XXIII

Depois da resurreição nacional, que em 1640 succedeu á morte da

independencia da patria, esmagada pelo peso oppressor de estranho jugo,

devida não como pretendem alguns, ás combinações _grandiosas_ e á

politica _admiravel_ de Richelieu, mas á patriotica iniciativa e á

dignidade heroica dos conspiradores populares,--a nação portugueza

recobrou a sua autonomia, despedaçou as algemas de tão odiosa

servidão politica, desprendeu-se, por um soberano esforço de coragem,

dos braços de ferro, em que durante longo e angustioso periodo a tinham

apertado os despotas castelhanos, e levantou sobre o throno de Affonso

Henriques, reis, se não filhos do povo, eleitos e proclamados por elle.

Portugal entrou de novo no dominio e posse de suas conquistas; e o

soberano opulento do Oriente, o descobridor generoso de ignotas plagas e

de estranhas gentes, ergueu-se do tumulo, que lhe tinham aberto o arrojo

pueril d'uma creança ávida de glorias vãs, e a imbecilidade trôpega

d'um velho cardeal fanatizado.

Era todavia sombra magestosa d'um vulto heroico, surgindo entre as

ruinas de sumptuoso edificio desmantelado!

Nem exercito, nem marinha, sem commercio, sem industria, exhaustos os

cofres do estado, perdido o credito, nominal a riqueza de suas

maravilhosas descobertas, vazio o thesouro de suas conquistas!... Só com

a auréola de passadas glorias; sem outro titulo perante as nações, alem

da merecida gratidão, a que tinha direito pelos valiosos serviços

prestados á humanidade e á religião, que o ligara ao céo e a Deus

logo desde o berço!

Havia para elle a esperança no futuro firmada na lembrança do passado;

existiam amontoados, sobre os mares e nas suas ricas possessões

abandonadas, os despojos da sua antiga grandeza; o seu nome escripto

sobre toda a extensão do Oceano, brilhando nas coroas de muitos

monarchas, gravado no coração de muitas nações florescentes!

Foi por isso que todos acolheram com applauso o brado da sua

independencia e lhe ajudaram a manter a liberdade, que desastrosamente

havia perdido nas plagas longinquas de Alcacer Quivir e sobre o leito de

um cardeal moribundo!

A coroa de ferro dos senhores de Hespanha precisava das perolas e dos

diamantes de quatro mundos!...

Para cobrir a juba ensanguentada do leão de Castella eram necessarios os

alvissimos arminhos do manto de nossos reis!...

A ambição insaciavel do hespanhol, não contente com as suas possessões,

pretendia ainda com sôfrega cubiça usurpar as colonias portuguezas, que

já se alongavam e estendiam do oriente ao occidente, do septentrião ao

meio dia, sobre todos os continentes, á roda e no meio de todos os

mares!...[2].

O Marquez de Pombal Lance d'olhos sobre a sua sciencia; politica e systema de administração; ideias liberaes que o dominavam; plano e primeiras tentativas democraticas · 第 31 / 41 题