aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém
com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e
nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que
se uniram, mal cerrara a noite!
A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em
rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos,
acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade
esverdeada rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra
na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num
como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos
de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens,
densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem
cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem...
E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois
olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não
ousava arriscar um único movimento e mais e mais cerrava contra si o
corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase
eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias,
vazias de esperança na vida do seu pequenino filho.
De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a
pobre de súbita alegria,--e no abalo que sofreu o seu corpo, até então
retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a
desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas
fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali
levou a noite toda, farejando e uivando, até que cansado de perscrutar o
insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.
* * * * *
Ao romper da alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de
nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações
imperceptíveis e suaves.
Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as
diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados
de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e
pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu no
alto dos montados.
Pelas ladeiras dalém, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao
areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água
nos açudes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e
informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá
em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar
sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma
ambição ou como um sonho...
* * * * *
Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas
paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
--Ruça! torna ao rebanho, Ruça!
Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida
sobre o cadáver do pobre filhinho morto!...
E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos
rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a
esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...
ARRULHOS
_A M. da Silva Gaio_.
Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orifícios
triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do
muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância.
--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo
levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que
alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso
provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores
seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora,
gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimónia--frangãos
assados e boa vinhaça da terra.
Pombal da Morgada porquê? História singular que vou contar-lhes. A
Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e
outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte
desastrada do noivo--um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali,
sem mais pio, num ai.
A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na
véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a
castidade das suas intenções dele...
Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos
novos--todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadíssimo
alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos.
Belos pombos, na verdade!
Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se
numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas
entrava de se desfazer em imperceptíveis _nuances_ subtis, num
_smorzando_ melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida
cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de
estrelas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de _menagère_, as
provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em
abundância e fartura de alpista.
Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que
levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só,
retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas
que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar
para que se distraísse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia
arranjar noivo, nada mais fácil...»
--E as pombas? objectava.--Mas era pecado deixá-las, dizia consigo.
Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las
todas.
--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciência, que se
divertissem muito, ela ficava.
--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que
rebentou do trambolhão. Bem tola!
E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade
habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um
pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço.
Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não
desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã,
desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortável, muito
abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram
flácidos--folhas de milho mudadas cada dois dias.
Que bom, ser pombo da Morgada!
A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o
aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho,
quando as forças eram sãs e as asas pediam vos.
Hora dos amores!
Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente,
lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada,
arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois,
hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria
e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de
contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,
muito felizes.
Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa
doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via,
suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os
carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de
penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos--beijos
com certeza.
Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a
vida do pombal àquelas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas
mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;
e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
sanguíneo e quem era pachorrento.
Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num
ruído muito doce de bicos que sorviam.
Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao
balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos
ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não
sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas
que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis:
--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...
Dali para o pombal, continuar aquela vida de boémios felizões, vida
de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de
harém.
Poligamia desenfreada!
Excepção a ela, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba
branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto
e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador
vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.
Era o pombo mais atrevido do pombal, o de génio mais insofrido e
espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço,
nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios,
sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando
primazias à força de bicadas.
E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim!
Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar
a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente,
resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava,
incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a
muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
amores.
Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da
perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cómodos de
poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram
de todos e as pombas eram comuns.
E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de
egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma
ofensa!--tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para
a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
contrário.
Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os
encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho
depois!
Um escândalo! Um desaforo!
E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.
Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas,
levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...
Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba
branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois,
lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do
pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,
entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando
acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido
sob a asa veludínea.
Dois meses assim--dois meses!--numa fidelidade conjugal ininterrupta,
digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os
senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora,
pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo
de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...
Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas
de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia.
Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal
disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a
súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos
de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o
raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.
Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do
raiado!--um dia levantou voo e fez-se ao largo.
* * * * *
Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao
_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de
reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das
crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando
cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilómetros só, havia um assim,
o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo
ainda ao tempo.
--Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!--era assim que
muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins,
sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos.
--Teologia velha, diziam, a genuína!
A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era
térreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha,
um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para
um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
estavam.
Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde
quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na
ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a
segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidéu com borla
resguardando-lhe a calvície.
A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações
de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz:
--Fome as pombas, Sr.^a Luísa: não fazem senão saltar...
--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,--mas têm lá
visita, pomba que arribou.
E depois informando:
--Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo...
--Huum!... resmungou o abade em voz de reticências.--Percebo... percebo
perfeitamente...--E foi meter-se no quarto, continuar a
leitura.U+2014.Deixá-las! concluiu evangélico.
Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles
pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com
grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da
varanda, húmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.
Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre:
--A sua vergonha, Sr.^a Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os
animais não fossem também criaturas de Deus...
As pombas eram magras e o pombo era esquelético.
Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a
alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos
se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem
tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o
pombo não a largava--génio de libertino em corpo de tísico.
Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se
queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do
raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!
E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a,
tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus
tratos,--à intrusa. Dor incomparável!
Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar,
descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando
sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais
alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento
e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu
um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia
silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ela tinha
sido e o que era!...
Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do raiado... Oh! o
raiado!... Receou primeiro, quem sabe se ele a quereria, tinha pomba,
decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um voo valente e
estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.
Fez-se de voo e partiu.
* * * * *
A manhã era calma e o céu era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar
que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrela da alva
tinha os últimos bocejos para fechar de todo a pálpebra cansada e
adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado
esplêndido--decoração triunfal com que se orna aguardando a visita de
quem tem de rolar pela eclíptica, alumiando o hemisfério e fecundando
tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...
Naquele repontar da manhã, o alto céu era de uma limpidez cristalina.
Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcíssima paz, e
pelas ramagens verdejantes a volata suavíssima dos ninhos começava, como
uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,
florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa de alva.
Em manhãs plácidas como aquela, quantas vezes a branca não fizera as
suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do raiado,
perdendo-se com ele através do horizonte àquela hora tranquilo e para
toda a banda transparente!
Como tudo isto lembrava, agora!
Em todos esses pinheirais, ao largo, os dois haviam descansado muitas
vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura inefável o amor
extraordinário que os unia! Em toda a largura não se descobria um só
campanário ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres,
contentes, doidos! E ela sempre ufana, acompanhava o macho nos seus
voos ainda os mais arrojados, perdia-se com ele para além das serranias
mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que
empenharia a vida só para salvar a da amante.
E que bela manhã, aquela! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras
acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu voo perpendicular e
rápido!
Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
melros ensaiavam solícitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
largura--nem uma asa de pomba palpitava. Ela só, desalentada e cheia de
mágoas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte...
Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as asas
contra o muro, arremetendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a
coragem, voejando de novo para arremeter em seguida. Os seus antigos
companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
arrulhando forte, saíram em tropel e foram pousar no telhado, batendo
muito as asas combinando ataque.
E como a pomba teimava em entrar, corriam a opor-se, vedando-lhe a
passagem.
De repente, um pombo negro abriu muito as asas, agitando-as, tenteou voo
nuns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a
desgraçada pomba, e os mais após ele. Havia sangue nos bicos e penas
voando em elipsóides, um barulho de asas que se chocavam com fúria. Por
fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado,
bico aberto, num arquejar convulso, cortado de um arrulho gutural de
vida que se esvai lentamente, gradualmente, com dor. Um estremecimento
de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta!
Ares além, os assassinos em bando voavam à busca talvez de um ribeiro
onde lavassem os bicos ensanguentados...
* * * * *
E o raiado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e
vê-lo-ão sair da janela das trepadeiras, alegre, felizão, boémio,
depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um
leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ela,
arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando...
BATALHAS DOMÉSTICAS
BATALHAS DOMÉSTICAS[1]
_A Luís Trigueiros_.
Para o meu propósito, é inútil narrar-lhes esse pequenino e perfumado
idílio, cor-de-rosa, que foi na vida de ambos, durante um ano, o seu
mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde ele, Joaquim Seabra, maior,
empregado de escritório comercial, vivia desde pequeno uma furiosa
vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda ele era fedelho: e
passados poucos meses, tinha o Joaquim sete anos, uma doença complicada
levara-lhe também o pai--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas
leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira,
nas abas da Serra da Estrela.
Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lhos. E
quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo
peito o vaso sagrado das partículas, solene sob a umbela branca de
grandes ramagens amarelas, o pobre homem preveniu o padre de que em
podendo lhe desejava uma palavra.
--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.
Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente,
junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho,
entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo
de lhe murmurar, designando vagamente o filho:
--O pequeno, coitadinho!
De modo que foi o próprio reitor em pessoa, quem, passados dois anos,
veio meter o órfão, como marçano, numa loja de ferragens da baixa,
loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para
uns saguões de prédios contíguos. De marçano subiu com o tempo a
caixeiro; e como era aplicado, humilde, suportando com uma placidez
resignada de beirão um trabalho por vezes superior às suas forças, pulou
um dia para a escrivaninha da casa, no andar de cima, vaga pela saída
para a cadeia do outro que cometera umas falcatruas.
--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera diante dos patrões o
Joaquim.
E a incisiva frase que fora, enquanto remexia a papelada, todo o seu
comentário ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a
involuntária conquista do lugar, como revelação, que era, das qualidades
fundamentais do seu carácter,--comuns, de resto, ao tipo beirão,
profundamente animal, audaz, sóbrio, musculoso, no fundo generoso e bom.