Pois logo, se Barões tão excellentes

Forão do baixo vulgo molestados,

O vituperio vil das rudas gentes,

He louvor dos Reaes, e sublimados.

Quem no lume dos vossos Ascendentes

Poderá pôr os olhos, que abalados

Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores

Vossos passados, Reis e Imperadores?

Quem verá aquelle Pae da Patria sua,

Açoute do soberbo Castelhano,

Que o duro jugo só, co'a espada nua,

Removeo do pescoço Lusitano,

Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua

Memoria causará, se não m'engano,

Que qualquer teu menor tanto s'estime,

Que nunca possa ser senão sublime?

Nisto não fallo mais, porque conheço

Que da materia se me baixa o engenho.

Mas, pois a dizer tudo m'offereço,

E dias ha que no desejo o tenho,

Sendo vós de tão alto e illustre preço,

A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,

Por largo mar e undosa tempestade,

Só por servir á Regia Magestade.

E despois de tomar a redea dura

Na mão, do povo indomito qu'estava

Costumado a larguezas, e á soltura

Do pezado govêrno que acabava;

Quem não terá por santa e justa cura,

Qual do vosso conceito s'esperava,

A tão desenfreada enfermidade

Applicar-lhe contrária qualidade?

Não he muito, Senhor, se o moderado

Govêrno se blasphema e se desama;

Porque o povo á largueza costumado,

Á lei serena e justa, dura chama.

Pois o zelo em virtude só fundado

De salvar almas da Tartarea flama

Com a ágoa salutifera de Christo,

Poderá por ventura ser malquisto?

Quem quizesse negar tão grã verdade,

Qual he o seu effeito santo e pio;

Negue tambem ao sol a claridade,

E certifique mais que o fogo he frio.

Se o successo he contrário da vontade

Nas obras que são boas, e ha desvio;

Está nas mãos dos homens comettellas,

E nas de Deos está o successo dellas.

Sei eu, e sabem todos que os futuros

Verão por vós o Estado accrescentado,

Serão memoria vossa os fortes muros

Do Cambaico Damão bem sustendado:

Da ruina mortal serão seguros,

Tendo todo o alicerce seu fundado

Sôbre orfãas amparadas com maridos,

E pagos os serviços bem devidos.

Quãmanha infamia ao Principe he perder-se

Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,

Tanto por glória grande deve ter-se

Se accrescentado e próspero o deixou.

Nunca consentio Roma ennobrecer-se

Com triumphos alguem, se não ganhou

Provincia com que o Imperio s'augmentasse,

Por maiores victorias qu'alcançasse.

Póde tomar o vosso nome dino

Damão, por honra sua clara e pura,

Como ja do primeiro Constantino

Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.

E tu, Rei, que no Reino Neptunino,

Lá no seio Gangetico a Natura

Te aposentou, de ser tão inimigo

Deste Estado não ficas sem castigo.

Bem viste contra ti nadantes aves

Cortar a espumosa ágoa navegando;

Ouviste o som das tubas, não suaves,

Mas com temor horrifero soando;

Sentiste os golpes asperos e graves

Do Lusitano braço nunca brando.

Não soffreste o grão brado penetrante,

Que os trovões imitava do Tonante.

Mas antes dando as costas e a victoria

Á Bragancez ventura não corrido,

Déste bem a entender quão grande glória

He de tal vencedor o ser vencido.

Quem faz obras tão dignas de memoria

Sempre será famoso e conhecido,

Onde os altos juizos o estimarem,

Qu'estes sós tee poder de fama darem.

Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,

Tão ingrato a quem tanto faz por elle;

Mas sabei qu'he signal de serdes claro

O ser agora tão malquisto delle.

Themistocles, da patria sua amparo,

O forte e liberal Cimon, e aquelle

Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,

Testimunhas serão de quanto digo.

Pois ao justo Aristídes hum robusto,

Votando no ostracismo costumado,

Lhe disse claro assi: Porque era justo

Desejava que fosse desterrado.

Pachitas por fugir do povo injusto

Calumnioso, dando no Senado

Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára,

Se tirou co'o seu ferro a vida chara.

Demosthenes, lançado das tormentas

Populares, Ó Pallas! foi dizendo,

Que de tres monstros grandes te contentas,

Do drago e moucho, e do vil povo horrendo!

Que glórias immortaes houve, qu'isentas

Do veneno vulgar fossem, vivendo?

Pois mil exemplos deixo de Romanos,

E vós tambem sois hum dos Lusitanos.

* * * * *

EPISTOLA III.

Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte

Derão o nome augusto e sublimado

Daquelle Cavalleiro que na morte,

Por Christo, foi de settas mil passado;

Pois delle o fiel peito, casto e forte,

Co'o nome Imperial tendes tomado,

Tomae tambem a setta veneranda

Que a vós o Successor de Pedro manda.

Ja por ordem do Ceo, que o consentio,

Tendes o braço seu, reliquia chara,

Defensor contra o gladio que ferio

O povo que David contar mandára.

No qual, pois tudo em vós se permittio,

Presagio temos, e esperança clara,

Que sereis braço forte e soberano

Contra o soberbo gladio Mauritano.

E o que hum presagio tal agora encerra,

Nos faz ter por mais certo e verdadeiro

A setta, que vos dá quem he na terra

Dos celestes thesouros Dispenseiro:

Que as vossas settas são na justa guerra

Agudas, e entrarão por derradeiro

(Cahindo a vossos pés povo sem lei)

Nos peitos que inimigos são do Rei.

Quando vossas bandeiras despregava

Albuquerque fortissimo com glória

Por as praias de Persia, e alcançava

De Nações tão remotas a victoria;

As settas embebidas, que tirava

O arco Armusiano (he larga historia)

Nos ares, Deos querendo, se viravão,

Pregando-se nos peitos que as tiravão.

O querido de Deos, por quem peleja,

O ar tambem e o vento conjurado

Ao atambor lhe acodem, porque veja

Que o que a Deos ama, he de Deos amado:

Os contrarios revéis á Madre Igreja

Atroarão co'o tom do Ceo irado.

Que assi deo ja favor maior que humano

A Josué Hebreo, Teodosio Hispano.

Pois se as settas tiradas da inimiga

Corda, contra si só nocivas são,

Que farão, Rei, as vossas que tee liga

Com a que ja tocou Sebastião?

Tinta vem do seu sangue, com que obriga

A levantar a Deos o coração,

Crendo bem que as que vós despedireis,

No sangue Sarraceno as tingireis.

Ascanio, (se trazer me he concedido

Entre santos exemplos hum profano)

Rei do Imperio, despois tão conhecido,

De Roma, e só reliquia do Troiano,

Vingou com setta e ânimo atrevido

As soberbas palavras de Numano;

E logo foi dalli remunerado

Com louvores de Apollo, e celebrado.

Assi vós, Rei, que fostes segurança

De nossa liberdade, e que nos dais

De grandes bens certissima esperança;

Nos costumes, e aspecto que mostrais,

Concebemos segura confiança

Que Deos, a quem servis e venerais,

Vos fara vingador dos seus revéis,

E os premios vos dará que mereceis.

Estes humildes versos, que pregão

São destes vossos Reinos com verdade,

Recebei com benigna e Real mão,

Pois he devida a Reis benignidade.

Tenhão (se não merecem galardão)

Favor sequer da Regia Magestade:

Assi tenhais de quem ja tendes tanto,

Com o nome e reliquia, favor santo.

* * * * *

EPISTOLA IV.

Senhora, s'encobrir por algum'arte

Pudera esta occasião de meu tormento,

Não creias que chegára a declarar-te

Este meu perigoso pensamento.

Mas por mais que te offenda, não sou parte

No crime de tamanho atrevimento:

Elle he d'amor; e delle fui forçado

A que te declarasse o meu cuidado.

Se merece castigo a confiança

Com que descubro agora o que padeço,

Aqui prompto me tens; toma a vingança

Que por tão grave culpa te mereço.

Bem me podes negar toda esperança,

Mas eu não desistir deste comêço;

Porque tempo e Fortuna não são parte

Para deixar hum'hora só de amar-te.

Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,

Descansem neste bem com alegria,

Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,

Quanto, estando sem vê-los, se perdia.

Que glória querem mais, se a ver chegárão

Aquella pura luz que vence ao dia?

Qual mor bem ha no mundo que querer-te,

Se não ha mais que ver despois de ver-te?

Minhas dores mortaes, bella Senhora,

Tirárão a virtude ao soffrimento;

E fazendo-se mais em qualquer hora,

Levando vão traz ti meu pensamento:

Porém soberbos vejo desde agora,

Por a causa gentil de seu tormento,

Minha alma, meu desejo, meu sentido,

Porque á tua belleza se hão rendido.

A par de tua rara formosura

Se desconhece o mor merecimento;

A tua claridade torna escura

Do sol a clara luz em hum momento.

Se Zeuxis ao formar bella figura,

A vista em ti pudera pôr attento,

Mais alto original houvera achado

Para admirar o mundo co'o traslado.

Aquelles qu'escrevêrão mil louvores

De formosura, graça e gentileza,

Todos forão, Senhora, huns borradores

De tua perfeitissima belleza.

Agora se vê claro em teus primores

Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;

E qu'erão os seus cantos prophecias

Do que havias de ser em nossos dias.

Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta

Em mi o não render-te amante a vida,

E se deixar d'amar glória tão alta

Era digno da pena mais crescida.

Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta

Co'o castigo de culpa assi atrevida:

E quando della caia, maior glória

Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia.

* * * * *

OITAVAS.

GLOSA DO SONETO 14.

Despois que a clara Aurora a noite escura

Com novo resplandor foi desfazendo,

E Phebo por os montes e espessura

Os seus dourados raios estendendo;

Se buscava nos valles a verdura

O manso gado a luz serena vendo,

Quando a férvida sésta ja abrazava,

_Todo animal da calma repousava._

Ja por fugir do sol o fogo ardente,

As sombras os rebanhos vão buscando;

Os tenros cabritinhos juntamente

Apos as mansas mães hião saltando;

Tangendo as suas frautas docemente

Os pastores, estavão enganando

A grã chamma solar qu'então ardia;

_Só Liso o ardor della não sentia._

Tristes lembranças tanto o traspassavão,

Que a dura sésta nelles só passava;

O tempo qu'em prazer outros gastavão,

Em celebrar seu mal elle o gastava;

As festas que com jogos celebravão,

Elle com suspirar as celebrava:

Nada buscava mais, mais não queria

_Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._

Os repetidos jogos dos pastores,

As lutas entre a rama repetidas,

Em nada lhe divertem suas dores;

Mas antes n'alegria as vê crescidas.

Como o repouso roubão os amores

Ás almas que para elles são nascidas,

Elle, todo o repouso qu'esperava,

_Consistia na Nympha que buscava._

Com o chôro, que ja corria em fio

Por o pallido rosto, augmenta as fontes,

Que levão ágoa estranha ao claro rio

Que os valles vai regando entre altos montes.

Com suspiros a quem o ecco pio

Responde de apartados horizontes,

Os ventos parecia qu'enfreava,

_Os montes parecia que abalava._

Que ás queixas de seus doces pensamentos

Se movessem os montes mais constantes,

Se parassem os mais veloces ventos,

Qu'estavão, que corrião circumstantes,

Bem se devia á dor de seus tormentos,

E inda que fosse em peitos de diamantes;

Que hum peito de diamante abrandaria

_O triste som das mágoas que dizia._

Porém elle as dizia a outro peito,

Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:

A fé lh'encarecia, a que sogeito

O tinha em pena eterna o amor puro;

Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito,

Quanto mais offendido, mais seguro:

A Nympha mais segura tudo ouvia,

_Mas nada o duro peito commovia._

As lástimas aqui tanto crescêrão,

Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,

Tigres nos seios seus mover puderão,

E pedras nos seus cumes abrandárão.

Mas se no peito as tristes vozes dérão

Daquella fera humana que buscárão,

Elle d'as admittir se retirava;

_Que na vontade de outro pôsto estava._

Desenganado ja da triste sorte,

De que mal fino amor se desengana,

Com a desperança só de sua morte

Aquellas penas últimas engana.

Deixando na espessura o claro Norte,

Para elle de outra luz mais soberana,

A hum valle aberto então sahir procura,

_Cansado ja de andar por a espessura._

Deixando as suas cabras que pascessem

Naquelle verde prado as frescas flores;

Porque os Satyros leves o soubessem,

E os sylvestres Faunos amadores;

Tambem porque os pastores o entendessem,

Todo o processo e fim de seus amores

Escreveo (sem em nada haver mudança)

_No tronco d'huma faia por lembrança._

Por lembrança no tronco d'huma faia,

Que vai sahindo ao ceo de puro altiva

Na verde, prateada e aurea praia,

Por onde o claro Tejo se deriva;

Porque tambem ao ceo sua dor saia

Sôbre aquella corrente fugitiva,

Escrita no papel da natureza;

_Escreve estas palavras de tristeza:_

Natercia, Nympha bella, por quem vivo

Em tal tormento, tempo algum me olhou;

Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo

Daquelle brando olhar que m'enganou,

O amor tornava em desamor esquivo;

E d'hum tormento tal a outro passou.

Em cousas tão sujeitas a mudança

_Nunca ponha ninguem sua esperança._

Para dar proveitosos desenganos

Dos enganos que são de Amor effeitos,

E dos dous sexos publicar, humanos,

A origem das mudanças de seus peitos;

Estas letras aqui por longos anos

Digão a corações a amar sujeitos

Em peito varonil, que de ventura,

_Em peito feminil, que de natura..._

Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado

Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,

Não podendo seguir o começado,

Porque a alma ja do corpo lhe sahia.

Tres vezes, com accento mal formado,

Para exemplo futuro repetia:

Amantes, entendei que a mór belleza

_Somente em ser mudavel tem firmeza._

* * * * *

GLOSA DO SONETO 194.

_Cá nesta Babylonia adonde mana_

Hypocrisia, engano e falsidade;

Cá donde ousada toda carne humana

A todo arbitrio vive da vontade;

Cá donde enrouqueceo da Lusitana

Musa o furor heroico e suavidade;

Cá donde se produz por cega via

_Materia a quanto mal o mundo cría_;

_Cá donde o puro Amor não tee valia_,

Porque Baccho o tee hoje desterrado;

Cá donde a frecha d'ouro não feria,

Senão cabello preto e alfenado;

Cá donde a loura trança não se via,

Nem o rosto de sangue matizado;

Cá donde nada val a glória humana,

_Que a mãe, que manda mais, tudo profana_;

_Cá donde o mal se affina, o bem se dana_,

Se algum a terra em si quer produzir;

Cá donde a falsa gente Mahometana

A glória toda funda em adquirir;

Cá donde multiplica a mão tyrana,

Professa em mais crescer, matar, mentir;

Cá donde o fazer bem he villania,

_E póde mais que a honra a tyrannia_;

_Cá donde a errada e cega Monarchia_

De fabulosas leis está vivendo,

E á fôrça d'hum amor engrandecia

O nefando Alcorão em qu'está crendo;

Cá donde nada val a Poesia,

E s'está da lei della escarnecendo;

Cá donde a fidalguia Mahometana

_Cuida qu'um nome vão a Deos engana._

_Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza_

Da Lusitana gente se perdeo;

E do grão Sebastião toda a grandeza

Irreparavelmente se abateo;

Cá donde algum mentir não he baixeza,

E os meritos esmola (assi cresceo

Da cobiça mortal a semrazão)

_Co'o esfôrço e saber, pedindo vão._

_Ás portas da cobiça e da vileza_

Estes netos de Agar estão sentados

Em bancos de torpissima riqueza,

Todos de tyrannia marchetados.

He do feio Alcorão summa a largueza

Que tee para que sejão perdoados

De quantos erros commettendo estão

_Cá neste escuro cáos de confusão._

_Cumprindo o curso estou da natureza_,

Illustre Dama, neste labyrintho;

Mas quem usa comigo mais crueza,

He tua condição, que n'alma sinto.

Acabe-se algum dia tal tristeza,

E este sentido mal qu'em versos pinto:

E pois n'alma he sentido e coração,

_Ve se m'esquecerei de ti, Sião._

* * * * *

A SANTA URSULA.

D'huma formosa virgem desposada,

Que d'outras onze mil, tambem formosas,

Entrou no claro Olympo acompanhada,

Com corôas de lyrios e de rosas;

De Christo Esposo seu tão namorada,

Que delle as quiz fazer todas esposas;

Amor, vida e martyrio cantar quero,

Fiado no favor que della espero.

Alcança, Ursula bella, (que diante

De tão bello esquadrão foste por guia)

De teu suave Amor, que de ti cante

O seu amor que no teu peito ardia.

Meu verso para ti mais se levante,

Ó Christifera, ó heroica companhia;

Tanto se mostre aqui mais soberano,

Quanto o divino Amor excede o humano.

E vós, unica Mãe e Virgem pura,

Pois sois das que tal ordem escolhêrão,

Que fostes, sois, sereis guarda segura

Da pureza que a Deos offerecêrão;

Neste canto me dae melhor ventura

Do que atégora as Musas vãas me derão:

Vossas servas serão de mi servidas,

Cantadas suas mortes, suas vidas.

Serenissima Infante, produzida

Do grão Tronco Real, sublime Planta;

No titulo, nas obras e na vida,

Retrato natural de Ursula Santa,

Desta virgem, tambem de Reis nascida,

Ouvi com ledo rosto o que se canta;

Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:

Não lhe tire seu preço o meu defeito.

No tempo que Ciriáco se sentava

Na Cadeira de Pedro pescador,

De que com sãa doutrina apascentava

As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;

Teve Bretanha hum Rei, que professava

A Lei que deo no mundo o Redemptor,

Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,

Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.

De virtudes hum novo exemplo e raro,

Em idade e belleza florecia

Ursula, por quem Noto era mais claro,

Que por todo o poder que possuia;

Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,

Com quem todas as graças repartia;

Prudente, honesta e docta a maravilha,

De tão ditoso pae ditosa filha.

Aquella que por o ar com ligeireza

As pennas de mil azas abre e cerra,

E que com velocissima presteza

Com outros tantos pés corre por terra;

Aquella, que de sua natureza

Não cuida em quanto diz se acerta ou erra,

E d'huma em outra boca se derrama:

Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;

Hia por todo o mundo divulgando

Extremos desta virgem soberana,

Aquella formosura celebrando

Com que Amor cego a tanta vista engana:

Mais hia a d'alma sua publicando,

Porqu'era mais divina do que humana:

Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,

Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.

Ouvidos seus louvores, muitas vezes

Desejou desta virgem fazer nora

Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,

Idolatras então, cegos agora.

Ó povo cego e leve! as torpes fezes

Aparta do ouro puro e lança fóra,

Torna-te ao teu pastor, perdido gado!

Ólha que vás sem elle mal guiado.

Hum filho deste Rei (de quem dizia

Que ser de Ursula sogro desejava)

Movido do rumor que della ouvia,

Ja dentro no seu peito a namorava.

Alli seu amor, delle, lhe offrecia;

Alli por o amor della suspirava.

Suspira elle por ella; ella suspira

Tambem por outro amor que nunca vira.

Mandou o Rei Inglez Embaixadores

Com pompa Regia e lustre sumptuoso,

(Do grande Reino seu grandes Senhores)

A Noto, Rei não tanto poderoso.

Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores

Ardia toda do celeste Esposo)

Para esposa do filho, que sabia

Que ja d'amores della todo ardia.

O Rei Bretão se achava descontente

Com a nova embaixada de Inglaterra:

Receia que se nella não consente,

O gentio lhe mova cruel guerra:

Porque sendo mais rico e mais potente,

Assi no largo mar, como na terra,

Quando desprezos visse de seu rôgo,

Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.

Sôbre este não errado pensamento

Do medo de perder seu senhorio,

Novo discurso tinha e novo intento,

Com que se achava mais medroso e frio.

Estranhava o fazer ajuntamento

Da catholica filha co'hum gentio;

Pois nem a Lei de Christo o permittia,

Nem Ursula fiel o admittiria.

Estando o pae em tal angústia pôsto,

Divinamente a filha ja inspirada,

Lhe assegurava com sereno rosto

Que consentir podia na embaixada;

Dizendo que se o Inglez levava gôsto

D'ella com seu herdeiro ser casada,

Primeiro lhe mandasse dez donzellas,

Do Reino as mais illustres, as mais bellas.

Que mil daria a cada virgem destas,

E que a ella outras mil tambem daria,

Todas de claro sangue, e em vista honestas.

(Dest'arte a conta de onze mil fazia)

Que por trez annos dilação nas festas,

Além do ja pedido, lhe pedia;

E naos e mantimentos, porque todas

Fossem com ella a Roma antes das bodas.

Alli sua pureza e virgindade

Queria com solemne e sacro voto

Consagrar á divina Potestade,

Que o ceo e a terra fez de proprio moto.

E que deixasse a vãa gentilidade

Seu filho, para genro ser de Noto,

Para que neste espaço doutrinado

Fosse na Fé de Christo, e baptizado.

Com estas condições Ursula disse

Ao charo pae, que, a ser dellas contente,

Podia responder; e despedisse

A proposta daquelle Rei potente:

Ou porque ouvindo-as elle desistisse,

Podendo-se acceitar difficilmente;

Ou porque, quando as virgens concedesse,

Comsigo a seu Senhor onze mil désse.

Oh Divino saber, quão soberano

Conselho he sempre o teu! quão remontado!

Oh quanto o mor saber te cede humano,

Por mais que de razões vá mais ornado!

Ja dos idolos deixa o cego engano

O Principe, da virgem namorado;

Ja terno pede ao pae quanto ella pede;

Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.

Ja para ti, ó virgem bella e branda,

Com huma singular velocidade,

Juntar se via d'huma e d'outra banda

De feminil nobreza tenra idade.

As naos apparelhar o Rei ja manda;

Ja nellas se recolhe a Virgindade;

Ja dão para Bretanha ao vento velas.

O coração do noivo vai com ellas.

Ja vem a tomar porto onde esperava

Ursula alvoroçada em grã maneira;

Que para as receber alli se achava,

Como senhora não, mas companheira.

Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava,

A de Christo quão pura e verdadeira.

Ja se baptiza huma e outra Dama;

Damas Ursula ja do ceo lhes chama.

A Fama, que não sabe repousar,

Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;

A gente que concorre não tee par,

Por ver a nunca vista maravilha.

Outros vem por servir e acompanhar

A Virgem de Rei nora, de Rei filha.

Movem-se muitos Bispos de Bretanha;

Pantalo em vida e morte os acompanha.

Por ti, deixando o Reino, co'a familia

E quatro filhas suas, s'embarcou,

Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;

(Hum filho tinha mais que mais levou)

Gerasina, Rainha de Sicilia,

E com devido amor te acompanhou;

Qu'he justo que comtigo vão Rainhas,

Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.

Ja se partem as bellas peregrinas,

As mãos ao claro Empyreo levantadas;

Ja rompem, ja, por ondas crystallinas

As naos de formosura carregadas.

Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas,

Fostes de tal belleza navegadas?

Nunca, despois que a terra descobristes,

A tal frota por vós caminho abristes.

Com vento sempre igual, com mar bonança,

Sem perigos alguns, sem algum pejo,

Ceyla forão tomar, porto de França,

Onde pouca demora fazer vejo.

O coração da virgem não descança,

Saudosa do fim de seu desejo;

Manda que levem ferro, soltem linho

Que leve por o mar o negro pinho.

O vento nova posse vai tomando

Das virgens que lhe são encommendadas:

Com tal prosperidade vão voando,

Que ja deixão atraz ondas salgadas:

Ja nas doces do Rheno estão entrando,

Onde tee suas vidas limitadas:

Huma cidade vem á lingua da ágoa,

Que de vê-las morrer não teve mágoa.

Ah Colonia cruel, que não t'encobres

A tão formosos olhos, que seguros

As altas tôrres vião que descobres,

Lustrosos edificios, fortes muros!

Permitte o largo Ceo que fama cobres

De ser tão dura mãe de peitos duros?

Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro

Virão abrir sem dor com impio ferro!

Estando neste porto a bella Armada

Tomando o necessario mantimento,

Para poder seguir sua jornada,

E dar terceira vez o treu ao vento;

Sendo parte da noite ja passada,

A virgem lá no seu retrahimento,

Quando estava dormindo toda a frota,

A Christo orou assi, branda e devota:

Amor, divino Amor, Amor suave,

Amor, que amando vou toda rendida;

Com quem não ha na vida pena grave,

Sem quem glória real não ha na vida;

Amor, que do meu peito tens a chave,

Amor, de cujo amor ando ferida,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que d'amor cheio e de brandura,

D'amor enches est'alma saudosa;

Amor, sem cujo amor e formosura,

Não póde nunca haver cousa formosa;

Amor, com cujo amor anda segura

Huma vida tão fraca e duvidosa,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que por amor te dispuzeste

A restaurar o mundo errado e triste;

Amor, que por amor do ceo desceste;

Amor, que por amor á Cruz subiste;

Amor, que por amor a vida déste;

Amor, que por amor a glória abriste,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que mais e mais sempre te augmentas

No coração que lá comtigo trazes;

Amor, que d'amor puro te sustentas

No fogo em que tu mesmo arder me fazes;

Amor, que sem amor não te contentas,

De tudo com amor te satisfazes,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que com amor me captivaste;

(Se livre póde ser quem não captivas)

Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste

As esperanças d'antes fugitivas:

Amor, que suspirando m'ensinaste

A derramar por ti lagrimas vivas,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Quando verei hum dia em que offereça

Por ti ao cruel ferro o peito forte,

E cercada de virgens appareça

Na tua soberana e eterna Corte;

Onde lá cada huma te mereça,

Cá passando comigo a propria morte;

E todas dando o sangue juntas, todas

Celebremos comtigo eternas bodas?

Faze-me ja, Senhor, esta vontade

Que tenho de te ver, que sempre tive,

Des que me deo lugar a tenra idade,

E lume de razão nesta alma vive.

Não queiras, meu Amor, que a saudade

Sem tal bem a mi só da vida prive;

Que se muito se alarga este destêrro,

Por ella irei a ti, não por o ferro.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III · 第 7 / 16 段