Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro,

o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma

rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição

e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria

erguer-se, fugir, desaparecer--erguer-se como aquela cruz, fugir como

aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro

na treva...

Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe

provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali,

miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as

quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu,

apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que

dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a

tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha

de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços

hirtos--morrer ali!... Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz

parecia chorar?...

Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos à distância.

Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar

nele, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve

estaria de pé,--de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava

de lhe mostrar... No entanto, a voz é que se não importava:

--Ó José Gaio!

Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o

calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se

para um lado, até ficar detrás dumas urzes. Coisa notável foi,

senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se

recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem... E

quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante... Aos

ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece... Não ia só a

rezar; ia também chorando, aquele homem...

...Quem seria?

Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um

espectro, o filho do José Tendeiro...

O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma

noite como aquela...

Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde

não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.

E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade,

perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte...

Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da

cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou

reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!

Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi

depois, buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.

--Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma

congestão muito linda--dissera um a rir.

--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indiferente.

Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do

abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de

choro. E elevando ao céu as mãos mirradas--ao céu que um divino azul

fazia diáfano--ele exclamou, soluçando:

--Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa

misericórdia!

...Segredo de confissão...--mas o abade bem sabia quem tinha ali

matado o José Tendeiro...

BALADAS

_A Luís Osório_

I

MARICAS

Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito

castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A

boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e

complacente para as nossas balbúrdias e algazarras de todo o dia e de

toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas

balbúrdias e algazarras...

Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e

encantadora--a de não mostrar jamais na sua amizade preferência por

algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois

que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e

brando...

Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos

perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e

interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao

escritório.

--Então esses cábulas? então esses marotinhos? Doente, algum?

--Na estúrdia, Maricas. Andam todos por lá...

--Ora vejam!--fazia ela quase escandalizada.

Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos

que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos ombros uns dos

outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num

_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que

chamando-lhe por tu e ela a nós!

Como eu me lembro!

Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil

perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível.

Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade

singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável,

toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas

algazarras de toda a hora e de todo o instante.

Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não

lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes,

é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie

de directora com casa à parte e viver independente pois que se entrávamos

no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda

de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos

quase sem querer, mas invariavelmente:

--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?

E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à

formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa

da _freira_ de Quebra-Costas--dessa lembram-se vocês... No entanto,

deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte...--coitada!--...a

primeira coisa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui,

estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e

confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a

aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe

perdoássemos, a boa da rapariga.

E nós então galhofeiros, brincalhões:

--Sem mais _aquelas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora

essa!...

E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzito de cobra:

--Pois sim, mas é que às vezes...

--Às vezes quê?...

«Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zangada

connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...»

--Pois não era verdade--perguntávamos-lhe--que ela adorava aquela

_trupe_ de boémios?

--São todos muito bons rapazes--dizia já a sorrir.--Todos me tratam

muito bem...

E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se

iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque

simpatizava ela connosco, a pobre Maricas?

Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do _congnac_ e

do café, ouvia-se lá da janela um _pschiu_! muito sibilado.

--Que manda a D. Maricas? É servida?

E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:

--Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?

O cuidado que lhe dava o jornal!

--Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que

lembrança, o jornal!

Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada

o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas

vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.

E por falar em provas:--a Maricas sabia todos os sinais das emendas,

todos.

--Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra.

--Risco por cima, risco à margem, e um _d_ cortado; é fácil.

--Um _m_ de pernas para o ar, e esta?

--Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber...

Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse

mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava

que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal

escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela,

acenando-lhe com o papel:

--Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo.

À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um _bravo_! e

recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um

cigarro.

A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia

a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em

paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à

noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita

atirava-se-lhe da janela.

--Maricas, aí vai ainda fresquinho!

--'stá bem, obrigada. Vou ler, até amanhã.

Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga.

--Durma bem, ouviu?

E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do

artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que

mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito

bom, «escrito com muita graça e muito bem», como ela dizia.

Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um

interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos,

desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da

Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas

sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em

algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e

gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo,

de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta:

Sei cantigas misteriosas,

Cantigas de endoidecer,

Que os lírios dizem às rosas,

Que as rosas me vêm dizer.

Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silêncio.

«Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»

Todavia...--ó suprema bondade!--...ela nunca se queixava quando no dia

seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se

tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes

que as cadeiras tinham caído.

«Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;

palavra de honra! doravante...»

Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:

--Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora

essa...

* * * * *

Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocês não sabiam! E morreu

tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a

pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a

surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das

suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de

marfim...

Pobre Maricas!

Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde

continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela

tinha ido?!...

Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na

vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura

humilde,--onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites

fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio

de mágoa a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação:

--...«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem»...

Compreendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era

triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha! que nessa

frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte

prematura?! Triste criança que nós não mais veremos!

* * * * *

Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes--_bravo_!--ora

não?...

* * * * *

...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e dela

rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as

seivas...

II

PARA A ESCOLA

No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras

letras. A porta lá estava, amarela com fortes pinceladas vermelhas, ao

cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la.

Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula

quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas

bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada,

num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz

da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada,

falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:

--Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a

encomendinha.

Oh! oh! a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali

estava a encomendinha!

--Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?

E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena

enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia

metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu

entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ numa das mãos e a

saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria

contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.

--Adeus, Josezinho, logo venho cá pelo menino.

Choraminguei, quis sair na companhia dela.

--Não, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui é a escola, é

onde se aprende a ler.--E agachando-se, diante de mim:--Olhe tanto

menino, vê?

--Mas fica tu também--disse-lhe eu então.

Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,

iracundo:

--Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai

tudo raso com bolaria!

Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos

meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos.

Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,

cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão

principalmente.

--Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de

paciência. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre

as bancadas.)--Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa

hora entrasse...

--Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josezinho?

Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.

--É verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino há-de estudar

as suas lições, não é assim?

--Diga, sim senhor--ensinou-me então a Helena.--Hei-de estudar muito e

ser sossegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em

casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?

Ele riu, já sabia; as crianças são todas assim, enquanto estão no mimo

das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E

piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida.

--Faz milagres, Sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz

milagres.

Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair

quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a

palmatória...

--Mas para o nosso Zezito não há-de ser precisa, ora não?

--Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas

obrigações, diga.

--Ora aí é que está--atalhou o professor.--Vê, Sr.^a Helena? Aqui já os

pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas

coisas...

--Sim senhor, sim, enquanto que em casa...

--Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu

menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É

mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?--E bateu

num «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui está neste

livro: «_de pequenino_...

--..._é que se torce o pepino_»--concluiu rápida a Helena, orgulhosa de

saber o que estava no livro, coitada!

--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria

na horta...

Risota dos rapazes!

--Ora vê isto, Sr.^a Helena? vê estes brutinhos?--E com entono, de

palmatória alta, fazendo-se carrancudo:

--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Sr.^a Helena,

começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o

que se chama tudo!

E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram

transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele

podia pedir licença à Sr.^a Helena, e mesmo diante dela _cascar_ de

rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o

Estêvão deixou de me fazer caretas.

--É o que vê, Sr.^a Helena--disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom

do professor.--É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem

ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem

feito muitos doutores.

--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele

pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.

--Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não

faz ao caso.

Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.

Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa

o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor... Morreria

sem ter essa «glória,» decerto! Forte martírio que a Helena veio

recordar-lhe!...

Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia

para ir lá fora.

--_Licéte_!--foi como ele disse, arremedando o latim _licet_. Outros

havia que diziam, por troça, _Aniceto_!

--Ora já a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu não havias

de pedir para ir lá fora, tu...--E ficou-se a fitá-lo, meneando

pausadamente a cabeça.--Ora vá você lá fora.

O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.

--Olá?--chamou zangado o Sr. professor.

O outro assomou à porta, contrafeito.

--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se

percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça

favor de esperar um pouco.

Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:

--Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá!

Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.

--Canalha!--gritou-lhes então, batendo o pé.--Corja de atrevidos!

Sentados, já!

Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele,

apontando para o peito.

--Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.

Mediu-o de alto a baixo. Depois:

--Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fora com

ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das

pressas?...

--Vejo, sim senhor.

--Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o

palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra quê. E sempre quero ver se tenho

de vos ir lá buscar pelas orelhas.

Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o Sr. professor:

--Olá?

Eles assomaram, outra vez, atrapalhados.

--Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?

Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com

efeito alguma coisa...

--Então é aí?

Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.

--Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a Sr.^a Helena.--E

enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial:--Ordinário! marche!

Faltava aquilo. Em obediência aos seus velhos hábitos de militar, dava

o Sr. professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir

ordens suas:

--Ordinário! marche!

Sentou-me então no joelho e perguntou:

--Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o Sr.

capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?

--Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o Sr. prior, dizer

missas.

Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o Sr. professor fez

notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência

qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas

bochechas.

--Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.--E para a

Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, Sr.^a Helena, que respondem a

pés juntos que não querem ser nada. Mau sinal, péssimo, Sr.^a Helena!

Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são

gente.--E virando-se para mim:--Mas então, Josezinho, em que ficamos?

Corneta ou prior?

Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente

em dias de festa, com aquela capa toda doirada...

--Muito bem, escolheste bem. «_Telha de igreja_...

--..._sempre goteja_»--concluiu a Helena que ainda hoje é forte em

adágios.

O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.

--Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josezinho,

para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?

--É.

--Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor--emendou a Helena.

O Sr. professor teve um gesto de indulgência.

--Mas tu não sabes ainda, ora não?

--Não senhor.

Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia

na saca era um livro.

--Querem ver que é um livro?...

--Diga--ensinou a Helena--é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá

ao Sr. professor, tome.

Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do

meu livro.

--Muito bem! muito bem!--aplaudiu o Sr. professor.--Mas este livro é

mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que

queria ser prior, ora já?

Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o

sabia?

--Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar,

não queres?

--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu

quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.

--Primeiro do que aqueles?--perguntou voltando-me para as bancadas.

Então fui eu mesmo que respondi:--«Sim senhor!»--contente com a

lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos

aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a

alguma...

--Ora então está muito bem, estamos entendidos.--E com intenção, ferindo

muito as palavras, para mas gravar no espírito:--A primeira coisa que é

precisa para prior é saber bem isto, vês?--E punha-me diante dos olhos o

livro aberto na primeira página.--Isto aqui é já missa, chama-se o _a b

c_, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.

--_Ito_?--inquiri curioso, furando a página com o dedo.

--Sim, isto. E amanha já me hás-de trazer sabido daqui até ali. Hein?

valeu?

--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.

Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira

lição!

_A B C D E F_!

A minha primeira lição!

--Ora sabe vossemecê o que isto é, Sr.^a Helena? isto que eu tenho

estado a fazer?

--Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é...

--Não sabe, não admira,--disse complacente o Sr. professor.--Puxar o

gosto, Sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o

fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com

mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!

«Mas ele não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas

obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»

--Pois isso é verdade, Sr. professor; mas não sei que é, custa-me a

separar do menino...--disse a boa da Helena, quase a chorar.

--Foi ama, deu-lhe o seu leite, aí é que está a coisa. Pois tenha

paciência. Aprender é tão preciso como mamar--concluiu numa prosa que é

mesmo poesia.

--Pois é preciso, é!...

E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti

na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me

ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:

--Sr.^a Helena!

--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental.

--Já agora, espere mais um instante.

Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.

Depois, intimou:

--Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo

um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora é ali,

Sr.^a Helena, ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe

não deve pesar.

E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo,

lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu

lugar...--o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras...

Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por

acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no

entanto. O mestre vinha a dizer na sua mímica:

--Bolos?... Não?!... Perdoe a Sr.^a Helena, mas isso, quando forem

precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a

mão?... Está bem... Descanse... Mesmo com a mão...

E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre

lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...

* * * * *

Os meus amores: contos e balladas · 第 5 / 14 段