A vida começou então a ter para ele umas entreabertas mais risonhas,

livre dessa prisão estreita da escura loja, onde os seus instintos

hereditários de independência, acordados no fundo de uma natureza

bárbara de hermínio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos

repelões de rebelião... Até que um dia, numa dessas guinadas que mesmo

à escrivaninha o assaltavam, pensou em ir à terra onde não voltara desde

pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E numa

introversão de momentos, mirando através da janela o claro céu azul,

alto naquela manhã serena de Maio, o Seabra teve a remota visão do seu

passado--das coisas da sua infância, da sua pobre e humilde aldeia

encravada num declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente

de neves eternas. E como se mirasse tudo através de um binóculo

invertido, ele lá via além, muito longe para as sugestões do seu

desejo, muito afastado para as débeis reminiscências da sua memória,

tudo isso que ele dizia em três palavras--«a minha terra!»--isto é,

esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo

do qual nascera; o campanário alto e esguio; a igreja oblonga; a fita

branca do muro do cemitério onde seu pai e sua mãe jaziam; a paisagem

circundante cortada de canais e regueiras, que parecem fios de prata

serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a

velha legião amiga das árvores--o zimbro ao alto dos morros nus; depois,

descendo, as urzes brancas; os piornos; os belos carvalhos altivos; e

já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agrícola e hortícola o

verde e tenro pára-sol das suas soberbas folhas--o castanheiro, enfim.

Através da sua vida de balcão, duramente mourejada a mover barras de

ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com

intermitências raras de descanso, algum Domingo, pelas hortas dos

arredores, ou às vezes num bote, pelo Tejo,--a sensação melancólica da

sua paisagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cérebro, nem tão

pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infância, dos seus

companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, à

lição a casa do reitor, naquele velho sótão da residência, com paredes

denegridas e tecto de madeira com manchas...

E que seria feito deles? Talvez que os não conhecesse, que o não

reconhecessem, agora. Talvez. E esta dúvida, esta desconfiança, dava ao

seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua

bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto

subtil e ingénuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, enfim, a propor

aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azuis e

toda rosada de cútis, que ele, sem quase dar por isso, espontaneamente,

insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda

solteira...

...a Emília!

E porque seja estranho ao meu propósito, e quase indiferente à história

que lhes vou contando, a crónica preliminar desse consórcio, direi que

a velha estola do reitor os uniu enfim uma manhã--manhã de Julho, na

velha e ampla igreja da freguesia, toda banhada de sol, toda rumorejante

de vozes, e sobre a qual caía sem despejar, como uma chuva alegre de

pétalas, a saraivada metálica dos sinos, repicando... Até que passados

dias, ei-los enfim em Lisboa, instalados não sei em que beco da Baixa,

perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o

escritório.

E aqui rompe a história; e se é do agrado dos senhores, comecemos.

* * * * *

Bem, aquele primeiro ano. Por uma banda a Emília a cuidar da casa,

toda se desvelando nos mínimos pormenores do interior, na cozinha, no

amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a

mobília, comprada de novo, tornava alegres e confortáveis. Ele, por

outra banda, trazendo-lhe nos fins dos meses intacto o seu ordenado, e

trazendo-lhe, cada dia, uma carícia mais fresca e mais suave. E dada a

homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniência comum das suas

naturezas, originárias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas

do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saúde,

explica-se logicamente esse paralelismo absoluto de vontades que os

dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro

avesso nos seus desejos, sem a mínima divergência no seu modo de ver e

de pensar. Educados em meios diferentes, embora! o que nas suas

naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio

visual das suas inteligências, tornara podemos dizer nulo, sem

consequências no fio comum das suas vidas, esse largo período passado

em latitudes diferentes:--ela, onde ambos tinham nascido, debaixo do

mesmo céu, à luz do mesmo sol, à sombra das mesmas árvores; ele,

sequestrado de tudo isso, mas num meio sem cor para ele definida,

pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se

conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente

debaixo do luar melancólico...

Vinha daí, e do fundo ingénuo das suas almas, estreladas das mesmas

superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao

ritmo da mesma canção, essa forte, dulcíssima corrente de ternura

espiritualizada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e

fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada

eflorescência do seu profundo amor... E pois que havia também no sangue

de ambos--bem como no seio de um diamante as iriações mordentes--as

rubras, incandescentes faúlhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se

quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo,

vivente como um largo pâmpano, nimbada, enfim, como certas telas

clássicas, por umas cabecitas loiras de crianças, frescas, ridentes, cor-de-rosa...

Daí, como lhes disse no princípio, esse pequenino e perfumado idílio,

cor-de-rosa, que fora na vida de ambos, durante um ano, o seu mais vivo

encanto...

* * * * *

Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escritório, noite cerrada

já, quando uma rapariguita que lhes servia de criada havia dois dias,

vindo abrir a cancela, lhe desfechou estas palavras no acento beirão:

--A minha madrinha está muito mal.

--Muito mal?

--Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê.

Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se à umbreira,

para não cair, sentiu passar-lhe pelo cérebro, como um tufão de peste,

uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um pressentimento... E cobrando

alentos, confuso diante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz

trémula, no tom de quem procura, comprometido e humilde, esconder um

pensamento:

--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio

da Beira.

--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como

doida...

--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso.

E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do

andar de baixo,--talvez alguém que o procurasse!--fechou a porta com

força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto

impondo silêncio, com a mão sobre a boca arquejante da rapariga.

--Cala-te, ouviste? disse-lhe quase com o bafo--Se te calares hei-de-te

dar dinheiro. Cala-te.

A rapariga calou-se, aniquilada, toda enroscada a um canto, como um

novelo. E passados instantes, quando um grande silêncio envolvia todo o

prédio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem

nas ruas próximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi,

cauteloso como um bandido, levá-la à cama.

--Ouves, Luísa? Não faças bulha. Dorme.

E fechando-lhe a porta à chave, respirou, hirto no meio do corredor em

trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquele silêncio, aquela

escuridão impenetrável! E ele, como um cataléptico, ali encafuado

vivo...--triturado pela mágoa, roído pela dor, desfeito pela desgraça,

como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem,

implacáveis e cruéis, famélicas da última partícula da sua carne,

sedentas da última gota do seu sangue, famélicas e sedentas até da sua

própria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no

entanto... morto: vivo para a sensação esfaceladora da sua atroz

desgraça, do seu cruel, cruciantíssimo martírio; morto, aniquilado,

desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...--as suas

esperanças! revoada alegre de pombas, cândidas, serenas, imaculadas,

que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e

para sempre...

E humilde como um rafeiro ou como um trapo, numa prostração de louco

embriagado, dir-se-ia que o cérebro deixara de funcionar nesse

infeliz--como relógio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e

que tudo quanto ele sentia, e que tudo, oh Deus! quanto ele gozava!

era essa impressão aniquiladora do _Nada_, que o fundia na treva

circundante, com ela identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e

tanto e tão intimamente, que ele próprio nela se sentia diluído, e no

silêncio...

Súbito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado ali de

perto como um réptil, escoado ali de perto, como um verme,

fosforejante na treva à semelhança de um demónio, que agitasse um

_pierrot_ de cascavéis,--uma centelha de vida animou esse corpo

aniquilado, e dentro daquele cérebro fez repontar, como luz de

lâmpada funérea alumiando um cenóbio silencioso, a chama de uma

ideia... E teve então de si próprio a estranha, diabólica visão de um

esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco imóvel

das órbitas, donde dois feixes de luz escorriam--aquele trapo

miserando ali caído, informe, esquálido, repelente, montão de gelo, e

lágrimas, e trevas...--que era ele também!...

Entretanto, e como por força mesmo dessa alucinação desvairada e

trágica, o cérebro perdera nele a recta, serena faculdade do

raciocínio, ele continuava absorto, incompreendido, estúpido, diante

da «sua desgraça»--como diante de um grande mar de negrume, profundo e

estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céu sem estrelas,

torvo de um burel cerradíssimo de nuvens, a sombra de um espectro... E

assim em breve, retombou nessa altitude que diremos irracional,--mudo,

aniquilado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo

de um poço um bloco inanimado...

* * * * *

No escuro do seu cubículo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a

própria treva soluçasse, esse chorar abafado da criança, espavorida das

coisas que a cercavam, para ela misteriosas e fúnebres. Era como se um

alegre pintassilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido

de amendoeira, por uma tarde serena de Abril, pousar, num voo de acaso,

na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de

velho muro, abandonado algures...

E porque viera? E para que viera? Não sabia. No entanto, ao contrário do

que lhe tinham prometido, que saudade infinita, repassada de profunda

nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, através do qual passavam

os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois

dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo!

E não tornara mais a ver pássaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã,

tocando à missa de alva, tangendo à tarde a ave-marias, o seu querido e

alegre sino de aldeia...--além, naquela riba suave e pitoresca,

prateada, beijada do luar àquela hora!... E o fio do seu pensamento,

que outrora derivava límpido, sereno, cristalino, como pequenino

arroio murmurante que vai entre duas alas de flores singelas,

torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido num

veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fora de lágrimas,

oculto sob a folhagem pálida...

* * * * *

A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto

da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez

dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como

acontece às tempestades da natureza, também a tempestade daquela alma

de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente,

gradualmente. Chorou. E como se fora o véu das lágrimas que lhe não

deixara ver até então os pormenores do seu infortúnio, deste

permitindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se

fazer com a vazante mais lúcido o raciocínio, mais precisa e mais

esperta a ideia que se lhe acendeu no cérebro, como luz que pouco a

pouco vai surgindo na lâmpada de um claustro, alumiando nitidamente,

sob o docel frio das sombras, as arestas marmóreas de um sepulcro...

Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas

linhas contornais pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade

rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde seca de Maio. E foram

então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina,

por entre as maxilas ferradas, do fundo do peito em ânsias. Então foi o

arrancar convulsivo dos cabelos, às guinadas, teimosamente, num duelo

de loucura com a dor física, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a

beber o próprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes,

lacerantes como se foram de abutre.

--Ah! raios do céu, e não morro!

E como o grito lhe saiu mais alto, prestes levou ao chão, como

beijando-o, os lábios estranhamente rasgados pela cólera. Veio-lhe então

o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrível de que se

divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a

conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo ele se encolhia, e

todo ele se sentia gelado até ao mais íntimo da sua alma, supondo-se

na rua, como outrora, ao vivo e claro sol, levando aderente às costas,

como um ferrete ou como um cáustico o olhar de «toda a gente»... E com

as unhas ferradas na testa, escondia da própria treva, com as mãos

ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.

--Diabos do Inferno! levai-me!

A este novo grito, porém, súbito se recolheu num grande pavor

religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce,

harmoniosa, como na paz tranquila do campo o fumo azul-claro de um

casal... E teve a doce visão de um arco-íris, bonançoso e rutilante,

repontando luminoso no burel aspérrimo da sua alma, onde uma clareira se

abria. E foi quase a sorrir, chorando as primeiras lágrimas tranquilas,

que dos seus lábios quase serenos voou como uma pomba alvinitente, que

transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:

--Deus!

E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida num

como enlevo de visão, um ruflar de asas de pombas... à hora da alva...

sobre os campos... numa clara manhã de Maio, perfumada...

E como se mão invisível o erguesse, devagar, serenamente, enxugando-lhe

da orla das pálpebras a última lágrima de sangue deposta ali pela sua

alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contíguo, onde

sua mulher estava, o seu anjo, o seu tesoiro, a sua vida... E foi

submissamente, como um cão duramente batido que volta aos afagos do

dono, que sobre os lábios da adormecida esposa, secos, pálidos,

desbotados, ao claro luar vindo do céu, o triste uniu os seus lábios

frementes,--...num beijo suavíssimo de perdão. Ao mesmo tempo que ela,

num delírio, repetia a frase cruel:

--Mais vinho!

NOTAS:

[1] Sendo necessário completar o número preestabelecido de páginas de

cada volume desta _Colecção_, número além do qual se não pode ir e

aquém do qual se não deve ficar,--o editor pediu e obteve do autor, em

vez de novo conto, um excerto do seu livro em preparação, livro

provisoriamente baptizado com o título de _Batalhas domésticas_. O

excerto pode dizer-se que constitui só por si, como os leitores verão,

um trabalho literário, independente e uno, o que de certo modo lhe dá

lugar nesta colecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além

disso, a transição do espírito do autor para uma nova fase, literária

e artística.

N. do E.

ÍNDICE

Idílio rústico

Sultão

Última dádiva

Prelúdios de festa

Tipos da terra

V[ae] Victoribus

Maricas

Para a escola

Tragédia rústica

Abyssus abyssum

Mãe

Arrulhos

Batalhas domésticas

OS MEUS AMORES E A CRÍTICA

Da Revista Ilustrada (extracto da crónica):--«..._Os meus amores_, de

Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições

agradabilíssimas ao paladar de ambos os sexos, e com delicadas

circunstâncias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das

preocupações literárias mais evidentes deste escritor primoroso é

fazer jus à amizade das leitoras, e como dispõe de perícia no ferir de

certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento,

consegue-o.--_Alfredo Mesquita_.

Jornal da Noite:--«Trindade Coelho--Este ilustre escritor, nosso

talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo

livro de contos _Os meus amores_.

De entre a plêiade de prosadores, que por aí mourejam no mundo das

letras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distintamente,

e impõe-se à admiração dos que apreciam os talentos brilhantes

privilegiados.

Os trabalhos do ilustre escritor, se pela estrutura original e

encantadora são dignos do maior apreço, pela elegância da forma,

burilada a primor num estilo finíssimo e cintilante, despertam os

mais francos, sinceros e entusiásticos encómios dos que os lêem.

Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu belo

carácter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos

serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distinto colega.»

Diário Popular:--«_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de

graciosos contos, retratando aspectos da vida da aldeia e do campo, que

acaba de aparecer, firmado por Trindade Coelho.

O escritor, como verdadeiro artista que é, localiza todas as suas

atenções, de há muito, no trabalho de apreender com fidelidade o

viver campesino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi

berço. Por isso o seu fabrico literário se aprimora de dia para dia

numa escala crescente de sinceridade, e por tanto mérito: _Os meus

amores_ o atestam, quando postos em paralelo com os primeiros contos

publicados avulso.

Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o diálogo que busca e

consegue fotografar com particular exactidão. Em vez dos descritivos,

quase desprezados, são trechos sucessivos de conversas de uma

encantadora rudeza ingénua que formam o estofo principal de todas as

suas produções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho

pessoal da sua obra, que proporciona agradáveis e confortáveis momentos

de leitura.»

Diário Ilustrado:--«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um

admirável soneto de Luís Osório, que depomos nas mãos da leitora, como o

perfumado ramo de cravos valencianos, a flor actual das suas

predilecções femininas: (_segue o soneto inicial._)

E pelo braço do poeta da _Alma lírica_ subimos ao doce convívio

espiritual da alma de Trindade Coelho.

O conto _Mãe_, uma rica jóia engastada neste livro, brilhando aí por

todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte

de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para

aferir os dotes mentais de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante

estilo moderno, fluente e sóbrio, incisivo e profundo, vibrátil e

melódico, o diploma do seu notável talento.

É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade

espontânea que estes contos nos cativam.

O autor diz-nos, sem preocupações de escola e sem pretensões a abrir

caminho pela deslocação do vocábulo ou pela selva escura do escândalo, o

que viu, analisou, observou e sentiu.

As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslizam

suavemente, tocadas a espaços de uma inigualável melancolia

contemplativa que lhes duplica o encanto.

Mas nesses singelos contos, artisticamente concretizados, Trindade

Coelho revela o superior poder evocativo da visão íntima, que o

singulariza.

A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para ele,

como para todos os artistas de raça, atitudes, expressões, cores e

sons, que o autor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora

eloquência dos iniciados, e o misterioso enternecimento, que só nos

transmite a simples leitura dos poetas.

Há rápidos traços de análise emotiva ou de comoção reflexa que valem

poemas.

E não serão o _Idílio rústico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente

delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?

Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo

seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o

seu primeiro triunfo.--_Gabriel Cláudio_.»

Jornal do Porto:--«_Os meus amores_.--A colecção António Maria Pereira

aumentou-se de um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e

está escrito pelo nosso ilustre colega e literato distinto o Sr.

Trindade Coelho.

Deste livro que, pelas suas destacadas qualidades literárias, deve

achar grande aceitação no nosso público, escreveremos em breve as

palavras apreciadoras que ele merece.»

Correio Elvense:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado

escritor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas a

que deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de

António Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da

capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa

em Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que

tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto

estilista.

Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor

que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus

triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons

e sinceros amigos.

Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus

amores_, agradecendo desde já as expressões afectuosíssimas que

acompanham a dedicatória do livro, que o seu autor nos ofertou.»

Correio do Norte:--«_Os meus amores_.--Contos e baladas.--Trindade

Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escritor, acaba de publicar um

livro de contos com o título acima indicado. É esta uma bela novidade

para o nosso mundo literário, onde Trindade Coelho de há muito soube

conquistar um lugar dos mais distintos, pelo seu belo talento e

poderosas qualidades de escritor.

Limitamo-nos por agora a dar esta simples notícia do aparecimento do

novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre ele.

Agradecemos ao nosso prezadíssimo amigo a delicadeza do seu

oferecimento.»

O Globo:--«_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de

António Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome

de Trindade Coelho.

Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas há-de ser por certo

trabalho de grande valor artístico, como invenção e como execução,

porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra literária má. A

sua educação literária está feita, e os seus numerosos trabalhos tão

apreciados, tão portuguesmente escritos, tão sentidos e tão espontâneos

revelam qualidades de escritor de raça. Ele tanto pode ser um

jornalista eminente como é um contista original.

_Os meus amores_ é uma colecção de contos e baladas. Conhecemos alguns

capítulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para

não errar na apreciação. Vamos lê-lo com a convicção de que teremos de

saborear um desses raros mimos literários que só os privilegiados de

talento sabem oferecer aos seus leitores.»

Diário de Notícias:--«_Os meus amores_.--_Contos e

baladas_.--Anunciámos, em tempo, o próximo aparecimento deste

trabalho, com que o brilhante contista e nosso colega do _Portugal_, o

Sr. Trindade Coelho, ia aumentar a colecção, já tão valiosa, das

edições do Sr. António Maria Pereira.

O livro acha-se, enfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que

desde logo nos autorizaram a emitir os elevados méritos literários do

seu autor, tantas vezes comprovados em numerosos escritos anteriores.

Com uma observação escrupulosa, e um pitoresco estilo, de uma pujança e

de uma riqueza não vulgares, sem atentados contra o bom gosto, nem

rebeldias contra o bom senso, os contos do Sr. Trindade Coelho são, a

todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que há-de entrar, sem

hesitações, na aceitação do público, e que há-de ficar longo tempo, a

atestar, numa formosa prova, a riqueza de um espírito, superiormente

educado, dúctil e prontamente maleável.

Os meus amores: contos e balladas · 第 9 / 14 段