Dizei-me huma.
VILARDO.
Ei-la aqui;
E veja o saibo que tem;
Porque esta trovinha assi,
Saiba qu'he trova do assem.
_Trova._
Passarinhos, que voais
Nesta manhãa tão serena,
Sabei que só minha pena
Póde encher mil cabeçais.
SOLINA.
O rifão está salgado.
Essa pena te dou eu?
VILARDO.
Vós e Amor, que de malvado,
Me tee melhor empennado,
Que nenhum virote seu.
Pois se me ouvíreis cantar!
SOLINA.
E tu es tambem cantor?
VILARDO.
Canto melhor que hum açor.
Quereis que vos venha dar
Musiqueta de primor,
E que vos mande tanger
Muito melhor que ninguem?
SOLINA.
Ja isso quizera ver.
VILARDO.
Querer-me-heis, se o eu fizer,
Algum pedaço de bem?
SOLINA.
Querer-te-hei trinta pedaços.
VILARDO.
E esse querer dará fruito,
Que me tire destes laços?
SOLINA.
E que fruito?
VILARDO.
Dous abraços.
SOLINA.
Esse fruito custa muito.
VILARDO.
Esse he o amor qu'em vós ha?
Pezar de minha mãe torta!
SOLINA.
Ora hi, chamae logo lá
Vosso amo que venha cá,
Porque he cousa que importa.
VILARDO.
Logo?
SOLINA.
Logo nessas horas.
VILARDO.
Não estarei aqui mais?
SOLINA.
Não. Ainda ahi estais?
Vós haveis mister esporas.
VILARDO.
Irei, porque me mandais.
SCENA III.
_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._
PASTOR.
Mas de un mez es ya pasado
Que en esta sierra andais;
Y es caso mal mirado
Que andeis guardando ganado
Por una que tanto amais.
Y si os determinais
En querer casar con ella,
Juro á mi que nada errais;
Y si eso es para habella,
En vano cabras guardais.
Ya me distes vuestra fé
(Sábenlo estas tierras todas):
Yo con ella me engañé,
Que luego mandar llamé
Quien festejase las bodas.
Y agora dicis con pena,
Que es dura cosa casar:
Pues volveos hora buena,
Que no habeis de engañar
Con palabras Florimena.
VENADORO.
Quem se ha de ter coração
Para tamanho temor?
Que em mim pegando estão.
De huma parte a razão.
E d'outra parte o Amor.
Tambem vejo que perdella
Será minha perdição;
Que bem me diz a affeição,
Que pouco faço por ella,
Pois não desfaço em quem são.
PASTOR.
Digoos, si por bajeza
Dicis que no os conviene,
Daros hé una certeza,
Que en sangre y en nobleza,
Tanto como vos la tiene.
VENADORO.
Pastor, digo que daqui
Farei tudo que quizerdes;
E se mais quereis de mi,
Digo que vos dou o si
Para tudo o que quizerdes.
PASTOR.
Dios os dé su bendicion;
Y pues que casais con ella,
Yo os afirmo en conclusion,
Que aun de vos y mas della
Verná gran generacion.
Yo me voy por ella, hijo,
Tomadla asi mal compuesta;
Verná quien haga la fiesta;
Que en placer y regocijo
Nos festeje esta floresta.
SCENA IV.
VENADORO _só_.
Ó ribeiras tão formosas,
Valles, campos pastoris,
Porque vos não revestis
De novas flores e rosas,
Se minha gloria sentis?
Porque não seccais, abrolhos?
E vós, ágoa, que regando,
Os olhos his alegrando,
Correi, que tambem meus olhos
D'alegres estão manando.
Ah pastora, em quem espero
Poder viver descansado!
Comtigo guardarei gado,
Que ja eu sem ti não quero
Nenhuma alteza d'estado.
Diga o que quizer a gente,
Tudo terei n'huma palha,
Porque está claro e evidente
Que não ha honra que valha
Contra a vida descontente.
SCENA V.
_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que
traz Florimena._
PASTOR.
Pues el amor os obliga
Á que hagais tan buena liga,
Tomando á Dios por testigo,
Daqui os la entrego, amigo,
Por muger y por amiga.
VENADORO.
Consentis nisto, Senhora?
FLORIMENA.
Senhor, em tudo consento.
VENADORO.
Oh grande contentamento!
FLORIMENA.
Saiba que nunca tégora
Lhe houve inveja ao tormento.
PASTOR.
Asi lo dices, bobilla?
Oh! mala dolor os duela!
Pero no es maravilla
Quien consiente ansi la silla,
Consienta tambien la espuela.
SCENA VI.
_Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro,
que andão em busca de Venadoro._
LUSIDARDO.
Tres dias ha ja que ando
Por esta larga espessura
A Venadoro buscando;
E o que delle vou achando
He como quer a Ventura.
MONTEIRO.
Senhor, cuido que lá vejo
Huns lavradores cantar.
LUSIDARDO.
Hi diante perguntar.
MONTEIRO.
Cumprido he seu desejo,
Se a vista não m'enganar.
LUSIDARDO.
Como assi?
MONTEIRO.
Elle não vê
Aquelle pastor loução
Com huma moça pela mão?
Se Venadoro não he,
Nem eu o Monteiro são.
PASTOR.
Quien veo allá asomar,
Que se viene á nuestras bodas?
BOBO.
No los dejemos llegar,
Que nos vernan á roubar,
Juro á mi, las migas todas.
LUSIDARDO.
Oh Venadoro, meu filho!
Es tu este?
VENADORO.
Tal estou,
Que cuido que este não sou.
LUSIDARDO.
Certo que me maravilho
De quem tanto te mudou.
Como estais assi mudado
No rosto e mais no vestido!
VENADORO.
Ando ja n'outro trocado,
Tanto, que fiquei pasmado
De como fui conhecido.
E se Vossa Mercê vem
Para me levar daqui,
Mais ha de levar que a mi;
E ha de ser quem me tem
Todo transformado em si.
BOBO.
Eso porque lo entendeis?
Por las migas por ventura?
Voto á tal no llevareis:
Por mas y por mas que andeis
No hareis tal travesura.
VENADORO.
Esta formosa donzella
Em mi teve tal poder,
Que folguei de me perder;
Pois, emfim, vim achar nella
O que não cuidei de ser.
Tanto em mi pôde este amor,
Que a tenho recebida;
E se o êrro grave for,
Aqui quero ser pastor:
Deixe-me ter esta vida.
LUSIDARDO.
He certo tal casamento?
VENADORO.
Tenha-o por cousa segura.
LUSIDARDO.
Oh grande acontecimento!
Dest'arte sabe a ventura
Aguar hum contentamento!
PASTOR.
Óigame, Señor, á mi,
Como hombre sabio, discreto,
Porque acaeció así,
Y lo que supo hasta aqui
Lo puede tener por cierto.
Muchos años son corridos
Que en esta fuente abierta,
En estos valles floridos
Hallé dos niños nascidos,
Y á su madre casi muerta.
Los niños chicos crié,
(Y desto cierto me arreo)
Y á la madre sepulté;
Y despues un gran deseo
De saber esto tomé.
Como yo fuese enseñado
De chico á la mágica arte
Por mi padre, que es finado;
Muy conoscido y nombrado
Soy por tal en toda parte.
Yo con yervas de la sierra,
Animales y otras cosas
Haré, si el arte no se yerra,
Que desciendan á la tierra
Las estrellas luminosas.
Soy, en fin, certificado
Que la madre de los dos
Fué Princeza de alto estado.
Y por un caso nombrado
La trajo á esta tierra Dios.
El macho, como creció,
Deseoso de otro bien,
Á la Corte se partió:
La hembra es esta por quien
Vuestro hijo se perdió.
Y si mas quiere, Señor,
De mi arte, prestamente
Dello le haré sabedor;
Mas ha de ser de tenor
Que no lo sepa la gente.
LUSIDARDO.
Mas vamos-nos, se quereis,
Que não soffro dilação,
A minha casa, e então
Lá disso me informareis,
Que caso he de admiração.
E vós, filho, não cuideis
Que a gloria de vos achar
Não he tanto d'estimar,
Qu'em qualquer 'stado que esteis,
Não folgue de vos levar.
ACTO QUINTO.
SCENA I.
_Solina, Dionysa e Filodemo._
SOLINA.
Eis Filodemo lá vem:
Asinha acudio ao leme.
DIONYSA.
Isso he de quem quer bem;
Mas não sei se o vio alguem,
Porque quem espera teme.
Agora me quizera eu
Daqui cem mil leguas ver.
FILODEMO.
Folgára eu assi de ser,
Porqu'este cuidado meu
Fôra mais de agradecer.
Que quando por accidente
A Fortuna desastrada
Vos apartasse da gente
N'hum deserto, onde somente
Das feras fosseis guardada;
Lá por ferro, fogo e ágoa
Buscar minha morte iria;
A voz ronca, a lingua fria,
Tamanho mal, tanta mágoa
Ás montanhas contaria.
Lá, mui contente e ufano
De mostrar amor tão puro,
Poderia ser que o dano,
Que não move hum peito humano,
Que movesse hum monte duro.
DIONYSA.
Nesse deserto apartado
De toda a conversação
Merecieis degradado
Por justiça, com pregão
Que dissesse: _Por ousado_.
E eu tambem merecia
Metida a grave tormento,
Pois que, como não devia,
Vim a dar consentimento
A tão sobeja ousadia.
FILODEMO.
Senhora, se me atrevi,
Fiz tudo o que Amor ordena;
E se pouco mereci,
Tudo o que perco por mi,
Mereço por minha pena.
E se Amor pôde vencer,
Levando de mi a palma,
Eu não lho pude tolher;
Que os homens não tee poder
Sôbre os affectos da alma.
E ainda que pudera
Resistir contra o mal meu.
Saiba que o não fizera;
Que pouco valêra eu,
Se contra vós me valêra.
Não deve logo ter culpa
Quem se venceo d'armas tais:
Assi que nisto, e no mais,
Tomo por minha desculpa
Vós mesma que me culpais.
E se este atrevimento
Com tudo for de culpar,
Acabae de me matar;
Que aqui tenho hum soffrimento
Que tudo póde passar.
E se esta penitencia,
Que faço em me perder,
Algum bem vos merecer,
Fique em vossa consciencia
O que me podeis dever.
Que dizeis a isto, Senhora?
DIONYSA.
Eu que vos posso dizer?
Ja não tenho em mi poder,
Segundo me sinto agora,
Para poder responder.
Respondei-lhe, vós Solina,
Pois que a vós me entreguei.
SOLINA.
Bofé não responderei:
Veja ella o que determina.
DIONYSA.
Não o vejo, nem o sei.
SOLINA.
Pois eu tambem não sei nada.
DIONYSA.
Porque?
SOLINA.
Do que eu fizer,
Se despois se arrepender,
Dirá qu'eu fui a culpada.
DIONYSA.
Eu só quero a culpa ter.
SOLINA.
Senhora, por não errar,
Não quero que fique em mim.
Esta noite no jardim
Ambos podem praticar
Como isto venha a bom fim.
Lá poderão ajustar
Entr'ambos o parecer;
Qu'eu não m'hei nisso de achar,
Que não quero temperar
O que outrem ha de comer.
DIONYSA.
Vós vêdes a torvação,
Que lá nessa casa vae?
SOLINA.
Dá-me cá no coração
Que he vindo o Senhor seu pae
Com o Senhor seu irmão.
DIONYSA.
Filodemo, hi-vos embora,
Fallae depois com Solina.
SOLINA.
Vamos-nos tambem, Senhora.
Receber seu pae lá fóra;
Não venha sentir a mina.
SCENA II.
_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._
VILARDO.
Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as sedas.
DOLOROSO.
Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.
VILARDO.
Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a
traga a nós.
DOLOROSO.
Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará
quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher
de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes
são como homens sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde
possão fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia
quem ha de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem
pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados.
VILARDO.
Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi
zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous
meus amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.
DOLOROSO.
Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Não seja de siso; porque
será a maior parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que
tu finges.
VILARDO.
A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum
cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.
DOLOROSO.
Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores
te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu
tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque
daqui iremos á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum
certo requerimento.
VILARDO.
Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem
temperadas?
DOLOROSO.
Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.
VILARDO.
Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e
bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa
nova.
_Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro
pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor
diz Vilardo:_
Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.
DOLOROSO.
Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que
nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras.
SCENA III.
O MONTEIRO _só_.
Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería
quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque
não podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos,
esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora
notae bem de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo:
perdeo-se Venadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae
enfadado, a irmãa triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do
couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como
camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serranica d'Alentejo; e
veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a recebeo por mulher; e
rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranças de seu pae;
pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: _Por esta deixarás teu
pae e mãe_. E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso
era _solus peregrinus_: sabei que os não dá a fortuna senão aos pares,
como quédas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de
seda, moça sem fel como pombinha, que nos annos não tinha feito inda o
enequim; mais formosa que huma manhãa do S. João, mais mansa que o Rio
Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum
pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se
poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida,
com tanto que dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em
castanhas (não sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola
manga a falla da garganta; mas, com tudo, não ha quem se tenha) seu pae
a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que
perdêra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes
nos cabeçaes se desejar ave de penna.
SCENA IV.
_Duriano e o Monteiro._
DURIANO, _como cantando_.
Ti ri ri, ti ri rão.
MONTEIRO.
Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida
agora?
DURIANO.
Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.
MONTEIRO.
Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo
que ficou só em casa?
DURIANO.
Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso
caso para sahir com elle a desafio.
MONTEIRO.
Porque?
DURIANO.
Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil,
que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou
cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe
vem a descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.
MONTEIRO.
Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja
sôbre isso não sei que fábulas.
DURIANO.
Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda.
Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado
del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?
MONTEIRO.
Tudo isso ouvi ja.
DURIANO.
Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca
lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como
era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher
abalão, desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos!
se lhe começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se
desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então
necessario acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle:
acolheu-se em huma galé; e vêde la Princeza em huma galera nueva, con el
marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano
Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos á costa
d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella
buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a
galé á costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem
escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece
que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára.
Sahio finalmente a moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria
huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher
pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde,
despois de ter perdido toda a esperança de ter algum remedio, derão-lhe
as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas
crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da
delicada mulher não pudesse sustentar tantos e tão desacostumados
trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar,
deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa
de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a viboras. E como
as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum pastor que as
criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de maneira que,
por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia
he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.
MONTEIRO.
Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo
namorar a filha do Senhor que serve: não haverá logo por mal o Senhor
Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos.
DURIANO.
Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se
parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.
MONTEIRO.
Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de
quem isso contou.
DURIANO.
No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou
todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas
solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o
mesmo parentesco tee com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho
contentamento; cuido que zombão delle.
MONTEIRO.
Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu
matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo:
dissimulemos.
SCENA V.
_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mão, e Filodemo a
Dionysa._
LUSIDARDO.
Quem não ficará pasmado
De ver que por tal caminho
Tee a Ventura ordenado
Filodemo, meu criado,
Vir ser meu genro e sobrinho!
Quem não pasmará agora
De ver a ventura minha,
Que tee tornado n'hum'hora
Florimena, huma pastora,
Ser minha nora e sobrinha!
Dem-se graças ao Senhor,
Cujo segredo he profundo;
Pois que vemos que quiz dar
A ventura e o amor
Por prazeres deste mundo.
* * * * *
CARTAS.
CARTAS.
CARTA I.
Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a não vi;
porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se
deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me não
fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos não lembro,
determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos
vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante
mão vos pago com novas desta, que não serão más no fundo de huma arca
para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que todo o mato he
ouregãos, e não sabem que cá e lá más fadas ha.
Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo,
mandei enforcar a quantas esperanças dera de comer até então, com pregão
público: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos,
que por casa trazia, porque em mim não ficasse pedra sobre pedra. E assi
posto em estado, que me não via senão por entre lusco e fusco, as
derradeiras palavras que na nao disse, forão as de Scipião Africano:
_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem
peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de
más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja,
de verem _su amada yedra de sí arrancada, y en otro muro asida_.... Da
qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendião em odios que
disparavão lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de
hum leitão. Então ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude
de Achilles, que não podia ser cortado senão pelas solas dos pés; as
quaes de mas não verem nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar
conversações da mesma impressão, a quem fracos punhão mao nome, vingando
com a lingua o que não podião com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com
que me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa terra me armavão
os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado
que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade
Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe de villões ruins, e madrasta
de homens honrados. Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre
se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que sua opinião deita á las
armas Mouriscote, como maré corpos mortos á praia, sabei que antes que
amadureção, se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião de valentes ás
costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos,
que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao
effeito da obra, salvão-se com dizer que se não podem fazer tamanhas
duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra
João Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufiões,
verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la
viva sangre. Callisto de Siqueira se veio cá mais humanamente, porque
assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel
Serrão, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tee cá provado
arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que
elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era
cá tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes são
obrigatorias a huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero
Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que não ha
cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que
a terra dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe falleis alguns
amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos huma linguagem meada de
hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança ágoa
na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentirá
hum estomago costumado a resistir ás falsidades de hum rostinho de
tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com ágoa,
vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como
não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que ás
mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente
ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis mezes de má vida
por esse mar, que eu as espero com procissão e palio, revestido em
pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe irão entregar as chaves da
cidade, e reconhecerão toda a obediencia, a que por sua muita idade são
ja obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto[3]
que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em
sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a
qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece
melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandára para a mostrardes lá a
Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver;
mas a occupação de escrever muitas cartas para o Reino, me não deo
lugar. Tambem lá escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua:
se lha não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde.
Vale.
[3] He o Soneto 12.
* * * * *
CARTA II.
Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.; e se dahi passar,
seja em cinza; porque não quero que do meu pouco comão muitos. E se
todavia quizer meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e
valha sem cunhos.
La mar en medio y tierras, he dejado
Á cuanto bien cuitado yo tenia:
Cuan vano imaginar, cuan claro engaño
Es darme yo á entender que con partirme
De mí se ha de partir un mal tamaño!
Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do
sentimento! E senão, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido.
Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes
cuidados jogão meus pensamentos á barreira, tendo-me ja, pelo costume,
tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo
uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho
eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno,
por não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro,
sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a
tristeza no coração, he como a traça no panno.
E por tão triste me tenho,
Que se sentisse alegria,
De triste não viviria.
Porque a tal sorte vim,
Que não vejo bem algum
Em quanto vejo,
Que não nasceo para mim;
E por não sentir nenhum,
Nenhum desejo.
Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que deseja-las. E por isso
Só, tristeza, vos queria,
Pois minha ventura quer
Que só ella
Conheça por alegria;
E que se outra quizer,
Morra por ella.