Aqueles adjectivos de amigo bom e entusiasta fizeram-me convencer de

que--o delegado de Portalegre--era um excelente rapaz.

E digo rapaz, porque todos nós temos o hábito de considerar sempre muito

novos aqueles que são da nossa idade... Depois, graças a uma amiga

minha, escritora de grande talento soube que Trindade Coalho era um

grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração

entusiasta que ele descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que

fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição

publicá-las!

Traduzia ele então o «Pescador de Islândia»; tradução esplêndida que a

_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para ele era

já uma sugestão, aquele trabalho primoroso.

E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a

Loti todo o valor que ele tinha e que ultimamente alguém se comprazia

em querer negar ao académico gentil.

Em seguida li uma suavíssima elegia escrita à memória de António

Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia dúzia de palavras

cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...

Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os

jornais anunciaram que ele arrancara um preso à cadeia de Portalegre.

Um preso que era um inocente, e que, como tantos outros, estava

condenado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam também

o efusivo telegrama em que Trindade Coelho agradecia ao nosso

magnânimo rei o seu perdão.

E eu dessa vez chorei! Como me sucede sempre que um homem põe a

lucidez do seu talento e o entusiasmo do seu coração ao serviço da

humanidade que sofre...

O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha

alma.

Eu só fixo o nome dos bons.

E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe daquele homem! Os

filhos herdam, geralmente, o coração das mães...

* * * * *

Ultimamente a imprensa anunciou o livro que acabei de ler. Pedi-o

rapidamente para Lisboa, e li-o de um fôlego.

Abre com um soneto delicioso, escrito pelo espírito gentil de Luís

Osório--uma alma luminosa, que brilha na transparência dos seus versos

filigranados e vibrantes...

Segue-se o _Idílio rústico_--um amor--através do qual nós vemos subir

lentamente a estrela da alva que iluminava, coando a sua doce luz pelo

colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da

outra...

Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o

Tomé nos comunica a sua alegria contagiosa levada à loucura com a

volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros!

A _Última dádiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma

sepultura onde lhe ficara preso o coração para sair de lá no dia em que

teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o

Brasil.

A _Comédia da província_, magnifica de cor local. Magnífica,

principalmente para quem conhece tipos semelhantes e já tem visto a

_Morgadinha de Valflor_--essa pérola!--representada pelo Marques do

correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valor a esse esplêndido

estudo de costumes provincianos.

_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada...

_Maricas_, uma adorável poesia escrita em prosa. _Para a escola_, um

beijo de gratidão de uma singeleza adorável. _Tragédia rústica_, um

vibrantíssimo estudo das misérias humanas.

_Abyssus abyssum_, o agonizar de dois anjos, sob o olhar de uma

estrela... _Mãe_, a flor mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas

as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos...

E, finalmente, as _Batalhas domésticas_.

Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho,

que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro

honesto, que não fatiga os homens nem faz corar as mulheres. Por isso

aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.»

Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilíssimo livro

_Os meus amores_, do nosso querido amigo e ilustre confrade, Trindade

Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais

legítimo, o mais espontâneo, o mais unânime e o mais carinhoso triunfo.

Bem o merece o cristalino talento, e a inelutável tenacidade no

trabalho, do brilhante escritor, que em meio dos violentos paroxismos

que na caça de sensações e efeitos novos hoje pavorosamente

desarticulam o _meio_ literário europeu, tem uma força de restringir-se

a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquila, a

melodia emocionante, ingénua e simples do viver aldeão; e que por entre

o estrídulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasfémias, dores,

gemidos, que doloridamente reboam pelas soturnas naves deste imenso

hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar,

enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira

nota afectiva, algum limpo e cativante movimento do coração.

Bem-haja.

Do coro uníssono de quase incondicional aplauso com que a imprensa tem

celebrado a aparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnífico

artigo do _Correio Elvense_, devido à pena de um dos mais lúcidos e

impetuosos engenhos da novíssima geração.» (_Seguia-se a transcrição._)

Diário Ilustrado:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade

Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espírito à proporção que

envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram às vezes de ouvir

os velhos, e parece-me que têm razão, porque nem sempre o são juízo de

uma experiência larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo

circunspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com

singular cepticismo, este meu século, que está no fim, e com ele tenho

vindo estudando e aprendendo. Ruíram as teocracias literárias,

revoluteou-se a filosofia, criaram-se novos processos de estilo,

arrancou-se o chiró às velhas frases, e todo um mundo novo,

extravagante e fantástico tem surgido,--mau grado as fúrias rábidas de

escritores paleontológicos, aparafusados à Arte e à Crítica de há 50

anos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu

século tem-me custado amarguras aterrantes, desequilíbrios de espírito e

um desfolhar de verdes ilusões, que eu tenho visto irem-me fugindo num

_marche-marche_ triunfal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca

mais voltarem!...

A vida do escritor moderno, toda torturante e nevrótica, dá-me a

impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida

real de nossos dias. E lembro Camilo pedindo ao pedaço de chumbo de uma

cápsula o ponto final redentor de agonias crudelíssimas; Júlio Machado,

de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do

filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros,

bom Deus! Dir-se-ia que uma _má sina_ persegue os homens de

letras:--quando não é a navalha de barba, é o revólver, é a consumpção,

é a tísica, é o retraimento amargo, é o abandono próprio e alheio! Por

isso o meu vizinho Gervásio todo se ufana, com certo profundo bom-senso

prático, da insistência com que quer fazer do filho um _artista_

pintor--de portas, e de fora de portas...

Na _troupe_ de escritores em flor do meu tempo,--parece-me que já lá

vão 30 anos, e tudo isto é apenas de ontem!--havia, joeirados com

singular amor de arte pura, uma dúzia de rapazes de incontestável valor

literário, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e

revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,

miniaturistas da poesia, do romance e da crónica, dessa plêiade de

rapazes, um tanto insubmissos e um tanto boémios, alguns treparam

triunfantes,--poucos; outros, quase o resto, ou foram ainda verdes da

vida para os cemitérios das suas aldeias, ou, o que é quase o mesmo,

deram-se a calejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos

incipientes, nas minas de oiro e de ferro da luta pela vida. Dos

_felizes_, dos que triunfaram,--como quem diz, dos vencidos da

vida,--me sorria eu às vezes em horas de bom humor, lembrando-me como

eles com um livro de versos foram nomeados cônsules; com um tratado

sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por

acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com

uma crítica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliotecários

das belas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_

pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os filisteus do

Pará, aplicando-lhes aos fígados hipertróficos a vermelha caudal da

sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desapareceu em Paris pelo

alçapão macabro da _correspondência_ barata; Gualdino Gomes anda aí

amparando o seu reumatismo a uma certa _maneira_ de má língua e a uma

bengala de cana; Leopoldino Gonçalves viaja como médico da armada; e

Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alentejo,

onde toma pulsos a doentes pela tabela da Câmara, e aparece às vezes

nédio, cor de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tédio os copinhos de

cognac do _Leão_...

De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias cor-de-rosa, o que me

traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara à minha

a alma dele, num tempo em que dos salgueirais de Coimbra ele me

fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas crónicas

soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de afirmações de uma

personalidade literária. A sua prosa, a um tempo humana e lírica,

dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como

sabem, além de bacharéis anónimos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É

da tradição universitária, fazerem os doutores as suas primeiras armas

de literatos e de poetas, na academia, a intervalos do pesado estudo

do Lobão e do direito público, esvurmado às cavaleiras do nariz de

Pedro Penedo... Toda a nossa legião distintíssima de poetas e

prosadores modernos deriva literariamente da boémia

coimbrã:--Teófilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Antero, etc. É a

afirmação do bom António Ferreira feita axioma:

_Não fazem mal as musas aos doutores_.

E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquirir a Junqueiro das belezas do

Código Civil, meio metafisicamente original e meio copiado dos códigos

de Napoleão! Ah, mas em compensação que apareça aí o primeiro advogado

a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em férias_!

Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descrições numa

bela prosa colorida e transparente, trechos de psicologia trasmontana,

e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_

do proceder literário deste escritor é deliciosa de cor e de verdade,

sem grandes esmerilhamentos de frase, nem deslumbramentos de imagens na

aparência cor de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios

ingénuos dos cordões de latão... Tem-se chegado aí, no abuso da

originalidade do estilo, a fazer uma prosa estrelicada, engomada,

cabelinho à banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O

burguês já conhece os processos da _chinoiserie_, e daí não há

espantá-lo com nefelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe

ele que debaixo dessas belezas está a oleografia reles de porta de

escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota

a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em

Alcântara...

O livro de Trindade Coelho tem um certo ressaibo de saudável trabalho,

feito com honestidade e sem as preocupações deploráveis que levam os

corifeus da escola moderníssima, mais que zolaísta, à descrição e

estudo de patologias e casos esporádicos, ou não vivos, ou pouco

vívidos. Este livro é quase um parêntesis aberto como uma clareira

consoladora na torrente ultra-realista dos últimos trabalhos

aparecidos, do _sujet_ de um dos quais, que é em todo o caso a

monografia de um carácter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_

dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_...

A feição literária de Trindade Coelho parece-me que se define na parte

do livro subtitulada _Baladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma

dúzia de páginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma

elegia... trágica, _encadrée_ numa linguagem cor de opala, em que a

gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma

obra-prima. Assim a _Tragedia rústica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco

eu os _Prelúdios de festa_, _Idílio rústico_, os _Tipos da terra_, onde

há páginas soberbamente observadas, sugestivas, _d'après nature_.

Magnífico o assassino _José Gaio_.

Trindade Coelho é inquestionavelmente um lírico. E nem eu sei como ele

chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de

Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os

dicionários de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista

encantador... soçobrado!--_Inácio da Silva_.»

Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade,

que as palavras afectuosas que me endereçou no oferecimento do seu

livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espírito um mundo de

saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsâmicas de uma

quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã?

Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa

mas robusta, as _suas feições másculas e enérgicas_, e a sua _allure_ um

pouco receosa ao dobrar a soleira da legendária Porta Férrea.

Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de

grau apurado, sob a pasta de um quintanista, mirando à direita e à

esquerda, entrou você nos _Gerais_ resignado a um dilúvio de troças,

martírios, horrores...

Os segundanistas, de cuja respeitável corporação eu fazia

orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não

encontrassem uma fisionomia de chuchadeira, como a de um Armelim, nem um

rosto gretado, empedernido, de homem terciário, como o do bom Rafael do

Ranhados.

Mas em que diabo foram eles depois embicar, os malvados!

Em uma medalha de oiro que você trazia, à guisa de berloque, na corrente!

O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escândalo_, de forma que a

tempestade de piada desanuviou-se a tempo no seu horizonte de novato.

Depois, um ou dois anos, aparece o amigo com acentuações de académico

falado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolásticas, a sua

individualidade a destacar-se, como se fora um _urso_. E assim se

falava do Trindade, como do Luís Osório ou Feijó por causa dos versos,

do Pássaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel

Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades

pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.

Você desencubou o seu nome, pô-lo em evidência--o Trindade--, mas foi por

causa de um excelente resumo das lições de direito romano, de um belo

discurso no centenário pombalino, e sobretudo das suas graciosas

crónicas no _Diário Ilustrado_.

Ah! e lembra-se você daquele ano em que formámos «república» na Rua

da Trindade, tendo por criada a Sr.^a Maria de qualquer coisa, que

denominávamos a _Gorda_, matrona muito caroável e de enxundiosas formas?

Éramos uns poucos:

O Sousa, que já tem o galão branco dos tribunais administrativos,

espírito fácil, perspicaz e alegre, nada para maçadas, que tinha

orientações definidas em política partidária e expedientes reservados de

galopim graúdo contra os progressistas da Barca.

O Manuel Nunes, hoje em Barcelos, muito lucianista, devorando o

evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiúnculas com aquele por

causa dos seus ideais políticos encontrados, grande passeador e jogador

de manilha, um tanto lambaz porque saía mais cedo e sorrateiramente dos

teatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatários, guardada pela

_Gorda_ num cantinho do fogão.

E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe

chamávamos o Pegas, o Covarruvias, e lhe líamos um imaginário plano,

rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito

desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe dizíamos que ele

se aplicava... 25 horas por dia!

Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, de aspecto _sournois_, olhos à bufo, que

não falava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e

contumaz!

Em seguida o Sérgio Carneiro, o Grilo, seu comprovinciano e hoje

conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas,

muito guitarrista e risonho, se bem que inteligente e aplicado.

Éramos mais--você e eu. Você que se metia muito com a literatura,

fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por sinal

dediquei um fado aos membros da república, o qual nas vésperas de

feriado se cantava, em algazarra tonitruante, quando o Grilo

condescendia em o acompanhar na guitarra.

Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais

tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribunais de Lisboa e

eu no berço da monarquia.

Agora vejo-o, literato conhecido e conceituado, a publicar os seus

belos contos em um elefante volume--_Os meus amores_.

E belos na verdade, como todos dizem.

A _Mãe_, aquela cruciante tragédia da pobre _Ruça_, morta de terror e

de amor, é para mim o mais apreciável e sentido conto da sua colecção.

Costuma-se dizer de uma mãe descaroável, de uma Francisca Fortunata--é uma

cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando

as caluniadas afeições dos pobres ruminantes.

Quem ler as angústias da mísera _Ruça_, na expectativa do filhito

devorado pelo esfaimado lobo circunvagante, restituirá àquele

inofensivo animal o sentimento de amor maternal, a natural compreensão

das suas obrigações de mãe e protectora.

E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra.

Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal

qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bela produção

vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.

Nos restantes contos, entre os quais me não agradaram menos _V[ae]

Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da

sua educada fantasia, moderada por um largo pecúlio de observação; a

sua poderosa intuição artística; o seu diálogo curto, vibrante e

natural; o seu estilo já característico pela feição franca, _saccadèe_,

de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos;

a verdade das suas descrições e pinturas, que, ao contrário de muitos,

não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, numa

pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa

semelhante.

Olhe, amigo. Eu careço de jeito para a crítica literária; mas, enquanto

me é licito exprimir a minha humílima opinião, dir-lhe-ei que você

alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de literato

distinto e de contista precioso; e que este conceito é merecido,

atestam-no os seus valiosos escritos dispersos e a sua elegante

brochura recém-editada.

Resta-me felicitá-lo cordialmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua

fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.»

Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a

oferenda do novo livro de Trindade Coelho,--o simpático e distinto

escritor que de há tempos se vai honrosamente evidenciando no certame

das letras pátrias, onde já agora a sua individualidade tem uma

reputação firmada.

_Os meus amores_ é o título que o Sr. Trindade Coelho escolheu para o

seu livro de contos e baladas, e se assim lhe chama, segundo cremos,

não é porque estas 200 páginas sejam um auto-historiográfico dos

idílios romanescos do autor, naquela áurea quadra da sua vida

académica, ou um repositório de alheias aventuras amorosas com

acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendário.

Não. A razão do título parece-nos antes proceder da afectividade

psicológica do autor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto

com que Luís Osório prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:

_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,

Vivo enxame das minhas alvoradas,

Tenho zelos de vós, folhas sagradas,

As Desdémonas sois de um outro mouro_.

Se não fosse assim, afirmar-se-ia mais uma vez a verdade do

aforismo--o hábito não faz o monge--, porque o _Idílio rústico_, com que

abre esta bela colecção de contos, não seria bastante para justificar

o título sob que se enfeixam.

Mais que o idílio, preponderam no correr do livro a comédia, o drama e a

tragédia: e basta percorrê-lo em rápida leitura, para averiguar-se que

se há na urdidura dos vários contos muitas situações que nos pintam o

ridículo, a desgraça ou o crime, poucas há, entretanto, que nos prendam

o espírito ao devaneio piegas de um Romeu e de uma Julieta.

Mas, ou bem ou mal baptizado, o que é consoladoramente verdadeiro é que

os contos do Sr. Trindade Coelho constituem uma das mais belas

colecções que no género conhecemos.

Uma urdidura fácil e clara, movimentada em harmonia com os melhores

preceitos da arte.

Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das

situações e dos diálogos.

Uns assuntos de felicíssima escolha, a reproduzirem fielmente costumes,

a pôr em jogo com a maior verdade os vícios e as virtudes do povo.

Como os contos magníficos de Bento Moreno, os contos do Sr. Trindade

Coelho são a fiel expressão da vida rústica do nosso povo, e fácil é de

compreender a importância moral que estes livros terão quando as

gerações que nos sucedam queiram inventariar nas suas tradições o modo

de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, neste

período histórico em que vamos.

Sem descer aos excessos da escola ultra-realista, a que Zola preside

como Sumo Pontífice, o Sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade

inexcedível, de um realismo incontestável, de um naturalismo a toda a

prova, que por igual se evidenciam no assunto, na narração e nos

personagens.

E, sobretudo isto, há nos seus contos, como nos de François Copée e

Theodore de Bauville, a artística encenação que, sem desvirtuar-lhe a

naturalidade da forma e do fundo, lhes imprime o atractivo romanesco

que fala à imaginação do leitor.

O _Idílio rústico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa,

e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.

A _Última dádiva_ é a expressão fiel de muitas cenas que a emigração

multiplica cruelmente pelas nossas províncias do norte.

A acção deste conto é conduzida com uma tal unção de sentimentalidade,

que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a comoções, se poderá

esquivar a partilhá-la.

O conto--_Tipos da terra_ é a descrição fiel, fidelíssima, da mesquinha

intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de

província.

_Os Prelúdios de festa_ são de um cómico admirável; _Maricas_ é de um

sentimentalismo comovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade

edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragédia Rústica_, tudo, tudo neste

livro é bom, e de útil e agradabilíssima leitura.

A forma--já o dissemos--é correctamente vernácula e elegantemente

rendilhada.

A título de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este

belo _croquis_ de uma tarde de Agosto:

«Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos

montes quebravam-se numa sombra igual, e embaciavam ainda o poente as

suaves e brandas pulverizações doiradas da última luz do sol. Riscos

vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro,

destacavam imóveis num fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de

listrões de uma coloração leve de laranja.

Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e

além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»

E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra à altura da boa reputação

do autor.

A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu ilustre colega

por tão brilhante produção, e daqui lhe envia um cordialíssimo aperto

de mão.»

Os meus amores: contos e balladas · 第 12 / 14 段