Acabae, villão ruim.

Que moço para servir

Quem tee as tristezas minhas!

Quem pudesse assi dormir!

VILARDO.

Senhor, nestas manhãzinhas

Não ha hi senão cahir:

Por demais he trabalhar

Qu'este somno se me ausente.

FILODEMO.

Porque?

VILARDO.

Porque ha d'assentar

Que se não for com pão quente,

Não ha de desaferrar.

FILODEMO.

Ora hi pelo que vos mando,

Villão feito de fermento. _Sahe Vilardo._

Triste do que vive amando

Sem ter outro mantimento,

Qu'estar só phantasiando!

Só hua cousa me desculpa

Deste cuidado que sigo,

Ser de tamanho perigo,

Que cuido que a mesma culpa

Me fica sendo castigo.

_Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_

FILODEMO.

Ora quero praticar

Só comigo hum pouco aqui;

Que despois que me perdi,

Desejo de me tomar

Estreita conta de mi.

Vae para fóra, Vilardo.

Torna cá: vae-me saber

Se se quer ja lá erguer

O Senhor Dom Lusidardo,

E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moço._

Ora bem, minha ousadia,

Sem azas, pouco segura,

Quem vos deo tanta valia,

Que subais a phantasia

Onde não sobe a ventura?

Por ventura eu não nasci

No mato, sem mais valer,

Que o gado ao pasto trazer?

Pois donde me veio a mi

Saber-me tão bem perder?

Eu, nascido entre pastores,

Fui trazido dos currais,

E d'entre meus naturais

Para casa dos Senhores,

Donde vim a valer mais.

E agora logo tão cedo

Quiz mostrar a condição

De rustico e de villão!

Dando-me ventura o dedo,

Lhe quero tomar a mão!

Mas oh! qu'isto não he assi,

Nem são villãos meus cuidados,

Como eu delles entendi;

Mas antes, de sublimados,

Os não posso crer de mi.

Porque como hei eu de crer

Que me faça minha estrella

Tão alta pena soffrer,

Que somente pola ter

Mereço a gloria della?

Senão se amor, d'attentado,

Porque me não queixe delle,

Tee por ventura ordenado

Que mereça o meu cuidado,

Só por ter cuidado nelle.

SCENA II.

_Vilardo e Filodemo._

VILARDO.

O Senhor Dom Lusidardo

Dorme com todo o convento;

E elle com o pensamento

Quer estar fazendo alardo

De castellinhos de vento!

Pois tão cedo se vestio,

Com seu damno se conforme,

Pezar de quem me pario;

Que ainda o sol não sahio:

Se vem á mão, tambem dorme.

Elle quer-se levantar

Assi pela manhãzinha!

Pois quero-o desenganar:

Nem por muito madrugar

Amanhece mais asinha.

_Filodemo._

Traze-me a viola cá.

VILARDO.

(Voto a tal que me vou rindo.)

Senhor, tambem dormirá.

FILODEMO.

Traze-a, moço.

VILARDO.

Si, virá,

Se não estiver dormindo.

FILODEMO.

Ora hi polo que vos mando:

Não gracejeis.

VILARDO.

Eis-me vou:

Pois, pezar de São Fernando!

Por ventura sou eu grou?

Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._

FILODEMO.

Ah Senhora, que podeis

Ser remedio do que peno,

Quão mal ora cuidareis

Que viveis e que cabeis

N'hum coração tão pequeno!

Se vos fosse apresentado

Este tormento em que vivo,

Crerieis que foi ousado

Este vosso, de criado

Tornar-se vosso captivo?

SCENA III.

_Filodemo e Vilardo._

VILARDO.

Ora eu creio, se he verdade

Qu'estou de todo acordado,

Que meu amo he namorado;

E a mi dá-me na vontade

Que anda hum pouco abalado.

E se tal he, eu daria

Por conhecer a donzella

A ração d'hoje este dia;

Porque a desenganaria,

Somente por ter dó della.

Havia-lhe perguntar:

Senhora, de que comeis?

Se comeis d'ouvir cantar,

De fallar bem, de trovar,

Em boa hora casareis.

Porém se vós comeis pão,

Tende, Senhora, resguardo;

Qu'eis-aqui está Vilardo,

Qu'he como hum camaleão,

Por isso, bus, fazei fardo.

E se vós sois das gamenhas,

E houverdes d'attentar

Por mais que por manducar,

Mi cama son duras peñas,

Mi dormir siempre es velar.

A viola, Senhor, vem

Sem primas, nem derradeiras:

Mas sabe o que lhe convem?

Se quer, Senhor, tanger bem,

Ha de haver mister terceiras.

E se estas cantigas vossas

Não forem para escutar,

E quizerdes espirar;

Ha mister cordas mais grossas,

Porque não possão quebrar.

FILODEMO.

Vae para fóra.

VILARDO.

Ja venho.

FILODEMO.

Qu'eu só desta phantasia

Me sostenho e me mantenho.

VILARDO.

Quamanha vista que tenho,

Que vejo a estrella do dia! _Sahe._

SCENA IV.

FILODEMO, _cantando_.

Adó sube el pensamiento,

Seria una gloria inmensa

Si allá fuese quien lo piensa.

_Falla._

Qual espirito divino

Me fará a mi sabedor

Deste meu mal, se he amor,

Se por dita desatino?

Se he amor, diga-me qual

Póde ser seu fundamento,

Ou qual he seu natural,

Ou porque empregou tão mal

Hum tão alto pensamento.

Se he doudice, como em tudo

A vida me abraza e queima,

Ou quem vio n'hum peito rudo

Desatino tão sisudo,

Que toma tão doce teima?

Ah Senhora Dionysa,

Onde a natureza humana

Se mostrou tão soberana!

O que vós valeis me avisa,

Mas o qu'eu peno m' engana.

SCENA V.

_Solina e Filodemo._

SOLINA.

Tomado estais vós agora,

Senhor, co'o furto nas mãos.

FILODEMO.

Solina, minha Senhora,

Quantos pensamentos vãos

Me ouvirieis lançar fóra?

SOLINA.

Oh Senhor, quão bem que sôa

O tanger de quando em quando!

Bem sei eu huma pessoa,

Que haja huma hora, e boa,

Que vos está escutando.

FILODEMO.

Por vida vossa, zombais?

Quem he? quereis-mo dizer?

SOLINA.

Não o haveis vós de saber,

Bofé se me não peitais.

FILODEMO.

Dar-vos-hei quanto tiver,

Para taes tempos como estes.

Quem tivera voz dos Ceos,

Pois escutar me quizestes!

SOLINA.

Assi pareça eu a Deos,

Como lhe vós parecestes.

FILODEMO.

A Senhora Dionysa

Quer-se ja alevantar?

SOLINA.

Assi me veja eu casar,

Como despida em camisa

Se ergueo por vos escutar.

FILODEMO.

Em camisa levantada!

Tão ditosa he minha estrella?

Ou mo dizeis refalsada?

SOLINA.

Pois bem me defendeo ella

Que vos não dissesse nada.

FILODEMO.

Se pena de tantos annos

Merecer algum favor,

Para cura de meus dannos

Fartae-me desses engannos,

Que não quero mais de Amor.

SOLINA.

Agora quero eu fallar

Neste caso com mais tento;

Quero agora perguntar:

E de siso his vós tomar

Hum tão alto pensamento?

Certo he minha maravilha,

Se vós isto não sentis

Bem: vós como não cahis

Que Dionysa qu'he filha

Do Senhor a quem servis?

Como? Vós não attentais

Os Grandes, de qu'he pedida?

Peço-vos que me digais

Qual he o fim que esperais

Neste caso, em vossa vida.

Que razão boa, ou que côr

Podeis dar a esta affeição?

Dizei-me vossa tenção.

FILODEMO.

Onde vistes vós amor

Que se guie por razão?

Se quereis saber de mi

Que fim, ou de que theor

O pretendo em minha dor;

S'eu neste amor quero fim,

Sem fim me atormente Amor.

Mas vós com gloria fingida

Pretendeis de m'enganar,

Por assi mal me tratar:

Assi que me dais a vida

Somente por me matar.

SOLINA.

Eu digo-vos a verdade.

FILODEMO.

Da verdade fujo eu,

Porque se o Amor me deu

Pena de tal qualidade,

Assaz me custa do meu.

SOLINA.

Fólgo muito de saber

Que sois amante tão fino.

FILODEMO.

Pois mais vos quero dizer,

Que ás vezes no imaginar

Não ouso de m' estender.

Na hora que imaginei

Na causa de meu tormento,

Tamanha gloria levei,

Que por onças desejei

De lograr o pensamento.

SOLINA.

Se me vós a mi jurardes

De me terdes em segredo

Huma cousa... mas hei medo

De logo tudo contardes.

FILODEMO.

A quem?

SOLINA.

Áquelle enxovedo.

FILODEMO.

Qual?

SOLINA.

Aquelle mao pezar,

Que ant'hontem comvosco hia.

Quem se fosse em vós fiar!

O que vos disse o outro dia,

Tudo lhe fostes contar.

FILODEMO.

Que lhe contei?

SOLINA.

Ja lh'esquece?

FILODEMO.

Por certo qu'estou remoto.

SOLINA.

Hi, que sois hum cesto roto.

FILODEMO.

Esse homem tudo merece.

SOLINA.

Vós sois muito seu devoto.

FILODEMO.

Senhora, não hajais medo:

Contae-m'isso, e far-me-hei mudo.

SOLINA.

Senhor, o homem sisudo,

Se em taes cousas tee segredo,

Saiba que alcançará tudo.

A Senhora Dionysa

Crede que mal vos não quer:

Não vos posso mais dizer.

Isto tende por balisa

Com que vos saibais reger.

Qu'em mulheres, se attentais,

O querer está visibil;

E se bem vos governais,

Não desespereis do mais,

Porque, emfim, tudo he possibil.

FILODEMO.

Senhora, póde isso ser?

SOLINA.

Si, que tudo o mundo tem:

Olhae não o saiba alguem.

FILODEMO.

E que maneira hei de ter

Para crer tamanho bem?

SOLINA.

Vós, Senhor, o sabereis;

E ja que vos descobri

Tamanho sogredo aqui,

Huma mercê me fareis

Em que me vai muito a mi.

FILODEMO.

Senhora, a tudo me obrigo

Quanto for em minha mão.

SOLINA.

Pois dizei a vosso amigo

Que não gaste tempo em vão,

Nem queira amores comigo.

Porque eu tenho parentes,

Que me podem bem casar;

E mais que não quero andar

Agora em boca de gentes

A quem s'elle vai gabar.

FILODEMO.

Senhora, mal conheceis

O que vos quer Duriano:

Sabei-o, se o não sabeis,

Qu'em sua alma sente o dano

Do pouco que lhe quereis;

E que outra cousa não quer,

Que ter-vos sempre servida.

SOLINA.

Pola sua negra vida,

Isso havia eu bem mister.

FILODEMO.

Vós sois desagradecida!

SOLINA.

Si, que tudo são enganos

Em tudo quanto fallais.

FILODEMO.

Não quero que me creais:

Crede o tempo; que ha dous anos

Que vos serve, e inda mais.

SOLINA.

Senhor, bem sei que m'engano;

Mas a vós, como a irmão,

Descubro este coração:

Sabei que a Duriano

Tenho sobeja affeição.

Olhae que lhe não digais

Isto que vos aqui digo.

FILODEMO.

Senhora, mal me tratais:

Inda que sou seu amigo,

Sabei que vosso sou mais.

SOLINA.

E ja que vos confessei

Aquestas fraquezas minhas,

Que ha tanto que de mi sei;

Fazei vós nas cousas minhas

O qu'eu nas vossas farei.

FILODEMO.

Vós enxergareis, Senhora,

O qu'eu por vós sei fazer.

SOLINA.

Como me deixo esquecer!

Aqui estivera agora

Fallando té anoitecer.

Vou-me; e olhae quanto val

O que passou entre nós.

FILODEMO.

E porque vos ides vós?

SOLINA.

Porque parece ja mal

Estar aqui ambos sós.

E mais vou vestir agora

A quem vos dá tão má vida.

Ficae-vos, Senhor, embora.

FILODEMO.

Nessa ide vós, Senhora,

Que ja vos tenho entendida.

SCENA VI.

FILODEMO _só_.

Ora se póde isto ser

Do qu'esta moça me avisa,

Que a Senhora Dionysa,

Por me ouvir, se fosse erguer

Da sua cama em camisa!

E diz que mal me não quer.

Não queria maior gloria;

Mas o que mais posso crer,

Que nem para lhe esquecer

Lhe passo pela memoria.

Mas ter Solina tambem

Em Duriano o intento,

He levar-me a lenha o vento;

Porque s'ella lhe quer bem,

Para bem vai meu tormento.

Mas foi-se este homem perder

Neste tempo, de maneira,

Por huma mulher solteira,

Que não me atrevo a fazer

Que hum pequeno bem lhe queira.

Porém far-lhe-hei hum partido,

Porqu'ella não se querelle:

Que se mostre seu perdido,

Inda que seja fingido,

Como lh'outrem faz a elle.

E ja que me satisfaz,

E tanto nisto se alcança,

Dê-lhe fingida esperança:

Do mal que lhe outrem faz,

Tomará nella vingança.

SCENA VII.

VILARDO _só_.

Ora boa está a cilada

De meu amo com sua ama,

Que se levantou da cama

Por ouvi-lo! Está tomada:

Assi a tome má trama.

E mais crede que quem canta,

Ainda descantará;

E quem do leito, onde está,

Por ouvi-lo se levanta,

Mor desatino fará.

Quem havia de cuidar,

Que dama formosa e bella

Saltasse o demonio nella,

Para a fazer namorar

De quem não he igual della?

Que me dizeis a Solina?

Como se faz Celestina,

Que por não lhe haver inveja

Tambem para si deseja

O que o desejo lh'ensina!

Crede que se me alvoróço,

Que a hei de tomar por dama;

E não será grão destrôço,

Pois o amo quer a ama,

Que a moça queira o moço.

Vou-me; que vejo lá vir

Venadoro, apercebido

Para a caça se partir:

E voto a tal, que he partido

Para ver e para ouvir.

Que he razão justa e rasa

Que seu folgar se desconte

Em quem arde como brasa;

Que se vai caçar ao monte,

Fique outrem caçando em casa.

SCENA VIII.

VENADORO _só_.

Aprovada antiguamente

Foi, e muito de louvar

A occupação do caçar,

E da mais antigua gente

Havida por singular.

He o mais contrário officio

Que tee a ociosidade,

Mãe de todo o bruto vício:

Por este limpo exercicio

Se reserva a castidade.

Este dos grandes Senhores

Foi sempre muito estimado;

E he grande parte do estado

Ter monteiros, caçadores,

Como officio qu'he prezado.

Pois logo porque razão

A meu pae ha de pezar

De me ver ir a caçar?

E tão boa occupação

Que mal me póde causar?

SCENA IX.

_Venadoro e o Monteiro._

MONTEIRO.

Senhor, venho alvoroçado,

E mais com muita razão.

VENADORO.

Como assi?

MONTEIRO.

Que me he chegado

O mais extremado cão,

Que nunca caçou veado.

Vejamos que me ha de dar.

VENADORO.

Dar-vos-hei quanto tiver;

Mas ha-se d'exprimentar,

Para se poder julgar

As manhas que póde ter.

MONTEIRO.

Póde assentar qu'este cão,

Que tee das manhas a chave.

Bem feito? Em admiração.

Pois em ligeiro? He huma ave.

Em commetter? Hum leão.

Com porcos? Maravilhoso.

Com veados? Extremado.

Sobeja-lhe o ser manhoso.

VENADORO.

Pois eu ando desejoso

D'irmos matar hum veado.

MONTEIRO.

Pois, Senhor, como não vae?

VENADORO.

Vamos, e vós mui ligeiro

O necessario ordenae;

Qu'eu quero chegar primeiro

Pedir licença a meu pae.

ACTO SEGUNDO.

SCENA I.

DURIANO.

Pois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr pé em ramo verde, té

lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos

cruzados com ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas,

fez de mim mangas ao demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o

galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe

farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tee cortado á

minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a

maré com a lua: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se vasa, vereis

espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão como o

peixe na ágoa.

SCENA II.

_Filodemo e Duriano._

FILODEMO.

Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me

sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos

tire como huma alma.

DURIANO.

Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em

casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os

pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois

sabeis, Senhor Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem

almofaçados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de

brandos na conversação, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo

que não darão meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais

Garcilasso que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos virgens; e tudo isto

por vos meterem em consciencia que se não achou para mais o grão Capitão

Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo

farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha etc.,

depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e

fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão

escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas

Madamas Lauras vós idolatrais.

FILODEMO.

Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.

DURIANO.

Aposto que adivinho o que quereis dizer?

FILODEMO.

Que?

DURIANO.

Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a

herege de amor.

FILODEMO.

Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse!

DURIANO.

Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas

tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he

cousa de vossa saude, tudo farei.

FILODEMO.

Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tee, Senhor

Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não

faça em vós o que a razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém

he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis

para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo

andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lançarem em vós.

Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que não he

servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o não

consinta, eu não pretendo della mais que o não pretender della nada,

porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como

a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum interesse.

DURIANO.

Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos.

FILODEMO.

Porque?

DURIANO.

Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva,

dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que

amá-la; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a

trezentos Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte,

mostrando razões verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de

vossa dama que vê-la; e ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis

outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defenderão a

justa por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a

qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous

pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e eu ja de mi vos sei

confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha de

ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de,

vá v. m. co'a historia por diante.

FILODEMO.

Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os

Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão,

bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento,

senão quando me tomou á traição Solina; e entre muitas palavras que

tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantára da cama por me

ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia.

DURIANO.

Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto avante.

FILODEMO.

Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi

o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a

soffrer por sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.

DURIANO.

Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos

deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca

chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme;

que eu vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais

passastes?

FILODEMO.

A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e

me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis.

DURIANO.

Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor?

porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que

dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella

quer que eu caia.

FILODEMO.

Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho quereis.

DURIANO.

Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços

alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais

fiel amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las

palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que

sou hum Mancias, e peor ainda.

FILODEMO.

Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro,

irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa

despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu

passatempo he enxertar e dispôr, e outros exercicios d'agricultura,

naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem á medida do desejo, vamo-nos

lá; e se puderdes fallar, fazei de vós mil manjares, porque lhe façais

crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum Braz Quadrado.

DURIANO.

Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas,

com que vosso feito venha á luz.

SCENA III.

_Dionysa e Solina._

DIONYSA.

Solina, mana.

SOLINA.

Senhora.

DIONYSA.

Trazei-me cá a almofada;

Que a casa está despejada,

E esta varanda cá fóra

Está melhor assombrada.

Trazei a vossa tambem

Para estarmos cá lavrando;

Em quanto meu pae não vem,

Estaremos praticando,

Sem nos estorvar ninguem.

SOLINA.

Este he o mesmo lugar

Onde estava o bem logrado,

Tal que de muito enlevado

Se esquecia do cantar

Por se enlevar no cuidado.

DIONYSA.

Vós, mana, sois mui ruim!

Logo lhe fostes contar

Que me ergui polo escutar.

SOLINA.

Eu o disse?

DIONYSA.

Eu não o ouvi?

Como mo quereis negar?

SOLINA.

E pois isso que releva?

Que se perde nisso agora?

DIONYSA.

Que se perde! Assi, Senhora,

Folgareis vós que se atreva

A contá-lo lá por fóra?

Que se lhe meta em cabeça

Alguma parvoa tenção?

Que faça, se vem á mão,

Algua cousa que pareça?

SOLINA.

Senhora, não tee razão.

DIONYSA.

Eu sei mui bem attentar

Do que se ha de ter receio,

E do que he para estimar.

SOLINA.

Não he o demo tão feio

Como alguem o quer pintar;

E não se espera isso delle,

Que não he ora tão moço.

E Vossa Mercê asselle

Que qualquer segredo nelle

He como huma pedra em poço.

DIONYSA.

E eu que segredo quero

Co'hum criado de meu pae?

SOLINA.

E vós, mana, fazeis fero?

Ao diante vos espero,

Se adiante o caso vae.

DIONYSA.

O madraço! quem o vir

Fallar de siso co'ella...

Então vós, gentil donzella,

Folgais muito de o ouvir?

SOLINA.

Si, porque me falla nella;

E eu como ouço fallar

Nella, como quem não sente,

Folgo de o escutar,

Só para lhe vir contar

O que della diz a gente;

Qu'eu não quero nada delle.

E mais, porque está fallando?

Não m'esteve ella rogando

Que fosse fallar com elle?

DIONYSA.

Disse-vo-lo assi zombando.

Vós logo tomais em grosso

Tudo quanto me escutais.

Parvo! que vê-lo não posso.

SOLINA.

Ella alli, e o cão co'o osso!

Inda isto ha de vir a mais.

Pois que tal odio lhe tem,

Fallemos, Senhora, em al;

Mas eu digo que ninguem

Merece por querer bem

Que a quem lho quer, queira mal.

DIONYSA.

Deixae-o vós doudejar.

Se meu pae, ou meu irmão,

O vierem a aventar,

Não ha elle de folgar.

SOLINA.

Deos meterá nisso a mão.

DIONYSA.

Ora hi polas almofadas,

Que quero hum pouco lavrar;

Por ter em que me occupar;

Qu'em cousas tão mal olhadas

Não se ha o tempo de gastar.

SOLINA.

Que cousa somos mulheres!

Como somos perigosas!

E mais estas tão viçosas

Qu'estão á boca _que queres_

E adoecem de mimosas!

Se eu não caminho agora

A seu desejo e vontade;

Como faz esta Senhora,

Fazem-se logo nessa hora

Na volta da honestidade.

Quem a vira o outro dia

Hum poucochinho agastada,

Dar no chão com a almofada,

E enlevar a phantasia,

Toda n'outra transformada!

Outro dia lhe ouvirão

Lançar suspiros a mólhos,

E com a imaginação

Cahir-lhe a agulha da mão,

E as lagrimas dos olhos.

Ouvir-lhe-heis á derradeira

A ventura maldizer,

Porque a foi fazer mulher.

Então diz que quer ser Freira;

E não se sabe entender.

Então gaba-o de discreto,

De musico e bem disposto,

De bom corpo e de bom rosto.

Quanté então eu vos prometo,

Que não tee delle desgôsto.

Despois, se vem a attentar,

Diz que he muito mal feito

Amar homem deste geito;

E que não póde alcançar

Pôr seu desejo em effeito.

Logo se faz tão Senhora,

Logo lhe ameaça a vida,

Logo se mostra nessa hora

Muito segura de fóra,

E de dentro está sentida.

Bofé, segundo vou vendo,

Se esta postema vier,

Como eu suspeito, a crescer,

Muito ha que della entendo

O fim que póde vir ter.

SCENA IV.

_Duriano e Filodemo._

DURIANO.

Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como

hei de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.

FILODEMO.

Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora

Dionysa; que me vai nisso muito.

DURIANO.

Por mulher de tão bom engenho a tendes?

FILODEMO.

E porque me perguntais isso?

DURIANO.

Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta

mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.

FILODEMO.

Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe

fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação

á vossa tenção.

DURIANO.

Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes

vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós

entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem.

FILODEMO.

Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a

nosso caso.

DURIANO.

Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia

no la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos

Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos,

andão ás vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen

aflojar cuando mas duelen.)

SCENA V.

_Solina e Duriano._

SOLINA, _com a almofada_.

Aqui anda passeando

Duriano, e só comsigo

Pensamentos praticando:

Daqui posso estar notando

Com quem sonha, se he comigo.

DURIANO.

Ah quão longe estará agora

Minha Senhora Solina

De saber que estou bem fóra

De ter outra por senhora,

Segundo o amor determina!

Porém se determinasse

Minha bem-aventurança

Que de meu mal lhe pezasse.

Até que nella tomasse

Do que lhe quero vingança!...

SOLINA.

(Comigo sonha por certo.

Ora quero-me mostrar,

Assi como por acêrto:

Chegar-me-hei mais ao perto,

Por ver se me quer fallar.)

Sempre esta casa ha d'estar

Acompanhada de gente,

Que não possa homem passar!

DURIANO.

Á traição vindes tomar

Quem ja feridas não sente?

SOLINA.

Logo me a mi parecia

Que era elle o que passeava.

DURIANO.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III · 第 12 / 16 段