Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que

lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as

cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que

por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os

goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e

ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.

Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre

visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se

bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de

chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias

todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma

dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham

morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo

que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a

suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria

sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.

Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um

gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo

gemido, e punha-se de novo a andar.

--Vens ou não vens?--perguntava ele, evocando com dorido esforço a

imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se

fosse um relâmpago, apagava-se logo.

Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,

talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar

nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,

apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.

Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e

viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto

onde a sombra era mais densa.

--Temos história...--resmungou consigo o rapaz.

E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou

que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali

fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou

duas, para o caso de não acertar a primeira.

--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a

pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessá-la na direcção do

canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao

lugar onde o rapaz estava.

--Melhor! Mais a jeito ficas...

E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,

para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os

ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo

defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.

O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter

ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da

filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros

por onde elas tinham andado.

Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,

deixou cair as pedras e perguntou:

--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís... Vossemecê que tem?

O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

--Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?

--Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.

Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.

O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José

Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado

agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse

a pedrada.

No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não

fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,

ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.

Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não

sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que

passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.

--Ó Tomás!

--Sr. José!--respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de

barqueiro.

O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os

beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele

então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

--Como tinha de madrugar...

--Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda

que comece a amanhecer.--E como estavam à porta de casa:--Será bom

acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.--Iam à vela

se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.

Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair

sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar

violentamente.

O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.

--Então, Sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que

homem!--E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.--Limpe lá essas lágrimas, que

vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?

O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os

olhos com a manga da camisa.

--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos

braços.--Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique

vossemecê a pensar que o não torna a ver.

Mas era isso mesmo o que ele pensava...

--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu

a chorar o José Cosme.

--Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de

vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,

aparece-lhe aí rico...

Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava

era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.

Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que

se animasse para animar o pequeno--recomendava o barqueiro.

--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.

E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a

pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser

desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde

cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe

tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe

se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade

daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era

quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto

paterno... O último sono! o último sono!

--Ainda se o deixássemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste.

Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de

pôr o barco a andar.

O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o

acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.

Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou

baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse

praticar um grande crime:

--Filho, olha que são horas, meu filho...

Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o

estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da

luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.

--Adeus, pai!

--Adeus, filho!

Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar

aquele abraço.

--Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!

O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do

alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.

--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de

olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.

Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um

instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe

tocou com as pontas dos dedos...

--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a.

A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo

seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda

a bagagem do Joaquim.

Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou

soluçando:

--Quando voltarás ao horto, meu filho?

O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam

de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as

árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.

Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o

sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,

húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava

que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de

modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,

divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação

falavam alto.

--Pronto?--perguntou ainda de longe o Tomás.

Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.

Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos

dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de

angústia, pelo deslizar monótono das águas... Aquilo confrangia o

barqueiro, ele também era pai... Por isso, mal chegaram à beira do rio,

apressou-se a dizer para o pequeno:

--Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.

Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar

o filho:

--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te

veja ir.--E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,

ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a

gente feliz.

--Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã...

Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,

beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.

Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava

desvairado:

--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!

E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas

mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por

uma vez.

--Com'assim, Sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com

força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José

Cosme que suplicava de mãos postas:

--Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!--E o pobre pai caía de

joelhos na areia, numa atitude de súplica.

Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando

ao colo a criança.

--Rema!--intimou em voz rápida.

O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram

_plhau_! sobre a água.

Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao

ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.

--Adeus, Joaquim, adeus!

--Adeus, pai!

--Adeus!

Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na

direcção do barco:

--Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.

Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor

ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,

arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás

que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,

velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de

pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,

de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou

ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!...

Reza-lhe, sim?!

E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe

chegasse o pequeno para o último beijo...

Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a

lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue

em região misteriosa de lágrimas... E no silêncio agoireiro da noite,

apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado

do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais

longe--longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai--com o seu

fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno...

* * * * *

...Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,

diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,

fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à

praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,

tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,

na direcção do horto silencioso...

COMÉDIA DA PROVÍNCIA

_A Alberto Braga_.

I

PRELÚDIOS DE FESTA

Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A

começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e

decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da

festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra

de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que

representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a

entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se

tivesse tempo de o acabar.

--Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E

correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_

fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da

Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá

uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o

António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do

arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que

apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém

falava noutra coisa.

--Então você já sabe?

--Já sei. A cegonha.

--A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...

--O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?

--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei

Arauto Fiel_.

Enganava-se.

O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves

aferidor.

--Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver

arder.

O outro não percebeu. «Que se explicasse...»

--Um urso, no arraial queima-se um urso.

--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Também se lá

queima um burro.

Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não

ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua

predilecção.

O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por

dentro.

--Põe a tranca, se for preciso.

Mas então era cá da rua:

--Ó Sr. António!

E na porta as pancadas ferviam:

--Truz! truz! truz! Sr. António!

--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso.

--O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do

nariz e a carta do foguetório na mão.

--O camelo? perguntava zangado.--O urso?! Camelos me parecem vocês,

ouviram? O que o homem diz é isto.

E lia a carta, rematando:

--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o

macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava

os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra!

E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não

fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar

animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí

tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o

José da Loja.

--Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com

aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe

tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio...

--Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!

--Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal

soube.

E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde

rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se

proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.

Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar

montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de

preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou

lendária:

--Como-te a alma se te mexes!

--E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam

convictos.

Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua

figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com

60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era

nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma

largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.

Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,

conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.

--Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para

se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma

testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,

foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando

prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau

como o pintavam.»

--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o

Fagote. Do que ele é capaz sei eu.

Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe

lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!

Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz

este ano.

--Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa

em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:

«entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...»

--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das ideias do seu

António.»

--Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,

assim me Deus salve!

--Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

--Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.--Foi

este mindinho. Não falha.

E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de

levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de

arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei

quantos andores, acho que meia dúzia!»

--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!

Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do

corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava

olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de

ver assim o seu António.

E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava

farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao

atar das sangrias!»

--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por

esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.

A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...»

--Mau que aí principiamos nós!--E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé

no soalho, arreliado.--Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque

dois eram os do _outro_, o ano passado.

A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da

mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.

--Agora não fanfas tu... insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu

gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.

A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.

--Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.

--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes

de casarem...

--E olha que depois de casada... insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,

enfiando a agulha. Cala-te boca.

Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.

Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo

porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da

Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a

vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou

conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação

lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas...

--É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António

Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De

mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de

vitela assada.

--O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para

um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que

ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!

--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não

queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e

14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.

--Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário...

Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.

--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

Era a criada da mestra régia, foram abrir.

--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a

Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.

Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi

acender uma luz.

«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»

--Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.

--E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais

a criada.

E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que

lhe queria uma palavrinha.

Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa

serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

--Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.

--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe

um favor, disse atrapalhada a criada.

--Se estiver na minha mão...

A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela

com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.

Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda

mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os

papéis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho

afeição ao rapaz...

--Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para

dizer alguma coisa.

--Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero

chegar.

--Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso

nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.--E

dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom

para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.

--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via

disso que eu lhe quero pedir um favor.

Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:

--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,

qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele

estado! inda não há nada que saiu da cama.

--Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa

a Sr.^a Luísa.--Muito longe!

--Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem

eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina

e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!

Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é

que ela não sabia.

--A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais

os mordomos. Não ouvi.

--Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que

o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--suplicou aflita a

rapariga.

--Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade

a Sr.^a Luísa.--Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada...

--Era só isto, muito agradecida à senhora.

Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a

testa.

--Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que

desculpe. Mas enfim que leia como puder.

--Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.

--Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos

os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já

hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

--Chh! fez admirada a rapariga.

Os meus amores: contos e balladas · 第 2 / 14 段