Era forçoso, em tão arriscado e perigosissimo lance, em circumstancias
tão anormaes, oppôr á tyrannia de alguns a tyrannia de um só, ao
despotismo de muitos o despotismo em nome do rei; de outra sorte não
conseguiria desarmar as ciladas, desfazer as intrigas, cortar os tramas,
frustrar manejos, surprehender conspirações, que tudo e por toda a parte
a _nobreza_ e o _jesuitismo_ estendiam e machinavam ao _rei_, ao seu
_ministro_ e ao _povo_, que, ligando-se por um pacto inviolavel, não
tardariam a destruir-lhes a insolente _preponderancia_, a extinguir-lhes
os _privilegios_, a supprimir-lhes as _regalias_, a alevantar-lhes os
_foros_, a picar-lhes os _brazões_, em uma palavra a dobrar-lhes as
_orgulhosas servis_ sob o jugo inflexivel da--_egualdade perante a lei_.
Se o Marquez de Pombal não fosse victima de falsas accusações e vis
intrigas, se se conservasse mais algum tempo á testa dos negocios
publicos investido do supremo governo da nação, se houvesse gozado
juncto do throno de D. Maria da mesma confiança, apoio e favor, que
alcançara perante D. José, a _constituição_ teria apparecido primeiro em
Portugal do que em França, em Hespanha e em outros paizes, e o systema
_representativo_ seria proclamado entre nós, pelo menos, ao mesmo tempo.
É esta uma verdade, que immediatamente deriva dos factos, e que
difficilmente poderá escurecer-se.
O despotismo, a tyrannia de que se argúe Pombal, era imposta pelas
necessidades, como o unico meio de chegar á liberdade.
Não ignorava por certo este grande homem--que a _liberdade_ e a
_tolerancia_ só com a liberdade e com a tolerancia podem solidamente
fundar-se no seio de uma nação.
Bem sabia elle--que os partidarios da liberdade e da tolerancia devem
deixar o emprego da força aos partidarios da força e da intolerancia.
Mas este conselho evangelico, que só hoje começa a converter-se em
preceito obrigatorio, este grande principio theorico, era naquella
epocha, attentas as circumstancias, de impossivel applicação na pratica.
O que no seculo XIX em 1868 não pôde realisar a Hespanha, era nos fins
do seculo XVIII uma utopia impraticavel em Inglatarra, em França, e
muito mais em Portugal.
Os designios do grande estadista e as suas vistas eram patrioticas; o
seu ideal a emancipação politica, religiosa, moral e economica do povo,
que elle conhecia--grande, opulento e soberano na historia,--pequeno,
pobre e escravo no presente; o mobil que o determinava o amor da liberdade.
Sebastião José de Carvalho mostrava em muitos dos seus actos ser no
interior da sua alma, no intimo da sua consciencia, pela razão e pelo
sentimento, um dos maiores e mais enthusiasticos liberaes do seculo XVIII.
Se não pôde ver executado o seu plano e levar ao cabo tão gloriosa
empresa, arremessando para longe a mascara do despotismo, foi porque o
não deixaram; foi ainda a _reacção_, que lh'o impediu, a injustiça que
lh'o estorvou.
Despojado do poder, privado da acção governativa, condemnado ao
ostracismo politico, exilado para longe da côrte, afastado dos negocios
publicos, viu mallograda a sua obra; não lhe embaciaram porem a gloria,
não lhe quebraram os brazões, e, o que é de maior valia, não lhe
extinguiram a gratidão no coração dos povos; e se ao tumulo baixam
esperanças, devia acompanhal-o a lembrança de que um dia as suas ideias
haviam de ser realisadas, os seus principios triumphar, e o plano, que
lhe absorvera a existencia inteira, posto em plena execução, o seu nome
exaltado, a sua reputação glorificada e os seus inimigos, os inimigos do
povo e da liberdade, confundidos.
Se ao Marquez de Pombal não permittiu Deos continuar a obra do
_constitucionalismo_, cabe-lhe todavia a bem-merecida gloria de preparar
o paiz e os povos para a proclamarem trinta annos depois da sua morte.