Não recuou o Marquez de Pombal, porque o julgou necessario e de
maravilhoso effeito para libertar o povo, deante do cadafalso, levantado
para rolarem algumas cabeças _nobres_.
Não tremeu o Marquez de Pombal, quando lavrou o decreto que expulsava os
_jesuitas_; pois com tão rasgada medida não só beneficiou Portugal, mas
a Europa inteira e o Novo Mundo; com este acto de sabia politica
quebrava as cadeias, com que os _padres da companhia_ amarravam as
consciencias ao poste d'uma fé convencional; limpava o corpo social da
lepra da superstição e do fanatismo, que rapidamente se propagava e
desinvolvia, por toda a parte, aonde penetrava o morbido contagio da
roupeta dos _máos e falsos companheiros_ de Jesus!
Para alguns são estes dous factos dous grandes e execrandos crimes; para
outros duas louvaveis virtudes; para nós--dura necessidade, consequencia
_forçada_ na realisação de um plano salutar e benefico.
A nobreza e o jesuitismo eram, naquella epocha, os obstaculos
gigantes, que se oppunham ao estabelecimento da liberdade.
A nobreza e o jesuitismo, desherdando, espoliando o povo de tudo o que
podia tornal-o livre e independente, disputando o poder, a influencia e
a preponderancia monarchica, eram estorvo invencivel ao _systema
representativo_, á adopção e reconhecimento legal das _garantias
constitucionaes_ e das _prerogativas da corôa_, que a philosophia
politica de seculo, as necessidades do tempo e o exemplo da Inglaterra
instantemente reclamavam, cujo disco luminoso começava já a brilhar nos
horisontes do futuro em muitos estados da Europa, cuja triangulação
havia sido habilmente traçada sobre--a _inviolabilidade_ do rei--a
_responsabilidade_ do _ministro_ e a _soberania_, do _povo_.