Phantasias de donzellas,

Não ha quem como eu as quebre;

Porque certo cuidão ellas,

Que com palavrinhas bellas

Nos vendem gato por lebre.

Esta tee lá para si

Qu'eu sou por ella finado;

E crê que zomba de mi;

E eu digo-lhe que, si,

Sou por ella esperdiçado.

Preza-se d'humas seguras;

E eu não quero mais Frandes:

Dou-lhe trela ás travessuras,

Porque destas coçaduras

Se fazem as chagas grandes.

Qu'estas, que andão sempre á vela,

Estas vos digo eu que coço;

Porque de firmes na sella,

Crem que falsão a costella,

E ficão pelo pescoço.

Que quando estas damas tais

Me cachão, então recacho.

Mas disto agora nó mais.

Quero-me ir daqui ao cais

Ver se algumas novas acho.

SCENA V.

_Jupiter e Mercurio._

JUPITER.

Oh grande e alto destino!

Oh potencia tão profana!

Que a setta d'hum menino

Faça que meu ser divino

Se perca por cousa humana!

Que m'aproveitão os ceos,

Onde minha essencia mora

Com tanto poder, se agora

A quem me adora por deos,

Sirvo eu como a senhora?

Oh quão estranha affeição!

Quem em baixa cousa vai pôr

A vontade e o coração,

Sabe tão pouco d'Amor,

Quão pouco Amor de razão.

Mas que remedio hei de ter

Contra mulher tão terribil,

Que se não póde vencer?

MERCURIO.

Alto Senhor, teu poder

O difficil faz possibil.

JUPITER.

Tu não vês qu'esta mulher

Se preza de virtuosa?

MERCURIO.

Senhor, tudo póde ser;

Que para quem muito quer,

Sempre a affeição he manhosa.

Seu marido está ausente

Na guerra, longe daqui;

Tu, qu'es Jupiter potente,

Tomarás sua fórma em ti;

Que o farás mui facilmente.

E eu me transformarei

Na de Sósea, criado seu;

E ao arraial me irei,

Onde logo saberei

Como se a batalha deu.

E assi poderás entrar,

Em lugar de seu marido;

E para que sejas crido,

Poderás tambem contar

Quanto eu lá tiver sabido.

JUPITER.

Quem arde em tamanho fogo

Tira-lhe a virtude a côr

De subtil e sabedor;

E quem fóra está do jôgo

Enxérga o lanço melhor.

Mas tu, que dos sabedores

Tanto avante sempre estás,

Se deos es dos mercadores,

Sê-lo-has dos amadores,

Pois tal remedio me dás.

Ponha-se logo em effeito;

Que não soffre dilação

Quem o fogo tee no peito;

E tu vae logo direito

Aonde anda Amphitrião.

SCENA VI.

_Feliseo e Callisto._

FELISEO.

Adó bueno por aqui,

Tão longe do acostumado?

CALLISTO.

Mais longe vou eu de mi,

D'ir perto de meu cuidado.

FELISEO.

No andar vos conheci.

CALLISTO.

E vós onde vos lançais,

Com vossa contemplação?

FELISEO.

Eu chego daqui ao cais

A saber de Amphitrião:

Não sei se vou por demais.

CALLISTO.

Porque por demais dizeis?

FELISEO.

Porque nada alli ha certo.

CALLISTO.

Novas lá não as busqueis,

Que aqui as tendes mais perto.

FELISEO.

Pois dae-mas ja, se as sabeis.

CALLISTO.

Hum navio he ja chegado

Á barra, que vem de lá;

Traz de Amphitrião recado,

Diz que o deixa embarcado

Para se vir para cá.

Tee vencido aquelle Rei;

E diz, segundo lhe ouvi,

Qu'esta noite será aqui.

FELISEO.

Essas novas levarei

A Alcmena, que torne em si,

Porque ella tee maior guerra

Co'os temores de perdello,

Qu'elle co'o Rei dessa terra.

CALLISTO.

Onde amor lançar o sello,

Nenhuma cousa o desterra.

Porqu'inda que o pensamento

Vos fique, Senhor, em calma,

Por morte ou apartamento;

Sempre vos lá ficão n'alma

As pégadas do tormento.

FELISEO.

Isso he hum segredo mero,

A que o amor nos obriga:

Por isso em caso tão fero,

Senhor, nunca ninguem diga,

Ja lho quiz, e não lho quero.

Eu quiz bem a huma mulher,

Que vós conhecestes bem,

E, com muito lhe querer,

Casou-se.

CALLISTO.

Oh! e com quem?

Que ainda o não posso crer.

FELISEO.

Com hum Mercador, que veio

Agora do Egypto, rico.

CALLISTO.

Isso traz ágoa no bico.

Esse homem he parvo, ou feio?

FELISEO.

Pois vêdes? disso me pico.

E em pago desta traição,

Afóra outros mil descontos

Que traz comsigo a affeição,

Sempre os signaes destes pontos

Trarei no meu coração.

CALLISTO.

Viste-la mais?

FELISEO.

Senhor, vi,

Na janellinha da grade;

Passei, e disse-lhe assi:

Casada sem piedade,

Porque não a haveis de mi?

CALLISTO.

Que vos disse?

FELISEO.

Lá no centro

Lh'enxerguei pouca alegria;

E como quem lhe dohia,

Metendo-se para dentro

Disse: Ja pasó folia.

CALLISTO.

Ah má sem conhecimento!

Quem lhe désse mil chofradas!

FELISEO.

Senhor, como são casadas,

Casão-se co'o esquecimento

Das cousas que são passadas.

CALLISTO.

Lembranças de vos deixar

Picar-vos-hão como tojos.

FELISEO.

Senhor, haveis d'assentar

Que onde amor vos quer matar,

Siempre allá miran los ojos.

Hum motete lhe mandei

Hum dia, estando com febre,

Só da paixão que tomei.

CALLISTO.

Pois vejamos quem tee lebre.

FELISEO.

Senhor, eu vo-lo direi.

Mote.

Vós por outrem, e eu por vós;

Vós contente, e eu penado;

Vós casada, eu cansado.

Polos santos de minha dona!

CALLISTO.

Senhor, vós só o fizestes?

FELISEO.

Si, que ninguem me ajudou.

CALLISTO.

Se vós só o compuzestes,

Crede, que extremos dissestes.

Nunca Orlando tal fallou.

Senhor, fizestes-lhe pé?

FELISEO.

Senhor, si; e todo hum anno...

Vós zombais, se não m'engano?

CALLISTO.

Não, mas dou-vos minha fé

Que nunca vi tão bom panno.

FELISEO.

Ora olhe vossa mercê.

Volta.

Olhae em quão fundos vaos

Por vossa causa me affógo,

Que outro me ganha no jôgo,

E eu triste pago os paos.

Olhos travessos e maos,

Inda eu veja o meu cuidado

Por esse vosso trocado.

CALLISTO.

Não mais, qu'isso me degola.

FELISEO.

Senhor, eu haja perdão.

CALLISTO.

Fizestes esse rifão

Em algum jôgo de bola?

E foi-lhe elle ter á mão?

FELISEO.

Digo-vos que o vio, e lho leo

Hum moçozinho d'escola.

CALLISTO.

Está isso assi do ceo.

Sabe ella jogar a bola?

FELISEO.

Não.

CALLISTO.

Pois não vos entendeo.

Ora eu ja cheguei a ler

Petrarca, e crede de mi

Que nunca tal cousa vi.

Onde mora o bom saber,

Logo dá sinal de si.

Onde _casada_ puzestes,

Dizei, porque não dissestes

_La que yo vi por mi mal._

FELISEO.

Renunciava o metal;

Qu'em rifõeszinhos como estes,

Ha-se-de pôr tal com tal.

Que a trova trigo-tremez

Ha de ser toda d'hum pano;

Que parece muito Ingrez

N'hum pelote Portuguez

Todo hum quarto Castelhano.

Ouvi outra tambem minha,

Que fiz a certa tenção,

Clara, leve, bonitinha,

De feição, que esta trovinha,

He trovinha de feição.

Como eu hum dia me visse

Morto, e a mão na candêa,

E ella não me acodisse;

Fiz-lhe esta, porque sentisse

Que dava os fios á têa.

E o propósito he

Andar eu hum dia só;

E para que houvesse dó

De mi e de minha fé,

Lamentei-lhe como Jó.

CALLISTO.

Andastes, Senhor, mui bem.

FELISEO.

Ora, Senhor, attentai,

E vêde o saibo que tem;

Se he para a ver alguem.

CALLISTO.

Ora dizei.

FELISEO.

Ei-la vai.

Trova.

Coração de carne crua,

Vê-lo teu amor aqui,

Que esmorecido por ti

Jaz no meio desta rua?

CALLISTO.

Na rua, Senhor, jazia?

E era em tempo de lama?

FELISEO.

Senhor, quem falla a quem ama,

De si mesmo se não fia:

Haveis de mentir á dama.

CALLISTO.

Volta disso?

FELISEO.

Singular,

Senão que he muito sentida;

Far-vos-ha, Senhor, chorar.

CALLISTO.

Oh! diga, por sua vida!

FELISEO.

Farei o que me mandar.

Volta.

Porque não has delle mágoa,

Ó dura mais que ninguem,

Que anda o triste, que não tem

Quem lhe dê huma vez d'ágoa?

Não lhe negues teu querer,

Pois te não custa dinheiro;

Que, emfim, por derradeiro

A terra te ha de comer.

CALLISTO.

Tal trova nunca se vio.

Agorentaste-la ja?

FELISEO.

Senhor, não; ainda está

Como a sua mãe pario;

E não está muito má.

CALLISTO.

He trova, que tee por seis;

Não a posso mais gabar.

Mas, pois, tal cousa fazeis,

Senhor, não m'ensinareis

Donde vem tão bem trovar?

FELISEO.

Não he a cousa tão pequena,

Como, Senhor, a fizestes,

Essa que agora dissestes.

Mas porém vou dar a Alcmena

Estas novas que me déstes.

Despois, Senhor, nos veremos;

Ficae ja roendo esse osso.

CALLISTO.

O roer, Senhor, he vosso.

FELISEO.

Pois eu, por mais que zombemos,

Hei de ser vosso e revosso.

CALLISTO.

Oh!.. Escusae-vos d'extremos,

Qu'isso, Senhor, me atarraca.

Mas nós nos encontraremos,

E sôbre isso envidaremos

Dous reales mais de saca.

ACTO SEGUNDO.

SCENA I.

_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de Amphitrião,

Mercurio na de Sosea escravo._

JUPITER.

Mercurio, pois sou mudado

Nesta fórma natural,

Ólha e nota com cuidado,

Se está em mi o pintado

Apparente co'o real.

MERCURIO.

Quem tão proprio se transforma.

Tenho por opinião,

Que na tal transformação

Lhe prestou natura a fôrma,

Com que fez Amphitrião.

JUPITER.

Pois tu no gesto e na côr

Estás Sósea escravo seu.

MERCURIO.

Muito mais faras, Senhor.

JUPITER.

Não o faz senão o Amor,

Que nisto póde mais qu'eu.

MERCURIO.

Ja, Senhor, te fiz menção

Como deo Amphitrião

A ElRei Terela a morte;

Que, na guerra igual, a sorte

Póde mais que o coração.

E despois de ser tomada

Toda a Cidade, com gloria

D'Amphitrião bem ganhada,

Como em sinal de victoria,

Esta copa lhe foi dada.

Por ella bebia ElRei,

Em quanto a vida queria;

E eu, porque te cumpria,

A seu escravo a furtei,

Que n'huma caixa a trazia.

Esta poderás levar

A Alcmena, por lhe mostrar

Verdadeiro, o que he fingido;

E dest'arte serás crido,

Sem mais outro ardil buscar.

JUPITER.

Pois tudo tens ordenado

Por tão nova e subtil arte;

Como me vires entrado,

Irás dar este recado

A Phebo de minha parte:

Que faça mais devagar

Seu curso neste Hemispherio.

Que o que soe acostumar;

Qu'esta noite hei de ordenar

Hum caso de alto mysterio.

E á Esphera mais alta

Mandarás que fixa esteja,

Porque a noite maior seja:

Porque sempre o tempo falta,

Onde a alegria he sobeja.

E terás tamanho tento,

Que como isto se ordenar,

Venhas aqui vigiar,

Porque meu contentamento

Ninguem mo possa estorvar.

MERCURIO.

Seja feito sem debate

Tudo como te convem.

JUPITER.

Pois não parece ninguem,

Como homem de casa bate,

E muda a falla tambem.

MERCURIO, _batendo à porta_.

Ó de la casa, en buena hora,

Darmehan de cenar aqui?

BROMIA _dentro_.

Sósea parece que ouvi:

Alviçaras, minha Senhora,

Que na falla o conheci.

SCENA II.

_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._

ALCMENA.

Zombais, Bromia, por ventura?

BROMIA.

Senhora, não zombo, não.

ALCMENA.

Vejo eu Amphitrião,

Ou a vista me afigura

O qu'está no coração?

JUPITER.

Olhos, diante dos quais

Desejei mais este dia,

Que nenhuma outra alegria,

Senhora, nunca creais

Que lhe minta a phantasia.

ALCMENA.

Oh presença mais querida

Que quantas formou Amor!

Isto he verdade, Senhor?

Acabe-se aqui a vida,

Por não ver prazer maior.

JUPITER.

Pois esta hora de vos ver

Alcançar, Senhora, pude;

Para mais contente ser,

Conformem co'este prazer

Novas de vossa saude.

ALCMENA.

Vida foi pezada e crua

A saude qu'eu sostinha;

Qu'em quanto, Senhor, a tinha,

Temer perigo na sua,

Me fez descuidar da minha.

MERCURIO.

Y pues, mi Señora Alcmena,

Pese al demonio malvado,

No dirá á un su criado,

Vengais Sósea norabuena?

ALCMENA.

Sejais, Sósea, bem chegado.

BROMIA.

Bem mal cri eu, que pudesse

Ver-te, Sósea, hoje aqui.

MERCURIO.

Pues tambien yo no creí

Que en mi vida te viese,

Segun las muertes que vi.

ALCMENA.

Muito, Senhor, folgarei

Com novas do vencimento.

JUPITER.

De tudo quanto passei,

Por vos dar contentamento,

Em summa vos contarei.

Trago, Senhora, a victoria

Daquelle Rei tão temido,

Com fama clara e notoria.

Porém maior foi a gloria

De me ver de vós vencido.

Sem me terem resistencia,

Os Grandes me obedêcerão,

Como ElRei morto tiverão:

Em sinal de obediencia

Esta copa me trouxerão.

ElRei por ella bebia:

(Ella, e tudo o mais he nosso)

Por onde claro se via,

Que tudo me obedecia,

Pois tinha nome de vosso.

MERCURIO.

Si, mas luego de rondon

La fortuna dió la vuelta.

ALCMENA.

Como?

MERCURIO.

Fué gran perdicion,

Porque en aquella revuelta,

Me hurtaron mi jubon.

Pero bien me lo pagaron,

Cuando comigo riñeron;

Que aunque me despojaron

Si uno de seda llevaron,

Otro de azotes me dieron.

ALCMENA.

Senhor, não posso gostar

De gôsto, que he tão immenso,

Senão muito devagar:

Faça-me mercê d'entrar,

E contar-mo-ha por extenso.

SCENA III.

_Mercurio e Bromia._

MERCURIO.

Yo tambien te contaria,

Bromia, si quedas atrás,

Que una noche... enojartehas?

BROMIA.

Que?

MERCURIO.

Soñaba, que te tenia...

No me atrevo á decir mas.

BROMIA.

Dize.

MERCURIO.

Pardies, no diré.

Soñaba...

BROMIA.

Bem: que sonhavas?

MERCURIO.

Que cuando en la cama estavas

Que yo... enfin recordé.

BROMIA.

Pois tudo isso receavas?

MERCURIO.

Sabe Dios qué yo acá siento:

Sola una alma vive en dos,

La cual anda dentro en vos.

BROMIA.

E que quer ella cá dentro?

MERCURIO.

Tambien eso sabe Dios.

SCENA IV.

MERCURIO.

Bem se poderá enganar

Bromia, segundo ora estou,

Como Alcinena s'enganou;

Mas cumpre-me ir ordenar

O que meu Pae me mandou.

E porque seja guardada

Esta porta e vigiada

De toda a gente nascida,

Me será cousa forçada,

Ser tão depressa a tornada,

Quão prestes faço a partida.

SCENA V.

SOSEA, _cantando_.

Amphitrion esforzado

Bravo vá por la batalla,

Siete cabezas llevaba,

De las mejores que ha hallado.

_Falla._

Quien viene de tierra agena,

Y de la muerte escapó,

La razon le permitió

Que cante como sirena,

Como agora hago yo.

Y pues canto tan gentil,

Fuera llanto si muriera.

Quiero cantar como quiera,

Una y otra, y mas de mil,

Que digan desta manera:

_Canta._

Dongolondron, con dongolondrera,

Por el camino de Otera,

Rosas coge en la rosera,

Dongolondron, con dongolondrera.

_Falla._

Cuando yo vengo á pensar

Que uno matarme quisiera,

No hago sino temblar,

Porque creo si muriera,

No pudiera mas cantar.

Porque estando á un rincon

De la casa adó quedé,

Senti muy grande ronron,

Y mirando, que miré?

Vi que era un gran raton.

Empero yo nunca sigo,

Sino consejos muy sanos;

Que en estes casos levianos,

Quien desprecia el enemigo,

Mil veces muere á sus manos.

Pero mi Señor alli

Mató al Rey de los Glipazos:

Yo como muerto le vi,

Juro á mi fé, que le dí

Mas de dos mil cuchillazos.

Y por me librar de afan,

Me voy siempre á cosa hecha

Probar mi mano derecha;

Que aquel es buen capitan,

Que del tiempo se aprovecha.

Que quien ha de pelear,

Ha de buscar tiempo y hora.

Pero quiero caminar,

Que me muero por contar

Todo aquesto á mi Señora.

SCENA VI.

_Mercurio e Sósea._

MERCURIO.

Mil vezes comigo vejo,

Para que meu Pae se affoute;

Pois em tão pequeno ensejo

Lhe mandei talhar a noute

Á medida do desejo.

E pois que como possante,

A mi tudo se reporta,

Chego agora neste instante

A estorvar qu'este bargante

Me não chegue a esta porta.

SOSEA.

No sé que miedo, ó locura,

Neste pecho se me cria:

Por Dios que se me afigura,

Que ha mucho que es noche escura,

Sin que venga el claro dia.

Mas sabed, que pienso yo

Que el sol que no se acordó

De con el dia venir,

Que á noche cuando cenó

Algun buen vino bebió,

Que le hace tanto dormir.

MERCURIO.

Ja sentes comprida a noute,

Qu'eu assi mandei fazer?

Pois mais te quero dizer,

Que sentirás muito açoute,

Se cá quizeres vir ter.

Porém, pois este bargante

Tee medroso coração,

Quero-me fingir ladrão,

Ou phantasma, e por diante

Não irá, se vem á mão.

E com tudo se passar,

A falla quero mudar

Na sua de tal feição,

Que couces, e porfiar,

Lhe fação hoje assentar

Que sou Sósea, e elle não.

_Falla Castelhano._

No veo pasar ninguno,

En quien yo me pueda hartar.

SOSEA.

Á quien oigo aqui hablar?

Mande Dios no sea alguno

Que me quiera aporrear.

MERCURIO.

La carne de algun humano

Me seria muy sabrosa.

SOSEA.

Oh quê voz tan temerosa!

Hombres comes, ó mi hermano?

No es mejor otra cosa?

Carne humana es muy mezquina.

Oh no comas deso, no!

Antes carne de gallina.

Pero se mas se avecina,

Qué mas gallina, que yo?

MERCURIO.

Una voz de hombre ahora

Á la oreja me voló.

SOSEA.

Pésete quien me parió:

La voz traigo boladora?

Ella quisiera ser yo.

Pues mi voz pudo volar

Do la pudieses oir;

Por contigo no reñir,

Me debiera de prestar

Las alas para huir.

MERCURIO.

Qué buscas cabe esa puerta,

Hombre? Sé que eres ladron.

SOSEA.

Ay que el alma tengo muerta!

Oh Júpiter me convierta

Las tripas en corazon!

MERCURIO.

Quien eres? quieres hablar?

SOSEA.

Soy quien mi voluntad quiere.

MERCURIO.

Piensas que puedas burlar?

SOSEA.

Y tú puédesme quitar

Que yo sea quien quisiere?

MERCURIO.

Osas hablar tan osado,

Don vellaco bovarron?

Dí, quien eres?

SOSEA.

Un criado

Del Señor Amphitrion,

Por nombre Sósea llamado.

MERCURIO.

Pienso que el seso perdiste.

Como te llamas, mal hombre?

SOSEA.

Sósea soy, si no me oiste.

MERCURIO.

Como? en persona tan triste

Osas d'ensuciar mi nombre?

Estos puños llevarás,

Pues tener mi nombre quieres.

Quiéresme dicir quien eres?

SOSEA.

O Señor, no me dés mas,

Que yo seré quien tú quisieres.

MERCURIO.

Con tan nueva falsedad

Andais por esta Ciudad,

Delante de quien os mira?

Pues si sois Sosea, tomad.

SOSEA.

Si me dás por la verdad,

Que me harás por la mentira?

MERCURIO.

Y qué verdad es la tuya?

Que te quiero dar castigo.

SOSEA.

Si no soy Sósea que digo,

Que Júpiter me destruya.

MERCURIO.

Mirad el falso enemigo:

Tomad este bofeton,

Que yo soy Sósea, y no vos.

SOSEA.

Tu Sósea?

MERCURIO.

Sósea por Dios,

Escravo de Amphitrion.

SOSEA.

De modo que tiene dos?

MERCURIO.

No tendrá, aunque tú quieres;

Que á mi solo conoció.

SOSEA.

Pues luego de quien soy yo?

MERCURIO.

Si tú no sabes quien eres,

Quieres que yo lo sepa? No.

SOSEA.

Enfin, has me de hacer crer

Que yo no soy quien ser solia?

MERCURIO.

Quien solias tú de ser?

SOSEA.

Tregoas me has de prometer,

Dirtelohé sin profia.

MERCURIO.

Prometo.

SOSEA.

No me darás?

MERCURIO.

No, si no fuere razon.

SOSEA.

Pues, hermano, tú sabrás

Que mi amo Amphitrion...

MERCURIO.

Tu amo? Pues llevarás.

Mi amo es, que tuyo no.

SOSEA.

Ay que un brazo me quebró!

MERCURIO.

Mas que luego te matase.

SOSEA.

Ojalá Dios ordenase

Que tú ahora fueses yo,

Y yo que te desmembrase!

MERCURIO.

Esa tu tema tan loca,

Puños te la han de quitar.

Dime, di, verguenza poca,

Qué hablas?

SOSEA.

Qué puedo hablar,

Si me has quebrado la boca?

MERCURIO.

Di quien eres, sin fatiga.

SOSEA.

Soy un hombre, en quien tú dás.

MERCURIO.

Díme pues, qué nombre has.

SOSEA.

Como quieres tú que diga,

Para que no me dés más?

MERCURIO.

No me has de hablar contrahecho.

SOSEA.

Toda mi vida pasada

Sósea fuy, y con despecho

Ahora soy... qué? No nada;

Que tus manos me han deshecho.

MERCURIO.

Cuyo eres, pues las sientes,

Dejando consejos vanos?

La verdad; que si me mientes,

Dás con la lengua en los dientes,

Y yo dóyte con las manos.

SOSEA.

No conoces Amphitrion?

MERCURIO.

Hombre sin seso te llamo.

Tan fuera estás de razon!

Piensas de mí, bovarron,

Que no conozco á mi amo?

SOSEA.

En su casa conociste

Uno, que es Sósea llamado,

Hombre despreciado y triste?

MERCURIO.

Desa suerte lo dijiste?

Yo soy triste y despreciado?

Pues sabe que te llegó

Á la muerte tu fortuna.

SOSEA.

Pues logo si yo no soy yo,

Aunque nadie me mató;

Soy luego cosa ninguna.

Oh dioses, que desconcierto!

Yo por ventura soy muerto,

Ó murióme la razon?

Yo no soy de Amphitrion?

Él no me mandou del puerto?

Yo sé que no estoy loco.

De mi madre no naci?

No ando? No hablo aqui?

MERCURIO.

Pues sosiega ahora un poco,

Que yo tambien diré de mí.

Yo no sé que yo soy yo?

Yo no te dí con mis manos?

Mi Señor no me llevó

Á la guerra, adó mató

Aquel Rey de los Thebanos?

SOSEA.

Yo eso muy bien lo sé.

Empero tú qué hacias

Cuando la batalla vias?

MERCURIO.

Escucha: yo lo diré,

Y cesaran tus porfías.

Cuando mi Señor andaba

Peleando, y derramaba

La sangre de algun mezquino;

Con una bota de vino

Yo la mia acrescentaba.

SOSEA.

(Dice lo que yo hacia)

Con todo, saber queria

Sola una cosa, si puedo:

Tu pecho entonces sentia?

MERCURIO.

Del beber grande alegria,

Y del pelear gran miedo.

SOSEA.

Y despues?

MERCURIO.

Muy reposado

Á dormir me eché de grado,

Desde el sol hasta la luna.

SOSEA.

(Todo lo tiene contado.

Enfin, tengo averiguado

Que yo no soy cosa ninguna)

Pues de todo en un instante

Me has echado de mí fuera,

Aconséjame si quiera,

Quien seré daqui adelante,

Pues no soy quien de antes era.

MERCURIO.

Cuando yo no ser quisiere

Ese, que tú ser deseas,

Despues que ya Sósea no fuere,

Dartehé, si te pluguiere,

Licencia que todo seas.

Y acógete luego, amigo,

Á buscar tu nombre, digo,

Pues Dios vida te dejó;

Que el Sósea queda comigo.

SOSEA.

Pues contigo quedo yo,

Dios quede, hermano, contigo.

Ahora quiero ir allá

Adó mi Señora está,

Contarle como es venido

Mi Señor. Mas, oh perdido!

Si un otro yo tiene allá,

Todo lo terná sabido.

MERCURIO.

Ah hombre.....

SOSEA.

Mi voz sonó.

MERCURIO.

Aonde vuelves ahora?

SOSEA.

Por Dios no sé onde vó,

Porque si yo no soy yo,

Ni Alcmena es mi Señora.

MERCURIO.

Adonde vas?

SOSEA.

Con mensaje

Del Señor Amphitrion

Para Alcmena.

MERCURIO.

Adó, salvaje?

Pues quebraste la omenaje,

Ahí verás tu perdicion.

Yo doyte consejos sanos,

Y porfias otra vez?

SOSEA.

Altos dioses soberanos!

Pues me no valen las manos,

Aqui me valgan los pies. _Foge._

MERCURIO.

Desta arte enseñan aqui

Á hurtar el nombre ageno?

SCENA VII.

SOSEA.

Ay Dios, como me acogí!

Ó Júpiter alto y bueno,

Cuan cerca la muerte vi!

Quiérome ir á mi Señor

Contarle cuanto hé pasado;

Y él me dirá de grado,

Si yo soy su servidor,

En que cosa me hé tornado.

ACTO TERCEIRO.

SCENA I.

_Jupiter e Alcmena._

JUPITER.

Toda a pessoa discreta

Terá, Senhora, assentado,

Que hum bem muito desejado

Se ha de alcançar por dieta,

Para ser sempre estimado.

E quem alcançado tem

Tamanho contentamento;

Por conservá-lo convem

Que tome por mantimento

A fome de tanto bem.

E por isso hei de tomar

Este tempo tão ditoso

Para a frota visitar;

E despois quando tornar,

Tornarei mais desejoso.

Que pois tão bom captiveiro

Me tee presa a liberdade,

Eu lhe prometto em verdade

Que torne ainda primeiro,

Que mo peça a saudade.

ALCMENA.

Aindaque se possa ir

Mais asinha do que creio,

Como hei d'eu consentir

Que se haja de partir

Na mesma noite que veio?

JUPITER.

Forçada he minha tornada,

Mas muito cedo virei;

Porque desque foi chegada

A este porto a Armada,

Ainda a não visitei.

ALCMENA.

Pois, Senhor, tão pouco estais

Com quem vistes inda agora?

Faça-se como mandais.

JUPITER.

Vós me vereis cá, Senhora,

Primeiro do que cuidais.

SCENA II.

_Amphitrião e Sosea._

AMPHITRIÃO.

Emfim tu, que estás aqui,

Estavas ja lá primeiro?

SOSEA.

Señor, crea que es ansí.

AMPHITRIÃO.

Eu nunca entendi de ti,

Qu'eras tambem chocarreiro.

SOSEA.

Señor, yo que estoy presente,

No soy Sósea su criado?

AMPHITRIÃO.

Creio que não certamente,

Porque Sósea era avisado,

E tu es mui differente.

SOSEA.

Pues, Señor, si en mí se vé

Que no soy quien de antes era,

Vuélvome.

AMPHITRIÃO.

E para que?

SOSEA.

Ver se á dicha me quedé

Durmiendo por la galera.

AMPHITRIÃO.

Pois me queres fazer crer

Huma doudice tão rasa,

Mais quero de ti saber:

Como não entraste em casa

D'Alcmena minha mulher?

SOSEA.

Aunque Sósea quisiese,

La verdad no negará:

Aquel yo que allá está,

No quiso que á casa fuese

Estotro yo, que iba allá.

Y con furia tan crecida

Á mí se vino aquel hombre,

Que yo me puse en huida,

Y ansí le dejé mi nombre,

Por me dejar él la vida.

AMPHITRIÃO.

Quem seria tão ousado,

Que tanto mal te fizesse?

SOSEA.

Yo mismo Sósea llamado,

Que á casa era ya llegado,

Antes que de acá partise.

AMPHITRIÃO.

Tu chegaste antes de ti?

Este he gentil disparate.

SOSEA.

Pues mas le digo daqui,

Que vengo huyendo de mí,

Porque yo mismo no me mate.

AMPHITRIÃO.

Erão dous, ou era hum só,

Quem te fez assi fugir?

SOSEA.

Pésete quien me parió:

Digo, que era un solo yo:

Mil veces lo hé de decir?

Puede ser que naceria

De aquel hombre otro alguno,

Como aquel de mí nacia;

Porque aunque fuese él uno,

Por mas de cuatro tenia.

Él tenia mi aparencia,

Empero yo nunca vi

Tal fuerza, ni tal potencia:

Esta sola diferencia

Le tengo hallado de mí.

AMPHITRIÃO.

Pudeste delle saber

Cujo era?

SOSEA.

Quien? aquel yo?

Tuyo, Señor, dijo ser.

AMPHITRIÃO.

Nunca eu tive mais que hum só,

E esse não quizera ter.

SOSEA.

Pues, Señor, si el bien doblado

Te le muestra agora Dios,

Debe ser de ti alabado;

Pues de uno solo criado

Te ha hecho agora dos.

AMPHITRIÃO.

Antes para que conheças,

Que cousa he mao servidor,

Me pezará se assi for;

Que de tão ruins cabeças,

Quantas mais, tanto peor.

E ja que são tão incertos

Teus ditos para se crer;

Muito melhor deve ser

Que deixe teus desconcertos,

E va ver minha mulher.

SCENA III.

ALCMENA.

Que fado, que nascimento

De gente humana nascida,

Que d'escasso e avarento,

Nunca consentio na vida

Perfeito contentamento!

Amphitrião, que mostrou

Hum prazer tão desejado

A quem tanto o desejou;

Na noite, que foi chegado,

Nessa mesma se tornou!

De se tornar tão asinha

Sinto tanto entristecer

O sentido e alma minha,

Que certo que me adivinha

Algum novo desprazer.

Mas parece este que vem,

Se não estou enganada:

Se elle he, venha com bem,

Pois que com sua tornada

Tão transtornada me tem.

SCENA IV.

_Amphitrião, Alcmena e Sosea._

AMPHITRIÃO.

Com que palavras, Senhora,

Poderei engrandecer

Tão sublimado prazer,

Como he ver chegada a hora,

Em que vos pudesse ver?

Certo grão contentamento

Tive de meu vencimento;

Mas maior o hei de mim,

De me ver pôsto no fim

De tão longo apartamento.

ALCMENA.

Ja eu disse o que sentia

De vinda tão desejada.

Mas diga-me todavia:

Como não foi ver a Armada,

Que me disse hoje este dia?

AMPHITRIÃO.

Della venho eu inda agora

Desejoso de vos ver,

Muito mais que de vencer.

Mas que me dizeis, Senhora,

Que hoje me ouvistes dizer?

ALCMENA.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III · 第 10 / 16 段