Novidades,(entrevista com João de Deus acerca dos

_novos_):--«_Literatura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos,

porque não leio jornais, e não os leio porque os literários ocupam-se

na propaganda da imoralidade, e os políticos na propaganda do suicídio,

e na do jogo das lotarias, que seduz principalmente os enjeitados da

fortuna, mais sequiosos de domarem, num acaso da sorte, as agruras da

sua vida. E enquanto o rico joga o supérfluo, o pobre joga os trinta

réis de três quartos de um pão.

Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira

alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que ele dispa a toga,

que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha

muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem

lho ler.

--Li já todo o livro.

--E depois, meu amigo, nós andávamos precisados de uma coisa casta, onde

fossemos purificar o espírito dessas tais observações fisiológicas, e

não sei que mais, que por aí aparecem todos os dias. O livro do

Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem

definir-lhe. Olhe: ali está aquele quadro, em que os traços são

correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma

bela cabeça de rapariga, a fisionomia doce, o olhar abstracto: este

tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus

por ter graça. A graça na literatura é tudo, mas é muito rara.»

Novidades:--«_Novelas rústicas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_

(contos e baladas.)--Lisboa, livraria de António Maria Pereira--1891.

No seu penúltimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse

céptico amável e pirrónico, que tem sido o terrível sapador de todas

as doutrinas axiomáticas da crítica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs

pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que

seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les

gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou

mauvais.»

O conto moderno é como o romance, essencialmente analítico e

psicológico, escrito em estilo técnico, e destinado sobretudo a

apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma

humana. A literatura contemporânea tem procurado, quase

invariavelmente, os seus temas entre os vícios, as paixões e todas as

energias depravadas do coração. A arte do Sr. Trindade Coelho é muito

diferente disso, porém. O seu idílico livro de contos e baladas,

aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da

paisagem trasmontana, e habitado por heróis simples, colhidos com

intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem,

decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta

actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros

dos escritores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao

empreender a leitura dos _Meus amores_, duzentas páginas suaves e

simples, sem pedantescas pretensões a passarem como tratado didáctico de

psicologia.

Disse-se de Júlio Dinis que ele era principalmente um paisagista, e que

as suas figuras só serviam para dar expressão e vida à paisagem.

O Sr. Trindade Coelho possui, igualmente, a sensação visual

particularmente desenvolvida, e as suas descrições são também, como as

do autor das _Pupilas do Sr. Reitor_, magicamente poetizadas, como que

apercebidas de longe num esbatido vago de sentimento e de saudade.

Chega-se às vezes a ter a ilusão de que o artista está ali, páginas a dentro

do seu livro, fazendo reviver no pensamento a álacre impressão

das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,

cuja lembrança, ele conserva sempre viva, como nos versos de Salvador

Rueda:

Por donde voy me sigue como memoria tierna

tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;

¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna

el coro que tus árboles entonan á la mar!

Aí têm, para prova, esse trecho de um descritivo de manhã aldeã,

quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horizonte:

«A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim,

e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em

cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam

despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de

perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,

tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de

asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede

à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em

recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação

era mais rica de seivas e mais fácil a presa dos insectos, perdizes

gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos

vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas

de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicolos, viam-se

os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e

berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas

povoações próximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a

ave-marias. Nas quintas Casais fumegavam os tectos, dizendo horas de

almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu

imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza acordada

para a labuta interminável do dia.»

No notável estudo de psicologia literária de M. Fr. Paulhan sobre a

descrição pitoresca, então habilmente apreciados os elementos

constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na

qualidade e na intensidade.

«Chama-se imaginação sensível», diz o distinto observador, «o acto pelo

qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação,

como tem sido há bastante tempo notada, não é,--principalmente se

considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma cópia

enfraquecida de uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar

um momento, um quadro, uma estátua, qualquer coisa que imagino, se as

minhas recordações são bastante nítidas, é uma espécie de cópia

enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o

quadro ou a estátua. A imaginação, tomada até no sentido restrito que

lhe damos aqui, varia muito de uma pessoa para outra, quer em

intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas têm as

imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais

concretas; em uma palavra, as suas imagens aproximam-se muito da

sensação; outras, pelo contrário, são inclinadas para as ideias

abstractas e têm necessidade de um esforço para se representarem as

sensações de uma maneira um pouco nítidas. Tem-se reparado que a visão

mental, nitidíssima em geral nas crianças e nas mulheres, torna-se muito

fraca e por vezes desaparece nas pessoas preocupadas sobretudo de

ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual.

Eis uma pequena experiência indicada por Wundt, que, mostrando as

analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo também as

diferenças individuais com relação à intensidade com que a imagem

concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo

num objecto corado, se voltamos os olhos para uma superfície parda,

vemos uma mancha corada da cor complementar da primeira. Se o objecto

era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul-índigo,

a mancha será amarela, etc. Ora é possível, mas isto não

sucede a toda a gente, perceber esta cor complementar não só depois de

ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter

imaginado. Pode-se, por exemplo, pensar numa cruz vermelha: lançando em

seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se há

uma boa imaginação visual.»

Essa imaginação parece tê-la o Sr. Trindade Coelho. A vivacidade,

tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descritivo,

que nos dá conjuntamente a impressão da forma, da cor, do som, e até às

vezes do aroma, representa um fenómeno especial de evocação

sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois desse, a

íntima satisfação que faz aflorar, aos lábios do leitor inteligente, um

sorriso de doce comoção, a cada singelo episódio das suas narrativas,

todas frescas e sadias, e cujo menor mérito não é, decerto, o de serem

escritas numa linguagem airosa e despreocupada, mas tersa e

legitimamente portuguesa.

O livro do Sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas análises

introspectivas, o papel da crítica perante _Os meus amores_ é bem fácil,

porque ela deve quase cingir-se à afirmação do seu aplauso

incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escritor, o que

pode muito bem representar uma livre depravação de gosto.

Por mim confesso sinceramente que me deixou no espírito a mais amável

recordação, pura e oxigenada, a leitura dessas belas novelas

rústicas, todas impregnadas de uma ideal graça campesina, tilintando de um

eco amorável de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre

margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha

simpatia, desejo mencionar especialmente o conto que abre o livro e o

caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.»

Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder de observação e uma enorme justeza

de expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciais qualidades

literárias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de

verdadeiro artista, aberta à compreensão ampla da natureza, e fundindo

os fenómenos, as coisas e as criaturas num conjunto nítido que se

desata em descrições opulentas de vida e de calor, fulgurantes

de energias dominadoras, pródigas de imagens que o melhor cristal de

Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias

possantes que prendem o espírito mais inculto e o obrigam, ali, a fixar

e a compreender o objecto que o autor quis frisar.

E essas qualidades ressaltam brilhantemente de todos os contos que

compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o

delicado sentir do autor transmitiu a cada cena onde o coração tem

parte, ou seja o coração de qualquer daqueles dois pequenos do _Idílio

rústico_, ou o da _Ruça_, a bela cabra que no meio de mil angustias de

mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surpreender a ele próprio,

a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,

vejam o afecto que irradia daquele _Para a escola_, quando fala da

velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras letras.

Se das coisas afectivas, que mais o namoram, e das descrições

naturais, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um

pedaço caricaturando uns tipos com tanta sobriedade de _charge_ que mais

nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da

vilória da _Comédia na província_, que entretêm a tarde na praça a

dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos hábitos.

E quando aos tipos pode juntar um estudo de costumes, aquela _Véspera

da festa_ exemplifica vantajosamente o que ele sabe fazer.

No fim do livro, foi para mim surpresa aquele excerto das _Batalhas

domésticas_, onde me pareceu descobrir uma novíssima orientação do

autor, inspirada porventura numa atmosfera densa de inovações que vai

por aí. Claro que o seu talento adapta-se mais essa forma com a

maleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a

característica literária de Trindade Coelho, evidenciada em tantos

escritos, não a sacrificaria a coisa alguma.

O que o livro é, em suma, é um conjunto de belezas que tem sido

largamente apreciado pelos fanáticos da Arte; e oxalá seja apenas a

promessa de muitos outros, que penas como aquela não devem

calotear-nos na contribuição que nos devem.

--Mas,--perguntou-me um dia destes alguém--porquê _Os meus amores_, e

não qualquer outro título?

Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao

livro onde há tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que

lhe foi grande parte da alma, da sua bela alma de rapaz que nenhuma

lama deste mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.»

Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e baladas por

Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca

mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns

contos singelos, atraentes, delicadíssimos, admiráveis de observação e

de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admirável simplicidade de

colorido em alguns deles e que tons inapagáveis de verdade!

Uma bela obra de arte e uma altiva lição.

Ali está como se pode chegar ao naturalismo na literatura, sem

estropear a língua e sem chegar às torpezas da pornografia. Para

atrair, para ser original, para impor a supremacia do seu talento,

para conquistar o aplauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não

precisou de escrever extravagâncias, nem de escalavrar pústulas, nem de

escancarar bordéis.

Aí fica uma rápida notícia do livro. Voltaremos a falar dele, se o

tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu autor.»

Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias de intervalo as

letras portuguesas contaram dois ruidosos sucessos de livraria.

Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de análise, de profunda

observação, ressentida do exagero do naturalismo e do carácter quase

científico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem

ser exclusivamente literários, mas que, não obstante este pequeno

senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel

Botelho criara com os seus livros anteriores, a crítica tem de render

respeitosa homenagem ao trabalho de um outro escritor novo como aquele

e como ele igualmente distinto pelos brilhantes dotes do seu espírito,

pela sua notável orientação literária e pelo esplendor de forma que

caracteriza todos os seus escritos, mesmo os mais despreocupadamente

feitos.

Sinto um delicioso prazer de consciência ao traçar estas linhas.

Momentos como este são mesmo os únicos oásis em que se reconfortam os

que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina

improdutiva e inglória do jornal.

Trato de apreciar o trabalho de um amigo, de alguém a quem me unem

íntimas relações de confraternidade e simpatia e ao ter de formular o

meu juízo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e

aplauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo de um

sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira de uma

admiração justamente sentida, solidamente baseada.

O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo

corresponde ao encanto deste título.

Com que saudade li as últimas páginas!

Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer

que sentia, noutras precipitava-a sôfrego de admirar a naturalidade

das descrições, a limpidez e o cristalino do estilo emocionante e

simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais

diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio,

até à recordação saudosa e terna que o autor sente do primeiro dia em

que entrou na aula de instrução primária da sua modesta aldeia.

Dando a impressão singela e despretensiosa que me causaram _Os meus

amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos

pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na

época actual quando os vícios da sociedade e a decadência dos nossos

dias nos gravam no espírito, a cada hora, um carimbo de desânimo e

descrença, quando a literatura, obedecendo à vertigem mais do que

nervosa, alucinada, que caracteriza o _fin de siècle_, cria as escolas

mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em

apedrejar as normas mais impecáveis e até agora consagradas da arte, e

em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras

e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se ânimo,

desanuvia-se o espírito ao ver que ainda há alguém, a quem sobeja

talento e tenacidade, que escreve 200 páginas de prosa sã, eminentemente

sentida, deliciando-se na descrição das cenas mais simples e tocantes,

na apoteose da natureza em toda a sua magnificência e no convívio da

vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das

convenções e pretensiosidades que dão um tom falso e mentido aos

sentimentos da sociedade em que vivemos.

Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um

dos contos e baladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este

propósito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto

amor o escreveu. Ao contrário, sinto que não posso, a não transformar

este artigo num hino laudatório, referir-me especialmente a cada um

daqueles contos e baladas. Mais do que este motivo domina-me o de não

poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.

Muitas das páginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as

havíamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em diferentes

jornais. Como escritor conhecíamos também o primoroso estilista dos

_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalísticos, já na boémia coimbrã,

já em pequenas folhas de província e ultimamente nos jornais da capital,

trabalhos em que ele empregava o escrúpulo e a correcção que nunca

abandonam os verdadeiros artistas.

Pelos seus trabalhos literários há muito que formara a opinião de que

ele se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de

Fialho de Almeida e de Teixeira de Queirós que, no meu parecer, são, em

Portugal, os mais distintos escritores contemporâneos deste género,

na aparência tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difícil, a que

se denomina: _Contos_.

A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.

Pelo sentimento descritivo, pela verdade dos _tipos_, pela naturalidade

do diálogo, e pela modalidade do estilo que se apropria sem o mínimo

esforço a todas as impressões que pretende transmitir, o autor dos

_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do género de

literatura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na

amizade a opinião dos que, não obstante ele terçar agora quase as

primeiras armas, o consideram já como um escritor distintíssimo e num

futuro muito próximo um mestre consagrado.

O livro abre com um soneto formosíssimo e nem podia deixar de ser assim

desde que se saiba que o firma Luís Osório. Pórtico apropriado às

belezas que nas páginas que se seguem se acumulam com uma riqueza

oriental.

Não obstante o meu propósito de não me referir nomeadamente a nenhum dos

pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que

me causou a _Última dádiva_, um primor de sentimento, uma página emotiva

arrancada em flagrante a uma das cenas em que tão variadamente se

divide a tragédia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,

onde passa um fôlego de epopeia, em que o estilo atinge alturas quase

desconhecidas, casando-se com uma verdade admirável a grandiosa ideia em

que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura

cada um de nós sente acordar uma recordação muito querida de infância

descuidada e alegre, e por últimos: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho

ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estilo tão maleável e

tão justo.

Além destes contos, que especialmente destaco pela admiração que me

inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Prelúdios de

festa_ e _Tipos da terra_.

Quem escreveu os _Prelúdios de festa_ e especialmente os _Tipos da

terra_, é porque estudou com muita atenção, com muito cuidado, os

personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras

pequenas. São tipos tirados do natural, com uma perfeição fotográfica

em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na

descrição da natureza nos seus mais variados aspectos.

Por últimos, e para não se dizer que eu neste país de má língua realizei

o cúmulo de escrever um artigo só de palavras encomiásticas e sem a

mínima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_,

lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas páginas de um estilo

formosíssimo num assunto que sem dúvida é verdadeiro, mas que não

comove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a mínima

impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus

recursos de estilista, não precisava realmente do _Sultão_.

O livro faz parte da edição mensal de obras portuguesas, editada por

António Maria Pereira, um trabalhador incansável a quem as letras

portuguesas devem assinalados serviços.

Está impresso com o maior escrúpulo e revisto com um cuidado e esmero a

que nem sempre estamos habituados.

Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos

para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas à

sensaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos

como este, para honra do seu nome de escritor já tão justamente

laureado, e agradecemos ao amigo a oferta do seu livro, arquivando a

dedicatória que ele contém como nova prova de uma amizade a que somos

profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço

Caiola_.»

Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Colecção

António Maria Pereira_, que sob aquele título contém alguns contos do

apreciado contista Trindade Coelho.

Pela rápida leitura de dois deles--_O Sultão_ e _Tipos da terra_,

parece-nos que a colecção é estimável, e que os contos são jóias de

grande preço da nossa literatura, pela linguagem pura genuinamente

portuguesa, e pela graça da contextura originalíssima, nacional, sem

laivos de imitação estrangeira, em que se pintam cenas e episódios,

cheios de verdade e de encantadoras descrições, da vida portuguesa nas

províncias.»

O Século:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de

contos, editado pela casa editorial do António Maria Pereira, a

publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso

meio literário, bem pouco acaroável e mazorro no fundo,

sobressaltando-se com tudo quanto perpetra o escândalo de não ser

rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionável também--diga-se a verdade.

Parece uma contradição; mas não é. Se o nosso bom público fosse dado a

esbanjamentos de emoção artística, não o sobressaltaria tanto a

pessoalidade, e o imprevisto.

O Sr. Trindade Coelho acumula com o seu cargo oficial de magistrado

severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de

letras, nas suas horas de remanso.

É só, porém, como homem de letras, que nos compete em tal lugar

aquilatar-lhe a estesia, e as faculdades de emoção, ou de atenção

artística.

Ambas estas possui o Sr. Trindade Coelho, em subido grau. A forma

adapta-se perfeitamente ao fundo, e é sempre fluente, vernácula,

concisa, e precisa. É sóbrio no descritivo, e não raras vezes

enternece. Não comete a velharia de desenterrar obsoletos termos

clássicos, sem incisão, sem propriedade, e sem cor, muito parecidos com

o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portugueses, nem

onomatopaicos, e que fizeram a delícia de Filinto. Nem perpetra também o

mau gosto de empregar neologismos inúteis, e risíveis, possuindo na

linguagem pátria instrumentos magníficos de expressão. Sabe a sua língua,

como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais

completa, e mais delicada da prosa, e também a mais transcendente e

lapidar, achou nele um hábil e equilibrado intérprete. Os contos

_Sultão_, _Maricas_, _Tipos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a

escola_, não contam muitos rivais na língua portuguesa nem nas

estranhas.

O seu pequeno livro há-de ficar na literatura nacional, quando de

centenas de romances em seiscentos volumes já ninguém rememorar o título

sequer.--_Gomes Leal_.»

Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que

deliciosa impressão me deixou aquele livro, tão adoravelmente simples e

sentido!

Antes, porém, de começar a analisar, conto por conto, esse fino trabalho

de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão

porque me merece tanta simpatia o seu autor, que de nome conheço só.

Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondências de Portalegre,

notavelmente bem feitas, e em que ele elogiava muito um pequenito,

distinto em todos os exames.

Os meus amores: contos e balladas · 第 11 / 14 段