Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,

vocês deixem falar,--tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma

rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a

frase, entalado,--por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,

alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer

fazer suspeitar.

Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

--Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar

franco.

Saltaram-lhe:

--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o

Alves dos Pesos e Medidas.

Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se

via, pelo que se podia julgar...

--Léria!--disseram todos.

O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,

para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo

uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

O Nunes observou modesto, quase agradecido:

--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente.

Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que

está...

--Vocês é um modo de falar,--emendaram alguns.

--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondências,--explicou

sofisticamente o Nunes.

Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com

guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.

Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi

cumprimentá-las, submisso.

--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a

mão:--Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.

Assim... assim...

Então? que diziam àquele calor?

--Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

--O Brasil tal e qual--reforçou o Nunes.

Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite

de truz, aquilo sim!

--Olhe, senhora D. Amélia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi

pena! O Abelzito andava constipado.

A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas

noitadas.--E em voz mais baixa, quase dolente:

--Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

--Não há tal!--fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,

senhor Nunes.

E por pouco que não chorava ao dizer isto.

O Nunes afectou um sentimento profundo:--Era melhor não falar nisso,

não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham

acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma

garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:

--Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois... e

depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso

dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição!

Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu

desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se

vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem

aquele vestido à Amélia.

Não podiam subir, talvez à volta.

--Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase

pronto, que trabalhão!

Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O

risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.

Coisas de anjinhos:

--Verás.

Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que

vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,--homens com malhos, e

mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No

degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de

chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,

zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros

formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

--Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco

Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.

O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,

afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula

valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o

tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E

pedia a rir, boçalmente:

--Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.

E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era

preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

--É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó

Fernando?

--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.

Olhem que pergunta!

Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

--Então, ó Paula...--suplicava o administrador.

--Está fechado o realejo... Depois.

Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou

ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.

--Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_

se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! «gramou» um

entalão que se consolou.

--Quatro coroas.--Na véspera tinha ganho um quartinho.

Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o

chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

--Quem eu te quero à perna é o _Aramis_...--rosnou o Teles escrivão que

embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda ele não

sabe tudo...--insinuava perfidamente.

--Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em

verso--fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.

O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a

analfabetos.

--E eu a brutos, sabe você?

Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício... Ó senhores,

lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com

o outro. Pelo contrário.

O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava

essa importância, essa honra.

O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez

seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas

tesas.

--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter

o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras

portuguesas,--ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.

Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

--Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei

que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu

verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas

não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo

habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o

que mando para público sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no

peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho

triunfante.--Não roubo! nunca roubarei!--afirmou mais alto o

Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois

amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como

ele!--E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os

lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao

Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria

dizer.

--As provas...--e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com

ímpeto:--as provas, vê-las aqui estão!

Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.--Era do ano

que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho

tinha entregado ele mesmo.

--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem.

O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa

em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se

um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos--zás!

versalhada para o _Lembranças_...

--Era colaborador--disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de

Teles.--Era colaborador.

--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da

orelha.--Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as

asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,

chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não

chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é

ele. Nunca o admitiram.

--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses

versos--insistiu o Antunes.

O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe

respondeu. Subiu os três degraus do _pelourinho_, pausadamente, com

pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de

Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade».

--Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar.

E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na página onde o seu

dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em

epígrafe.

Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.

«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de

Lembranças_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria

Teles, escrivão.»

--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Ele

depois assinou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma

complicada do Teles.

Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:

«Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois

que ele os assinava.»

--E então?--perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.

--«Pura ilusão!»--continuou solenemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o

mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os

versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume

_Lira Matutina_.»

Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos

comentários:

«Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a

probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa

porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara--por indigno.»

E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a

porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do

braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,--vingado!

Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,

porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao

Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!...--tinham dado uma

sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro,

por ocasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles

tinham mandado imprimir avulso--para lisonjear o Teles que tivera o

trabalho de os ensaiar no _Santo António_. Hein? quem diabo havia de

dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos,

chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase

disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma

insídia,--um logro à boa-fé, à credulidade ingénua de toda a comarca!

E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho

vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas,

cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e

com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser

ele a despejar do _óculo_ aquela papelada; o Melo da administração,

vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda,

feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os

bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de

frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles,

ensaiador da rapaziada!

Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam

da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora

humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!

O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança

de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel

Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os

impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O

homem--pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que

se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que

desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro.

Arre! cavalgadura!

E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.

--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou comovido o Antunes.--Ó

senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz naquele

intervalo do drama para a farsa?...

Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Ele sempre acontece cada

uma! E relembravam:--levantara-se o pano quando os ouvintes menos o

esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram

apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um

reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam

senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos

que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licor, um

docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo,

debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito.

--Ele que dianho é?--perguntavam.

De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:

--Caluda, sua gentalha!

No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da

recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo

em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de

coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia;

a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glória_, em que

ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de

Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como

saíra do túmulo; aquela canalha da tropa--todos enfim!

Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo

vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei

Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta

à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com

grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo

imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz.

Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.

Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião,

durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um

discurso na bochecha extática do Teles:

«Não era ele o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no

encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter frases, oratória,

porque enfim estava falando a um poeta...--colaborador do _Almanaque de

Lembranças_ para Portugal e Brasil--acrescentou voltado para o público,

esclarecendo. Enfim, finalmente... vinha para aquilo: dar-lhe um abraço

em nome de todos...--e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores

berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--acrescentou

fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.

Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam--«ó

Emilinha!» Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e

Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules

verdes e muita lantejoula a brilhar.

Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o

Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da

«melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu

nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com música da _Muchagateira_

original do Peres do correio.

O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a

Frei Inácio:--Era de mais, era de mais, ele não merecia...--Ora essa!

pareciam dizer-lhe os outros--seríamos ingratos se...

A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,

um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir,

cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas

do tecto desabassem.

Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer

do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia

vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da

boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia

dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da

cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O

Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:

--Alto! suas bestas! Inda não!...

Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a

ombro dizia em caracteres amarelos--_C'est fini_! O pano desceu

então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,

não tinham percebido... Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que

tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:

--_É findo_!

V[AE] VICTORIBUS!

_A Maria Lucila_.

Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a

essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um

pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima

dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa

de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros

têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,

agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar

não sei que estranha elegia... A um relâmpago mais vivo, o José Gaio

apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou,

depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude

do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento,

encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não

ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.

--Vamo' lá com Deus! fazia ele animando-se.

Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de

repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada.

Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão,

que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num

gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigo as

próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do

caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz

implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de

suplicas...

O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber

donde, alguém chamou por ele, lugubremente:

--Ó José Gaio!

O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz

negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos,

apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a

mesma voz tornou-lhe mais de perto:

--Ó José Gaio!

Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um

relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com

força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o

não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de

estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela

voz, como um prolongamento do trovão:

--Ó José Gaio!

Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,

galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma

força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da

água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono,

infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão

quando, estacou ouvindo a mesma voz:

--Ó José Gaio!

E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de

sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de

longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a

tempestade...

Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre

exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os

olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo

o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de

sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente

desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então

deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o

peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:

--Ó José Gaio!

Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo

desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia,

como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o

cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a

mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer,

abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele

a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do

campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse

todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda

Casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos

maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas,

sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que

traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No

meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste

camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à

terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto

implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios

crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável

trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o

largava, imperturbável e monótona:

--Ó José Gaio!

E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la

como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural

muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da

cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.

Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água

depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul

furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer.

Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste

benefício para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos

vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um

deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por

onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,

sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:

--Ó José Gaio!

Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim

ficou--de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase

tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava

no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E

pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva

caíam, vermelhas à luz, como grossas lágrimas de sangue...

Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse

miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta.

Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil

de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E

enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada

prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico

das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com

fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso

espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e

trágico a um tempo, soberbo, majestoso, imponente.

Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões,

aquela voz:

--Ó José Gaio!

Os meus amores: contos e balladas · 第 4 / 14 段