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OS MEUS AMORES
TRINDADE COELHO
*OS MEUS AMORES*
(Contos e Baladas)
_2.^a edição_
LISBOA
Livraria de António Maria Pereira
50, 52--Rua Augusta--52, 54
1894
_LISBOA_
Tipografia e Estereotipia Moderna
11--_Apóstolos_--11
Ao Doutor
António Xavier Perestrelo
«_Os Meus Amores_»
_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
As Desdémonas sois de um outro mouro.
As brancas horas que eu em sonhos douro,
Essas horas febris, iluminadas,
Ei-las fugindo, em tristes debandadas...
Levais nas asas todo o meu tesouro.
Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
Que o céu em estrelas vos converta e mude,
Lá nas longínquas ilusões que exalto;
Como as frementes águas de um açude,
Levai a Deus, no derradeiro salto,
O derradeiro adeus da juventude_...
_Luís Osório_.
IDÍLIO RÚSTICO
_A Fialho de Almeida_.
Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
estúrdia, a desoras...
Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
novo ele se punha a caminhar.
Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
que o eco levou para longe.
--Não gastes pólvora, António!--recomendou o pastor.--Ouviste?
E logo a voz do guardador:
--Madrugas hoje, Gonçalo!
--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.
--Está bem. Adeus!
--Saudinha.
A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo
de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
secas, onde algum réptil passasse vagaroso.
--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.--Busca,
valente!
À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de
paciência,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
o Gonçalo desabafou:
--Uff! até que enfim!--E pensava aliviado:--Nada mais fácil do que
terem-me saído os lobos!...
Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
descuido involuntário--simples remadela pouco a tempo, manobra menos
segura de leme, ou impulso errado de vara.
E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
limitada a paisagem.
A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
manso, e sem o mínimo ruído.
Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.
--Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada...
E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:
--Ora se será ela?...
Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
--Ai, se fosse a Rosária!... dizia consigo.
E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.
«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser
outro que não a Rosária...»
Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.
No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
--Eh lá, Gonçalo, és?
O pastor desatou a rir.
--Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
--Não te esqueceu a moda, rapaz!
--Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária?--Se outra fosse que ma
tivesse ensinado...
Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:
--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
--Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?
--Basta!
E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
bravas.
A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
era como um talismã precioso para livrar de maiores
desgraças--naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.
Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
seguida do seu rebanho.
--Ora viva a Rosária!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da
cachopa.
--Bons dias, Gonçalo; então que ventos?
Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
feira dos Caniços.
--Por sinal que nem rês se vendeu!--lembrou o Gonçalo.
--Por sinal!--disse com pena a Rosária.
Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
sonhar! Nanja ele...»
--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosária.
E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:
--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
como agora tinha acontecido, «tal e qual».
--Assim te Deus salve, ó Rosária?--atalhou rápido o pastor, a quem
enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.
--Assim; pois que dúvida?--tornou-lhe confiada a Rosária.
--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não hás-de dizer assim... Diz certo,
hás-de jurar direito.
--Pois assim me Deus salve...
--Como é verdade...--Diz tudo, Rosária!--suplicava o pastor.
--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava
que nos encontrávamos--concluiu por fim, muito risonha.
E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
ela lhe tinha ensinado.»
--Lembras-te?
A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
--Saem daqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosária, pede por
boca!
A Rosária pediu então a _Pastorinha_.
--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda.
--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá.
E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:
Onde _vás_, ó Pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosária a rir-se.
--É como vês!--afirmou contente o Gonçalo.
Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
confundidos, andavam na pastagem.
--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo.
--Também nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As
pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com júbilo.
--E nós também, ora também, Rosária?
--Também--respondeu afoita a pastora.
E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.
* * * * *
A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
e continuavam conversa.
Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
Rosária...
--Mas o cabelo assim cortado...--disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
nua, e passando a mão pela dele,--é que te não fica bem!
«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
mais, que era como ele gostava...»
--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosária--Lembranças... A
gente quando está aflita...
--...Quando está aflita...--repetiu como um eco o pequeno. E depois,
amuado:--Se promete os olhos...
A rapariga fitou-o, espantada.
--...é porque tos tirava!--concluiu convicto.
Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
--Não falas, Rosária?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para
ela.
--Também tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a
lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois
animando-se:--Já foste à Senhora dos Remédios?
O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.
--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
para acabar com ela:
--Que enfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a
girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o
bilro nos dentes:
--Que às vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem
fez este bilro?
--Foste tu, aposto.
Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou:
--Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
bem promessas fez, mas ela foi-se.
E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
--Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar... Pois
era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para
trás:--Lá anda ela a pastar!--concluiu desalentado.
--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosária,--que as promessas
sempre fazem, lá isso...
E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
firme na sua objecção:
--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!
* * * * *
À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.
--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se eles
fossem tolos...
E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
então propôs que jogassem a pocinha.
--E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
tarde, bato-me com qualquer, sabias?
E generoso:--Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta...
Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a
bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
buscar o pauzinho, quando zinia longe.
--Turco, traz cá!
* * * * *
No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
tão viva a areia branca das margens.
Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:
--Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste?
«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»
--E o mais, ó Rosária?--perguntou de novo com interesse.
A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
respondeu:
--Também.--E sorriu-se.--Pois eu...
Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
de partida, assobiando aos cães.
Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.
--É bonito!--fez notar o pastor.
A Rosária explicou logo:
--São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?
Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro--«boas tardes!
boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
carregados, tilintando campainhas.
--Adeus pequenos! cumprimentou.
--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos.
E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada...
Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.
--Vês além... neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?
A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
--Então é ali?
--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha.
E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
repetiu-lhe muito contente:
--É mesmo além.
Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.
--Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
cavalo.
E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
saber:
--Estás triste, ó Rosária?
--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa.
--Huum! Arrependeu-se...--volveu consigo o pastor.
* * * * *
Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
indefinido do céu.
--E os lobos?--perguntou a Rosária com medo.
--Não há perigo--tranquilizou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães.
* * * * *
Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
deixaram adormecer,--quando a história das moiras encantadas ia no seu
melhor episódio...
E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
crianças...
Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu...
--Bonito dia, Gonçalo!
--Bonito dia, Rosária! Olha...
...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
voando...
SULTÃO
(Copiado do Natural)
_Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.
I
Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
andar um dia inteiro a mourejar no campo.
--Meus pecados, boa tarde!--dizia ele para a mulher, com um sorriso a
afectar seriedade.
Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.
--Deus te abençoe.
--Pai, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno.
--Bem sei! atalhava logo o Tomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro.
E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:
--É que por este caminho não tenho um dia descansado... Nem uma hora...
Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim há-de chegar... A
modos que vou já cansando...
Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
sem ir campos fora, madrugador como um melro.
--Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.
Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.
Costume velho do Tomé:--mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
logo para o filho:
--Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».
O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
contente, dizendo cá da rua:
--«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!
No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
pálpebras pestanudas...
E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,--um grande riso de
alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».
Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono...
Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
a navalha de _meia-lua_:
--Então, «Sultão», não vens?
--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
na soleira, zap!
--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo?
E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
vontade...--que não fosse vê-lo o «Sultão»... Metia entre dentes um
pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:
--Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?
O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
fazendo-se humilde...
--Então se és, anda daí. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra
ti se vieres...
O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
cigano, entrava a tratá-lo por senhor--_sôr_ «Sultão»...
Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
da arrelia.
Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
como um perdido.
--Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.
No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:
--Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez
que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!
Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
superior, a tremer, e roubava-lho da mão.
Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
estrídulas.
--Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.--Até pareces
doido!
--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
o Tomé, nuns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da
merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.
Era precisamente o que o Tomé queria:--ver o «Sultão» a brincar.
...Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
causticantes e chuvas torrenciais.
Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o
mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
espavorida dos inimigos...
--«Sultão»! eh lá! «Sultão»!
Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
desse na bolha atacá-los... E abriam alas de repente, quando ele,
tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
se deixava cair,--derrotado!
--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
como um perdido.
Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquele demónio»!...
Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
viandante.
--Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.
E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
ganhava o terreno perdido--fitando impassível o cão... O bruto formava
então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:
--Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.
E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
ao correr a caravelha:
--Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!
E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
primeiro descer a ver o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na
direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.
Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:
--Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.
E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
falou,--história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:
--Boas noites!
* * * * *
Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
enorme--gelada...
--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa!
A mulher assomou à janela, sobressaltada.
--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!
--Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.
--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!
E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
três na gritaria, defronte do cortelho vazio:
--À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!
Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.
Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:
--Nada!...
II
Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
igreja, as paredes caiadas da escola.
A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
«medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
«medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
brincava, os da lavoura descansavam--vermelhos da soalheira intensa de
todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»--visto
que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
varrendo em roda num afã... Em certo ponto, carros vazios; um além, de
altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
gigantes.
Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
submissa...
Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
farta colheita do Tomé da Eira.
--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.--A primeira
da aldeia!
--Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
dizer, muita palha e pouco grão...
E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.
--Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
bem.
E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
dormir...
--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz aí no chão esse
«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
fiquem bem atados.
O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
ar, se era preciso mais alguma coisa.
--Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
deixa ir os animais a passo. Vai-te.
Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:
--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
bois para o lameiro.
Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:--«seria preciso vir por
eles?»
--Não vale a pena, lá irão.
E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
levava, aqueles dois sacos...
--Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?
«Eles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»
--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!
Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
passava nem à mão de Deus Padre!»
--A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?
Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
a cavalo.
--Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
pálido.--Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele...
Recordaram:--«estrela malhada na testa, a mão direita branca»...
--É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!
E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
estrada.
Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:
--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
a alma lhe deixa! Acudam!
Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
bandas da eira, os cães ladravam.
--Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
agarrados a ele.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!
--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
mais a vocês, se me não largam! Arreda!
E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.
--Vê, Sr. Tomé?!
«Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.
--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão!
--Um quê?
--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!
E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
raso--«com seiscentos milhões de diabos!»
Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.
--Já lhe disse que você é um ladrão!
--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
cerrados.--E não mo diga outra vez, que o racho!
Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.
Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o
comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...»
--Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E
gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
Vês--aí está!
--Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.--Mente!
--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.
--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.
De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
amainou,--prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»
Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
resolver...»
--Serve-lhe o contrato?
--Qual contrato?
--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
bandas donde você vem... Você donde vem?
--Dos Casais.
--Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu...
--E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,--concluíram alguns do
grupo, conciliadores.
--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.
Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe
custara tirá-lo de casa.
--Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
Casais...--afirmou.
--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
dito?--quis saber o Tomé.
--Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.
Ia já a abrir a boca para dizer--«uma!»
--Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
festas ao animal.
E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»
--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!
O burro estremeceu... Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente...
--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!
E afastou-se para o lado, aguardando.
Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
roer as unhas, nervoso...
--Então você porque espera? perguntou.
Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:
--À uma!...
O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita...
--...às duas!
--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Tomé.
E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.
--...às três!
Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
o caso era para foguetes.
--Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!
--Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Tomé a rir.
Tenho-os com dois pés, que não valem metade...
--Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.
--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que
não é com vocês.
E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais...
Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
contínuo na soleira.
--Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!
Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.
--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.
Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
homem teria endoidecido...
--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.
E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
pulo.
--Ah!
A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.
--Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.
Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
qualquer coisa de tomo...
--Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.
--Nome do Padre...
--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!
--Nome do Padre, nome do Filho...
--A caneca! Venha de lá agora a caneca!
--...nome do Espírito Santo!
--Passa bem, ó mulher,--concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
dos demais.--Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!
E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:
--Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.
E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».
--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!
E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.
* * * * *
Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão--sem pinga...
Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.
--Colheita rica, sim senhores, um colheitão!
E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
remexendo o alguidar de barro:
--Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.
...Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
as sopas:
--Ámen!
ÚLTIMA DÁDIVA
_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.
Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a
nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.
De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
simplicidade.
No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.
--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado!
Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
Ora na verdade!... Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.