Poucos annos depois da sua morte, apressada talvez pela condemnação, que
o obrigara a encerrar-se em logar obscuro, e afastado da côrte, onde
ostentara sciencia e poder, força de vontade e energia, regulando
sabiamente os destinos da nação, que por sua direcção immediata e em
suas proprias mãos se havia reanimado e engrandecido, realisavam-se em
França as prophecias da revolução, com todos os horrores da guerra civil.
A cabeça de Luiz XVI rolava nos degráus do cadafalso, que lhe levantaram
os despotas da _liberdade_, como tambem em Inglaterra havia caído
abatida a cabeça de Carlos I. A guilhotina fazia victimas ás mil,
tragava, devorava, em nome da _deosa da razão_, como a fogueira
inquisitorial em nome da religião sancta! O punhal revolucionario,
impellido pelo braço homicida dos revoltosos, alastrava as ruas e as
praças de cadaveres com a mesma furia, com que em outras eras immolara
os _albigenses_ e os sectarios da religião _reformada_.
Foi seu intuito, objecto de seus infatigaveis esforços, obter o mesmo
resultado, por meios brandos e pacificos; conquistar as mesmas ideias,
fazer dominar os mesmos principios, firmar o poder dos reis na
_soberania de todos_, dar a liberdade ao povo por meio d'uma
_constituição representativa_, semelhante á que vigorava em Inglaterra,
embora para o conseguir fosse necessario usar de tyrannia contra alguns
nobres, decretar o exterminio d'uma congregação mais politica do que
religiosa, odiada já em toda a Europa e em muitas regiões da America,
condemnada pelas universidades seculares, mal vista dos povos e d'uma
parte consideravel do clero, e até repudiada pela Egreja.