A Independência:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro

de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações,

modestamente, apenas com a consciência tranquila de quem escreve bem e

com critério,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,

que acaba de dar à estampa, algumas produções literárias que a sua

vida de jornalista tinha atirado para a vala comum das páginas de

revistas e diários.

Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogéneo o que se nos

oferece para apreciar: são pequenas jóias literárias, buriladas por

mão de artista e de um fino sabor de naturalismo.

Considerado assim, sem dependência de escola e confrontação de

originais, o livro é bom.

As suas descrições são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se

acostumou, desde criança, a ler muita e a adivinhar mais na bíblia

riquíssima e inexaurível da Natureza.

Há vida e colorido em tudo. As telas dos céus pincelaram-se com as

tintas próprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os

olhos, romanescos e sérios uns, grotescos e ridículos outros, deixam-nos

uma impressão agradável de realismo, e alta compreensão. São tipos

exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem frases banais que

enjoam. António Fagote é um espécime do juiz de festa das nossas

aldeias, basofão e vingativo, pronto, olá! a gastar as últimas moedas

da venda do últimos gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e

a deliciosa balada _Mãe_ é uma preciosidade literária, magnificamente

pensada escrita, digna da pena dos nossos primeiros escritores.

Não encomiamos, pois, o valor do livro, dizendo que ele é digno de

figurar ao pé das mais belas produções dos nossos escritores mais

consagrados.»

Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e baladas por

Trindade Coelho.

Acorda-lhes no espírito um eco de simpatia o nome do autor, pois não?

Eu creio bem isso, porque a verdade é que apesar da celeuma que Trindade

Coelho aí levantou, granjeando com o seu génio turbulento algumas

antipatias nenhuma delas alvejou o seu talento, que os senhores

jamais negaram, e lhes ficou sendo simpático. É por isso que escolhemos

para encetar esta secção a produção brilhante do distinto literato,

editada há pouco por António Maria Pereira, um incansável editor

escrupulosíssimo.

Li o livro que o talento do autor recomenda, impondo-o, quase, a

atenção do nosso cérebro, à contemplação da nossa alma; e essa leitura,

feita numas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me

d'_Os meus amores_ a agradabilíssima impressão de uma carícia, que

persiste a sorrir consoladora.

Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Comércio_ e da

_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejável de dar à ideia,--algumas

vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta forma, iriada sempre da

limpidez mais viva; e isso, num trabalho feito agora para aparecer

amanhã, à pressa sempre, numa fugida aos calhamaços manuscritos que

demandam a sua atenção de magistrado, e em que o período mais

sugestivo é o do _Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo_.

É-lhes fácil por isso pressupor o livro, que o vagar do autor desbasta,

remodela, lima, muito tranquilamente, muito sossegadamente, sob a

vigilante direcção do seu delicado gosto artístico.

_Os meus amores_ têm poesia, e têm verdade; e na maioria dos seus

diferentes quadros, adorável descrição das cenas simples da vida do

campo, da natureza singelamente formosa, o sentimento vibra

intensíssimo, e é encantadora a frase, que um conhecimento profundo

ditou, de que uma subtil observação ressai. Há ali retratos de um brilho

sem limite, _tipos_ que resumem um estudo fidelíssimo.

É um cofre de belas jóias, o livro, que nos deixa embaraçadíssimo, se

queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas.

Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae]

victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estilo, _Para a

escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de

criança, e os admiráveis contos de fina graça e tão verdadeiros,

_Prelúdios de festa_ e _Tipos da terra_, são os meus eleitos, depois

de uma dificuldade enormíssima de escolha, de entre tantos quadros da

perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ cativam também a

minha admiração.

O livro é, como todos os saídos na _Colecção António Maria Pereira_,

esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em

percalina.

Nesta notícia breve, digne-se o distintíssimo autor d'_Os meus

amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradável como

sinceramente.»

O Nordeste:--«Editado pela casa António Maria Pereira, de Lisboa, em

volume de impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado

o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em

relevo as complexas e brilhantíssimas qualidades literárias do autor,

um _novo_ que já hoje ocupa, por direitos justamente adquiridos, um

lugar proeminente entre os nossos melhores escritores.

_Os meus amores_ têm obtido na imprensa do país uma acolhida

entusiástica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso

conterrâneo quase, cometeríamos uma flagrante descortesia se nos

leitores do _Nordeste_ não déssemos conta da aparição desse livro,

juntando ao coro uníssono de aplausos as nossas sinceras saudações.

Escritos em prosa vibrante, fluente e musical, correctíssima, esses

contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro

primoroso, constituem um verdadeiro encanto, cativando-nos com a

espontânea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha dumas

histórias aldeãs, de uma simplicidade campesina, repassadas por vezes

de um sentimentalismo suave, lírico...

A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima simpatia, um afecto

antigo e veemente, seguindo com interesse quaisquer particularidades da

sua vida, consolando-nos com os triunfos literários que têm

glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado

inteligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do

procurador régio, estava-nos impacientando o desejo de ler o seu livro,

e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio no-lo

trouxe. E, agradabilíssima coincidência! sucedeu-nos deparar com o

conto _Para a escola_, quadro tocantíssimo que marca distintamente os

dois mais notáveis estádios da vida do escritor: a altura em que entra

na escola primária, regida por um mísero professor, bondoso e marcial,

de vilota sertaneja, e aquela em que sai de uma outra, habilitado com

as suas cartas de formatura a encetar a carreira pública, na qual de

contínuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e carácter

diamantino.

Essa história, exposta num estilo formosíssimo, maleável e correntio,

deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o

confessamos...--de lágrimas espontâneas nos marejarem os olhos, tão

enternecedoras são essas páginas que evocam em nós as reminiscências

queridas de um passado que não volta, e no espírito nos reproduzem, com

uma precisão fotográfica, completa, cenas iguais da nossa infância,

como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lê-las

e senti-las...

Terminado esse conto, foi de um fôlego, a bem dizer ininterruptamente,

que _devorámos_ o livro, onde o autor, num esbanjamento pródigo de

verdadeiras pérolas literárias, se expande em ligeiras narrativas,

descritas numa prosa colorida e vibrátil, cintilante e rítmica,

apresentando-nos uma série de quadros, colhidos em flagrante, _d'après

nature_, com uma extraordinária lucidez de observação, e um outro _caso_

humano trasladado para páginas de uma forma impecável, acentuadamente

artista, e que são uma eloquente afirmação da distinta personalidade

de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assinaláveis e esmerados

cultores da prosa portuguesa.

Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve

notícia a uma crítica a todo o livro, impossível se nos torna enumerar

todos os contos em que ele se reparte, emitindo detalhadamente as

impressões que nos sugeriram. Por isso o nosso aplauso caloroso para

todo o livro, sem predilecções por este ou por aquele conto; e daqui,

desta coluna de modesto jornal de província, enviamos ao nosso

queridíssimo Trindade Coelho, numa efusão de acrisolada estima, com um

aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não

deixe de ser um cultor assíduo da literatura nacional, e continue a

honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons

livros.--_José Pessanha_.»

Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo à

luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplêndidos como aquele

cujo título serve da epígrafe a esta notícia. Em todas as suas páginas

se reúne o belo e o agradável, tornando esta obra de sólido mérito, e

estimável debaixo de todos os pontos de vista.

Este volume pertence à formosíssima colecção António Maria Pereira, e é

devido à brilhantíssima pena de um dos nossos mais festejados

escritores--Trindade Coelho.

Não precisamos alongar-nos em chamar a atenção do público para esta

obra, pois é ela sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons

livros.»

Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_.--Há tempo,--não há

muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando,

umas cartas de província,--_Cartas alentejanas_, nos parece,--assinadas

pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a

primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com

verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de aparecer

de todo.

Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada

jubilosa e cantante de um bom escritor. Trindade Coelho entrava nas

letras portuguesas pela porta áurea dos vitoriosos, apresentando

natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira numa só

peça o seu talento aliado com a sua observação e o seu estudo, sem

esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovelar os que

avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamelas de

apaniguados e sequazes.

Escrevia de um canto da província, da sua terra, em horas desocupadas;

escrevia de assuntos comezinhos, de coisas que tinha ali à mão, das

cenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua

alma encontrava no tracto simpático da natureza inteira. Falava de um

ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar à solidão do seu

eremitério, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas.

Era um talento e era um carácter.

Depois, houve na sua vida literária um momento de eclipse. Cremos que

deve ter correspondido ao período ocupado e trabalhoso da sua

formatura. Bom sinal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciências

do amor próprio, sacrificando às altas ocupações do seu curso os

brilhos atraentes da fácil nomeada. O escritor experimentara já o

pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar.

Eis que nos aparece um dia, súbito, no foro, honrando e glorificando

num processo de reabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe

celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de letras, que

ele soubera fazer distinto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.

Alguns meses de colaboração diária, num jornal bem lançado e bem

redigido, avigoraram no conceito público o renome conquistado, e

Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa do país, o lugar a que

tinha direito, sem ninguém lho discutir nem contestar.

Estreia-se agora no livro, e dificilmente imaginaríamos apresentação

mais prometedora e mais simpática.

_Os meus amores_ são uma colecção de esbocetos, alguns dos quais, como

o _Idílio rústico_, _Última dádiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus

abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros.

Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o autor os trabalhou,

solícito na sua obra, no empenho de uma execução imaculada. Não porque

se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem ele era impossível

conseguir tão completo efeito, tão seguro resultado.

O estilo do prosador é, quase sempre, firme, opulento, erudito, original

e variado. Não tem reminiscências deste ou daquele, e realiza uma das

condições essenciais que deve ter em mira todo o escritor

consciencioso: conservar uma feição própria e individual, sem se afastar

da pureza da língua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso arcaico, e

contribuindo para a evolução progressiva dela.

Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cansaremos de louvar, em

vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria

fácil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estilistas,

procurou modo de iluminar a sua frase e de colorir a sua palavra, na

fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas

mais primitivas do povo campesino, enriquecendo nesse manancial o

tesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, cenas e

quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e

adorável.

É de indiscutível beleza a pastoral com que abre o volume.

Afigura-se-nos estar lendo algumas páginas de Longo. A descrição da

madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e

Rosária,--Daphnis e Chloe,--têm um sabor antigo, como o de uma

narrativa idílica, passada nos tempos legendários da Grécia, e ao mesmo

tempo toda a verdade de uma cena campestre dos nossos dias. É de um bom

gosto supremo a forma subtilmente delicada como o narrador, deixando

primeiro recear a queda dos seus personagens numa brutalidade

instintiva, os conduz por fim nas asas da inocência e da candura a uma

situação divinamente sublime.

E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, numa doce e

prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espírito aqueles dois

vultos de criança a esfumarem-se nas distâncias do espaço e do tempo,

longe, muito longe, numa paisagem ideal, vista nos dias da infância,

vista talvez em sonhos, talvez em Virgílio ou Teócrito, talvez mais

longe ainda, na Bíblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida

contemplação, longe, muito longe,

«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.»

Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, há como que um misto do

trágico fatalismo grego e do supersticioso horror cristão. Não é vulgar

a concepção do assunto, nem vulgar, também, o desenvolvimento que o

escritor lhe deu, o cenário é horrível e magnífico. Está bem

descrito; bem descrita a tempestade, que primeiro se anuncia, depois

se aproxima, depois finalmente cresce e se desencadeia numa convulsão

pavorosa e enorme; bem descrito o terror angustioso e supliciante do

mísero assassino, o qual vê, na chama de cada relâmpago, projectada a

cruz negra que marca o lugar do seu crime e que lhe prende os pés ao

chão, enquanto o seu ouvido, alucinado pelo terror, lhe dá a sensação

de uma voz insistente, que detrás de cada árvore, da espessura de cada

moita, de cima de cada pedra, da ressonância de cada trovão, o chama

inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio!

Bastava simplesmente esta narrativa para granjear a Trindade Coelho

foros de distinto e primoroso escritor. Edgar Poe não enjeitaria o

assunto, se lhe ocorresse, nem o trataria com muita maior perfeição.

Dar-lhe-ia pasto para algumas páginas tão engenhosas como as da _Génese

de um Poema_, para alguma composição tão extraordinária e tão

transcendentalmente bela como _O corvo_ ou _Ulalume_.

Mas como se quisesse mostrar a maleabilidade da sua pena, ou como se

quisesse certificar-se a si próprio da multiplicidade e da variedade das

suas aptidões literárias, o prosador que recortou nos mais perfeitos

moldes aquelas páginas clássicas ou estas sinistras, detém-se na

comovente e lacrimosa narrativa da _Última dádiva_ e nas ligeiras e

facetas descrições dos _Tipos da terra_, dos _Prelúdios de festa_, do

_Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcástica, de ironia

graciosa e de bem humorado espírito.

Um livro de tantas promessas não pode ser, contudo, e por isso mesmo, um

livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se

abalançar a empresa maior, estamos certos disso. Já no final do

presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas

domésticas_, se anuncia a transição da presente fase literária e

artística do autor, para uma outra fase progressiva.

Progressiva, dizemos nós, porque assim o cremos. Qual há-de ser, porém,

a predominante característica dessa fase? Pode a crítica conjecturá-la

desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazê-lo. Porque, a

verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que

o seu temperamento literário tem energias que lhe hão-de abrir novos

caminhos, e que, na sua vida de homem de letras, há já precedentes, que

enormemente o obrigam.

Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-á

ainda de um ou outro francesismo escusado, e há-de adquirir novos dotes

de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde

procurá-los. Não é em léxicos, nem em alfarrábios, nem em cartapácios.

É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a

falar o português do povo, os seus tipos populares.

Não se pode ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som,

da melodia. Uma das maneiras de adquirir perícia nesta forma de

escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um

exercício útil para chegar a fazer boa prosa. Não é, porém,

indispensável, bem entendido.

Contudo, não admitimos que repute possuir as qualidades completas de

escritor, aquele que só de uma das duas formas da arte de escrever seja

conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que

praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima.

Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza

artística, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na frase e

maior cadência no período, se praticasse um pouco a arte do verso,

embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena

empregar todos os esforços para atingir uma perfeição, que não está

longe, e de que o seu talento próprio e a sua estudiosa boa vontade

continuamente o aproximam.--_Fernandes Costa_.»

Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade

Coelho. Quando prometi à _Aurora do Lima_ esta ligeira notícia

bibliográfica acerca do livro do brilhante escritor e meu querido

amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a

retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os

últimos da última fila, nas saudações entusiásticas à obra e ao seu

autor.

Tenho para mim como certeza indiscutível que o público se começou a

fatigar dessas obras torturantes de análise fria, cruel, desoladora. Os

que se encontram feridos das aspérrimas lutas da vida--e estes

constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras

consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação

docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triunfa sobre Zola,

apesar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da

escola realista.

Ora o livro do Sr. Trindade Coelho pertence ao número dessas obras

consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende

pela emoção íntima, que interessa pela simplicidade elegante com que

está trabalhado, que impressiona pela correcção impecável do seu estilo,

maleável e harmónico.

Abre-se o livro e depara-se com o _Idílio rústico_, que é uma soberba

tela, amoravelmente tratada, denunciando logo às primeiras linhas um

alto valor artístico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza

suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.

Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este

um dos contos mais formosos do volume, em que pese às opiniões

contrárias e até ao próprio autor, que não perde ocasião de o

depreciar.

Assunto simples, esse, e todavia absolutamente verosímil. A descrição

da eira, do labutar alegre, da paisagem e dos personagens deste pequeno

quadro, são um primor notabilíssimo de execução artística, de rigorosa e

completa observação.

_Última dádiva_, um episódio comovente, completa a primeira parte do

livro, a que se segue a _Comédia da província_, onde há preciosos

estudos da vida provinciana; as _Baladas_, onde se depara com o formoso

conto _Para a escola_, de um alto valor literário; _Arrulhos_, uma

esplêndida fantasia, etc.

Eis uma ligeira notícia do volume de contos _Os meus amores_, que

tamanho êxito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia

do nosso acanhado meio literário, com os merecidíssimos aplausos que

lhe foram dispensados.

Dos méritos literários de Trindade Coelho falam mais alto do que a

crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornais do país,

especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudónimo de _Ch. A.

Verde_, e na _Revista Ilustrada_, do editor António Maria Pereira. É um

infatigável e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frívolo assunto

um delicioso relevo literário, que prende e interessa o espírito do

leitor.--_Luís Trigueiros_.»

Os Gatos:--«Vem a propósito de histórias, falar, bem sei que tarde, dos

_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro português que

mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em poliedros de

multíplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte

uma bagagem de vida académica, assimilativa (Trindade Coelho, muito

novo, findou há quatro ou cinco anos o curso jurídico) e como tal saem

da pena do escritor ainda sem uma cristalização homogénea de forma e

de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso de um espírito

buscando a perfeição com escrúpulos de eleito; de sorte que o volume até

como autobiografia se insinua, ele precisando as fases, nótulas, e

predilecções literárias do contista, e enfim, depois de hesitações,

emancipando-o num dos mais delicados microscopistas do coração, das

nossas letras. Como é provinciano, provinciano de aldeia, e natureza

contempladora inda por cima, Trindade Coelho cativa-se principalmente

dos assuntos bucólicos, pequenas cenas de cabana, tempestades de

campanário, pastorais, vida de povo, e sente-se que o não faça por

diletantismo de escritor avocando de cor dramas lambidos, senão por

esse estro de visão retrospectiva dos melancólicos despaísados em

terras hostis, e que protestam contra o egoísmo ambiente, recluindo-se

no passado, como num santuário de múmias adoradas. É a tendência geral

dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes,

especialmente dos campos, matéria-prima para seus contos e poemetos. Em

poucos porém a predilecção se escora na sinceridade e conhecimento

prático da vida rústica, e em menos ainda há perspicácias para uma

autópsia sagaz da natureza psíquica e moral do camponês. Grande parte dos

que têm posto o povo em cena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos

num cenário de convenção, e com o fazer falar aos bonequinhos mancos

que resultam, aravias mais ou menos inventadas de um pitoresco sorna, em

cuja trama não há vislumbres de alma regional, de carácter profissional,

de individualismo típico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra,

mandem vir a colecção dos contistas rústicos portugueses, e riam à

larga das fantasias lorpas que lá virem. Em diálogos amorosos há por

exemplo coisas únicas! Cavadores de aldeia debitam às namoradas protestos

de paixão, em linguagem que seria preciosa até na boca de um pisa-flores

do Martinho e da Havanesa. Elas, de lhes retrucar em frase

equivalente, e de se mexerem em cena com os ademanes que a _Dama das

Camélias_ consagrou na cachimónia dos autores, como os mais próprios

para mimar o amor que as enxaqueca.

Os meus amores: contos e balladas · 第 13 / 14 段