PRINCIPE.

Os Physicos, Senhor, não;

Que os males qu'em mi estão,

São curas que me sobejão.

RAINHA.

Deite-se; que na verdade

Hum corpo, deitado e manso,

Descansa á sua vontade.

PRINCIPE.

Senhora, esta enfermidade

Não se cura com descanso.

RAINHA.

Todavia, bom será

Que lhe fação huma cama.

PRINCIPE.

(Hum coxim abastará,

Que assi não descansará

O repouso de quem ama.)

REI.

Vamos, filho, para dentro,

Em quanto a cama se faz:

Repousae como capaz;

Que a mi me dá cá no centro

A pena que assi vos traz.

_Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e diz:_

MOÇA.

Mimos de grandes Senhores,

E suas extremidades,

Me hão de matar de amores,

Porque de meros dulçores

Adoecem.

Então logo lhes parecem

Aos outros, que são mamados;

E os que são mais privados,

Sôbre elles estremecem.

Certo (e assi Deos me ajude!)

Que são muito graciosos,

Porque de meros viçosos,

Não podem com a saude.

Mas deixallos,

Porque elles darão nos vallos,

Donde mais não se erguerão,

Inda que lhe dem a mão

Os seus privados vassallos.

_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_

PORTEIRO.

Traz, traz.

MOÇA.

Jesu! Quem'stá ahi?

PORTEIRO.

Ja vós, mana, ereis mamada:

Para vos levar furtada

Nunca tal ensejo vi.

E vós estais descuidada!

MOÇA.

E meus descuidos que fazem?

PORTEIRO.

Vossos descuidos? cadella!

Ah minh'alma! Sois tão bella,

Qu'esses descuidos me trazem

Dous mil cuidados á vela.

Pois sou vosso ha tantos annos,

Mana, tirae os antolhos,

E vereis meus tristes dannos.

MOÇA.

Não tenhais esses enganos.

PORTEIRO.

Nem vós tenhais esses olhos;

Que de vossos olhos vem

Esta minha pena fera.

MOÇA.

De meus olhos? Assim era.

PORTEIRO.

Moça, que taes olhos tem,

Nenhuns olhos ver devêra.

MOÇA.

E porque?

PORTEIRO.

Porque cegais

A quantos olhos olhais,

Postoque por vós padecem.

Olhos, que tão bem parecem,

Porque não os castigais?

MOÇA.

Deos dê siso, pois de vós

Tirou o que aos outros deu.

PORTEIRO.

Desatae-me lá esses nós.

Que mais siso quero eu,

Que não ter siso por vós?

MOÇA.

Fallais d'arte; eu vos prometo

Que a resposta vem á vela.

Isso he ôlho de panella.

Quanto ha ja que sois discreto?

PORTEIRO.

Quanto ha ja que vós sois bella?

MOÇA.

Dais-me logo a entender

Que eu sou feia, a meu ver.

PORTEIRO.

E isso porque o entendeis?

MOÇA.

Porque? Porque me dizeis

Que só de meu parecer

Vos procede o que sabeis.

PORTEIRO.

He verdade.

MOÇA.

Pois bem sento

Que o vosso saber he vento.

Fica a cousa declarada,

Meu parecer não ser nada.

PORTEIRO.

Olhae aquelle argumento:

Além de bella, avisada!

Oh nem tanto, nem tão pouco!

Vêde vós o que fallais.

MOÇA.

Cego no saber andais.

PORTEIRO.

No siso, mas não tão louco

Como vós, mana, cuidais.

Ora dizei, duna má:

Que não amais, quem vos ama?

MOÇA.

Ouvistes vós cantar ja,

_Velho malo, em minha cama?_

Ja m'entendereis.

PORTEIRO.

Ha, ha.

Senhora, estais enganada;

Que com huma capa e espada,

E com este capuz fóra...

MOÇA.

Ora bem: tirae-o ora,

E fazei huma levada.

PORTEIRO.

Não: se m'eu hoje alvoróço,

Achar-me-heis d'outra feição.

_Aqui tira o capuz e diz:_

PORTEIRO.

Tenho má disposição?

Estas obras são de moço,

Se as mostras de velho são.

MOÇA.

Tendes mui gentis meneios.

PORTEIRO.

Não, Senhora; faço extremos.

MOÇA.

Passeae ora, veremos

Se tendes tão bons passeios.

PORTEIRO.

Tudo, Senhora, faremos.

MOÇA.

Virae ora a essoutra mão.

PORTEIRO.

Esta disposição vêde-a;

Que tenho gentil feição.

MOÇA.

Tendes vós mui boa redea.

Soffreis ancas?

PORTEIRO.

Isso não.

MOÇA.

Por certo que tendes graça

Em tudo quanto fizerdes.

Fazei mais o que souberdes.

PORTEIRO.

Não sei cousa que não faça,

Senhora, por me quererdes.

MOÇA.

Tendes vós muito bom ar.

PORTEIRO.

Mais qu'isto faz quem quer bem.

MOÇA.

I-vos asinha, que vem

O Principe a se deitar.

PORTEIRO.

Nunca huma pessoa tem

Hum'hora para fallar!

_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_

PRINCIPE.

Seja a morte apercebida,

Porque ja o Amor ordena

A dar a meu mal sahida;

Porque o fim da minha vida

O seja da minha pena.

Não tarde, para tomar

Vingança de meu querer,

Pois não se póde dizer

Que não tee ja que esperar,

Nem com que satisfazer?

Os Physicos vem e vão,

Sem saberem minhas mágoas,

Nem o pulso me acharão;

E se o querem ver nas ágoas,

As dos olhos lho dirão.

Se com sangrias tambem

Procurão ver-me curado;

O temor de meu cuidado

O mais do sangue me tem

Nas veias todo coalhado.

Quero-me aqui encostar,

Que ja o esprito me cae.

Leocadio, vae-me chamar

Os Musicos de meu Pae;

Folgarei de ouvir cantar.

_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_

PRINCIPE.

Senhora, qual desatino

Me trouxe a tanta tristura?

Foi, Senhora, por ventura

A fôrça do meu destino,

Como vossa formosura?

Bem conheço que não posso

Ter tão alto pensamento;

Mas disto só me contento,

Que se paga com ser vosso

O mor mal de meu tormento.

_Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_

ALEXANDRE.

Senhor, de que se acha mal

O Principe, ou que mal sente?

PAGEM.

Senhor, sei que está doente;

Mas sua doença he tal,

Qu'entender se não consente.

Os Physicos vem e vão,

Huns e outros a meude,

Sem o poderem dar são.

Quanto mais cura lhe dão,

Então tee menos saude.

O Pae anda em sacrificios

Aos deoses, que lhe dem

A saude que convem;

Dizendo que por seus vicios

O mal a seu filho vem.

Eu suspeito qu'isto são

Alguns novos amorinhos,

Que tera no coração.

ALEXANDRE.

Amores! com quem serão,

Que lhe não dem de focinhos?

PORTEIRO.

Senhores, que lhe parece

Da doença de Antiôcho?

ALEXANDRE.

Diga-lha quem lha conhece.

PAGEM.

Que toma morrer a trôco

De callar o que padece.

PORTEIRO.

Isso he estar emperrado

Na doença; que he peor.

Tee-no os Physicos curado?

ALEXANDRE.

Oh! que de mal del amor

No ha, Señor, sanador.

PORTEIRO.

Fallais como exprimentado;

Qu'eu cuido que esta fadiga,

Que o faz com que desespere;

Y por mas tormento quiere

Que se sienta, y no se diga.

ALEXANDRE.

Pois, Senhor meu, isso asselle,

Porque a pena, que sabeis,

Que eu cuido que está nelle,

Dar-lhe-ha penas crueis,

Pues no hay quien la consuele.

PORTEIRO.

Folgo, porque m'entendeis.

PAGEM.

Hemo-nos, Senhores, de ir,

Porque nos está 'sperando.

PORTEIRO.

Pois eu tambem hei de ir;

Que não me posso espedir

Donde vejo estar cantando.

PRINCIPE.

Cantae, por amor de mi,

Alguma cantiga triste;

Que todo meu mal consiste

Na tristeza em que me vi.

PORTEIRO.

Mande-lhe cantar hum chiste.

ALEXANDRE.

Chiste não, que he deshonesto,

E não tee esses extremos:

Outro canto mais modesto;

Porém não sei que diremos.

PAGEM.

Gaoleão o dirá presto.

PORTEIRO.

Dá licença V. Alteza

Que diga minha tenção?

PRINCIPE.

Dizei: seja em canto-chão.

PORTEIRO.

Pois crede qu'he subtileza.

Qu'os Anjos a comerão.

Digão esta:

_Enforquei minha esperança,

E o Amor foi tão madraço,

Que lhe cortou o baraço._

ALEXANDRE.

Não me parece essa boa.

PORTEIRO.

Haja eu perdão,

Porque não a entenderão.

ALEXANDRE.

Entender!

PORTEIRO.

Bofé qu'he boa:

Não lhe cahis na feição?

ALEXANDRE.

Dizei ora outra melhor,

Com que nos atarraqueis.

PORTEIRO.

Ora esperae, e ouvireis:

Se a esta não dais louvor,

Quero que me degolleis.

Cantiga.

Com vossos olhos Gonçalves,

Senhora, captivo tendes

Este meu coração Mendes.

ALEXANDRE.

Essa parece mui taibo,

Porque mostra bom indicio.

PORTEIRO.

Vós cuidareis qu'eu que raivo.

ALEXANDRE.

Todavia tee mao saibo.

Ora mal lhe corre o offício.

PRINCIPE.

Tá, não vá mais por diante

A zombaria, que he má:

Cantae qualquer dellas ja;

Qu'esse Porteiro he galante,

Ninguem o contentará.

_Aqui cántão, e em acabando, diz o_

PAGEM.

Parece que adormeceo.

PORTEIRO.

Pois será bom que nos vamos.

ALEXANDRE.

Senhor, quer que nos vejamos?

PORTEIRO.

Senhor vir-me-ha do ceo:

Releva-me que o façamos.

_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_

RAINHA.

Frolalta, como ficava

Antiôcho em te tu vindo?

FROLALTA.

Ficava-se despedindo

Da vida qu'então levava,

E assi seus dias cumprindo.

RAINHA.

Oh grave caso d'amor!

Desesperada affeição!

Oh amor sem redempção,

Que alli te fazes maior

Onde tens menos razão!

No mais alto e fundo pégo

Alli tens maior porfia:

Razão de ti não se fia.

Quem a ti te chamou cego,

Mui bem soube o que dizia.

Por ventura hia chorando?

FROLALTA.

Chorando hia e chamando

Ao Amor, Amor cruel;

E em, Senhora, se deitando

Lhe cahio este papel.

RAINHA.

Que papel?

FROLALTA.

Este, Senhora.

RAINHA.

Amostra, que quero lê-lo.

Agora acabo de crê-lo;

Que ao que mostra por fóra,

Aqui lhe lançou o sello.

_Aqui lê o papel e diz:_

RAINHA.

Oh estranha pena fera!

Desditosa vida chara!

Oh quem nunca cá viera,

E com seu Pae não casára,

Ou em casando morrêra!

FROLALTA.

Aindaque eu pêca são,

Senhora, tudo bem vejo.

Attente, que na eleição

O que lhe pede o desejo

Não consente o coração.

RAINHA.

Frolalta, pois qu'es discreta

Nada te posso encobrir;

Porque, se queres sentir,

A huma mulher discreta

Tudo se ha de descobrir.

O dia qu'entrei aqui,

Que a Seleuco recebi,

Logo nesse mesmo dia

No Principe filho vi

Os olhos com que me via.

Este principio soffri-lho,

Para ver se se mudava;

Antes mais se accrescentava:

Eu amava-o como filho,

E elle d'outr'arte me amava.

Agora vejo-o no fim

Por se me não declarar.

E pois ja que a isso vim,

A morte que o levar,

Me leve tambem a mim.

Porque ja que minha sorte

Foi tão crua e desabrida,

Que me não quer dar sahida;

Sejamos juntos na morte,

Pois o não somos na vida.

Oh quem me mandou casar,

Para ver tal crueldade!

Ninguem venda a liberdade,

Pois não póde resgatar

Onde não tee a vontade.

Que não ha mor desvario,

Que o forçado casamento

Por alcançar alto assento;

Que, emfim, todo o senhorio

Está no contentamento.

Não sei se o vá ver agora,

Se será tempo conforme,

Ou se imos a deshora.

FROLALTA.

Despois iremos, Senhora,

Que agora dizem que dorme.

_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_

PHYSICO.

Su madrasta oyó nombrar,

Y el pulso se le alteró:

Esto no entiendo yo,

Porque para le alterar

El corazon le obligó.

Pues que el corazon se altere,

Es porque en un momento

Algun nuevo vencimiento

De aficion terrible le hiere,

Que causa tal movimiento.

Pues que aficion cabe así

Con madrasta? Digo yo,

Dos razones hay aqui:

La una dice, que sí,

La otra dice, que no.

Empero yo determino

De exprimentar la verdad,

Y hacer una habilidad,

Que declare es agua, ó vino

Esta su enfermedad.

Porque toda esta mañana

Tengo estudiado su mal,

Sin ver causa efectual

De su dolencia inhumana,

Ni otra de su metal.

Llamar quiero este asnejon;

Mas aun debe de dormir,

Segun que es dormilon.

Sancho? ó Sancho?

SANCHO.

Ah Señor.

PHYSICO.

Ea, aun estás dormiendo?

SANCHO.

Estoyme, Señor, vestiendo.

PHYSICO.

Pues vellaco y sin sabor,

No me respondes dormiendo?

Vestios presto, ladron.

Oh qué mozo, y qué ventura!

SANCHO.

(Mas qué amo y qué cabron!)

Embíeme acá el ropon,

Que no hallo mi vestidura.

PHYSICO.

Que embie el ropon acá?

Parece que os desmandais.

SANCHO.

Que vaya, Señor? ha, ha.

Que buenos dias hayais.

_Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:_

PHYSICO.

Di como vienes así

Con la manta, y para qué?

SANCHO.

Yo, Señor, se lo diré:

Por venir presto vestí

Lo que mas presto me hallé:

Porque viendo que él me llama,

Dormiendo yo sin afan,

Salté presto de la cama,

Que parezco un gavilan,

Hermoso como una dama.

PHYSICO.

Mas es tu bovedad tanta,

Que vienes desta facion?

SANCHO.

De mi vestido se espanta?

De noche sirve de manta,

Y de dia de ropon.

PHYSICO.

Embióme ElRey á llamar

Otra vez.

SANCHO.

Y á mí?

PHYSICO.

Y á ti!

SANCHO.

Y él qué presta allá sin mí?

PHYSICO.

Qué puedes tu aprovechar?

SANCHO.

Yo se lo diré de aqui:

Si por la ventura quiere

Para que le dé consejo,

Cuando doliente estuviere;

Digo, coma, si pudiere,

Y beba buen vino anejo;

Porque este es el licor

Que dá fuerza, y es sabroso;

Que segun dicen, Señor,

_Vinum loetificat cor

Hominis_, y le es provechoso.

PHYSICO.

Ya sabes la medicina,

Que Avicena nos refiere.

SANCHO.

Pues, Señor! porque es divina.

Pero ElRey qué le quiere,

Qué manda, ó qué determina?

PHYSICO.

El Principe está doliente.

SANCHO.

Oh mesquino! Y qué mal ha?

PHYSICO.

Y á ti, necio, que te vá?

SANCHO.

O Señor, que es mi pariente!

PHYSICO.

Gracioso el bovo está.

Y pues díme por tu fé:

Llorarás si se muriere?

SANCHO.

No, Señor, no lloraré;

Empero, Señor, haré

La peor cara que pudiere.

PHYSICO.

Ea, bovo, vé corriendo,

Y ensilla la mula ayna.

SANCHO.

Véngala ensillar mejor.

PHYSICO.

Oh velhaco, y sin sabor!

SANCHO.

Yo por cierto no lo entiendo.

Pero una medicina

Le he de pedir, Dios queriendo,

(Porque ando atribulado,

Y no sé parte de mi

Con este nuevo cuidado)

Para un sayo esfarrapado,

Que me dicen hay allí.

PHYSICO.

Ora ensilla; y nunca viva,

Pues sufro tus desatinos.

SANCHO.

Señor, pasion no reciva:

_Ya cavalga Calaínos

A la sombra de una oliva._

_Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe e diz:_

PRINCIPE.

Oh bella vista e humana,

Por quem tanto mal sostenho!

Oh Princeza soberana!

Como? nos braços vos tenho,

Ou este sonho m'engana?

Pois como, sonho, tambem

Me queres vir magoar?

E para me atormentar

Mostras-me a sombra do bem

Para assi mais m'enganar?

Assi que, com quanto canso,

Ja não posso achar atalho,

Pois que o somno quieto e manso,

Que os outros tee por descanso,

Me vem a mi por trabalho.

Pois ha hi tantos enganos

Que condemnão minha sorte;

Não o tenho ja por forte,

Se á volta de tantos danos

Viesse tambem a morte.

_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_

REI.

Andae e vêde se achais

O rasto deste segredo,

Que me dizem que alcançais;

Ainda que tenho medo

Que lhe seja por demais.

PHYSICO.

Plega á Dios que aqueste sea

Para salud y remedio

Desta dolencia tan fea.

Yo buscaré todo el medio,

Que presto sano se vea.

_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_

PHYSICO.

Aflojen, Señor, sus ais.

Como se halla en su penar?

PRINCIPE.

Como me acho perguntais?

E como se póde achar

Quem sempre se perde mais?

PHYSICO.

(La respuesta abre el camino.)

Imagina de contino?

PRINCIPE.

Não tenho outro mantimento,

Nem outro contentamento,

Senão o em que imagino.

_Aqui entra a Rainha e diz:_

RAINHA.

Como se sente, Senhor?

Tee a febre mais pequena?

PRINCIPE.

Responda-lhe minha pena.

PHYSICO.

(Conocido es su dolor.

Ora sea en hora buena,

Tomada está la tristeza

Á las manos.) Qué sentió?

(Usaré de subtileza.)

_Diz contra ElRei:_

Cúmpleme que solo yo

Platique con Vuestra Alteza.

REI.

Cheguemos-nos para cá.

RAINHA.

Não deve desesperar,

Qu'em fim, se bem attentar,

Para tudo o tempo dá

Tempo para se curar.

PRINCIPE.

Que cura poderá ter

Quem tee a cura, Senhora,

No impossivel haver?

RAINHA.

Ficae-vos, Senhor, embora,

Que vos não sei responder.

_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_

REI.

Neste mal, que não comprendo,

Que meio dais de conselho?

PHYSICO.

Señor, nada entiendo dello;

Y supuesto que lo entiendo,

Yo quisiera no entendello.

REI.

Porque?

PHYSICO.

Porque he entendido

Lo mas malo de entender,

Para lo que puede ser,

Porque anda, Señor, perdido

De amores por mi muger.

REI.

Santo Deos! que! tal amor

Lhe dá doença tão fera!

Que remedio achais melhor?

PHYSICO.

Forçado será que muera,

Porque no muera mi honor.

REI.

Pois como! a hum só herdeiro

Deste Reino não dareis

Vossa mulher, pois podeis;

Que tudo faz o dinheiro?

Pois este não o engeiteis;

Dae-lha, porque eu espero

De vos dar dinheiro e honra,

Quanto eu para elle quero.

PHYSICO.

No tira el mucho dinero

La mancha de la deshonra.

REI.

Ora bem pouco defeito!

He pequice conhecida,

Quando deixa de ser feito;

Porque com elle dais vida

A quem vos dara proveito.

PHYSICO.

Cuan facilmente aporfia

Quien en tal nunca se vió!

Del consejo que me dió,

Vuestra Alteza que haria

Si agora fuese yo?

REI.

A mulher que eu tivesse

Dar-lha-hia. Oxalá

Que elle a Rainha quizesse!

PHYSICO.

Pues déla, si le parece,

Que por ella muerto está.

REI.

Que me dizeis?

PHYSICO.

La verdad.

REI.

Sem dúvida, tal sentistes?

PHYSICO.

Sin duda, sin falsedad.

Pues, Señor, ahora tomad

Los consejos que me distes.

REI.

Certamente, qu'eu o via

Em tudo quanto fallava.

Como o vistes? porque via?

PHYSICO.

Nel pulso, que se alterava

Si la via, ó si la oia.

REI.

Que maneira ha de haver?

Qu'eu certo me maravilho,

Possa mais o amor do filho,

Do que póde o da mulher.

Finalmente hei-lha de dar,

Que a ambos conheço o centro.

Quero-o ir alevantar,

E iremos para dentro

Neste caso praticar.

_Diz contra o Principe:_

Levantae-vos, filho, d'hi

O melhor que vós puderdes,

E vindo-vos para aqui;

Porque, emfim, o que quizerdes

Tudo havereis de mi.

PAGEM.

Ah Senhores, oulá, ou?

PORTEIRO.

Viestes em conjunção

A melhor que póde ser:

Haveis aqui de fazer

A tosquia a hum rifão.

PAGEM.

Deixae-me, Senhor, dizer:

Haveis isto de acabar,

Coração, hi bugiar,

No esteis preso en cadenas,

Que pois o amor vos deo penas,

Que vos lanceis a voar.

PORTEIRO.

Por certo que bem comprou.

PAGEM.

Ora sabeis o que vai?

Antiocho que casou

Com a mulher de seu Pai,

E o mesmo Pae o ordenou.

PORTEIRO.

Isso como?

PAGEM.

Não o sei;

Porque dizem que a amava,

E que só por ella andava

Para morrer; e ElRei

Deo-a a quem a desejava.

PORTEIRO.

Se o casa por querer bem

Com a moça, a quem elle ama,

Direi eu que a mim me inflama

O amor mais que a ninguem.

PAGEM.

Pois pedi-lhe a nossa dama.

PORTEIRO.

Por São Gil, que ei-los cá vem,

Elle pela mão com ella.

_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:_

REI.

Que mais ha hi que esperar?

Olhae qu'estranheza vai!

O muito amor ordenar,

Ir-se o filho namorar

D'huma mulher de seu Pai!

Querer bem foi sua dor,

Negar-lha será crueldade;

Assi que ja foi bondade

Usar eu de tal amor,

E de tal humanidade.

Ella deixou de reinar

Como fazia primeiro

Por se com elle casar;

E por amor verdadeiro

Tudo se póde deixar.

Eu que nella tinha pôsto

Todo o bem de meu cuidado,

Deixei mais que ella ha deixado;

Que mais se deixa no gôsto,

Que no poderoso estado.

Mas ja que tudo isto vemos,

Hajão festas de prazer,

As que melhor possão ser;

Porqu'em tão grandes extremos,

Extremos se hão de fazer.

Hajão cantos para ouvir,

Jogos, prazeres sem fundo;

Porque, se quereis sentir,

Deste modo entrou o mundo,

E assi ha de sahir.

_Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, sahem-se todas as

figuras, e diz_

MARTIM CHINCHORRO.

Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos;

ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor

festa que póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das

figuras nos acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz

escuro, não vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço

e as canastras.

ESTACIO DA FONSECA.

Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na

mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta

pousada; e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento

as leva.

* * * * *

OS AMPHITRIÕES,

COMEDIA.

INTERLOCUTORES.

AMPHITRIÃO.

ALCMENA, sua mulher.

CALLISTO.

FELISEO.

SOSEA, moço de Amphitrião.

BROMIA, sua criada.

BELFERRÃO, Patrão.

AURELIO, Primo de Alcmena.

HUM MOÇO DE AURELIO.

JUPITER.

MERCURIO.

OS AMPHITRIÕES,

COMEDIA.

ACTO PRIMEIRO.

SCENA I.

_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._

ALCMENA.

Ah Senhor Amphitrião,

Onde está todo meu bem!

Pois meus olhos vos não vem,

Fallarei co'o coração,

Que dentro n'alma vos tem.

Ausentes duas vontades,

Qual corre mores perigos,

Qual soffre mais crueldades,

Se vós entre os inimigos,

Se eu entre as saudades?

Que a ventura, que vos traz

Tão longe de vossa terra,

Tantos desconcertos faz,

Que se vos levou á guerra,

Não me quiz leixar em paz.

Bromia, quem com vida ter,

Da vida ja desespera,

Que lhe poderás dizer?

BROMIA.

Que nunca se vio prazer,

Senão quando não se espera.

E por tanto não devia

De ter triste a phantasia;

Porque Vossa Mercê creia,

Que o prazer sempre salteia

Quem delle mais desconfia.

Eu tenho no coração,

Do Senhor Amphitrião

Venha hoje alguma nova:

Não receba alteração,

Que a verdadeira affeição

Na longa ausencia se prova.

ALCMENA.

Dizei logo a Feliseo

Que chegue muito apressado

Ao caes, e busque mêo

De saber se algum recado

Do porto Persico vêo:

E mais lhe haveis de dizer,

(Isto vos dou por offício)

D'alguma nova saber,

Em quanto eu vou fazer

Aos Deoses o sacrificio.

SCENA II.

BROMIA.

Saudades de minh'ama,

Chorinhos e devoções,

Sacrificios e orações,

Me hão de lançar n'huma cama,

Certamente.

Nós mulheres de semente

Somos sedenho mui tosco:

Com qualquer vento que vente,

Queremos forçadamente

Que os Deoses vivão comnosco.

Quero Feliseo chamar,

E dizer-lhe aonde ha de ir.

Mas elle como me vir,

Logo ha de querer rinchar,

De travesso.

Eu que de zombar não cesso,

Por ficar com elle em salvo,

Lanço-lhe hum e outro remêsso;

Aos seus furto-lhe o alvo;

E então elle fica avesso.

Porque o melhor destas danças,

Com huns vindiços assi,

He trazê-los por aqui

Ó cheiro das esperanças,

Por viver.

Ha-os homem de trazer

Nos amores assi mornos,

Só para ter que fazer;

E despois ao remetter

Lançar-lhe a capa nos cornos.

Feliseo, se estais á mão,

Chegae cá, vem como hum gamo:

Bem sei que não chamo em vão.

SCENA III.

_Feliseo e Bromia._

FELISEO.

Chamais-me? tambem vos chamo;

Porém eu ouço, e vós não:

Senhora, que me matais,

Se vós ja nunca me ouvis,

Ou me ouvis, e vos callais,

Dizei: porque me chamais

Se me vós a mim fugis?

BROMIA.

Eu vos fujo?

FELISEO.

Fugis, digo,

De dar a meus males cabo.

BROMIA.

Sabei que desse perigo

Não fujo como de imigo,

Fujo como do diabo.

FELISEO.

Dae ao demo essa tenção,

Usae antes de cortês,

Cahi vós nesta razão.

BROMIA.

Do p'rigo fogem os pés,

Do diabo o coração.

FELISEO.

Dizeis-me que nessa briga

Do meu coração fugis.

BROMIA.

Ainda qu'eu isso diga...

FELISEO.

Ah minha doce inimiga!

Bem sinto que me sentis.

Mas para que me chamais?

BROMIA.

Manda-vos minha Senhora

Que chegueis daqui ao cais,

E algumas novas saibais

D' Amphitrião nesta hora.

FELISEO.

Quem as não sabe de si,

D'outrem como as sabera?

BROMIA.

Não as sabeis vós de mi.

FELISEO.

Má trama venha por ti,

Duna feiticeira má!

Porque não me ólhas direito,

Cadella, que assi me cortas?

BROMIA.

Porque vos quero dar portas;

Que s'eu olhar d'outro geito,

Trarei cem mil vidas mortas.

FELISEO.

E pois para que me andais

Enganando ha cem mil annos?

BROMIA.

Dou-vos vida com enganos.

FELISEO.

Nesses enganinhos tais

Acho crueis desenganos.

BROMIA.

Quant'esses vos quero eu dar:

Vós cuidais que estais na sella?

Pois podeis-vos descer della;

Qu'eu nunca vos pude olhar.

FELISEO.

Jogais comigo á panella?

Tendes-me ha tanto captivo,

E desenganais-me agora?

Tudo isto he o que privo.

Assi que he isso, Senhora,

Dochelo morto, dochelo vivo?

Se me vós desenganais

No cabo de tantos annos,

Direi, se licença dais,

Dais-me vida com enganos,

Desenganos, ja chegais.

Mas se isso havia de ser,

Dizei, má desconhecida,

Destêrro de meu viver,

Que vos custava dizer

Amor, vae buscar tua vida?

BROMIA.

Zombais? Fallais-me coprinhas?

FELISEO.

Rir-vos-heis se vem á mão:

Copras não, mas isto são

Ansias y pasiones minhas

Dos bofes e coração.

BROMIA.

Is-vos fazendo d'huns sengos.....

FELISEO.

Perdóneme Dios si peco.

BROMIA.

Nesses dentinhos framengos

Conheço que sois hum pêco

De todos quatro avoengos.

FELISEO.

Tudo vos levo em capelo,

Ja qu'estais tanto em agraço.

Porém, fallando singelo,

A furto desse mao zêlo,

Quereis-me dar hum abraço?

BROMIA.

Ora digo que não posso

Usar comvosco de fero:

Tomae-o.

FELISEO.

Ja o não quero,

Porque esse abraço vosso,

Sabei que he engano mero.

BROMIA.

Oh! vós sois d'huns sensabores...

Abraço pedis assim?

S'eu remango d'hum chapim...

FELISEO.

Tudo isso são favores:

Zombae, vingae-vos de mim.

BROMIA.

Vós de furioso touro

As garrochas não sentis.

FELISEO.

Vedes, com isso sé mouro:

Quando cuido que sois ouro,

Acho-vos toda ceitis.

BROMIA.

Emfim, sanha de villão

Vos fez perder hum bom dia.

FELISEO.

Jagora o eu tomaria;

Quereis-mo dar?

BROMIA.

Ora não.

Cocei-vos eu todavia.

FELISEO.

Pois, Senhora, a quem vos ama

Sois tão desarrazoada,

Quero tomar outra dama;

Que não digão os d'Alfama

Que não tenho namorada.

BROMIA.

Deixae-me.

FELISEO.

Vós me deixais.

BROMIA.

Deixae-me.

FELISEO.

Zombais de mi?

BROMIA.

Deixae-me. Pois m'engeitais,

Eu me ausentarei daqui

Onde me mais não vejais.

FELISEO.

Boa está a zombaria!

BROMIA.

Não são essas minhas manhas.

FELISEO.

Porém is-vos todavia?

BROMIA.

Voyme á las tierras estrañas.

Adó ventura me guia.

SCENA IV.

_Feliseo só._

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III · 第 9 / 16 段