pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
uma horta, além no prado.
--Muita gente... disse a rapariga.
--Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro
pessoas...
A rapariga benzeu-se!
--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
Fagote.--Olhe: o pregador...
--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.
--É. Não o há melhor. Missionário...--explicou o juiz. Pois o pregador,
um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
os pequenos, dois, doze.
--A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.
--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
(_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
mais de vinte e quatro pessoas à mesa.--E a rir-se: Mas há-de sobrar
muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?
--Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
chão assim... E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
Assim...
Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de
estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se for preciso qualquer
coisa... ofereceu-se. As minhas fracas posses...
--Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
mestra...
--E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
Fagote.
E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
--Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.
A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.
--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o
macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
do macaco...
A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
bicho não viesse.
--Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá
daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.
--Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
aquilo já está fechado, o fio.
--Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
das dúvidas.
Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:
--Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.
--Hã? qual pau?
--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.
Ele riu-se.
--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
E como ela ficasse estupefacta.
--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
vinho noutra?
--Ah!...
--Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
satisfeito:
O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho
* * * * *
Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.
--Vai lá ver o que será, ó Luísa!--disse da cama o Fagote sobressaltado.
Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
--Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.
--Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.
--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.
--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?
--Pior do que isso! resumiu o José Manco.
--Pior do que isso, então não sei...
--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.
O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
chapéu.
--Pronto! cá estou!
--Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.
E rodaram rua acima.
--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote.
--Aguarde, que já vai saber. Não tarda.
De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.
--Roubaram Nosso Pai, aposto?!
--Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
e veja vossemecê isto, esta porcaria!
E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farófia_!
Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
com os olhos fitos no papel.
E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.
--Hum! resmungou. Bem sei...
--Não tem que saber,--fez o outro.
--O patife do José da Loja...
--Pois está visto.
--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
Fagote.--Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.
O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
era melhor botar o patife ao desprezo.
--Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
metendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim!
Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
ele José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de
burro não chegam ao céu».
--Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
disse num grande ar de condescendência o Fagote.--E você vá lá regar a
horta.
Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
daquela demora.
--Grande cão! grande cão! monologava.
Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
porta.
--Ó Sr. José.
--Dirá.
--Venho aqui saber de um caso.
Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
da cara:
--Foi o Sr. José que fez isto?
O outro olhou-o, atónito.
--Sim! se foi o Sr. José que fez isto?
--Nada, eu não senhor.
--Jura pela boa sorte dos seus filhos?
Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.
O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.
--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
barriga panda sob o casacório de lona.
--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu
também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.
Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
cumprir uma obra de misericórdia.
* * * * *
Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.
--O fogueteiro! chegou o fogueteiro!
Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
que queria para o jantar.
Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
um foguete.
--Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
--P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em
calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
caso tinha estado sério!
Mentia.
--Hein? mas não o enganavam?
--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
rua:
--Senhor abade! ó senhor abade!
--Que é lá?
--Chegue à janela, faz favor?
--Mas está muito sol, entre você, se quer.
--Só duas palavras:
O abade, um rapaz novo, assomou à janela.
--Que é?
--Chegou o homem!
--O homem! que homem?
--O fogueteiro, quem há-de ser?
--Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?
--De cara.
--Faz-me então um favor?
--Dirá.
--Dê-lhe recados meus.
E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
aquilo tinha sido o fogueteiro.
--Grande homem! com seiscentos diabos!
Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
fogueteiro, com fúria.
--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
amigo, seu grande amigo».
--Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
solene.--Viva o senhor fogueteiro!
--Viva!
...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
que o António Fagote--chorou!...
II
TIPOS DA TERRA
Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a
praça_.»--Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
com casas em volta,--o que na vila havia de melhor em construções.
Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
sete: aquele--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia
ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
o sol.
Eram as sete. Àquela hora é que os--«_figuros_»--da terra, quase tudo
empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
passeavam,--seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
outros do mesmo feitio cavaqueavam,--coletes desabotoados, perna
cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janelas em volta,
nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quase tudo maiores
burocratas:--o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:
--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
lanço fora.»
E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
tais coisas... De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,--um
poucochinho beato,--diziam-lhe.
--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.
E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
um poucochinho sibiladas nos _ss_.
--Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
desses fortes.
Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.
--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
vintém por oito cigarros.--Guarde-os!
«O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»
--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
idiota! forte cavalgadura!
O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.
--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
outros.
Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:--«alguém
era servido?»
Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois
quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
receberia!»--E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
ofício...
Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não há
dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia...
O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.
--Estender as pernas,--disse. Quem vem daí?
Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
sensaboria da praça.
--Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?
--Apareço, vou à desforra.
E cumprimentando em roda:
--Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.
Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.
--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
diga _bem-haja_...
Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dívidas nos outros estancos.--Em toda
a parte.--Lá em casa a família passava fomes.--Um batoteiro de marca.
Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
novo, muito ronceiro, roendo as unhas.
--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o
lisonjear nos seus despeitos.--Bem bom freguês!
Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
de mártir resignado. E não disse palavra--p'ra falar daquele tinha de
falar também deles...
Mandaram vir limonadas,--três limonadas!
--Aí vão trinta réis!
Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,--e
sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.
O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
onde grandes manjericões floriam:
--Ó Emília! Emilinha!
A mulher assomou, gorducha, muito mole.
--Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.
As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,
_Vai alta a lua na mansão da morte_
com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
tinha uma coisa boa--a caligrafia.--Um talhe de letra
bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês naquelas
calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota,
palerma, pechisbeque...
Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
marcha, contrafeito.
--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
telhudo? E isto:--e pôs-se a imitar o escrivão.
Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
em acróstico.
--Isso é o Teles!--fez um que vinha da praça.--Aquilo é um intrujão.
Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
daquilo que _ferve_?
O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia...
--Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas...
--Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas...
--Ora é isso mesmo, nem mais.
--Bem sei.
Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
tostão...
--Eram aos três para beber uma garrafa...
--Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
uma soda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.
--E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
sujava tudo de escuma?
Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
seiscentos diabos!
--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.
E com um sorriso de desdém, exclamou:
--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...
Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
três.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de propósito!
Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
súcia lhe chupava o refresco:
--Tó Ruça! já lá vai esse tempo.
Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:--Que
provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
estar bom...
Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
aquelas coisas.
--Obrigado, ó Melo!
--Obrigado, ó menino!
E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
e limpando os beiços.
Quando o Melo ia sair,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito
cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se ali não tinha,
depois. Isso era o mesmo...
--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado
o Melo.
--Do açúcar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado
acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.
Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
princípio.--E saiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Três
vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...
Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:--que lhe
contassem--«_o escândalo_».
Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vai o outro
chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!
--Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?--quis saber o Melo. Aquilo
há-de ser escrito por alguém, está claro.
Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
eles...
--Quem, então?
Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.
--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga...
Mas o da ideia insistiu, renitente:--havia ali suas coisas que o faziam
lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.
--Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
como um alarve, mente da primeira linha até à última!--disse firmemente
o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.
De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura...
Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.
--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
Engrácia, pobre velha...
--A quem?--interrogaram uns poucos. À Dona quê?
--À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
aos missionários é ela. Presumo eu que é ela--fazia o Nunes das
correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
deitei.
Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
com a D. Joana, a do--«_chá de erva-cidreira_.»--Outra canalhice! A D.
Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
viu:--que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
correspondência. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu
telegramas de... amor_.--Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte... Que afinal, quem
sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?
No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:
--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria...