principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te,
querida amiga, aquele beijo--dulcíssimo beijo aquele!--que tu então me
deste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse,
acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?
Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.
TRAGÉDIA RÚSTICA
I
_Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à
porta do José Grilo_
Truz! truz! truz!
Os de casa acordaram, sobressaltados.
--Schiu! nem pio!--fez o José Grilo para a mulher.--Moita!
--Truz! truz! truz!
Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo
pai.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
divertir...
Mas logo outra vez na porta:
--Truz! truz!
--Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José
Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos
cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de
alguém que fugia.
--Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir--explicou ele
para a mulher.
Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham
vindo pôr zorro...
--Ó mulher, queres tu ver que há novidade?
De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
casebre.
--Ele que demónio de embrulho...?
Pegou-lhe com muito jeito. Era efectivamente uma criança, envolta em
dois trapinhos muito velhos.
--Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha.
--Grandes cadelas!--E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
gente da casa.
--Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os
Bons-dias à gente!
Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo
metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada...
--Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do António das
Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.
Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que
chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
que ia correndo:
--Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.
Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a
saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito
embezerrada, permanecia sem dizer palavra.
--Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de
conta...--observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da
fêmea.
Ela só redarguiu que _nosso_ era um modo de falar. Seria dele, mais
de qualquer desavergonhada...
O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e
pregou-lhe uma gargalhada.
--Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E
deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo.
A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé
da criança, afirmando-lhe às risadas que sim, que o pequeno era filho
dele.
--O pequeno?... mas é que pode ser cachopa--disse o José Grilo para a
mulher.--E certificando-se:--Nada! é rapaz.
Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela
sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.
--Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cómica, braços no ar, o
balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de
sobrepeliz.--Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!
--Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz--disse-lhe de lá o
José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança.
Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito
aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para
ela e disse-lhe muito solene:
--Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.
Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para
ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.
--Juras pelas cinco chagas, ó homem?
--Juro pelas cinco chagas.
--Assim te Deus dê saúde, ó José?
--Assim me Deus dê saúde.
--Preto sejas tu como o teu chapéu?
--Preto seja eu como o meu chapéu.
A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia.
Depois desabafou, muito aliviada:
--Ai!
O José Grilo pôs-se a rir.--«O demónio da Joana, com ciúmes!»
--Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo
tens tu ciúmes?--perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo
diante da mulher desconfiada.
A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--«que o seu homem era um
santinho...»--O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo,
reguingou de alto:
--Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que
enjeitou este...
Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:
--Mas quem seria a grande cadela?
Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém,
murmurando frases de ódio, moralistas:
--Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo
entranhas de lobo.
O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do
José Grilo.
--É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar--disse
contristado o lavrador.
Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
Ana era a outra, a Doroteia do António das Veredas.
--Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demónio vens tu cá
fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?--E deu um bofetão
na filha, «para que soubesse dar o recado».
A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é
que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe
mal sair de casa assim cedo...
--Só se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o José Grilo, virado
para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens.
A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:
--Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.
--Eu sei lá se não se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--Dá cá
daí o pequeno.
Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O
lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois
ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse
bem quente.
--Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço,
p'ra ver isto do ajuste.
A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os
farrapos, gritou para a rapariga:
--Ó D'roteia! espera que inda cá ficou isto.
Então pôs-lhe os farrapos ao ombro--uns pedaços miseráveis de velha
chita--e a Doroteia partiu onde à irmã.
II
_Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de
António Palma, casado com Rufina Maria_
O António Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
a Rufina, principiava a lavar a loiça, quando à grade do quinchoso uma
voz chamou:
--Ó Sr.^a Rufina!
Vieram os pequenos, veio o António Palma, a mulher com as mãos
fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.
--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.
O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de
cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma
desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de
gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos
olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles
não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto
o Palma e a mulher afectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o
pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou
assim:
--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
Já vêem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá
em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que
não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vêem
como eu ando...
Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e
a mulher diziam não sei que monossílabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
prosseguiu:
--Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de
nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me
dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse...
Coitadinho!
Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o
Palma e para a mulher.
--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.
O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de
seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
se havia de arranjar, que sossegasse.
--Que a falar os pontos de verdade, Sr.^a Fortunata, vossemecê é que
tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.
Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.
--Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com
vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.
Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.
--Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira.
Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.
Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atónitos. Depois
continuou:
--Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo
saco...
A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O
Palma prosseguiu:
--Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí
mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na
camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal.
Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado,
sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado.
E mais é que bem pode o rapaz dar em doido...
A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se
dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo
para ele, mal a Sr.^a Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia?
Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os
porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe baptizasse o
filho, dizendo que já tinha nascido.
--No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma.--Anda com
ela ferrada que o filho já nasceu.
Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo
falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não
afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.
Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou.
--Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por
vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem
culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás.
Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já
diz _era_, já fala nele como se o pobre tivesse morrido...
Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns
bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
quando já ia para sair, disse em resumo:
--Fique vossemecê então, Sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela
inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.
Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu
e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali
chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
aos cevados, ficou espantado:
--Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sr.^a Ana!
Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido.
--Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí.
Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe
perguntou num sobressalto:
--Vivo ou morto, Sr. António?
O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse
morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença
do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
fazer.
O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse
com a pergunta: «que se há-de agora fazer a isto?» ele redarguiu,
irado;
--Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há-de
fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...
A velha ia falar.
--Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda
nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu
uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer
cadela vale mais que vocês duas.
O Palma ia-se pondo amarelo, a Sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
que saísse.
--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de
véspera até à feira.
Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua.
--Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me
qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua.
Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos
cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:
--Em estando capaz, rua!
--Daqui a três dias, talvez...
--Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
esses estafermos saírem.
Ora o António Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora--com o
embrulhinho do neto ao colo...
Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado...
Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na
madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do
José Grilo.
Madrugada de Fevereiro, nevava...
III
Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha
amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo
retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo.
Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão
triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto,
faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão
estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul
anunciava um dia de sol.
A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda
daquele lado em contacto com o pequenino...
Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da
levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.
--Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.
Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu
como um eco:
--...Um enjeitadinho.
Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga.
--Sim, um enjeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E
daí... pode ser que não seja...
A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.
--Nada! pode ser que a história seja outra--elucidou o moleiro.--Onde
foi que isso foi posto?
--Esta madrugada, à porta do José Grilo.
--Olá! isso então pode ser coisa dele--observou a rir o moleiro.--Esse
diabo não é seguro.
Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a
explicar à rapariga:
--É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às primeiras,
tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo...
--Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e
senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há-de ter fome.
A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria
ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados.
--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria
a desavergonhada?...
--Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.
--Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso
que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num
falatório pegado. «Que o filho era dele, que se a cabra da mãe
teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.» Um arrazoado
assim, muito comprido.
Espantada, a Doroteia ia falar.
--Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia
isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que
onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar.
Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança.
A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão.
--Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a
Doroteia.--Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai,
coitadinho!
A Sr.^a Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
compungido:
--Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir!
Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho
batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda
que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe
respondera:--«Para a feira. Vender um gado.»
--Ora vá lá o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido
a vender gado.
Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa
por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora,
direita à casa do pai.
--Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto.--E o Paulo
correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
todo o enxoval do triste pequenino...
Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a
criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da
rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda
materna.
--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja
capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho,
embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José
Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem
depois os cães e comê-lo.
E espreitando pela fenda estreita do xaile:
--Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi?
--Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco.
A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de
longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não
tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela
conhecia gritou ali de perto:
--Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa!
E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.
--É o José Tomás que está doido,--explicou o pastor.--Desde que a
mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!
Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa
à rapariga.
--Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho!--rugiu ele com voz
furiosa.
E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas,
impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...
A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente.
E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do
enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
rir-se...
--Conheces? perguntou-lhe a rapariga.
No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não
respondeu.
--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.
Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo
sobre os calcanhares.
E ria... ria... enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável
farrapo, as lágrimas corriam, copiosas...
Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A
mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele... A
grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
homem!
--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vês aí um
estafermo que precisava que a matassem!
O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte
impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.
--Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai
deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.
Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve,
foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos
lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez
ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.
Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía
mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
no seio imenso de um órgão, o vento sul--gemia...
ABYSSUS ABYSSUM...
Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
Assim eles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o
rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia
que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.
--Ouvistes?--ralhara-lhes a mãe.--Olhai se ouvistes: se voltais ao rio,
mato-vos com pancada. Andai lá...
Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com
a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver
tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao
rio. Aos pássaros sim...--lá estavam as calças rotas do Manuel a
dizê-lo--...aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe
que o soubesse...
Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manhã,
mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam
despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do
fidalgo,--lindo barquinho!--sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse
para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.
De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois
rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão
madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo
da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse
sempre para diante... Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua
vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao
barco. Era o seu--«adeus até amanhã!»--àquele pequeno objecto que valia
tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...
Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada...
--Mais nada?
--Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.
Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais
cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para
os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os
patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados,
grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da
agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto
se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na
bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do
vinho. E àquela hora, onde iria já a missa! A última beata, encapuçada
e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na
igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua,
dava com valentia num carro cujo eixo _ardera_ na véspera, e que era
urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a
loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta
diária, enfim; os senhores sabem.
Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois
pequenos.