e de visão própria, que reduzem esses quadros, a meras caganifâncias
de aguarelistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a
quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das
cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os
seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal
imitação da Rua do Ouro, e o camponês como uma arreglo grotesco do
alfacinha.
Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essência da
paisagem provincial, e a alma do provinciano e do campónio, Trindade
Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu critério do problema,
em forma de arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo à vista
do leitor, que não mais lhe perderá de vista os voos poéticos, e a
singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de género, colhidos em
prolongadas estações nas duas mais típicas províncias de Portugal, o
Alentejo e Trás-os-Montes. Há assim nos _Meus amores_, a par dalgumas
benignas composições representativas da transição crítica do rapaz para
o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guisa iguais,
sóbrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da
minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras-primas.
_Tipos da terra_ e _Prelúdios de festa_, por exemplo, são duas narrações
que mordem fundo a atenção de quem nas lê, e que por sua admirável
sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido
que ficarão modelarmente apontadas aos coleccionadores de literatura
típica.
Qualquer das peças abrange apenas o fôlego de uma ou duas dúzias de
páginas, deliciosas porém como factura, admiráveis de bonomia, e de uma
saúde moral que faz desejos de estimar pessoalmente o seu autor.
Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante
rico em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das mais
finas intenções. _Tipos da terra_ é o quadro satírico de uma má língua
de aldeia, tendo por clube a porta da tenda, por cenário a praça pública,
e por personagens o pessoal burocrático e elegante da terriola.
_Prelúdios de festa_ é um estímulo de festeiros preocupados de qual
fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os tipos
rápidos, a descrição dita a correr, mas no conjunto há um tal
equilíbrio estético, a meia-tinta é tão fluida, e as intenções irónicas
sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista,
Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os sensaborões que por
aí medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno
romance português.--_Fialho de Almeida_.»
Jornal de Santo Tirso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e comovente
para nós a gentilíssima oferta que Trindade Coelho nos fez do seu
adorável livro de contos, que tem por título a epígrafe desta singela
notícia.
O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o
brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje,
porém, aparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a
primorosíssima forma se alia com o mais delicado critério de artista
d'_élite_ e com a fina observação de um talento verdadeiramente superior.
O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e
obscura pena não está--seja este o seu único mérito!--habituada a vir
entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se
prodigalizam aos medíocres e aos banais, que se desvanecem entre as
ondas desse barato incenso.
Os nossos leitores melhor ajuizarão, em presença do trecho que lhes
oferecemos como mimo de rara valia.»
Diário Ilustrado, (com o retrato do autor):--«Trindade Coelho.--Nesta
áspera vida das letras, cortada de tantas amarguras que ninguém sonha,
há, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado
experimentar, acrescente-se.
Essa alegria, sentem-na os poucos susceptíveis de compreendê-la,--na
elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestígio do
talento ao culto mental, e sobretudo no íntimo orgulho de adivinhar,
logo aos primeiros passos, a revelação de Alguém, que vai ser
unanimemente admirado.
Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
galeria do nosso jornal, este incomparável júbilo.
Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
admirei-o, muito antes dele trazer à literatura pátria o livro _Os
meus amores_, que foi como que a súbita iluminação do seu nome.
Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos aparece em toda a
sua inconfundível originalidade de narrador, em todo o desartificioso
encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
temperamento de artista, impressionável e vibrante, na fluidez do
estilo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...
O campo, que a maioria dos escritores conhecem superficialmente, de
rápidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação,
vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com
um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a
perscrutar a essência da paisagem provincial, e a alma do provinciano e
do campónio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande crítico Fialho
de Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu
critério do problema, em forma de arte, e dos que mais progressivamente
vão crescendo à vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os
voos poéticos, e a singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de
género, colhidos em prolongadas estações nas duas mais típicas
províncias de Portugal, o Alentejo e Trás-os-Montes.»
Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a afirmar a sua
poderosa individualidade em uma secção do _Diário Ilustrado_, _Cartas
alentejanas_, crónicas expedidas de Portalegre, em um arranque de
talento, com exuberância de fantasia, modos de ver e dizer,
flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo à Vacherai, velados
a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante
originalidade.
Por esse tempo, o nosso brilhante cronista empreendeu, no exercício
das suas funções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitária de
arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o
condenara.
E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
voos, fez-se um coro de bênçãos, como que uma apoteose de amor, que
deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma
efusiva e entusiasta, um destes supremos júbilos, superiores a todas
as desditas e inacessíveis a qualquer desencanto.
Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterizam e
lhe assinalam o ponto culminante em que se evidenciam, uma dualidade,
verdadeiramente fenomenal.
É que, sendo ele um artista, na rigorosa acepção titular da palavra,
namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na
extática adoração de tudo quanto ela sobredoira do seu brilho imortal,
é ao mesmo tempo um funcionário exemplar, um delegado do procurador
régio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte
Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu carácter e no
correcto exercício da sua profissão, toda a prestigiosa soberania da
Lei. Diz ainda Fialho de Almeida, inteiramente insuspeito, quando se
trata de aquilatar o mérito de um autor:
«Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante
rico, em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das
mais finas intenções.»
Às vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade
nostálgica ou treme de frio... legal.
É então que ele murmura, (perdoa a indiscreta alusão, meu caro
Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o
meu espírito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu
ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz ideia, não!
Dentro desta jaula de ferro, veja! E lá fora, e lá em cima--que amplo
céu azul para voar!»
Mas nesse azul para onde lhe foge o espírito, quantos triunfos ainda o
esperam, meu ilustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.»
Revista de Portugal:--(Excerto de um artigo crítico acerca do _Só_ de
António Nobre).--«Alma doente, o Sr. António Nobre soube extrair da sua
doença efeitos de Arte singulares e às vezes intensos. Outros
atingiram o mesmo objectivo pela descrição das emoções naturais e pelo
apelo aos instintos sãos do coração humano. Acabo de reler o livro
de um escritor também novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com
casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser compreendidos
por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a afeição de dois
pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida
junto à cruz da sua vítima, o amor materno de uma cabra que se deixa
morrer sobre o cadáver do filho recém-nascido, consegue o narrador
interessar e comover vivamente o espírito de quem o acompanha através
dessas duzentas páginas impregnadas dos sucos da terra e do suor dos
lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade
pessoal decisiva para a beleza das obras.--_Moniz Barreto_.»
Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face,
olhando-o bem, medindo-o de alto a baixo,--o que não seria difícil mesmo
no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar
no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples
conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se ele de nós, porque já
então a gente não se atreve a separar-se dele, tem-se adquirido a
certeza de que aquilo é o que é, e chegado à mais sólida convicção de
que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais
insubmissas ao menor propósito do menor disfarce, do que na sua
fisionomia bem aberta, iluminada em cheio pelo brilho intensíssimo do
seu olhar muito límpido, muito penetrante, se expressam toda a
sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso
temperamento.
E ao vê-lo partir pela rua fora, decidido e teso, resoluto e rijo, a
cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que
dá gosto vê-lo, não resistem os olhos ao desejo de acompanhá-lo de
longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou
pensa:--«Demónio!... Com meia dúzia assim, poderia fazer-se _alguma
coisa_ ainda!...»
Porque no meio desta espécie de contágio, que os perversos e as suas
perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos
quando com eles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando
passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este solo e
purificar esta atmosfera.
Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
da sua vida,--o mundo literário e o mundo judicial--afigura-se-me
ele, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelével
cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos
para a dilacerante historia patológica da sociedade portuguesa neste
agonizar de século, quando aponta o implacável índex do Ministério
Público contra os altos réus de certas causas célebres,--ora imprimindo
nalgumas obras de pura arte literária, em que a elegância da forma é
posta sempre ao serviço das emoções mais doces e das mais penetrantes,
esse outro cunho, dessa outra individualidade que nele há, e tão
diversa é, tão original e tão rara, tão contemplativa e tão terna.
...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do
seu impetuoso temperamento!
No tribunal, quando articule algum libelo acusatório em que as suas
palavras se não limitam ao cumprimento do dever de ofício, não tardará
que à serena exposição dos primeiros articulados suceda a expressão
calorosa, indómita, sempre crescente, da indignação, e da cólera, que
lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vai deduzindo a
tremenda acusação contra o réu--...esse réu que ali está, ali!
sentado naquele banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés!
Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração acelera-se, a face
ruboriza-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito
enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cérebro
vigoriza-lhe os músculos, afirma-lhe a energia, parece transportá-lo ao
império da força, num arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas
se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado
a frenético!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta,
quase ronca, vociferando, em discordâncias agudas que vêem ferir de
arrepios a espinha dorsal do auditório... Já não é para a justiça dos
homens que ele apela; não lhe bastam, não o saciam as penas máximas
dos Códigos! Quer o castigo do Céu, quer a justiça de Deus!
...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem pior
que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana
havia condenado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito
comentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministério
Público, um feroz acusador, empenhasse dois anos agoniados da sua vida
em apurar uma inocência... Trindade conserva, encadernada, a colecção
desses jornais, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no
princípio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um
pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Ele, em
prémio da minha obediência, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo
do meu coração. Queres ouvi-lo bater? Ausculta essas folhas... Bendito
seja Deus! serão ainda minhas as tuas lágrimas enternecidas, e, ainda
depois de morto, viverei na tua comoção e na tua alegria, para a
comoção e para a alegria da minha obra...»
Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
nos oferece a outra fase desse mesmo espírito, quando o vulto austero
do magistrado, cedendo o lugar à delicada individualidade do homem de
letras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa,
muito à vontade e à fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a
vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, dessa muito
viva e muito afectuosa ternura que à sua alma de artista dá, e que a
sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que
não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a
que andam para sempre ligados, numa doce e meiga associação de ideias,
certos lugares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo
olmo, que já lá estavam quando ele nasceu, que o embalaram nos
primeiros sonos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao
baptismo o levaram, e o conduziram à escola; alegrando-se com as suas
alegrias, entristecendo-se com as suas lágrimas...
Nesses momentos, sob o domínio desse lindo sonho, inundado do luar da
sua terra, desanuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se
pousar-lhe nos beiços e nas pálpebras a serenidade meiga de um sorriso,
como que o doce agradecimento à alma de sua mãe, que tivesse vindo,
muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito,
aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos lábios a amorosa
carícia dos seus beijos...
Por isso, a música do seu estilo produz sobre a nossa sensibilidade
essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos músculos e a
efusão das lágrimas realizam o fenómeno das emoções reais.
Os seus escritos obedecem sempre à lógica influência desta convicção
em que ele está, quando me diz, bem medindo e pesando cada uma das suas
palavras:
--«Positivamente, meu amigo, o público deseja, antes de mais nada, que o
escritor preste na sua obra o culto que é devido à sua língua. Depois,
deseja que o comovam, que honesta e consoladoramente o emocionem,
preferindo que o assunto do quadro seja a exploração das coisas
triviais da vida, certamente porque reside no Simples a fórmula mais
natural da Verdade... Compreendo que o espírito dos que lêem está
fatigado dessa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me,
enfim, de que a obra de arte literária tem, como primeiro dever, e como
condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre
de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e
entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferência, mesmo,
às faculdades intelectuais...»
Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro deles,
_Idílio rústico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarela, parece que
feito sobre um esbatido de céu puríssimo, cor de sovaco de andorinha e
não sei com que singular sabor eucarístico de primeira comunhão... É
um sonho de absinto, que serve de aperitivo divino para a leitura
sôfrega de todo o livro. Dois pastoritos ingénuos, a Rosária e o
Gonçalo, encontram-se e aproximam-se, numa indecisa alvorada de
derriço, cheios de boas tenções e puros ideais. Acontece, porém, que por
viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada,
imaginem os que como eles se amem a alegria que inunda aquelas duas
almas! Duma vez, passada alguma dessas ausências longas, quis Deus que
os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando
seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se
põe, vagueiam nas frescuras marginais do rio, a par, e sós, ele
dedilhando a flauta, ela recordando cantigas, com murmúrios de água
correndo, e balidos suaves dos lanígeros, numa paz de alma idílica de
iluminura. E quando a noite chega, porque lhes custe imenso a
separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as
ovelhas durmam em mistura e que passem eles a noitada sobre o mesmo
colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instintiva relutância,
Rosária aceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as
mantas cobertor comum, e pousando as cabeças nos bornais unidos,
parecer-vos-á, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
desmedidos... Nada disso, perversos! A pouco e pouco vai escurecendo, e
os bons dos namorados, numa plácida orquestração final que se smorza,
referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no sono e
adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da
maldade nossa.
Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fora, e que vamos
bisando e saboreando a pequeninos golos, durante algumas horas bem
fugidas, passeadas por aquelas paisagens e recantos provincianos que
ele nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivéssemos; em
companhia daqueles tipos que ele retrata, tão fotográficos, tão
nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a falar-lhes, a
deitar-lhes o braço pelo ombro...
Antes dos seus contos nunca a prosa portuguesa me havia dado, posta ao
serviço da moderna arte, o inefável gozo de tão estranhas, tão novas,
tão encantadoras surpresas! Quisera eu, inédita, bem fresca, pela
primeira vez usada a respeito da sua escrita, esta flagrante
comparação:--dir-se-ia traçada com uma pena de águia... arrancada de uma
asa de pomba.
Os seus livros ficarão pertencendo ao número daqueles que parecem
possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espírito de quem os lê.
Reler o que ele escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de
quando se contempla pela centésima vez algum querido, precioso objecto,
que noventa e nove vezes se contemplara já: privilégio esse de eterna
sedução, que só desfrutam as obras em que o artista deixou pedaços da
sua alma.--_Alfredo Mesquita_.»
Do Poema do Ideal:
«_Os meus amores_! que livro
Tão fragante e saboroso!
Centelhas áureas e vivas,
Dum prosador luminoso!
Brisas da serra!
Trechos idílicos
Da nossa terra!»
_Fernandes Casta_.