--Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal

está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos

na cama.--E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas.--Persignar e

vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem.

E pôs-lhes tudo sobre a cama.

--Mãe, a bênção!--balbuciaram os dois, tontos do sono ainda.

--Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora eu já

volto. Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver.

Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os

olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto

repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito

que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria

tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda

tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego

morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!

Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi

então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou

encantador, todo resplandecente de verduras.

--Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque

será?

O outro encolheu os ombros, não sabia: só se fosse por não haver

nuvens...

Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da

manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito

suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das

laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos

de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta

estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas

das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.

Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã

deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu

imaculado.

--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece?

Olha que é lindo, o rio; ora é, ó António?

--É, lá isso... Mas _tamém_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o

irmão.--A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?--E

mirando por sua vez a paisagem perguntou:--Já reparaste no barco, ó

Manuel?

--Tão bonito!

Os dois riram.

--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.

--Pudera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois

radiante, gesticulando para o irmão:--Mas eu era capaz de o

desamarrar...

--Ai eras!--disse duvidoso o António, para o incitar.

Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era. Ambos dentro

dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos

por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O

barco! Era tão bom andar no barco! E aquele então era lindo, como não

tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem lá não

esquecessem!--aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do

barquinho, ensinando-lhes como se remava.

O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela.

Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.

--Está um dia lindo, avia-te.

--Olha avia-te! p'ra quê?--perguntou o António torcendo e retorcendo o

pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.

O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra quê? A mãe

não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada

se desceis a ladeira.» Já se vê que depois disto...--E os dois

suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!

Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo!

Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de

tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo

o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que

apenas meio palmo acima do nível da água.

--Tate, ó Manuel! E se fugíssemos?

--Ora! se fugíssemos!... E depois? A gente tínhamos de voltar...

Ora aí esta! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o

que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da

mãe:--«Se voltais ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!

Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia

ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na

largura muito ampla da paisagem.

--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com

alegria o Manuel.

--Mas é que está, palavra que está. Agora é que há-de ser bom andar

dentro dele...

Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no

barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso,

cobrando ânimo, o António disse resoluto:

--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela

jaqueta:--Vamos lá, ó Manuel?

O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não

vinha, disse baixo ao irmão:

--À tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela

nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro.

Levam-se os peões...

--Há-de ser mesmo assim! à tardinha!--concordou o António.--Eh! eh! eu

cá desatraco.

--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava.

--Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula--explicou.

--Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres

assim...

--Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser!

E recapitulando, para melhor ficarem combinados:

--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?

--Remas.

--E tu regulas, ora regulas?

--Regulo.

--Ao p'ra cima é às avessas, ora é?

--É.

Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se

impuseram segredo...

--Schiu!...

--Schiu!

* * * * *

A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens

alvejavam, imóveis.

Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes

franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes.

Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos,

e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer

a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.

...E a tarde ia descaindo, cada vez mais límpida.

Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando,

os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,

imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os

cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela

indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio

confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo

amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que

vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as

coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as

formas às coisas...

Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a

passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.

Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um

fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o

tranquilo sono em que iam adormecer.

E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava

mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas

começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos

iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendo

nas águas... Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma

tão poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes transvazava do peito,

fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em

sorrisos.

Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores

absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres

de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção

de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de

alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o

seriam jamais?... No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas

margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto

e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.

--Remas, António?--perguntou o do leme.--Olha se a vês...--E apontava

para Vésper, a estrela que mais brilhava.

Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo

brilho diamantino os fascinava. Tão linda!

--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a

estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe

adiante, só por isso...

--Olha o milagre! Ela está queda!--fez o outro, convencido da

facilidade da empresa.

--Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós; vai lá

entendê-la. Olha como brilha, ó António.

--Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga é que

ela está.

Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora

era certo alcançá-la.

E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais,

quanto mais a olhavam.

--De que são feitas as estrelas?--perguntou o mais novito.

--De prata, pois está visto.

Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu,

exclamou:

--Eh! tanta prata!

--O sol, esse é de oiro--disse ainda o Manuel.

--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmão.--Que eu, se me dessem à

escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho!

--Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais

grande.

E enquanto falavam, os dois não desfitavam olhos da estrela feiticeira

que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com

certo ruído muito doce... E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante

para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.

--Vê-la a fazer assim?--e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação

crebra e irregular da luz sideral.

--É que tem sono--respondeu o outro.

--Olha que não. Aquilo é a fazer-nos negaças, _tamém_ to digo.

--Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo,

bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh,

_boieira_!

Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul,

sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram

em tom de reza as palavras rituais:

Deus te guie bem guiada,

Que no céu foste criada.

--Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a

apontar para elas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.

--A ti talharam-te o ar, ó Manuel.

--Diz a mãe. À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água

para o corpo. E a água havia de estar fria... observou, encolhendo os

ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:

Ar vejo,

Lua vejo,

Estrelas vejo:

O mal do meu corpo

Pr'a trás das costas o despejo.

Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da mãe, havia de ser

engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.

--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por

ano, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas

estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.

--Sempre, sempre?

--Até que morra. Depois de morrer vou morar três dias com três noites

dentro de uma.

--Ora! tornou-lhe incrédulo o irmão.--Tu não cabes lá...

--Não sei: assim é que anda nos livros.

...Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito...

Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo

louco de alcançar a estrela.

A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um

silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a

água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído de uma brandura

suavíssima e doce.

...Mas os braços cada vez doíam mais!...

Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma

como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar

menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o

peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.

...E os braços sempre a doerem!...

Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente,

cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme,

sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.

...E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer...

O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum

estranho. Dentro dele... a música levíssima das respirações dos dois

pequenos adormecidos...

Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento

brusco de balanço, fez acordar o do leme.

Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou

imediatamente:

--Manuel! Ó Manuel!

O remador acordou, sobressaltado.

--A estrela? Ainda lá está, olha!--disse incoerente, estonteado pelo

sono.

--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!--continuou

aflito o António.

--Então não lhe passamos adiante?--perguntou ingenuamente o Manuel,

referindo-se ainda à estrela.

Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade,

de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:

--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!

E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num

choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrível

susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho

aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o

psalmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus,

preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os

rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que

num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir

impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.

E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali.

Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém

viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus aflitivos

gritos.

Crudelíssimo transe!...

E então os braços continuavam a doer, doía-lhes agora o corpo todo, ao

mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o

espírito, parece que embrutecendo-os.

--Mas a estrela sempre além...--notou ainda o Manuel, balbuciante de

medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença

criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela

se haviam precipitado.--Se ela pudesse acudir-nos...

Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas de novo se deixaram

adormecer, era já alta noite.

Mas na sua fúria constante, a corrente que ali era muito forte não

cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após

tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se

contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente.

Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de

súbito acordados romperam em gritos lancinantes:

--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!

Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul.

Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão

mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e

lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua

enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também

com ele!...

* * * * *

...Nesse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrela

feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!...

MÃE!

_Ao Dr. J.C. da Moita Prego_

Bela cabra, a Ruça!--posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada,

luzida, de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva

de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando

cadencialmente o seu chocalho enorme--tlão! tlão! Era no rebanho a que

mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no

seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que

não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não

triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.

E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas

vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e

quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.

Por isso Alípio José, pastor, a quem doíam as denúncias, ao pescoço da

Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais fácil

rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais

grave.

Em pastagens pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia

gosto vê-la trepar às últimas cumeadas, subir destemidamente às arestas

superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,

pescoço alto, ajoelhando destemida a retoiçar as ervas dos declives

alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com

abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos,

saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões

arriscadas de _touriste_.

Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audácias, e

então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de

garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que

encontrasse por essas paragens era para ela um desespero--tamanha a

fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas

na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o

Alípio que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara,

levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu

vozeirão que fazia eco:

--Toma tento, Ruça!

E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos

fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José

ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos

últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar

gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria

infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela

vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho,

resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam

ninho.

* * * * *

Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, e por lá se

deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia

quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem

vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá debaixo, cada

vez mais desesperado:

--Volta ao rebanho, Ruça!

E, cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com

fúria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar:

--Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do

parto, nem o pequeno poderia--pobrezinho!--descer por tais ladeiras, de

pedregosas e ásperas que eram.

Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o pequeno

congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o

aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu

corpo enfraquecido e doente.

Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sítio,

alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava

lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe,

traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do

filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a

instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.

Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças,

impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e

mais num como abraço de eterna despedida--amigos que se iam apartar

para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade,

soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor

que os unia...

E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava

lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal

para o transe derradeiro...

Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as

estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela

dor suprema de que eram as únicas testemunhas.

E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida

do filho, ao menos,--ora súplice em balidos de resignação que uma

profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que

significavam blasfémias, blasfémias de desespero contra o céu que a

não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe

estrangular o filhinho que ela amava tanto.

E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dor--a ironia acerba da

chocalhada longínqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra

banda, deixando-a a ela sozinha com o filho, à espera da morte que era

inevitável.

Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar

fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num adeus! adeus!

de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de

chocalhos...

* * * * *

Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol

entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam

e o sangue circulava.

E o cabritinho sem poder ainda descer!...

De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as

escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como

que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas

horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,

lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.

Impossível! impossível!

E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali,

estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.

Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes

e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o

chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que

o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,

assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo...

Impossível! impossível!

Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem

toda a gama de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se

de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,

estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o

com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e

amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar

ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe

aflitivo...

Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última

cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam

subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva

se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se

cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo

ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de

arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando

os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.

Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num

chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos

estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os

répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama...

...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem

passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda

a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu

dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã...

Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera

passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração

alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o

filho que já tremia a ela aconchegado--o triste pobrezinho!

Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante

naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era

baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando

uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de

crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar

vagaroso de pálpebras sonolentas...

Os meus amores: contos e balladas · 第 7 / 14 段