alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a hum coração
descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece.
Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de
bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza,
nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não sou
gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta feita a este mote, que
escolhi na manada dos engeitados; e cuido que não he tão dedo queimado,
que não seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:
Não quero, não quero
Jubão amarello.
Se de negro for,
Tão bem me parece,
Quanto me aborrece
Toda alegre côr:
Côr que mostra dor,
Quero, e não quero
Jubão amarello.
Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais: Quem gabará a
noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que
não he tão pequena habilidade. E porque vos não pareça, que foi mais
acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto
que se não vá a pasmar.
Perdigão perdeo a penna,
Não ha mal, que lhe não venha.
Em hum mal outro começa,
Que nunca vem só nenhum;
E o triste que tee hum,
A soffrer outro se offreça;
E só pelo ter conheça,
Que basta hum só que tenha,
Para que outro lhe venha.
Que graça será esperardes de mim propositos em cousa que os não tee
para comigo? Pois ainda que queira, não posso o que quero; que hum sentido
remontado, de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada
hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece
he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque
lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mágoa he,
vê-lo-has e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes,
Toda a cousa descontente
Contentar-me só convinha
De meu gôsto:
Que o mal, de que sou doente,
Sua mais certa mézinha
He desgôsto.
Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver, dá-o pola tua alma. O
mal sem remedio, o mais certo que tee, he fazer da necessidade virtude:
quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque,
emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este
proposito, pouco mais ou menos, se fizerão humas voltas a hum mote
d'enchemão, que diz por sua arte zombando, mais que não de siso (que
toda a galantaria he tirá-la donde se não espera), o qual crede que tee
mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida,
e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera
dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi:
Dava-lhe o vento no chapeirão,
Quer lhe dê, quer não.
Bem o póde revolver,
Que o vento não traz mais fruito;
E mais vento he sentir muito
O que, emfim, fim ha de ter.
O melhor, he melhor ser,
Que o vento no chapeirão,
Quer lhe dê, quer não.
Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do
bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte até
matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar
a palha a esta materia, são necessarias azas de Nebri. Mas vós sois
homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos
sei dar he:
Que esperança me despede,
Tristeza não me fallece,
E tudo o mais me aborrece.
Ja que mais não mereceo
Minha estrella,
Só a tristeza conheço,
Pois que para mi nasceo,
E eu para ella.
No mundo não tee boa sorte, senão quem tee por boa a que tee. E
daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira:
Vivo assi ao revés,
Tomando por certa vida
Certa morte,
Com que fólgo em que me pês;
Pois minha sorte he servida
De tal sorte.
Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o vejais louvar, não ha
quem o louve com a boca, que o não tache com o coração.
Ajuda-me a soffrer
Vida tão sem soffrimento,
E tão sem vida,
Ver que, emfim, fim hão de ter
Desgôsto e contentamento
Sem medida.
Attentae que não são maos confeitos de enforcado, para os que estão com
o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejão
differentes na vida, são conformes na morte; porque vemos
Que não ha tão alta sorte,
Nem ventura tão subida,
Ou desastrada,
A quem o assópro da morte
Não sopre o fogo da vida.
A seu fim todas cousas vão correndo;
Nem ha cousa, que o tempo não consuma,
Nem vida, que de si tanto presuma,
Que se não veja nada, em se vendo.
Que o mais certo que temos,
He não termos nada certo
Cá na terra.
Pois para seus não nascemos;
Se o seu nos dá incerto,
Nada erra.
Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo
recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e não se
acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:
Forçou-me amor hum dia, que jogasse;
Deo as cartas, e az de ouros levantou;
E sem respeitar mão, logo triumphou,
Cuidando que o metal, que me enganasse.
Dizendo, pois triumphou, que triumphasse
A huma sota de ouros, que jogou,
Eu então por burlar quem me burlou,
Tres paos joguei, e disse que ganhasse.
Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos
que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias
de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma
hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a
hum convento. Duas cousas não se soffrem sem discordia; companhia no
amar, mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse. Não se póde ter
paciencia com quem quer que lhe fação o que não faz. Desagradecimentos
de boas obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo, que tee
mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos cá
nomeados.
Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o coração está
triste: panno he, que não toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a
claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que
dá: não tee que agradecer, quem, no que recebe, a não recebe; porque
bem comprado vai o que com ella se compra. Não se dá de graça o que se
pede muito. Estai certo, que quem não tee huma vida, tee muitas. Onde
a razão se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que
louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que
se não guardárão, podendo. Não ha alma sem corpo, que tantos corpos faça
sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes
os homens cuidão que a ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha
amizade; nem a póde haver em desigual conversação. Bem mereceo o engano,
quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver
no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual,
perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le
duele. Ora temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi achareis
meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de
si, e com razão;
Pois somente nos he dada
Para que ganhemos nella
O que sabemos.
Se se gasta mal gastada,
Juntamente com perdella
Nos perdemos.
Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais
fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve he,
Ponderemos e vejamos
Que ganhamos em viver
Os que nascemos:
Veremos, que não ganhamos,
Senão algum bem fazer,
Se o fazemos.
E por isso respeitando,
Que o por vir tal será,
Enthesouremos;
Porque ao certo não sabemos
Quando a morte pedirá
Que lhe paguemos.
Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo
mais aborrecida que a verdade, tee-se em menos conta que a virtude. Mas
com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade, acarreta mil
pensamentos vãos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma
cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonança,
como ella; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras,
dando com os corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no inferno,
que he bem ruim gasalhado.
E pois todos isto temos,
Não nos engane a riqueza,
Por que tanto esmorecemos,
Traz que vamos;
Ja que temos por certeza
Que quando mais a queremos,
A deixamos.
Gastâmos em alcançá-la
A vida; e quando queremos
Usar della,
Nos tira a morte lográ-la:
Assi que a Deos perdemos,
E a ella.
Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pêga morta_. Que me dizeis ao
contentamento do mundo, que toda a dura delle está emquanto se alcança?
Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque
acabado de alcançar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o
contentamento que deo. Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar
humas palavrinhas de proposito.
Mundo, se te conhecemos,
Porque tanto desejamos
Teus enganos?
E se assi te queremos,
Mui sem causa nos queixamos
De teus danos.
Tu não enganas ninguem;
Pois a quem te desejar,
Vemos que danas:
Se te querem qual te vem,
Se se querem enganar,
Ninguem enganas.
Vejão-se os bens que tiverão
Os que mais em alcançar-te
Se esmerárão;
Que huns vivendo, não vivêrão,
E outros, só com deixar-te,
Descansárão.
Se esta tão clara fé
Te põe claros teus enganos,
Desengana:
Sobejamente mal vê,
Quem com tantos desenganos
Se engana.
Mas como tu sempre mores
No engano em que andamos,
E que vemos,
Não cremos o que tu podes,
Senão o que desejamos
E queremos.
Nada te póde estimar
Quem bem quizer conhecer-te
E estimar-te;
Qu'em te perder ou ganhar,
O mais seguro ganhar-te
He perder-te.
E quem em ti determina
Descanso poder achar,
Saiba que erra;
Que sendo a alma divina,
Não a póde descansar
Nada da terra.
Nascemos para morrer,
Morremos para ter vida,
Em ti morrendo:
O mais certo he merecer
Nós a vida conhecida,
Ca vivendo.
Emfim, mundo, es estalagem,
Em que pousão nossas vidas
De corrida:
De ti levão de passagem
Ser bem ou mal recebidas
Na outra vida.
Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em
enfadonho, de que me parece me não livrará, nem ainda privilegio de
Cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus encargos. E
porque não digais que sou herege de amor, e que lhe não sei orações,
vêdes, vai huma: _Di, Juan, de qué murió Blas?_ com hum pé á Portugueza,
e outro á Castelhana: e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer
palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi:
Di, Juan, de que murió Blas,
Tan niño y tan mal logrado?
Gil, murió de desamado.
Dime, Juan, quien se engañó,
Que con amor se engañase,
Pensando que el bien hallase,
Adonde el mal cierto halló?
Despues que el engaño vió,
Que hizo desenganado?
Gil, murió de desamado.
Travou com elle pendença,
Em ter razão confiado;
Mas Amor, como he letrado,
Houve contr'elle a sentença:
E co'aquella differença,
Disse entre si o coitado:
Gil, morreo de desamado.
Quem tee razão tão cerrada,
Que não saiba, sendo rudo
E sem respeito,
Que sem Deos he tudo nada,
E nada com elle tudo
Sem defeito?
E sendo isto assi tão certo,
Como todos confessamos
E sabemos;
Não troquemos pelo incerto
O em que tão certo estamos,
Pois o vemos.
A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton,
porque del dicho al hecho, vá gran trecho. E de saber as cousas a passar
por ellas, ha mais differença, que de consolar a ser consolado. Mas assi
entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehendê-lo, e poucos a
emendá-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos huma
quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc.
* * * * *
_O seguinte fragmento de uma composição satyrica em prosa e verso, em
que Luis de Camões descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa
se festejou a successão de Francisco Barreto no governo daquelle Estado,
appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas,
e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das
divisas que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou sacerdotes de
Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._
.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave
em que foi convertida Alcithoe com as irmãas, por desprezarem os
sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não
queria ser convertido em tão baixo animal e tão nojoso, dizia a sua
letra assi em Castelhano:
Si yo desobedeciere
Á tu deidad santa y pura,
En al mudes mi figura.
Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era maliciosa, e que não
queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que
desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a
letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que
molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois
ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava
os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira;
árvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao pé della alguns
ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi:
Ficae vencidas, sem gloria,
Vós vides e vós parreiras;
Porque os ramos das palmeiras
São os que tee a victoria.
Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão dizer que este devoto,
deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e
Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de más
linguas, ou de mal costumadas gargantas?
Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou
por divisa huma peça de chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e
dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho:
Sem ágoas, Senhor, levaio
Se for bom,
Que las aguas de Moncaio
Frias son.
Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião de physica, serem
melhores os mantimentos simples, que os compostos.
Outro, que no beber lançava a barra inda mais além que os acima
escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas
brazas de fogo; e a letra dizia:
En el fuego vivo yo.
Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: _De fuego la bebo yo_.
Donde os praguentos quizerão adivinhar que este galante bebia Orraca de
fogo. O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho acêrto.
Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros,
quaesquer que fossem, o que de cada hum sabía, sem respeito, tirou por
divisa hum demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando e apontando
com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra:
Se fallar demasiado,
Não mo tachem, porque, emfim,
Aquella alma falla em mim.
Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedírão dous d'outra
religião que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirarião
tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados
ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxerão
pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:
Se como vós ha hi par,
Vós o podereis julgar.
Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens, porque tão subtilmente
quizerão interpretar a innocencia desta letra, que tomárão a derradeira
syllaba da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da derradeira,
que vem a dizer _parvos_; e disserão que juntos significavão isso
aquelles dous innocentes. Mal peccado! tão errada anda a maldade humana,
que logo tee por parvos aos que sabem pouco!
Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que
tinha partes maravilhosas; porque era tão perfeito em suas cousas, que o
seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os
seus vestidos erão sempre dos mais finos pannos e sitins, que se
podessem descobrir; e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe
estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversação, e
com as amigas hum fingir que queria o que não queria. E, emfim, até no
jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar erão necessarias.
E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a
ponta do nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa
toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi:
Pontos de honrado e sisudo
Sempre na vida quiz ter;
Apontado no viver,
Apontado mais que tudo
Em meu vestir e comer.
Pontos subtis no meu gôsto,
Mais subtis no conversar:
Tanto me vim a apontar,
Que apontado trago o rosto,
E as cartas para jogar.
Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos nestas festas e
canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas
infinita escritura fôra, segundo todos os homens da India são
assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha
nos mais.
FIM.
* * * * *
NOTAS.
NOTAS.
Pag. 16. V. 17. _Não do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lição
viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em Deos
está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra
destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos
seduz e encanta. Corrigimos portanto:
*Não do sol, nem da candea.*
P. 67. V. 4. _De mim tão longe._] Todas as ed.; mas he êrro, porque o
poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e
pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos:
*De si tão longe.*
P. 123. V. 25.
_Vós na minha gloria posto.
Eu na vossa sepultura._]
Todas as ed. Mas he justamente o contrário:
*Vós na vossa gloria posto,
Eu na minha sepultura.*
P. 124. V. 9.
_Mas se esse rosto fingido
Quizereis representar,
Houvera por bom partido
Dar-lho a alma do sentido
Para a gloria do lugar._]
Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos:
*Mas se esse rosto fingido
Quizerão representar,
E houverão por bom partido
Dar-vos a alma do sentido
Para a gloria do lugar:
Víreis etc.*
P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que
evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª
aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as
restituimos.
P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve
ser _affeito d'alma_.
P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he
êrro: corrigimos:
*Sem saber de cuidado o que sentia;*
isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia.
P. 185. V. 20. _Ao pé d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente
aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edições,
propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás mais.
P. 185. V. 24. _Tão queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio:
corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_.
P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupção de
texto: corrigimos:
*Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,*
porque se entende flores.
P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He
corrupção de texto: corrigimos:
*Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.*
P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He
corrupção de texto: corrigimos:
*Ai que me deras vida em morte dar-me.*
P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de
que vivia_] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor
só pode faltar as plantas: corrigimos:
*E como debil flor etc.*
P. 215. V. 15.
_Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de
mais grandeza_]
Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem
portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições:
*Por que Rei, por que duque eu me trocára,
Por que Senhor de grande fortaleza?*
P. 220. V. 30.
_Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o
desvio_]
Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos:
*Se o successo he contrário da vontade
Nas obras que são boas, e ha desvio etc.*
P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Quãmanha infamia, 3.ª
ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta.
P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto:
corrigimos:
*Populares (ó Pallas) etc.*
P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No
qual, pois tudo em vós etc._] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que nos
parece ser a do poeta.
P. 224. V. 11.
_O querido de Deos por quem peleja
O ar tambem, e o vento socegado,
Ao atambor acode, porque veja
Que quem a Deos ama, he de Deos amado_
Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de Faria corrigio:
_Oh querido de Deos, por quem peleja
O ar tambem, e o vento socegado!
Ao tambor acode, porque veja
Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._
Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar; porque o
poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas
praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as
settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no
ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa,
observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o
vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja
que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido
natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos erão imitação
dest'outros de Claudiano:
_O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris
Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether,
Et conjurati veniunt ad classica venti._
julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não accommodá-los
ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem ao menos
saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta
exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim
estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a
lição antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue
vicio de cópia, corrigimos:
*O querido de Deos, por quem peleja,
O ar tambem e o vento socegado
Ao atambor lhe acodem, porque veja
Que o que a Deos ama, he de Deos amado.*
P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas
aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:
*Com louvores de Apollo, e celebrado.*
P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do
Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he
obra do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição.
P. 257. L. 7. _Que são muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o
poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um
escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:
*Que são pouco, e valem muito.*
P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as
ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:
*Que tal dizem, que he?*
P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como
Apostolo, mais piedosa que huma lamentação._] Todas as ed.; mas he
vicio: corrigimos:
*Que vem podre de amor etc.*
P. 259. L. 8. _Olá, Senhores._] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:
*Olá, Senhoras.*
P. 286. V. 1. _Mas qué amo y cararon._] Lição vulgar. He grande estrago
de texto: corrigimos:
*Mas qué amo y qué cabron!*
P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He êrro: deve ler-se:
*Dir-se-vos-ha.*
P. 370. V. 14.
_Pois só desse encantador
Me quero vingar de ti._]
Lição vulgar: he viciosa: corrigimos:
*Pois so desse encantador
Me quero vingar em ti.*
P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lição vulgar: he êrro de
cópia ou de impressão: corrigimos:
*E se mal nos succedesse.*
P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achára, (que era
homem sabio na arte magica) e como a criára._] Lição vulgar; mas a
oração esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.;
de como a achára e como a criára.*
P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lição vulgar: He viciosa,
porque falta a clausula da oração: corrigimos:
*He levar-me a lenha o vento.*
P. 418. L. 5. _Pois não devia assi de ser posantos e vanselos._] Lição
vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos:
*Pois não devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.*
P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lição vulgar. He viciosa:
corrigimos:
*Que o amor e os cangrejos.*
P. 447. V. 16.
_Que das montanhas erguidas
D'algum monte não sahisse._]
Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos:
*Que das montanhas erguidas
Algum monstro não sahisse.*
P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lição vulgar; mas aqui ha vicio de
texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma
exprimir-se. Corrigimos:
*Se eu tanto amasse.*
Pag. 467. V. 12.
_Que quando por accidente
Da fortuna desastrado
Fosse apartado da gente
N'um lugar onde somente
Das feras fosse guardado:
E por ferro, fogo e ágoa
Buscar minha morte iria._]