_novos_):--«_Literatura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos,
porque não leio jornais, e não os leio porque os literários ocupam-se
na propaganda da imoralidade, e os políticos na propaganda do suicídio,
e na do jogo das lotarias, que seduz principalmente os enjeitados da
fortuna, mais sequiosos de domarem, num acaso da sorte, as agruras da
sua vida. E enquanto o rico joga o supérfluo, o pobre joga os trinta
réis de três quartos de um pão.
Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira
alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que ele dispa a toga,
que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha
muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem
lho ler.
--Li já todo o livro.
--E depois, meu amigo, nós andávamos precisados de uma coisa casta, onde
fossemos purificar o espírito dessas tais observações fisiológicas, e
não sei que mais, que por aí aparecem todos os dias. O livro do
Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem
definir-lhe. Olhe: ali está aquele quadro, em que os traços são
correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma
bela cabeça de rapariga, a fisionomia doce, o olhar abstracto: este
tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus
por ter graça. A graça na literatura é tudo, mas é muito rara.»
Novidades:--«_Novelas rústicas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_
(contos e baladas.)--Lisboa, livraria de António Maria Pereira--1891.
No seu penúltimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse
céptico amável e pirrónico, que tem sido o terrível sapador de todas
as doutrinas axiomáticas da crítica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs
pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que
seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les
gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou
mauvais.»
O conto moderno é como o romance, essencialmente analítico e
psicológico, escrito em estilo técnico, e destinado sobretudo a
apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
humana. A literatura contemporânea tem procurado, quase
invariavelmente, os seus temas entre os vícios, as paixões e todas as
energias depravadas do coração. A arte do Sr. Trindade Coelho é muito
diferente disso, porém. O seu idílico livro de contos e baladas,
aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da
paisagem trasmontana, e habitado por heróis simples, colhidos com
intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem,
decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta
actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros
dos escritores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao
empreender a leitura dos _Meus amores_, duzentas páginas suaves e
simples, sem pedantescas pretensões a passarem como tratado didáctico de
psicologia.
Disse-se de Júlio Dinis que ele era principalmente um paisagista, e que
as suas figuras só serviam para dar expressão e vida à paisagem.
O Sr. Trindade Coelho possui, igualmente, a sensação visual
particularmente desenvolvida, e as suas descrições são também, como as
do autor das _Pupilas do Sr. Reitor_, magicamente poetizadas, como que
apercebidas de longe num esbatido vago de sentimento e de saudade.
Chega-se às vezes a ter a ilusão de que o artista está ali, páginas a dentro
do seu livro, fazendo reviver no pensamento a álacre impressão
das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,
cuja lembrança, ele conserva sempre viva, como nos versos de Salvador
Rueda:
Por donde voy me sigue como memoria tierna
tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;
¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna
el coro que tus árboles entonan á la mar!
Aí têm, para prova, esse trecho de um descritivo de manhã aldeã,
quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horizonte:
«A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim,
e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
era mais rica de seivas e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicolos, viam-se
os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e
berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas
povoações próximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
ave-marias. Nas quintas Casais fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza acordada
para a labuta interminável do dia.»
No notável estudo de psicologia literária de M. Fr. Paulhan sobre a
descrição pitoresca, então habilmente apreciados os elementos
constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na
qualidade e na intensidade.
«Chama-se imaginação sensível», diz o distinto observador, «o acto pelo
qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação,
como tem sido há bastante tempo notada, não é,--principalmente se
considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma cópia
enfraquecida de uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar
um momento, um quadro, uma estátua, qualquer coisa que imagino, se as
minhas recordações são bastante nítidas, é uma espécie de cópia
enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o
quadro ou a estátua. A imaginação, tomada até no sentido restrito que
lhe damos aqui, varia muito de uma pessoa para outra, quer em
intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas têm as
imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais
concretas; em uma palavra, as suas imagens aproximam-se muito da
sensação; outras, pelo contrário, são inclinadas para as ideias
abstractas e têm necessidade de um esforço para se representarem as
sensações de uma maneira um pouco nítidas. Tem-se reparado que a visão
mental, nitidíssima em geral nas crianças e nas mulheres, torna-se muito
fraca e por vezes desaparece nas pessoas preocupadas sobretudo de
ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual.
Eis uma pequena experiência indicada por Wundt, que, mostrando as
analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo também as
diferenças individuais com relação à intensidade com que a imagem
concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo
num objecto corado, se voltamos os olhos para uma superfície parda,
vemos uma mancha corada da cor complementar da primeira. Se o objecto
era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul-índigo,
a mancha será amarela, etc. Ora é possível, mas isto não
sucede a toda a gente, perceber esta cor complementar não só depois de
ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter
imaginado. Pode-se, por exemplo, pensar numa cruz vermelha: lançando em
seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se há
uma boa imaginação visual.»
Essa imaginação parece tê-la o Sr. Trindade Coelho. A vivacidade,
tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descritivo,
que nos dá conjuntamente a impressão da forma, da cor, do som, e até às
vezes do aroma, representa um fenómeno especial de evocação
sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois desse, a
íntima satisfação que faz aflorar, aos lábios do leitor inteligente, um
sorriso de doce comoção, a cada singelo episódio das suas narrativas,
todas frescas e sadias, e cujo menor mérito não é, decerto, o de serem
escritas numa linguagem airosa e despreocupada, mas tersa e
legitimamente portuguesa.
O livro do Sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas análises
introspectivas, o papel da crítica perante _Os meus amores_ é bem fácil,
porque ela deve quase cingir-se à afirmação do seu aplauso
incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escritor, o que
pode muito bem representar uma livre depravação de gosto.
Por mim confesso sinceramente que me deixou no espírito a mais amável
recordação, pura e oxigenada, a leitura dessas belas novelas
rústicas, todas impregnadas de uma ideal graça campesina, tilintando de um
eco amorável de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre
margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha
simpatia, desejo mencionar especialmente o conto que abre o livro e o
caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.»
Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder de observação e uma enorme justeza
de expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciais qualidades
literárias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de
verdadeiro artista, aberta à compreensão ampla da natureza, e fundindo
os fenómenos, as coisas e as criaturas num conjunto nítido que se
desata em descrições opulentas de vida e de calor, fulgurantes
de energias dominadoras, pródigas de imagens que o melhor cristal de
Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias
possantes que prendem o espírito mais inculto e o obrigam, ali, a fixar
e a compreender o objecto que o autor quis frisar.
E essas qualidades ressaltam brilhantemente de todos os contos que
compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o
delicado sentir do autor transmitiu a cada cena onde o coração tem
parte, ou seja o coração de qualquer daqueles dois pequenos do _Idílio
rústico_, ou o da _Ruça_, a bela cabra que no meio de mil angustias de
mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surpreender a ele próprio,
a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,
vejam o afecto que irradia daquele _Para a escola_, quando fala da
velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras letras.
Se das coisas afectivas, que mais o namoram, e das descrições
naturais, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um
pedaço caricaturando uns tipos com tanta sobriedade de _charge_ que mais
nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da
vilória da _Comédia na província_, que entretêm a tarde na praça a
dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos hábitos.
E quando aos tipos pode juntar um estudo de costumes, aquela _Véspera
da festa_ exemplifica vantajosamente o que ele sabe fazer.
No fim do livro, foi para mim surpresa aquele excerto das _Batalhas
domésticas_, onde me pareceu descobrir uma novíssima orientação do
autor, inspirada porventura numa atmosfera densa de inovações que vai
por aí. Claro que o seu talento adapta-se mais essa forma com a
maleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
característica literária de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
escritos, não a sacrificaria a coisa alguma.
O que o livro é, em suma, é um conjunto de belezas que tem sido
largamente apreciado pelos fanáticos da Arte; e oxalá seja apenas a
promessa de muitos outros, que penas como aquela não devem
calotear-nos na contribuição que nos devem.
--Mas,--perguntou-me um dia destes alguém--porquê _Os meus amores_, e
não qualquer outro título?
Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao
livro onde há tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que
lhe foi grande parte da alma, da sua bela alma de rapaz que nenhuma
lama deste mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.»
Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e baladas por
Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca
mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns
contos singelos, atraentes, delicadíssimos, admiráveis de observação e
de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admirável simplicidade de
colorido em alguns deles e que tons inapagáveis de verdade!
Uma bela obra de arte e uma altiva lição.
Ali está como se pode chegar ao naturalismo na literatura, sem
estropear a língua e sem chegar às torpezas da pornografia. Para
atrair, para ser original, para impor a supremacia do seu talento,
para conquistar o aplauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não
precisou de escrever extravagâncias, nem de escalavrar pústulas, nem de
escancarar bordéis.
Aí fica uma rápida notícia do livro. Voltaremos a falar dele, se o
tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu autor.»
Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias de intervalo as
letras portuguesas contaram dois ruidosos sucessos de livraria.
Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de análise, de profunda
observação, ressentida do exagero do naturalismo e do carácter quase
científico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem
ser exclusivamente literários, mas que, não obstante este pequeno
senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel
Botelho criara com os seus livros anteriores, a crítica tem de render
respeitosa homenagem ao trabalho de um outro escritor novo como aquele
e como ele igualmente distinto pelos brilhantes dotes do seu espírito,
pela sua notável orientação literária e pelo esplendor de forma que
caracteriza todos os seus escritos, mesmo os mais despreocupadamente
feitos.
Sinto um delicioso prazer de consciência ao traçar estas linhas.
Momentos como este são mesmo os únicos oásis em que se reconfortam os
que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina
improdutiva e inglória do jornal.
Trato de apreciar o trabalho de um amigo, de alguém a quem me unem
íntimas relações de confraternidade e simpatia e ao ter de formular o
meu juízo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e
aplauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo de um
sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira de uma
admiração justamente sentida, solidamente baseada.
O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo
corresponde ao encanto deste título.
Com que saudade li as últimas páginas!
Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer
que sentia, noutras precipitava-a sôfrego de admirar a naturalidade
das descrições, a limpidez e o cristalino do estilo emocionante e
simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais
diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio,
até à recordação saudosa e terna que o autor sente do primeiro dia em
que entrou na aula de instrução primária da sua modesta aldeia.
Dando a impressão singela e despretensiosa que me causaram _Os meus
amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos
pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na
época actual quando os vícios da sociedade e a decadência dos nossos
dias nos gravam no espírito, a cada hora, um carimbo de desânimo e
descrença, quando a literatura, obedecendo à vertigem mais do que
nervosa, alucinada, que caracteriza o _fin de siècle_, cria as escolas
mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em
apedrejar as normas mais impecáveis e até agora consagradas da arte, e
em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras
e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se ânimo,
desanuvia-se o espírito ao ver que ainda há alguém, a quem sobeja
talento e tenacidade, que escreve 200 páginas de prosa sã, eminentemente
sentida, deliciando-se na descrição das cenas mais simples e tocantes,
na apoteose da natureza em toda a sua magnificência e no convívio da
vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das
convenções e pretensiosidades que dão um tom falso e mentido aos
sentimentos da sociedade em que vivemos.
Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um
dos contos e baladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este
propósito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto
amor o escreveu. Ao contrário, sinto que não posso, a não transformar
este artigo num hino laudatório, referir-me especialmente a cada um
daqueles contos e baladas. Mais do que este motivo domina-me o de não
poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.
Muitas das páginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as
havíamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em diferentes
jornais. Como escritor conhecíamos também o primoroso estilista dos
_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalísticos, já na boémia coimbrã,
já em pequenas folhas de província e ultimamente nos jornais da capital,
trabalhos em que ele empregava o escrúpulo e a correcção que nunca
abandonam os verdadeiros artistas.
Pelos seus trabalhos literários há muito que formara a opinião de que
ele se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de
Fialho de Almeida e de Teixeira de Queirós que, no meu parecer, são, em
Portugal, os mais distintos escritores contemporâneos deste género,
na aparência tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difícil, a que
se denomina: _Contos_.
A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.
Pelo sentimento descritivo, pela verdade dos _tipos_, pela naturalidade
do diálogo, e pela modalidade do estilo que se apropria sem o mínimo
esforço a todas as impressões que pretende transmitir, o autor dos
_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do género de
literatura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na
amizade a opinião dos que, não obstante ele terçar agora quase as
primeiras armas, o consideram já como um escritor distintíssimo e num
futuro muito próximo um mestre consagrado.
O livro abre com um soneto formosíssimo e nem podia deixar de ser assim
desde que se saiba que o firma Luís Osório. Pórtico apropriado às
belezas que nas páginas que se seguem se acumulam com uma riqueza
oriental.
Não obstante o meu propósito de não me referir nomeadamente a nenhum dos
pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que
me causou a _Última dádiva_, um primor de sentimento, uma página emotiva
arrancada em flagrante a uma das cenas em que tão variadamente se
divide a tragédia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,
onde passa um fôlego de epopeia, em que o estilo atinge alturas quase
desconhecidas, casando-se com uma verdade admirável a grandiosa ideia em
que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura
cada um de nós sente acordar uma recordação muito querida de infância
descuidada e alegre, e por últimos: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho
ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estilo tão maleável e
tão justo.
Além destes contos, que especialmente destaco pela admiração que me
inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Prelúdios de
festa_ e _Tipos da terra_.
Quem escreveu os _Prelúdios de festa_ e especialmente os _Tipos da
terra_, é porque estudou com muita atenção, com muito cuidado, os
personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras
pequenas. São tipos tirados do natural, com uma perfeição fotográfica
em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na
descrição da natureza nos seus mais variados aspectos.
Por últimos, e para não se dizer que eu neste país de má língua realizei
o cúmulo de escrever um artigo só de palavras encomiásticas e sem a
mínima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_,
lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas páginas de um estilo
formosíssimo num assunto que sem dúvida é verdadeiro, mas que não
comove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a mínima
impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus
recursos de estilista, não precisava realmente do _Sultão_.
O livro faz parte da edição mensal de obras portuguesas, editada por
António Maria Pereira, um trabalhador incansável a quem as letras
portuguesas devem assinalados serviços.
Está impresso com o maior escrúpulo e revisto com um cuidado e esmero a
que nem sempre estamos habituados.
Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos
para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas à
sensaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos
como este, para honra do seu nome de escritor já tão justamente
laureado, e agradecemos ao amigo a oferta do seu livro, arquivando a
dedicatória que ele contém como nova prova de uma amizade a que somos
profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço
Caiola_.»
Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Colecção
António Maria Pereira_, que sob aquele título contém alguns contos do
apreciado contista Trindade Coelho.
Pela rápida leitura de dois deles--_O Sultão_ e _Tipos da terra_,
parece-nos que a colecção é estimável, e que os contos são jóias de
grande preço da nossa literatura, pela linguagem pura genuinamente
portuguesa, e pela graça da contextura originalíssima, nacional, sem
laivos de imitação estrangeira, em que se pintam cenas e episódios,
cheios de verdade e de encantadoras descrições, da vida portuguesa nas
províncias.»
O Século:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de
contos, editado pela casa editorial do António Maria Pereira, a
publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso
meio literário, bem pouco acaroável e mazorro no fundo,
sobressaltando-se com tudo quanto perpetra o escândalo de não ser
rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionável também--diga-se a verdade.
Parece uma contradição; mas não é. Se o nosso bom público fosse dado a
esbanjamentos de emoção artística, não o sobressaltaria tanto a
pessoalidade, e o imprevisto.
O Sr. Trindade Coelho acumula com o seu cargo oficial de magistrado
severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de
letras, nas suas horas de remanso.
É só, porém, como homem de letras, que nos compete em tal lugar
aquilatar-lhe a estesia, e as faculdades de emoção, ou de atenção
artística.
Ambas estas possui o Sr. Trindade Coelho, em subido grau. A forma
adapta-se perfeitamente ao fundo, e é sempre fluente, vernácula,
concisa, e precisa. É sóbrio no descritivo, e não raras vezes
enternece. Não comete a velharia de desenterrar obsoletos termos
clássicos, sem incisão, sem propriedade, e sem cor, muito parecidos com
o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portugueses, nem
onomatopaicos, e que fizeram a delícia de Filinto. Nem perpetra também o
mau gosto de empregar neologismos inúteis, e risíveis, possuindo na
linguagem pátria instrumentos magníficos de expressão. Sabe a sua língua,
como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais
completa, e mais delicada da prosa, e também a mais transcendente e
lapidar, achou nele um hábil e equilibrado intérprete. Os contos
_Sultão_, _Maricas_, _Tipos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a
escola_, não contam muitos rivais na língua portuguesa nem nas
estranhas.
O seu pequeno livro há-de ficar na literatura nacional, quando de
centenas de romances em seiscentos volumes já ninguém rememorar o título
sequer.--_Gomes Leal_.»
Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que
deliciosa impressão me deixou aquele livro, tão adoravelmente simples e
sentido!
Antes, porém, de começar a analisar, conto por conto, esse fino trabalho
de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão
porque me merece tanta simpatia o seu autor, que de nome conheço só.
Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondências de Portalegre,
notavelmente bem feitas, e em que ele elogiava muito um pequenito,
distinto em todos os exames.