Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva

aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém

com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e

nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que

se uniram, mal cerrara a noite!

A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em

rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos,

acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade

esverdeada rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a

que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra

na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num

como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos

de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens,

densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem

cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem...

E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois

olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a

treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando

convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não

ousava arriscar um único movimento e mais e mais cerrava contra si o

corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.

Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase

eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias,

vazias de esperança na vida do seu pequenino filho.

De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de

novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a

pobre de súbita alegria,--e no abalo que sofreu o seu corpo, até então

retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a

desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas

fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali

levou a noite toda, farejando e uivando, até que cansado de perscrutar o

insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada

que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.

* * * * *

Ao romper da alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de

nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam

lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,

diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações

imperceptíveis e suaves.

Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as

diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados

de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e

pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu no

alto dos montados.

Pelas ladeiras dalém, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao

areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água

nos açudes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e

informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá

em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar

sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma

ambição ou como um sonho...

* * * * *

Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas

paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.

--Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida

sobre o cadáver do pobre filhinho morto!...

E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos

rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a

esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...

ARRULHOS

_A M. da Silva Gaio_.

Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orifícios

triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do

muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância.

--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo

levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que

alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,

como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso

provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde

seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores

seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora,

gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimónia--frangãos

assados e boa vinhaça da terra.

Pombal da Morgada porquê? História singular que vou contar-lhes. A

Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e

outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte

desastrada do noivo--um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali,

sem mais pio, num ai.

A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na

véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a

castidade das suas intenções dele...

Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos

novos--todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadíssimo

alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos.

Belos pombos, na verdade!

Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se

numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas

entrava de se desfazer em imperceptíveis _nuances_ subtis, num

_smorzando_ melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem

caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida

cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de

estrelas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a

estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,

espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de _menagère_, as

provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em

abundância e fartura de alpista.

Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que

levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só,

retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas

que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar

para que se distraísse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia

arranjar noivo, nada mais fácil...»

--E as pombas? objectava.--Mas era pecado deixá-las, dizia consigo.

Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que

matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las

todas.

--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciência, que se

divertissem muito, ela ficava.

--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que

rebentou do trambolhão. Bem tola!

E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a

ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade

habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um

pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço.

Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não

desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã,

desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortável, muito

abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram

flácidos--folhas de milho mudadas cada dois dias.

Que bom, ser pombo da Morgada!

A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o

aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho,

quando as forças eram sãs e as asas pediam vos.

Hora dos amores!

Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente,

lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,

ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,

possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada,

arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois,

hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria

e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de

contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,

muito felizes.

Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,

quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa

doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo

às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via,

suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os

carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de

penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos--beijos

com certeza.

Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a

vida do pombal àquelas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas

mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que

queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;

e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era

sanguíneo e quem era pachorrento.

Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um

pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma

direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num

ruído muito doce de bicos que sorviam.

Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a

Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao

balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos

ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não

sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas

que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis:

--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...

Dali para o pombal, continuar aquela vida de boémios felizões, vida

de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de

harém.

Poligamia desenfreada!

Excepção a ela, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba

branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto

e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador

vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

Era o pombo mais atrevido do pombal, o de génio mais insofrido e

espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço,

nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios,

sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe

entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando

primazias à força de bicadas.

E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim!

Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar

a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente,

resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito

meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava,

incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as

outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam

entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a

muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo

amores.

Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da

perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cómodos de

poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram

de todos e as pombas eram comuns.

E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias

inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de

egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma

ofensa!--tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para

a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao

contrário.

Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os

encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho

depois!

Um escândalo! Um desaforo!

E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar

forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se

isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas,

levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo

quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...

Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba

branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois,

lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do

pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,

entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando

acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido

sob a asa veludínea.

Dois meses assim--dois meses!--numa fidelidade conjugal ininterrupta,

digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os

senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e

esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora,

pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo

de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...

Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas

de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia.

Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,

modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal

disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a

súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos

de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o

raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.

Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do

raiado!--um dia levantou voo e fez-se ao largo.

* * * * *

Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao

_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de

_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de

reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das

crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando

cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilómetros só, havia um assim,

o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo

ainda ao tempo.

--Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!--era assim que

muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins,

sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos.

--Teologia velha, diziam, a genuína!

A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes

a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era

térreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha,

um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para

um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que

estavam.

Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde

quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na

ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a

segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidéu com borla

resguardando-lhe a calvície.

A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações

de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz:

--Fome as pombas, Sr.^a Luísa: não fazem senão saltar...

--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,--mas têm lá

visita, pomba que arribou.

E depois informando:

--Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo...

--Huum!... resmungou o abade em voz de reticências.--Percebo... percebo

perfeitamente...--E foi meter-se no quarto, continuar a

leitura.U+2014.Deixá-las! concluiu evangélico.

Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles

pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com

grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da

varanda, húmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.

Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre:

--A sua vergonha, Sr.^a Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os

animais não fossem também criaturas de Deus...

As pombas eram magras e o pombo era esquelético.

Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a

alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos

se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem

tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o

pombo não a largava--génio de libertino em corpo de tísico.

Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se

queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,

tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do

raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!

E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a,

tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus

tratos,--à intrusa. Dor incomparável!

Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar,

descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando

sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais

alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento

e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu

um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia

silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ela tinha

sido e o que era!...

Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do raiado... Oh! o

raiado!... Receou primeiro, quem sabe se ele a quereria, tinha pomba,

decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um voo valente e

estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.

Fez-se de voo e partiu.

* * * * *

A manhã era calma e o céu era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar

que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrela da alva

tinha os últimos bocejos para fechar de todo a pálpebra cansada e

adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado

esplêndido--decoração triunfal com que se orna aguardando a visita de

quem tem de rolar pela eclíptica, alumiando o hemisfério e fecundando

tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...

Naquele repontar da manhã, o alto céu era de uma limpidez cristalina.

Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcíssima paz, e

pelas ramagens verdejantes a volata suavíssima dos ninhos começava, como

uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,

florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa de alva.

Em manhãs plácidas como aquela, quantas vezes a branca não fizera as

suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do raiado,

perdendo-se com ele através do horizonte àquela hora tranquilo e para

toda a banda transparente!

Como tudo isto lembrava, agora!

Em todos esses pinheirais, ao largo, os dois haviam descansado muitas

vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura inefável o amor

extraordinário que os unia! Em toda a largura não se descobria um só

campanário ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres,

contentes, doidos! E ela sempre ufana, acompanhava o macho nos seus

voos ainda os mais arrojados, perdia-se com ele para além das serranias

mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que

empenharia a vida só para salvar a da amante.

E que bela manhã, aquela! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras

acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu voo perpendicular e

rápido!

Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;

melros ensaiavam solícitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a

largura--nem uma asa de pomba palpitava. Ela só, desalentada e cheia de

mágoas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte...

Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as asas

contra o muro, arremetendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a

coragem, voejando de novo para arremeter em seguida. Os seus antigos

companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e

arrulhando forte, saíram em tropel e foram pousar no telhado, batendo

muito as asas combinando ataque.

E como a pomba teimava em entrar, corriam a opor-se, vedando-lhe a

passagem.

De repente, um pombo negro abriu muito as asas, agitando-as, tenteou voo

nuns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a

desgraçada pomba, e os mais após ele. Havia sangue nos bicos e penas

voando em elipsóides, um barulho de asas que se chocavam com fúria. Por

fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado,

bico aberto, num arquejar convulso, cortado de um arrulho gutural de

vida que se esvai lentamente, gradualmente, com dor. Um estremecimento

de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta!

Ares além, os assassinos em bando voavam à busca talvez de um ribeiro

onde lavassem os bicos ensanguentados...

* * * * *

E o raiado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e

vê-lo-ão sair da janela das trepadeiras, alegre, felizão, boémio,

depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um

leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ela,

arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando...

BATALHAS DOMÉSTICAS

BATALHAS DOMÉSTICAS[1]

_A Luís Trigueiros_.

Para o meu propósito, é inútil narrar-lhes esse pequenino e perfumado

idílio, cor-de-rosa, que foi na vida de ambos, durante um ano, o seu

mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde ele, Joaquim Seabra, maior,

empregado de escritório comercial, vivia desde pequeno uma furiosa

vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda ele era fedelho: e

passados poucos meses, tinha o Joaquim sete anos, uma doença complicada

levara-lhe também o pai--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas

leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira,

nas abas da Serra da Estrela.

Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lhos. E

quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo

peito o vaso sagrado das partículas, solene sob a umbela branca de

grandes ramagens amarelas, o pobre homem preveniu o padre de que em

podendo lhe desejava uma palavra.

--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.

Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente,

junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho,

entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo

de lhe murmurar, designando vagamente o filho:

--O pequeno, coitadinho!

De modo que foi o próprio reitor em pessoa, quem, passados dois anos,

veio meter o órfão, como marçano, numa loja de ferragens da baixa,

loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para

uns saguões de prédios contíguos. De marçano subiu com o tempo a

caixeiro; e como era aplicado, humilde, suportando com uma placidez

resignada de beirão um trabalho por vezes superior às suas forças, pulou

um dia para a escrivaninha da casa, no andar de cima, vaga pela saída

para a cadeia do outro que cometera umas falcatruas.

--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera diante dos patrões o

Joaquim.

E a incisiva frase que fora, enquanto remexia a papelada, todo o seu

comentário ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a

involuntária conquista do lugar, como revelação, que era, das qualidades

fundamentais do seu carácter,--comuns, de resto, ao tipo beirão,

profundamente animal, audaz, sóbrio, musculoso, no fundo generoso e bom.

Os meus amores: contos e balladas · 第 8 / 14 段