavel exercito de reserva perfeitamente

disciplinado.--A necessidade de dar aos Brazileiros huma educação tambem

militar, adestral-os no manejo de todas as armas, e nas evoluções

militares he inegavel e palpitante. Em hum paiz tão extenso como o

nosso, e de população tão diminuta, quasi nada he para hum caso mais

grave hum exercito de 20 ou mesmo 50 mil homens: a Guarda Nacional tem

de ser quasi infallivelmente a primeira a combater o inimigo, ou pelo

menos auxiliar muito poderoso da tropa de linha. Si ella portanto for

perfeitamente disciplinada, teremos não 20 ou 50 mil homens, porém 500

ou 600 mil bayonetas promptas a expellir o estrangeiro em qualquer parte

que elle se apresente. O contrario he deixar-se matar sem se saber

defender.

9.^o De reforma nas Leis Militares.

10.^o De medidas que procurem elevar a nossa Marinha de Guerra ao pé de

importancia que deve ter, augmentando a nossa insignificante esquadra

sobretudo com vapores de guerra para dest'arte podermos melhor defender

nossas extensissimas costas e fazer-nos respeitar das outras Nações;

porque, segundo hum grande Publicista--_Si as Nações querem ser

respeitadas devem no tempo de paz estar preparadas para a guerra_--;

entre as Nações a força he o respeito.

11.^o A confecção de hum Codigo Civil que substitua a tão emmaranhada

legislação que ainda nos rege.

12.^o Tratados que fixem definitivamente os limites do Imperio.--He

sabido que poucos são os tratados que temos em vigor; porque os de 1777

e 1778 forão rotos pela guerra de 1801, e não restaurados pelo tratado

de paz de 6 de Junho do mesmo anno; de sorte que do lado do Sul apenas

temos o de 1819 com Monte-Vidéo, visto que o definitivo promettido pela

convenção de 1828 ainda se não fez. Do lado do N. temos com as Guyanas

sobretudo Franceza varios tratados e convenções. De maneira que em tudo

mais o Brazil continúa a reger-se pelo principio do _uti possidetis_; o

que tem dado lugar a muitas questões mesmo na actualidade. Para cessarem

portanto todas as questões e difficuldades futuras he indispensavel

tratar-se de convenções definitivas de limites com todos os nossos

visinhos, buscando então a linha que mais nos convier.

Eis em poucas palavras o estado do Brazil ao findar o anno de 1849, e

suas necessidades mais vitaes. A Providencia vele sobre nossa patria e

lhe dê o futuro grandioso e brilhante a que tem direito de aspirar,

fazendo cessar todos os motivos e elementos que ora retardão seu

progresso estupendo. Que o Brazil seja a primeira das Nações, eis o

nosso mais ardente voto. Mas quão longe de nós essa época ditosa! Feliz

a geração que vir o Brazil povoado de centenas de milhões de homens,

porêm livres todos; semeiado de ricas e populosas cidades; florecente

pelo commercio, agricultura, industria, sciencias, letras e artes; com

bellas estradas de ferro que transportem de huns a outros pontos com a

rapidez do raio os immensos thesouros ainda pouco conhecidos e

apreciados de nossas Provincias, sobretudo centraes; com telegraphos

electricos que levem as noticias e providencias com a velocidade do

relampago desde o Pará até S. Pedro do Sul, desde o Rio de Janeiro até

os extremos confins de Matto Grosso; com huma brilhante navegação

costeira, fluvial e além-mar; com huma Marinha de Guerra ainda mais

brilhante, que faça tremular o nosso pavilhão nas cinco partes do mundo,

e nos faça respeitar e temer de todas as Nações! Remota época, mas não

impossivel! Unamo-nos e trabalhemos todos com enthusiasmo para esse fim

ultimo, concorrendo cada qual com o maior contingente que poder; que os

nossos votos se cumprirão, e a terra de Santa Cruz ha de hum dia gozar

dos fructos do nosso trabalho. Com o auxilio do Omnipotente nada he

impossivel; e Elle protege e ampara o Brazil. Trabalhemos pois todos

para a sua grandeza, que só assim bem mereceremos da patria e das

gerações futuras.

*FIN.*

*INDICE.*

Dedicatoria

Introducção

*TITULO I.--SECULO XVI.*

Reinado de D. Manoel; de 1500 a 1521

Reinado de D. João III; de 1521 a 1557

Regencia da Rainha D. Catharina d'Austria; de 1557 a 1562

Regencia do Cardeal D. Henrique; de 1562 a 1568

Reinado de D. Sebastião; de 1568 a 1578

Reinado do Cardeal D. Henrique e Interregno; de 1578 a 1580

Reinado de Philippe II de Hespanha; de 1580 a 1598

Reinado de Philippe III de Hespanha; desde 1598

*TITULO II.--SECULO XVII.*

Reinado de Philippe III de Hespanha; até 1621

Reinado de Philippe IV de Hespanha; de 1621 a 1640

Reinado de D. João IV; de 1640 a 1656

Regencia da Rainha D. Luiza de Gusmão e Reinado de D. Affonso VI; de

1656 a 1667

Regencia do Infante D. Pedro; de 1667 a 1685

Reinado de D. Pedro II; desde 1683

*TITULO III.--SECULO XVIII.*

Reinado de D. Pedro II; até 1706

Reinado de D. João V; de 1706 a 1750

Reinado de D. José I; de 1750 a 1777

Reinado de D. Maria I; de 1777 a 1792

Indice chronologico dos factos mais notaveis da Historia do Brasil desde seu descobrimento em 1500 até 1849 · 第 7 / 8 段