Do nó mortal em que se vai detendo,
Primeiro que tres vezes pressuroso
O sol os doze Signos vá correndo.
Espaço he que tomei, meu doce Esposo,
Para outro esposo meu ir entretendo:
Mas a meu amor crendo, de ti creio
Que acabes com a vida o meu receio.
Inda neste fervente e justo rôgo
Ursula suspirando procedia,
Quando d'hum resplandor como de fogo
Divina voz ouvio, que assi dizia:
Ó virgem, que soubeste fazer jôgo
Do que no mundo tee maior valia,
Entende que da volta que fizeres,
Aqui quero que seja o que tu queres.
Tanto que tal resposta do Ceo teve,
Não quiz do que esperava perder hora:
Ja lhe parece larga a noite breve,
E que ja tarda muito a bella aurora.
Em descobrindo Apollo o carro leve,
Do porto de Colonia sahio fóra.
Ja Basilêa em breve tempo toma:
E a pé d'alli partirão para Roma.
O Pastor summo, Ciriáco santo,
As sahe a receber, e as acompanha
Com gôzo espritual, com grande espanto
De ver em tal idade fé tamanha.
Dizer se póde mal, mal cuidar quanto
Se goza o Real sangue de Bretanha,
Os veneraveis Templos visitando
Daquelles que tambem foi imitando.
Na propria noite deste proprio dia
Que Roma ver as virgens mereceo,
A quem de Pedro a Barca então regía
Revelou o que rege a terra e ceo
Que martyrio tambem receberia
Onde Ursula co'as mais o recebeo:
Deixa contente o grão Pontificado,
Desejoso de ser martyrizado.
Por mais que todo o Clero soffre mal
Mover-se por aquellas Estrangeiras,
Movido da Vontade divinal
O bom Pastor se vai com as Cordeiras.
Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:
Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras,
De Luca, Ravicana e de Ravenna:
Mauricio me ficava ja na penna.
Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão,
Com tão formoso sol tantas estrellas,
Ja as ancoras debaixo acima tirão,
E de cima ja abaixo soltão vellas.
Estas naos lá adiante outras naos vírão,
Que fazendo-se vem na volta dellas;
Conhecêrão-se logo as duas frotas:
Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.
Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,
Vinha de Ursula bella o bello esposo,
Que reinar não queria ja na terra,
Do ceo ja namorado e saudoso.
Do seu primeiro amor venceo a guerra
A fôrça d'outro amor mais poderoso:
Amando ja em seu Deos a esposa bella,
Para o poder achar, buscava a ella.
A mãe, ja convertida, traz comsigo;
O pae, ja Christão feito, fallecêra,
Com que soube evitar o grão castigo
Que, morrendo Gentio, não soubera.
Amor celeste, como aqui não digo
O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)
Por meio d'huma virgem foste meio
Com que gente copiosa a Christo veio.
Vinha mais nesta nova companhia
Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado;
Florencia, qu'em belleza florecia,
Como flor em jardim bem cultivado.
Tambem a frota Bispos dous trazia,
Hum Marcello, Clemente outro chamado:
O primeiro ja em Grecia bago teve;
Do segundo o Bispado não s'escreve.
Outra Virgem viuva alli mais vinha,
Que desposada sendo em tenra idade,
Antes das bodas enviuvado tinha,
E promettida a Christo a castidade.
Esta do mesmo Rei era sobrinha,
Filha da Imperatriz da grã cidade,
Onde por culpa nossa, ou pouca dita,
Seu throno agora tee o fero Scita.
Estes, que adverte repetida historia
Deixárão só por Deos altos Estados,
Com outros, de que he menos a memoria,
Forão divinamente amoestados
Que todos, para entrar juntos na glória,
Ao côro virginal fossem juntados,
Com quem na terra Martyres serião,
E no ceo para sempre reinarião.
Sería estranho o gôzo que sentírão
Aquellas bem nascidas almas santas,
Quando juntas alli todas se vírão
De partes tão remotas, e de tantas.
Sem estorvos, que d'antes o impedírão,
As duas, mais que todas, bellas plantas
Alli abraços se dão sem algum pejo,
Ambas conformes ja n'hum só desejo.
Alli faria o Rei acatamento
A quem deixou da Barca o grão govêrno;
E elle, conforme a seu merecimento,
Responderia com amor paterno.
Não faltaria em tal recebimento
Prazer exterior, prazer interno;
Inda que nos estados differentes,
Todos serião huns em ser contentes.
O vento as brancas velas não enchia,
Corria o frio Rheno então mais quedo;
Antes para Colonia não corria,
Porque as virgens não fossem lá tão cedo.
Parece que ja claro conhecia
(Oh côro virginal, sereno e ledo!)
Que lá vos esperava a impia morte.
Agora, ó Musa, conta de que sorte.
Aquelle que na fórma de serpente
Deixou aos dous primeiros enganados,
Invejoso de ver que tanta gente
Se convertia á Lei dos Baptizados;
No caração entrou manhosamente
De dous gentios Principes damnados,
Da soberba Romãa Cavaleria,
Por encurtar a Fé que s'estendia.
A Fama os assegura com certeza
Que a virgem a Colonia ja voltava,
Com toda a casta juvenil belleza
Que por amor do Ceo peregrinava.
Fizerão avisar com grã presteza
A hum parente, que Julio se chamava,
Soberbo Capitão dos Hunnos feros;
Que todos para todas forão Neros.
Eis logo o cego Principe gentio,
Com gente innumeravel de seu mando,
A praia a tomar vem do mesmo rio
Por onde as virgens vinhão navegando.
Ja descobrem aquelle, este navio
Os qu'estão do mais alto atalaiando:
Ás armas veloz corre o bruto povo,
Por de novo as tingir no sangue novo.
Vindo a frota a surgir junto do muro,
Onde lhe parecia estar segura,
(Oh virgens que buscais? lugar seguro
Adonde vos espera a sepultura!)
Entra com mão armada o povo duro
Por esta peregrina formosura:
Ja começa a provar os aços fortes;
Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.
Ja nu todas as virgens offrecião
O delicado collo, o tenro peito:
Era para caber quantas cahião,
Todo largo lugar lugar estreito.
Do puro sangue os rios que corrião,
Outro vermelho mar ja tinhão feito.
Tu só, Córdula, á morte t'escondeste;
Mas despois a buscaste e recebeste.
Ciriáco o primeiro, bem constante,
A vida ao ferro offrece sem espanto:
O moço Rei Inglez cahio diante
Daquelles castos olhos que amou tanto.
Espera, brando esposo, hum breve instante;
Espera a tua doce esposa, em tanto
Que outro Amor outro golpe lhe prepara;
E juntos entrareis na Patria chara.
Em qual terra, ó crueis, em qual cidade,
Entre quaes gentes mais a furor dadas,
Se não usou d'amor e de piedade
Com formosas donzellas desarmadas?
Como belleza tanta e tal idade
Vos deixou arrancar vossas espadas?
Ah lobos carniceiros, tigres bravos,
Filhos da crueldade, d'ira escravos!
De quantos animaes sustenta a terra
Nunca tanta crueza foi usada;
Inda que tenhão huns com outros guerra,
Nunca do macho a femia he lastimada:
Anda a cerva co'o cervo por a serra,
A novilha do touro acompanhada,
Á leoneza o leão defender preza:
Vós sós quebrais as leis da natureza?
Puderão outros olhos por ventura
De lagrimas divinas escusar-se,
Vendo, cuberta ja de névoa escura,
A luz de tantos bellos apagar-se?
Vendo a purpurea rosa, a cecem pura
Em tão formosas faces descorar-se?
As tranças d'ouro vendo, espedaçadas,
Por debaixo dos pés andar pizadas?
Na fôrça desta furia accesa e brava
O Tyranno cruel a vista ergueo
Á virgem, qu'invencivel animava
As almas que juntára para o Ceo.
Assi ja envolta em sangue como andava,
Da sua formosura se venceo;
E com doces razões, que Amor ensina,
A vencê-la d'amor se determina.
Fingindo se arrepende do passado,
(E de fingi-lo se arrepende azinha)
Sua vida lhe offrece e seu Estado,
Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.
O seu amor lhe pede confiado;
O seu amor que dado a seu Deos tinha:
Pede-lhe o seu amor; antes não seu,
Porque ja dado o havia a quem lho deu.
Usa de mil lisonjas, mil enganos,
Por conseguir o seu desejo bruto.
A flor logra (dizia) de teus anos,
Colhe d'essa belleza o doce fruto:
Não dês materia nova a novos danos,
Não pagues verde á morte o seu tributo:
Olha que tens em mi (não são cautelas)
Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.
Não faças mentirosa a natureza
Que dá d'amor em ti grande esperança.
Que se póde alcançar d'essa belleza,
Se ja piedade della não s'alcança?
Aos tigres, aos leões deixa a braveza,
E deixa aos meus soldados a vingança.
Se por ver-me cruel queres ser crua,
Ja te vingas de mi em cousa tua.
Volve esses olhos ja com mais brandura;
Esses olhos, d'Amor doce morada:
Delles não faça em mi a formosura,
O qu'em tantos ja fez a minha espada.
Se queres derribar minha ventura,
Que delles estar vejo pendurada,
Acabarei de ver quão pouca tenho,
Pois donde a matar vim a morrer venho.
Como do rôgo meu não te aproveitas,
Quando o teu risco a me rogar te obriga?
Ou não conheces bem a quem engeitas,
Ou m'engeitas por mais que seja e diga.
Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?
Mais proprio era chamar-te dura imiga.
Mas não consente Amor nome tão duro
Em parecer tão brando e tão seguro.
Os raios desses olhos ja serenos
Enxuguem desse rosto as puras rosas;
O triste suspirar ja sôe menos
Nestas concavidades saudosas.
Não fação grande mal males pequenos;
Que não soffre esperanças vagarosas
Quem anda costumado em seus amores
A medir por seu gôsto seus favores.
Que gôsto podes ter de maltratar-me,
Vendo-me do passado arrependido?
Attenta que mais ganhas em ganhar-me,
Do que neste destrôço tens perdido.
Se queres insistir em desprezar-me,
Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido.
Não me declaro mais, porque não quero
Que o medo faça o que d'amor espero.
Ah perfido amador! deixa o teu êrro.
Não vês quanto enganado e cego andas?
Aquella a quem não vence o duro ferro,
Como a podem vencer palavras brandas?
Manda a sua alma ja deste destêrro,
Com essas que a seu doce Esposo mandas.
Não a detenhas mais em teus amores,
Se dobrar-lhe não queres suas dores.
Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,
Tomava a bella virgem por affronta,
E que quanto d'amor mais se accendia,
Ella delle fazia menos conta;
No concavo arco que na mão trazia,
Huma setta embebeo d'aguda ponta,
E o peito lhe passou de banda a banda.
Assi rendeo o esprito a virgem branda.
Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;
As azas abre ja, ja a luz derrama;
Vôa com desusada ligeireza
Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.
Verás baixa do mundo a mór alteza;
Verás qu'engana mais a quem mais ama;
E lá do teu Amor, cá suspirado,
O fructo colherás tão desejado.
Em paz te vae, ó alma pura e bella,
Mais bella inda no sangue que verteste;
Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella
Formosa Região, alta e celeste.
Coroada de glória immortal, nella
Com Christo lograrás, a quem te déste
Com tantas e tão bem nascidas almas,
(Formosura do Ceo) onze mil palmas.
* * * * *
COMEDIAS.
INTERLOCUTORES.
DO PROLOGO.
O MORDOMO, ou DONO DA CASA.
MARTIM CHINCHORRO.
AMBROSIO, Escudeiro.
LANÇAROTE, Moço.
DA COMEDIA.
ELREI SELEUCO.
A RAINHA ESTRATONICA.
O PRINCIPE ANTIOCHO.
LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho.
FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica.
HUM PORTEIRO DA CANA.
HUMA MOÇA DA CAMARA.
HUM PHYSICO, ou MEDICO.
SANCHO, Moço do Physico.
ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos.
* * * * *
ELREI SELEUCO.
COMEDIA.
PROLOGO.
_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._
Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz
representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com outras ja
feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi
arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo
outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da
Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em
casa do Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que
usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer
bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha
puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que
responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vós outros estudastes
para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber
da Farça, em que ponto vai. Lançarote?
MOÇO.
Senhor.
MORDOMO.
São ja chegadas as figuras?
MOÇO.
Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.
MORDOMO.
Como assi?
MOÇO.
Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de
çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e
quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada
na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o
Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o
Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo
alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do
alheio.
MORDOMO.
Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela
porta fóra, para o metteres em tua casa.
MOÇO.
Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o
havia mister para si.
MORDOMO.
Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos
cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga
comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre o Canto-chão botemos
nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a
porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por
fôrça.
_Indo-se o Moço diz:_
Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma
bolsa com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que
são pouco, e valem muito?
MORDOMO.
Moço, que estás fazendo que não vás?
MOÇO.
Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle
tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para
humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?
MORDOMO.
Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.
_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:_
Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo
passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas
tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns
para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que
de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom
mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se
hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer
mal: este só desgôsto tee hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou
haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por villão ruim.
_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_
MARTIM.
Entre v. m.
AMBROSIO.
Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou
diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa
juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além
disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de
fazer consciencia.
MORDOMO.
Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder,
porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu
nome he.
MARTIM.
Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho
traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.
MORDOMO.
Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se
tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum
villão, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma
pera-pão, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como
Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.
MARTIM.
Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque
não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de
si enfadamento.
MOÇO.
O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro.
Ora sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás
rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.
MORDOMO.
Moço, falla bem ensinado.
MOÇO.
Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tee privilegio
de Moedeiro.
AMBROSIO.
Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.
MOÇO.
Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.
AMBROSIO.
Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?
MOÇO.
Donde quer que me acho.
AMBROSIO.
Pergunto-te onde nasceste.
MOÇO.
Nas mãos das parteiras.
AMBROSIO.
Em que terra?
MOÇO.
Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida
daquella hora, que não havia palmo de terra nella.
MARTIM.
Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para
ver com que disparate respondes.
MOÇO.
A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.
MARTIM.
Vem cá. De teu tio! E isso como?
MOÇO.
Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu
pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e
daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.
MARTIM.
Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?
MORDOMO.
Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e
mais tee outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como
eu, ou como o Chiado.
AMBROSIO.
Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto
se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?
MORDOMO.
Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor
de mi!
MOÇO.
Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.
MARTIM.
Como! Tão escura he ella?
MOÇO.
Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever
senão com carvão; e porém diz assi:
Por amor de vós, Briolanja,
Ando eu morto,
Pezar de meu avô torto.
MARTIM.
Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te
tee teu avô nos desfavores que te tua dama dá?
MOÇO.
Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos
meus parentes, que dos alheios?
MORDOMO.
Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que
trombeta de Serenissimo de la Valla.
MOÇO.
A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de
mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão
mais huma sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe
calçará melhor: e todavia palra assi:
Vossos olhos tão daninhos
Me tratárão de feição,
Que não ha em meu coração
Em que atem dous reis de cominhos.
Meu bem anda sem focinhos
Por vós morto,
Pezar de meu avô torto.
MARTIM.
Ora bem: que tee de ver os cominhos com o teu coração?
MOÇO.
Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não
se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era
tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.
MARTIM.
E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me dá tu a
entender; que ella não dá nada de si.
MOÇO.
Nunca vossas mercês ouvirão dizer: _Meu bem e meu mal lutárão hum dia;
meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a
quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por
ficarem tão esfarrapados, que lhe não podião botar pedaço; por conselho
dos Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui
ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto.
AMBROSIO.
Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. Nicolao.
MARTIM.
Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.
MOÇO.
Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas mercês.
MORDOMO.
Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por
baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado
dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira
da arca de cedro.
MARTIM.
Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.
AMBROSIO.
Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos
verdes.
MORDOMO.
Emfim, parece figura de Auto em verdade.
_Entra o Representador._
He lei de direito, assaz verdadeira,
Julgar por si mesmos aquillo que vem;
Peloque, se cuidão que zombo de alguem,
Eu cuido que zombão da mesma maneira.
E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer seu
proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o
dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha mais
que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês
a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo
primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e
vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos,
metidos em hum covão, cantando: _Quem os amores tee em Cintra_; e
despois de cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver:
entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo
Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha
pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o
Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma
alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês cada hum para suas
pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi houver. Parece-me que
nenhum diz que não. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque
atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da representação, como quem
diz, _digo-to, antes que mo digas._
AMBROSIO.
Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião
em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser
mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi;
porque jagora representações, todas he darem por praguentos; e são tão
certas, que he melhor errá-las, que acertá-las.
MORDOMO.
Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na
prática, como nos vestidos.
* * * * *
_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._
REI.
Senhora, desque a ventura
Me quiz dar-vos por mulher,
Me sinto emmeninecer;
Porqu'em vossa formosura
Perde a velhice seu ser.
Hum homem velho, cansado,
Não tee fôrça, nem vigor,
Para em si sentir amor:
Se não he qu'estou mudado
Com ser vosso n'outra côr.
Muito grande dita tem
A mulher que he formosa.
RAINHA.
Senhor, grande: mas porém
Se a tal he virtuosa,
Quer-lhe a ventura mor bem.
REI.
Si, mas porém nunca vemos
A natureza esmerar
Adonde haja que taxar;
Que quando ella faz extremos,
Em tudo quer-se extremar.
Eu fallo como quem sente
Em vós está calidade,
Pelo que vejo presente;
E se me esta mostra mente,
Mente-me a mesma verdade.
Huma só tristeza tenho
Que não tee a meninice,
Que no mor contentamento
O trabalho da velhice
Me embaraça o sentimento.
RAINHA.
Senhor, novidades tais
Far-me-hão crer de verdade...
REI.
Novidades lhe chamais!
Folgo, Senhora, que achais
Na velhice novidades.
RAINHA.
Senhor, dias ha que sento
Em o Principe Antiôcho
Certo descontentamento:
Dera alguma cousa a trôco
Por saber seu sentimento.
Vejo-lhe amarello o rosto,
Ou de triste, ou de doente:
Ou elle anda mal disposto,
Ou lá tee certo desgôsto
Que o não deixa ser contente.
Mande, Senhor, vossa Alteza
A chamá-lo por alguem,
Saberemos que mal tem,
Se he doença de tristeza,
De que nasce, ou de que vem.
REI.
Certo qu'eu me maravilho
Do que vos ouço dizer.
Que mal póde nelle haver?
Ide dizer a meu filho
Que me venha logo ver.
RAINHA.
Se curar não se procura
Huma cousa destas tais,
Vem despois a crescer mais.
Quando ja não se acha cura,
Toda a cura he por demais.
_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._
PRINCIPE.
Leocadio, se es avisado,
E não te falta saber,
Saber-me-has dar a entender,
Quem ama desesperado,
Que fim espera de haver?
PAGEM.
Senhor, não.
Mas porém porque razão
Lhe avem sabê-lo, ou de que?
PRINCIPE.
Pergunto-te a conclusão;
Não me perguntes porque.
Porque he minha pena tal,
E de tão estranho ser,
Que me hei de deixar morrer;
E por não cuidar no mal
O não ouso de dizer.
Que maneira de tormento
Tão estranho e evidente,
Que nem cuidar se consente!
Porque o mesmo pensamento
Ha medo do mal que sente.
PAGEM.
Não entendo a Vossa Alteza.
PRINCIPE.
Assi importa á minha dor.
PAGEM.
E porque razão, Senhor?
PRINCIPE.
Para que seja a tristeza
Castigo do meu temor.
Porque ordena
O Amor, que me condena,
Que se haja de sentir,
E sem dizer nem ouvir.
Bem-aventurada a pena
Que se póde descobrir!
Oh caso grande e medonho!
Oh duro tormento fero!
Verdade he isto, qu'eu quero?
Não he verdade, mas sonho
De que acordar não espero.
Quero-me chegar a ElRei
Meu pae, que ja m'está vendo.
Mas onde vou? Não m'entendo.
Com que olhos eu olharei
Hum pae, a quem tanto offendo?
Que novo modo de antolhos!
Porque neste atrevimento
Devêra meu sentimento
Para elle não ter olhos,
Nem para ella pensamento.
_Chega aonde está ElRei, e diz:_
REI.
Filho, como andais assi?
Que tanto desgôsto tomo
De vos ver como vos vi!
PRINCIPE.
Não sei eu tanto de mi,
Que possa saber o como.
Dias ha ja, Senhor, que ando
Mal disposto, sem saber
Este mal que possa ser;
Que se nelle estou cuidando,
Quasi me vejo morrer.
REI.
Pois, filho, será razão
Que meus Physicos vos vejão.