Á transformação, que Portugal experimentou pela acção previdente e
reformadora do grande ministro, aos elementos de força e prosperidade,
que não só indicou, mas com que legalmente dotou a patria, ás
instituições politicas e economicas, e aos germens de educação popular,
que semeou, devemos em grande parte os beneficios, que com razão se
attribuem á revolução liberal.
Sem o genio fecundo, sem a intelligencia vasta e a dedicação inexcedivel
de Sebastião de José Carvalho, seria Portugal conquista partilhada entre
a França e a Hespanha, ou nação livre e independente?
No estado de desorganisação politica, de desordem moral e economica, de
miseria e degradação, a que Portugal tinha chegado antes da sua
administração, seria possivel o triumpho glorioso do partido liberal em
1820?
Cremos firmemente que não: assim nol-o dizem a razão e a consciencia,
firmadas na historia e esclarecidas pela philosophia dos factos.
É por isso que entre as causas remotas, mas essencialmente
determinativas, da transformação liberal, que depois se operou, devemos
considerar, como uma das mais importantes e efficazes, o governo forte e
energico, a administração sabia e illustrada, a politica severa e, por
vezes, intolerante do Marquez de Pombal.
Abone a historia imparcial a verdade que o paradoxo esconde.
Que importa a expulsão dos jesuitas?
Era uma necessidade para o estabelecimento da liberdade politica e da
tolerancia religiosa, que o Marquez de Pombal amava, queria fundar, e
que elles detestavam.
Que importa que do alto do cadafalso rolassem as cabeças de alguns
nobres, que, ociosos e embriagados no mais escandaloso luxo, conspiravam
contra o rei, odiavam as reformas do ministro, queriam privilegios e
prerogativas injustificaveis, opprimiam e vexavam o povo, nada fazendo
em beneficio da patria; e, de mãos dadas com os inquisidores, discipulos
de Loyola, dedicados familiares do _sancto officio_, procuravam a morte
do rei, a queda do ministro e a ruina da nação?!