O Marquez de Pombal queria a liberdade para a patria e para o povo, como
a primeira fonte de engrandecimento e prosperidade nacional.
O Marquez de Pombal não phantasiava theorias politicas nem traçava
systemas philosophicos; não escrevia pungentes ironias e asperos
epigrammas; não defendia e exaltava o protestantismo, para censurar
e maldizer a Egreja catholica; não persuadia a revolta nem excitava os
povos á pilhagem e á carnificina--concebia medidas uteis e prudentes, e
executava-as conforme as circumstancias imperiosamente o exigiam.
A regeneração intima dos homens e das instituições, e não a organisação
_formal_ e superficial do systema governativo, foi o seu firme
proposito, objecto constante de sua actividade e desvelo, embora para o
conseguir fosse necessario dominar o _rei_, opprimir e desacreditar os
nobres, desprestigiar e abater o clero.
Tinha por ventura o _rei_ força, energia, firmeza de vontade, sciencia e
coragem para salvar a nação e o povo e detel-o á beira do abysmo, que de
dia para dia lhe cavavam profundo tantas causas de ruina?!
Seria bastante robusto o seu braço, poderoso o seu sceptro de oiro,
valiosos os diamantes da sua corôa, para poupal-os ao choque
revolucionario, que de perto e ao longe se presentia, e que em breve
devia abalar a Europa inteira, já consideravelmente agitada pelas
pulsações, que violentas se succediam no coração da França e que a
faziam estremecer até ás mais affastadas extremidades?!
Qual teria sido o destino do pequeno e então pobre e humilde Portugal,
se o não houvessem preparado para resistir á onda revolucionaria,
que mais tarde lhe devia passar por sobre as _quinas_ e inundar os seus
_castellos_?!
Existiria hoje Portugal, como nacionalidade e paiz _independente_, se
lhe não houvessem dado, annos antes, força e coragem, recursos e
patriotismo, para não succumbir abatido ante as armas victoriosas do
moderno Cesar, que, debaixo da forma do despotismo e da tyrannia, da
invasão e da conquista, contra a sua vontade talvez, ou, melhor ainda,
sem o presentir, fazia com a ponta da espada e com a bocca de seus mil
canhões a propaganda liberal?![1].