E eu mal adivinhava

Que me viesse este dia,

Que ha tantos que desejava.

Se huns olhos por vos servir,

Com o amor que vos conquista,

Se atrevêrão a subir

Os muros da vossa vista,

Que culpa tee quem vos vir?

E se esta minha affeição,

Que vos serve de giolhos,

Não fez êrro na tenção,

Tomae vingança nos olhos,

E deixae o coração.

SOLINA.

Ora agora me vem riso.

Assi que vós sois, Senhor,

De siso meu servidor?

DURIANO.

De siso não, porque o siso

Me tee tirado o amor.

Porque o amor, se attentais,

N'hum tão verdadeiro amante

Não deixa siso bastante;

Senão se siso chamais

A doudice tão galante.

SOLINA.

Como Deos está nos Ceos,

Que se he verdade o que temo,

Que fez isto Filodemo.

DURIANO.

Mas fê-lo o démo; que Deos

Não faz mal tanto em extremo.

SOLINA.

Bem. Vós, Senhor Duriano,

Porque zombareis de mim?

DURIANO.

Eu zombo?

SOLINA.

Eu não m' engano.

DURIANO.

S' eu zombo, inda em meu dano

Vejais vós mui cedo a fim.

Mas vós, Senhora Solina,

Porque me querereis mal?

SOLINA.

Sou mofina.

DURIANO.

Oh! real.

Assi que minha mofina

He minha imiga mortal.

Dias ha qu'eu imagino

Qu'em vos amar e servir

Não ha amador mais fino;

Mas sinto que de mofino

Me fino sem o sentir.

SOLINA.

Bem derivais: quanté assi

Á popa o dito vos veio.

DURIANO.

Vir-me-ha de vós, porque creio

Que vós fallais dentro em mi,

Como esprito em corpo alheio.

E assi que em estas piós

A cahir, Senhora, vim;

Bem parecerá entre nós,

Pois vós andais dentro em mim,

Que ande eu tambem dentro em vós.

SOLINA.

He bem: que fallar he esse?

DURIANO.

Dentro na vossa alma, digo,

Lá andasse, e lá morresse!

E se isto mal vos parece,

Dae-me a morte por castigo.

SOLINA.

Ah mao! Como sois malvado!

DURIANO.

Mas vós como sois malvada,

Que de hum pouco mais de nada

Fazeis hum homem armado,

Como quem 'stá sempre armada!

Dizei-me, Solina, mana.

SOLINA.

Qu'he isso? Tirae lá a mão:

Oh! vós sois mao cortezão.

DURIANO.

O que vos quero m'engana,

Mas o que desejo não.

Não ha aqui senão paredes,

As quaes não fallão, nem vem.

SOLINA.

Está isso muito bem.

Bem: e vós, Senhor, não vêdes

Que poderá vir alguem?

DURIANO.

Que vos custão dous abraços?

SOLINA.

Não quero tantos despejos.

DURIANO.

Pois que farão meus desejos,

Que querem ter-vos nos braços,

E dar-vos trezentos beijos?

SOLINA.

Olhae que pouca vergonha!

Hi-vos d'hi, boca de praga.

DURIANO.

Eu não sei certo a que ponha

Mostrardes-me a triaga,

E virdes-me a dar peçonha.

SOLINA.

Ora ide rir á feira,

E não sejais dessa laia.

DURIANO.

Se vêdes minha canseira,

Porque lhe não dais maneira?

SOLINA.

Que maneira?

DURIANO.

A da saia.

SOLINA.

Por minha alma, hei de vos dar

Meia duzia de porradas.

DURIANO.

Oh que gostosas pancadas!

Mui bem vos podeis vingar,

Qu'em mim são bem empregadas.

SOLINA.

Ao diabo, que o eu dou.

Como me doeo a mão!

DURIANO.

Mostrae cá, minha affeição,

Que essa dor me magoou

Dentro no meu coração.

SOLINA.

Ora hi-vos embora asinha.

DURIANO.

Por amor de mi, Senhora,

Não fareis huma cousinha?

SOLINA.

Digo que vades embora.

Que cousa?

DURIANO.

Esta cartinha.

SOLINA.

Que carta?

DURIANO.

De Filodemo

A Dionysa vossa ama.

SOLINA.

Dizei, que tome outra dama,

E dê os amores ao démo.

DURIANO.

Não andemos pola rama.

Senhora, (aqui para nós)

Que sentis della com elle?

SOLINA.

Grandes alforges sois vós!

Pois hi-lhe dizer que appelle.

DURIANO.

Fallae, que aqui 'stamos sós.

SOLINA.

Qualquer honesta se abala,

Como sabe que he querida.

Ella he por elle perdida:

Nunca n'outra cousa falla.

DURIANO.

Ora vou-lhe dar a vida.

SOLINA.

E eu não lhe disse ja

Quanta affeição lh'ella tem?

DURIANO.

Não se fia de ninguem,

Nem crê que para elle ha

No mundo tamanho bem.

SOLINA.

Dir-vos-hia de mim lá

O que lh'eu disse zombando?

DURIANO.

Não disse, por S. Fernando!

SOLINA.

Ora ide-vos.

DURIANO.

Que me va!

E mandais que torne? Quando?

SOLINA.

Quando eu cá vir lugar,

Vo-lo mandarei dizer.

DURIANO.

Se o quizerdes buscar,

Não vos deve de faltar,

Se não faltar o querer.

SOLINA.

Não falta.

DURIANO.

Dae-me hum abraço

Em sinal do que quereis.

SOLINA.

Tá, que o não levareis.

DURIANO.

De quantos serviços faço

Nenhum pagar me quereis?

SOLINA.

Pagar-vos-hão algum'hora,

Que isso a mi tambem me toca;

Mas agora hi-vos embora.

DURIANO.

Essas mãos beijo, Senhora,

Em quanto não posso a boca.

SCENA VI.

_Solina que traz a almofada, e Dionysa._

SOLINA.

Ja Vossa Mercê dirá

Qu'estive muito tardando.

DIONYSA.

Bem vos detivestes lá.

Bofé que estava cuidando

Em não sei que.

SOLINA.

Que será?

Aqui somos. (Quanté agora

Está ella transportada.)

DIONYSA.

Que rosnais vós lá, Senhora?

SOLINA.

Digo que tardei lá fóra

Em buscar esta almofada.

Que estava ella agora só

Comsigo phantasiando?

DIONYSA.

Bofé que estava cuidando

Qu'he muito para haver dó

Da mulher que vive amando.

Que hum homem póde passar

A vida mais occupado:

Com passear, com caçar,

Com correr, com cavalgar,

Fórra parte do cuidado.

Mas a coitada

Da mulher sempre encerrada,

Que não tee contentamento,

Não tee desenfadamento,

Mais que agulha e almofada?

Então isto vem parir

Os grandes erros da gente:

Forão mil vezes cahir

Princezas d'alta semente.

Lembra-me que ouvi contar

De tantas affeiçoadas

Em baixo e pobre lugar,

Que as que agora vão errar

Podem ficar desculpadas.

SOLINA.

Senhora, a muita affeição

Nas Princezas d'alto estado

Não he muita admiração;

Que no sangue delicado

Faz amor mais impressão.

Mas deixando isto á parte,

Se m'ella quizer peitar,

Prometto de lhe mostrar

Huma cousa muito d'arte,

Que lá dentro fui achar.

DIONYSA.

Que cousa?

SOLINA.

Cousa d'esprito.

DIONYSA.

Algum panno de lavores?

SOLINA.

Inda ella não deo no fito?

Cartinha sem sobre-escripto,

Que parece ser de amores.

DIONYSA.

Essa he a boa ventura?

SOLINA.

Bofé que mo pareceo.

DIONYSA.

E essa donde nasceo?

SOLINA.

No meu cesto da costura:

Não sei quem m'alli meteo.

DIONYSA.

Mostrae-ma; não hajais medo,

Mana. Eu que vos descobri...

SOLINA.

E se ella vem para mi,

Logo quer ver meu segredo?

Não a veja: vá-se d'hi.

Ei-la-ahi.

DIONYSA.

Cuja será?

SOLINA.

Não sei certo cuja he.

DIONYSA.

Si; sabeis.

SOLINA.

Não sei, bofé.

DIONYSA.

Ora a carta mo dirá.

SOLINA.

Pois leia Vossa Mercê.

_Abre Dionysa a carta, e lê-a._

Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della,

ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo

triste, senão por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa

commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a não

commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos á medida das

affeições, e as affeições á medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu

amor póde ser pouco, nem fazer menos: se este não bastar para

consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter

mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que

com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.

SOLINA.

Quanta parvoice diz!

DIONYSA.

Ora muito boa está!

Como vós, mana, sois má!

Não sejais vós tão biliz;

Que bem vos entendo ja.

Cuja he?

SOLINA.

E eu que sei?

DIONYSA.

Pois quem o sabe?

SOLINA.

O démo.

DIONYSA.

Certo que he de quem temo;

Que os ditos que nella achei

São todos de Filodemo.

Este homem, que atrevimento

He este que foi tomar?

Qual será seu fundamento?

Que mil vezes me faz dar

Mil voltas ao pensamento.

Não entendo delle nada.

Mas inda qu'isto he assi,

Disso que delle entendi,

Me sinto tão alterada,

Que me arreceio de mi.

Eu inda agora não creio

Que he verdade este amor;

Mas praza a Deos, se assi for,

Que inda este meu arreceio

Se não converta em temor.

SOLINA.

Ja vós, ja sêdes,

Peixes, nas redes.

Senhora, quem mais confia,

Mais asinha a cahir vem:

Natural he o querer bem;

Que o amor n'alma se cria,

Sem o sentir quem o tem.

Filodemo, no que ouvi,

Tee-lhe sobeja affeição;

E postoque o creia assi,

Ou eu sonhei, ou ouvi.

Que era d'alta geração.

Logo na phisionomia,

Nas manhas, artes e geito,

Mostra mui grande respeito:

Nem tão alta phantasia

Não se põe em baixo peito.

DIONYSA.

Tudo isso cuido, e vi

Mil vezes miudamente;

Mas estas mostras assi

São desculpas para mi,

E não para toda a gente.

SOLINA.

O seu moço vejo vir

A nós, seu passo contado:

Este he muito para ouvir,

Que diz que me quer servir

D'amores esperdiçado.

SCENA VII.

_Vilardo, Solina e Dionysa._

VILARDO.

Senhora, o Senhor seu pae,

Mesmo de Vossa Mercê,

Ja lá para casa vae:

Por isso, Senhora, andae,

Que elle me mandou n'hum pé;

E diz que fosse jantar

Vossa Mercê mesmamente.

SOLINA.

E ja veio do pomar?

DIONYSA.

Oh quem pudéra escusar

De comer, nem de ver gente!

(Nenhuma côr de verdade

Tenho do que m'elle manda.)

VILARDO.

S'ella sem vontade anda,

Eu lh'emprestarei vontade,

Empreste-m'ella a vianda.

SOLINA.

Va, Senhora, por não dar

Mais em que cuidar á gente.

DIONYSA.

Irei, mas não por jantar;

Que quem vive descontente

Mantem-se de imaginar.

VILARDO.

Pois tambem cá minhas dores

Me não deixão comer pão;

Nem come minha affeição

Senão sopadas d'amores,

E mil postas de paixão.

Das lagrimas caldo faço,

Do coração escudella;

Esses olhos são panella

Que coze bofes e baço,

Com toda a mais cabedella.

SCENA VIII.

_O Monteiro, um pastor e um bobo._

MONTEIRO.

Perdeo-se por esta brenha

Venadoro, meu Senhor,

Sem que novas delle tenha:

Queira Deos que inda não venha

Desta perda outra maior.

Contra esta parte daqui

Des pos hum cervo correo,

Logo desappareceo:

Como da vista o perdi,

O gosto se me perdeo.

Eu, e os mais caçadores,

Corremos montes e covas;

Fallamos com lavradores

Deste valle, e com pastores,

Sem acharmos delle novas.

Quero ver nestes casais

Que cobre aquelle arvoredo,

Se acharei pastores mais,

Que me dem alguns sinais

Que me possão tornar ledo.

_Chama._

Ó dos casaes, ó de lá:

Ah pastores, não fallais?

PASTOR.

Quien sois, ó lo que buscais?

MONTEIRO.

Ouvis? Chegae para cá.

PASTOR.

Dicid vos lo que mandais.

BOBO.

No vayais adó os llamó,

Padre, sin saber quien es.

PASTOR.

Porque?

BOBO.

Porque este es

Aquel ladron que hurtó

El asno del Portugues.

Y se vais adó estan,

Os juro al cuerpo sagrado

De San Pisco, y San Juan,

Que tambien os hurtarán,

Que sois asno mas honrado.

PASTOR.

Déjame ir, que me llamó.

BOBO.

No, por vida de mi madre;

Que si allá vais, muerto so',

Y desta vez quedo yo,

Sin asno, triste! y sin padre.

MONTEIRO.

Vinde, que vo-lo encommendo,

E em vossas mãos me ponho.

BOBO.

No vais, que dijo _en comiendo_.

Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_

Y esso es lo que andais haciendo?

PASTOR.

Déjame ir adó está,

Que no es cosa que me espante.

BOBO.

No quereis sino ir allá?

Pues echadle pan delante,

Puede ser amansará.

PASTOR.

Dios os guarde! Qué cosa es

Esa por que voceais?

MONTEIRO.

Dar-m'heis novas, ou sinais

D'hum Fidalgo Portugues,

Se passou por onde andais?

BOBO.

Yo so' Hidalgo Portugues:

Que manda su Señoria?

PASTOR.

Cállate: oh que nescio es!

BOBO.

Padre, no me dejarés

Ser lo que quisiere un dia?

Ah Santo Dios verdadero!

No seré lo que otros son?

Digo ahora que no quiero

Ser Alonsico, el vaquero.

PASTOR.

Cállate ya, bobarron.

BOBO.

Ya me callo: ahora un poco

He de ser lo que yo quisiere.

PASTOR.

Señor, diga lo que quiere,

Porque este mochacho es loco,

Y muero porque no muere.

MONTEIRO.

Digo, que se por ventura

Sabeis o que ando buscando:

Hum Fidalgo, que caçando

Se perdeo nesta espessura

Apos hum cervo andando.

Tenho esta parte corrida,

Sem delle poder saber:

Trago a alegria perdida;

E se de todo a perder,

Perca-se tambem a vida.

Porque só polo buscar

Tenho trabalhos assás.

BOBO.

(Yo no puedo callar mas.)

PASTOR.

(Como no puedes callar?

Quítate allá para tras.)

Cuanto por aquesta tierra,

No siento nueva ninguna.

MONTEIRO.

Oh trabalhosa fortuna!

PASTOR.

Mas detras daquesta sierra

Hallareis, por dicha, alguna;

Que unas choças de vaqueros

Portugueses allí estan;

Y ahí muchas veces van

Cazadores Cavalleros:

Puede ser que lo sabran.

MONTEIRO.

Quero-me ir lá saber.

Ficae-vos a Deos, pastor.

PASTOR.

Dios os livre de dolor.

BOBO.

Y á nos dé siempre comer

Pan y sopas, qu'es mejor.

Mirad lo que os notifico:

En aquel valle, acullá,

Anda paciendo un burrico,

Hidalgo, manso, y bonico;

Puede ser que ese será.

PASTOR.

Calla, y acaba de andar.

BOBO.

Ya ando.

PASTOR.

Quieres callar?

Bobo, que tan poco sabe!

BOBO.

No diceis que ande y acabe?

Ando, y no quiero acabar.

ACTO TERCEIRO.

SCENA I.

_Florimena, pastora, com hum pote que vai á fonte._

FLORIMENA.

Por este formoso prado

Tudo quanto a vista alcança

Tão alegre está tornado,

Que a qualquer desesperado

Póde dar certa esperança.

O monte, e sua aspereza,

De flores se veste ledo;

Reverdece o arvoredo,

Somente em minha tristeza

Está sempre o tempo quedo.

Junto desta fonte pura,

Segundo a muitos ouvi,

D'altos parentes nasci:

Foi como quiz a Ventura,

Mas não como eu mereci.

O dia que fui nascida,

Minha mãe do parto forte

Foi sem cura fallecida;

E o dia que me deo vida

Lhe dei eu a ella a morte.

Do mesmo parto nasceo

Meu irmão, que entre os cabritos

Comigo tambem viveo;

Mas, assi como cresceo,

Crescêrão nelle os espritos.

Foi-se buscar a cidade;

Teve juizo e saber;

Eu fiquei, como mulher,

E não tive faculdade

Para poder mais valer.

A hum pastor obedeço

Por pae, que d'outro não sei;

E, pola mãe que matei,

A huma cabra conheço,

De cujo leite mamei.

Mas porém, ja qu'este monte

Me obriga e meu nascimento,

Quero, pois quer meu tormento,

Encher a talha na fonte

Que co'os olhos accrescento.

_Finge que enche a talha._

SCENA II.

_Venadoro e Florimena._

VENADORO.

Pois que me vim alongar

Dos caminhos e da gente,

Fortuna, que o consente,

Se devia contentar

De me ter tão descontente.

Porém, segundo adivinho,

Por tão espêsso arvoredo,

Por tão aspero rochedo,

Quanto mais busco o caminho,

Tanto mais delle me arredo.

O cavallo, como amigo,

Ja cansado me trazia:

Mas deixou-me todavia;

Que mal pudera comigo

Quem comsigo não podia.

Quero-me aqui assentar

Á sombra, nesta hervinha,

Porque canso ja de andar;

Mas inda a fortuna minha

Não cansa de me cansar.

Junto desta fonte pura

Não sei quem cuido qu'está;

Mas no coração me dá

Que aqui me guarda a Ventura

Alguma ventura má.

Ou ganhado, ou bem perdido,

Faça, emfim, o que quizer,

Qu'eu o fim disto hei de ver?

Que ja venho apercebido

A tudo quanto vier.

Oh que formosa serrana

Á vista se me offerece!

Deosa dos montes parece;

E se he certo que he humana,

O monte não a merece.

Pastora tão delicada,

De gesto tão singular,

Parece-me qu'em lugar

De perguntar pola estrada,

Por mim lhe hei de perguntar.

Atéqui sempre zombei

De qualquer outra pessoa

Que affeiçoada topei;

Mas agora zombarei

De quem se não affeiçoa.

Serrana, cuja pintura

Tanto a alma me moveo,

Dizei-me: Por qual ventura

Andareis nesta espessura,

Merecendo estar no ceo?

FLORIMENA.

Tamanho inconveniente

Andar na serra parece?

Pois a ventura da gente

Sempre he mui diferente

Do que, ao parecer, merece.

VENADORO.

Tal resposta he manifesto

Não se parecer co'as cabras.

Pois não vos parece honesto

Saberdes matar co'o gesto,

Senão inda com palabras?

No mato tudo he rudeza.

Ha tal gesto e discrição?

Não o creio.

FLORIMENA.

Porque não?

Não supprirá natureza

Onde falta criação?

VENADORO.

Ja logo nisso, Senhora,

Dizeis, se não sinto mal,

Que do vosso natural

Não era serdes pastora.

FLORIMENA.

Digo, mas pouco me val.

VENADORO.

Pois quem vos pôde trazer

Á conversação do monte?

FLORIMENA.

Perguntae-o a essa fonte;

Que as cousas duras de crer,

Hum as faça, outro as conte.

VENADORO.

Esta fonte, que está aqui,

Que sabe do que dizeis?

FLORIMENA.

Senhor, mais não pergunteis.

Porque outra cousa de mi

Sabei que não sabereis.

De vós agora sabei,

O que não tendes sabido:

Se quereis ágoa, bebei;

Se andais por dita perdido,

Eu vos encaminharei.

VENADORO.

Senhora, eu não vos pedia

Que ninguem m'encaminhasse;

Que o caminho qu'eu queria,

Se o eu agora achasse,

Mais perdido me acharia.

Não quero passar daqui;

E não vos pareça espanto

Qu'em vos vendo me rendi;

Porque quando me perdi,

Não cuidei de ganhar tanto.

FLORIMENA.

Senhor, quem na serra mora

Tambem entende a verdade

Dos enganos da cidade:

Vá-se embora, ou fique embora,

Qual for mais sua vontade.

VENADORO.

Oh lindissima donzella,

A quem a ventura ordena

Que me guie como estrella!

Quereis-me deixar a pena,

E levar-me a causa della?

E ja que vos conjurastes

Vós e Amor para matar-me,

Oh não deixeis d'escutar-me!

Pois a vida me tirastes,

Não me tireis o queixar-me!

Qu'eu, em sangue e em nobreza

O claro Ceo me extremou;

E a Fortuna me dotou

De grandes bens e riqueza,

Que sempre a muitos negou.

Andando caçando aqui,

Apos hum cervo ferido,

Permittio meu fado assi,

Que andando dos meus perdido,

Me venha perder a mi.

E porqu'inda mais passasse

Do que tinha por passar,

Buscando quem m'ensinasse,

Por que via me tornasse,

Acho quem me faz ficar.

Que vingança permittio

A fortuna n'hum perdido!

Oh que tyranno partido,

Que quem o cervo ferio,

Vá como cervo ferido!

Ambos feridos n'hum monte,

Eu a elle, outrem a mi:

Huma differença ha aqui,

Qu'elle vai sarar á fonte,

E eu nella me feri.

E pois que tão transformado

Me tee vossa formosura,

Hum de nós troque o estado.

Ou vós para o povoado,

Ou eu para a espessura.

FLORIMENA.

Dos arminhos he certeza,

Se lhe a cova alguem çujar,

Morar fóra, antes d'entrar:

D'estimar muito a limpeza

Pola vida a vai trocar:

Tambem quem na serra mora

Tanto estima a honestidade,

Que antes toma ser pastora,

Que perder a honestidade

A trôco de ser Senhora.

Se mais quereis, esta fonte

Vos descubra o mais de mim:

O que ella vio, ella o conte;

Porque eu vou-me para o monte,

Porque ha ja muito que vim.

SCENA III.

VENADORO.

Ó linda minha inimiga,

Gentil pastora, esperae!

Pois que tanto amor me obriga,

Consenti-me que vos siga;

Vá o corpo onde alma vae.

E pois por vós me perdi,

E neste estado Amor pôs

Os olhos com que vos vi,

Pois os deixaste sem mi,

Oh não os deixeis sem vós!

Porque a Fortuna me disse

Que nas serras, onde andais,

Em estes extremos tais,

Não era bem que vos visse

Para não ver de vós mais.

E pois Amor se quiz ver

Da livre vida vingado,

Em que eu sohia viver;

Faça em mi o que quizer,

Que aqui vou ao jugo atado.

SCENA IV.

_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._

LUSIDARDO.

Oh Santo Deos verdadeiro,

A quem o mundo obedece!

Meu filho não apparece.

E que me dizeis, Monteiro?

MONTEIRO.

Digo-lhe que m' entristece.

Qu'eu corri por esses montes,

Bem quinze leguas, ou mais,

E busquei polos casais,

Por serras, montes e fontes,

Sem ver novas, nem sinais.

Toda a gente que levou,

Buscando-o, muito cansada

Pelo mato anda espalhada;

Mas ainda ninguem tomou,

Que soubesse delle nada.

LUSIDARDO.

Oh fortuna nunca igual!

Quem me fara sabedor

De meu filho e meu amor?

Que se he muito grande o mal,

Muito mor he o temor.

Quem tolhe que não achasse

Algum leão temeroso

N'algum monte cavernoso,

Que sua fome fartasse

Em seu corpo tão formoso?

Quem ha que saiba, ou que visse,

Que das montanhas erguidas

Algum monstro não sahisse,

E com seu sangue tingisse

As hervas nellas nascidas?

Oh filho! vai-me a lembrar

Quantas vezes os mandava

Que deixasseis o caçar!

Não cuidei de adivinhar

O que Fortuna ordenava.

Eu irei, filho, buscar-vos

Por esses montes, por hi,

Ou a perder-me, ou cobrar-vos;

Que morte que quiz matar-vos,

Quero que me mate a mi.

Onde fostes fenecido,

Seja tambem vosso pae;

Ser-me-ha acontecido,

Como a virote que vae

Buscar outro que he perdido.

Vós só haveis de ficar,

Filodemo, encarregado

Para esta casa guardar;

Que de vosso bom cuidado

Tudo se póde fiar.

Ide-vos a fazer prestes,

Mandae cavallos sellar;

Pois achá-lo não pudestes,

Ir-m'heis buscar o lugar

Onde da vista o perdestes.

SCENA V.

_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._

_Canta._

Los mochachos del Obispo

No comen cosa mimosa,

Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa.

_Falla._

De su sayo colorado

Tan lozano me vestió,

Que yo ya no soy yo,

Ya por otro estoy trocado;

Que este sayo me trocó.

Oh qué asno Portugues,

Que loco por Florimena,

Deseó zamarra agena,

Y dame por enterés

Una zamarra tan buena!

Como yo vi la bobilla

Andar con él en questiones,

Y parársele amarilla,

Díjele: Florimenilla,

Andais en dongolondrones?

Él me dijo: Matalote,

No tengais dello desmayo.

Y en esto, como un rayo,

Tomóme mi capirote,

Y dióme su capisayo.

Capirote, en buena fé,

Si vos, cuando en mi entrastes,

Capisayo vos tornastes,

Que yo por eso cantaré,

Pues ansí me mejorastes.

_Canta._

Lyrio, lyrio, lyrio loco,

Con qué? Con capirotada.

Por hablar con la golosa

De amores, mirad la cosa!

Zamarrilla tan hermosa,

Que me ha dado tan honrada,

Con qué? Con capirotada.

_Falla._

Yo entonces respondí:

Señor, dame pan y queso,

Mas despues que lo entendí,

Dije á ella: Dale un beso,

Que él me dió zamarra á mí.

Ahora me mirarán

Cuantos á la eglesia fueren;

Y aquellos que no me quieren,

Ahora me rogarán.

Sabeis porque no querré?

Porque estoy ahidalgado;

Y cuando fuere rogado,

Cantando responderé,

Que ya estoy otro tornado.

_Canta e baila._

Soropicote, picote, mozas,

Ahora quiero amores con vosotras.

SCENA VI.

_O Pastor e o Bobo._

PASTOR.

Hijo Alonsillo.

BOBO.

Hijo Alonsillo.

PASTOR.

No me quieres escuchar?

BOBO.

Pues déjame suspirar.

PASTOR.

Escúchame ahora, asnillo,

Lo que te quiero mandar.

Véte al valle de las rosas,

Y di á Anton del Lugar

Que si puede acá llegar,

Porque tengo muchas cosas

Que importan para le hablar.

Porque es aqui llegado

Á este valle un hombre honrado,

Mancebo de casta buena,

Que amores de Florimena

Le traen loco y penado.

Dice que quiere casar

Con ella, que su tormento

No le deja reposar;

Y que venga festejar

Tan dichoso casamiento.

BOBO.

Dicid, padre, tambien vos,

No quereis casar comigo?

Casemos ambos adós.

PASTOR.

Vé, y haz lo que te digo.

BOBO.

Responde, padre, por Dios.

PASTOR.

Vé luego, y vuelve apresado.

Anda. No quieres andar?

BOBO.

Pues que me habeis empujado,

Juro á mi de desandar

Todo cuanto tengo andado.

PASTOR.

Trabajoso es este insano!

Nunca hace lo que quereis.

BOBO.

Ora no os apasioneis,

Mi padrecico lozano:

Que burlaba, no lo veis?

PASTOR.

Véte dahi.

BOBO.

Héme aqui.

PASTOR.

Vé donde te dije.

BOBO.

Ya vengo.

Oh que padrasto que tengo,

Que asi me manda por ahi,

Siendo camino tan luengo!

ACTO QUARTO.

SCENA I.

_Dionysa e Solina._

DIONYSA.

Oh Solina, minha amiga,

Que todo este coração

Tenho posto em vossa mão;

Amor me manda que diga,

Vergonha me diz que não.

Que farei?

Como me descobrirei?

Porque a tamanho tormento

Mais remedio lhe não sei,

Que entregá-lo ao soffrimento.

Meu pae muito entristecido

Se vai pela serra erguida,

Ja da vida aborrecido,

Buscando o filho perdido,

Tendo a filha cá perdida!

Sem cuidar,

Foi a casa encommendar

A quem destruir lha quer:

Olhae que gentil saber,

Que vai comigo deixar

Quem me não deixa viver.

SOLINA.

Senhora, em tanto desgôsto.

Não posso meter a mão;

Mas como diz o rifão,

Mais val vergonha no rosto,

Que mágoa no coração.

E bofé, se eu tanto amasse,

E visse tempo e sazão,

Sem seu pae, sem seu irmão,

Que a nuvem triste tirasse

De cima do coração.

DIONYSA.

Ah mana! que tenho medo,

Que s'eu em tal consentisse

Que logo o mundo o sentisse,

Porque nunca houve segredo,

Que, emfim, se não descobrisse.

SOLINA.

Se eu tantas dobras tivesse

Como quantas houve erradas,

Sem que o mundo o soubesse,

Á fé qu'eu enriquecesse,

E fosse das mais honradas.

DIONYSA.

Sabeis que tenho em vontade?

SOLINA.

Que podeis, Senhora, ter?

DIONYSA.

Fallar-lhe, só para ver

Se he por ventura verdade

O que dizeis que me quer.

SOLINA.

Bofé, mana, dizeis bem,

E eu o mandarei chamar,

Como para lhe rogar

Que hum annel, que lá me tem,

Que mo mande concertar.

DIONYSA.

Dizeis mui bem.

SOLINA.

Vou-me lá

Chamar o seu moço á sala;

E s'este parvo vem cá,

Com elle hum pouco rirá,

Que sempre amores me fala.

Vilardo, moço?

SCENA II.

_Vilardo e Solina._

VILARDO.

Quem chama?

SOLINA.

Vem cá, moço; eu te chamo.

Qu'he de teu amo?

VILARDO.

Ah que dama!

Perguntais-me por meu amo,

E não por hum que vos ama?

SOLINA.

E quem he esse amador,

Que quer ter comigo passo?

Será elle algum madrasso?

VILARDO.

Eu sou o mesmo, que o amor

Me quebra pelo espinhasso.

E mais vós sabei de mi,

Se eu a dizê-lo me atrevo,

Que desque esses olhos vi,

Que yo ni como, ni bebo,

Ni hago vida sin ti.

E mais para namorado

Não sou ora tão madraço.

SOLINA.

Sois muito desmazelado.

VILARDO.

Mas antes, de delicado

Caio pedaço a pedaço.

E mais eu soffrer não posso

Que me façais tanto fero,

Qu'estou ja posto no osso,

Porque sou vosso e revosso,

Por vida de quanto quero.

SOLINA.

Feros está cheia a rua.

Ora estou bem aviada!

VILARDO.

Cupido, por vida tua,

Que a não faças tão crua,

Pois que te não faço nada!

Amor, Amor, mas te pido,

Que quando se for deitar,

Que le digas al oido:

Devieis-vos de lembrar

Neste tempo de hum perdido.

SOLINA.

E tu ja fazes coprinhas?

Ainda tu trovarás?

VILARDO.

Quem eu? Por estas barbinhas,

Que se vós virdes as minhas,

Que digais que não são más.

SOLINA.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III · 第 13 / 16 段