«Como já era noite, fundeámos em frente da Alfandega para continuarmos o

nosso intuito na manhã seguinte, ou n'essa noite, conforme as

circumstancias aconselhassem. Apenas fundeámos, foram a terra, no nosso

escaler, um dos chefes dos grupos civis acompanhado do commissario

Marianno Martins, a fim de colher informações seguras sobre o estado das

forças contrarias, e enviar um emissario ao acampamento da Rotunda,

avisando da nossa posição e do desembarque na madrugada seguinte. Tendo

colhido algumas informações favoraveis á ida do emissario para a

Rotunda, voltaram para bordo n'um vapor da alfandega, cuja guarnição se

poz á nossa disposição, rebocador este que foi d'um grande auxilio nas

acções que se seguiram».

[Ilustração: Manoel de Arriaga]

Pouco depois, o _Adamastor_, sahindo de Alcantara, ia fundear proximo do

_S. Rafael_, isto é, em frente do Terreiro do Paço. N'esse vapor da

Alfandega a que o tenente Parreira se refere, o commandante do

_Adamastor_, tenente Cabeçadas, mandou para bordo do _S. Rafael_ parte

dos marinheiros e populares armados que o pejavam. Quasi a seguir,

quinze tripulantes do _D. Carlos_, que tinham conseguido fugir d'esse

barco n'um escaler, apresentaram-se ao commandante do _Adamastor_ e

pediram-lhe armas para luctar contra os officiaes que ainda se

encontravam a bordo. O tenente Cabeçadas armou-os convenientemente e

embarcou os no vapor da Alfandega, acompanhados d'um sargento, d'outras

praças e paisanos, e aconselhou-os a irem no _S. Rafael_, antes de

tentarem o assalto do _D. Carlos_. Assim se fez. O tenente Carlos da

Maia tomou o commando superior de toda a força e, utilisando-se de novo

o vapor da Alfandega, decidiu-se a entrada violenta no cruzador ainda

não adherente. Como a guarnição do vapor mostrasse n'essa altura receio

de collaborar no assalto, o tenente Maia substituiu-a por praças de

marinha e, cêrca das 7 e 30 da noite, o barco largou do _S. Rafael_ em

direcção ao _D. Carlos_. Os projectores dos dois cruzadores revoltados

evolucionavam, no emtanto, de modo a favorecer a arriscada tentativa.

«A atracação--diz o documento official que descreve o assalto--fez-se a

primeira vez mal, e, repetindo-a, logo se avaliou da attitude como os

officiaes receberiam os invasores, porquanto, tendo-se respondido que

era um official que ia atracar, logo o commandante intimou a afastar-se

sob pena de se desfechar, o que bem se notou ser seu proposito por virem

muitos officiaes á borda do cruzador. É claro que se insistiu na

abordagem, subindo tumultuariamente as escadas do portaló, e sendo logo

recebidos a tiro, o que foi causa de tiroteio ainda de bordo do

rebocador; e, uma vez a bordo, continuou este, de parte a parte,

terminando rapidamente pela rendição dos officiaes e verificando-se em

seguida que da guarnição do _D. Carlos_ haviam ficado 4 officiaes

feridos, e dos atacantes apenas 2, sendo um civil e uma praça de

marinhagem. Immediatamente se mandaram desembarcar todos os officiaes, á

excepção do tenente Silva Araujo, com quem havia entendimento para a

revolução. Mandou-se tocar a postos de combate, preparando-se o navio

para a vigilancia da noite, tanto mais necessaria quanto era a bordo do

_D. Carlos_ conhecida a ordem do ataque dos torpedeiros, e sahida do

_Berrio_ para o canal do Barreiro.

Uma vez tomado o _D. Carlos_, de bordo do _Adamastor_ seguiram para ali

mais praças e populares armados e os tres barcos de guerra

insurrecionados não cessaram durante a noite de prescrutar as

immediações com os seus projectores, sempre com o receio d'um ataque dos

torpedeiros. (Falhara a arrojada tentativa do tenente Stockler para

revolucionar os officiaes e praças destacadas em Valle do Zebro.)

CAPITULO XXII

Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas casas

Pouco falta para concluirmos estas narrativas. Após o ataque da

artilharia de Queluz, as forças revolucionarias installadas na Rotunda

ainda despejaram umas granadas sobre o Rocio, não tanto com o proposito

de investir a valer com as tropas de infantaria que desde a madrugada de

4 ali haviam acampado, mas principalmente para as provocar, para as

obrigar a definir attitudes n'um momento, como esse, de anciosa

espectativa. Os commentarios da opinião teem incidido frequentemente

sobre o procedimento d'essas forças. Sabia-se que entre ellas se

encontravam officiaes dedicados á ideia republicana, como o tenente

Valdez e o alferes Gomes da Silva. E esperava-se a cada instante que

qualquer d'elles se decidisse a um acto corajoso de auxilio ou de

estimulo ás forças da Rotunda.

Na manhã de 4, ainda o capitão Sá Cardoso tentou realisar a approximação

dos dois nucleos militares escrevendo um bilhete ao tenente Valdez e

dizendo-lhe que esperava infantaria 5 pelo lado oriental da Avenida. Mas

aquelle official respondeu que para acceder ao pedido necessitava passar

com o diminuto numero de homens do seu commando pela frente das

metralhadoras de caçadores 5, d'um esquadrão da municipal e d'uma outra

companhia do seu regimento e desistiu de effectuar essa marcha

arriscada, aguardando que se produzisse um ataque dos revoltosos para

então fazer com elles causa commum.

Durante o dia 4, tanto infantaria 5 como caçadores 5 evolucionaram

dentro da area da defeza do quartel general. Ao começo da noite,

caçadores estava assim distribuido: na rua Augusta, guarnecendo o

primeiro quarteirão, um pelotão do commando do alferes Gomes da Silva,

pertencente á companhia do capitão Aguiar; na rua do Arco do Bandeira, a

companhia do capitão Penha Coutinho, hoje em serviço na policia civica;

na rua do Ouro e na rua do Carmo, a companhia do capitão May; na rua da

Betesga, a do capitão Reis com a guarda fiscal; na praça dos

Restauradores, o alferes Empis com duas metralhadoras. Era o momento em

que os grupos de populares, já reconstituidos convenientemente--passados

os primeiros instantes de desanimo--tratavam de incommodar as forças

monarchicas ou que suppunham como taes, atirando-lhes bombas, disparando

tiros de pistola, etc. E conta a proposito o tenente Valdez:

«No principio da noite fomos atacados por bombas de dois lados.

Estabeleceu-se uma enorme confusão. Em vista da desmoralisação que

reinava entre os soldados, muitos fugiram. Alguns, obedecendo ao plano,

metteram-se nas arcadas. Muitos, por panico, fizeram um tal tiroteio e

tão disparatado que eu e os mais officiaes escapámos não sei como. Uma

bala sibilou-me aos ouvidos e roçou-me pela face. O largo limpou-se e eu

reconheci com alegria que facilmente qualquer força entraria no Rocio.

Como julgassem as forças extenuadas, ordenaram que alternassemos com a

guarda fiscal que então pairava na estação do Rocio. Foi assim que fomos

descançar para as trazeiras da mesma estação. Ali encontrámos um

empregado a quem contámos as nossas torturas e desejos e como lhe

manifestassemos as nossas intenções de fugir para a Rotunda pelo tunel,

d'isso nos dissuadiu por motivo da chegada de um comboio que vinha de

Queluz, avisando-nos tambem de que ali estavamos mal, por ser possivel

virem n'esse comboio revolucionarios que podiam atirar-nos bombas do

pavimento superior. Lembrou-nos fugir pelas escadinhas do Duque, mas,

interrogado por nós sobre a existencia de quaesquer forças no trajecto,

respondeu-nos nada saber. Tambem logo a seguir passava um esquadrão para

esses lados.

«Posta de parte essa ideia, resolvemos esperar os acontecimentos,

convencidos de que era inevitavel uma colisão entre as nossas forças e

as dos revoltosos. Como fosse manifesta a desmoralisação das nossas

forças, eramos rendidos das dez para as onze da noite por um outro

batalhão do regimento, e eu fui com a minha companhia occupar a travessa

de S. Domingos, reparando que alguns soldados tinham desapparecido,

tendo aproveitado naturalmente as varias confusões que se deram. Fingi

não dar por isso. Na nova posição soube que a artilharia de Queluz tinha

collocado uma peça na rua do Ouro, outra na rua Augusta e que estava

dispondo outra no local que deixaramos. As informações que recebiamos

sobre a marcha dos acontecimentos eram deficientes. Nada de seguro nos

diziam. Falava-se que o rei fugira para Mafra. Affirmava-se que os

revoltosos tinham sido batidos. Realmente, n'essa altura, o tiroteio da

Rotunda parecia diminuido e o facto do ataque da marinha ainda se não

ter dado preoccupava-me immenso.

«Nas nossas forças não havia ainda mortos e os feridos eram poucos. O

moral das tropas, especialmente das companhias que tinham estado na

Avenida, era mercê dos trabalhos feitos, o mais favoravel a qualquer

ataque. Na minha nova posição tornava-se facil a communicação com os

officiaes, o que até então me era impossivel, visto achar-me distante

d'elles. Esperançado, como sempre estive, da realisação do meu ideal,

principiei a palpál-os e durante toda a noite, emquanto o canhão ecoava

com estrondo no largo de Camões, não os larguei, reparando que quasi

todos desejavam ver terminada uma situação de incerteza, não encontrando

em nenhum d'aquelles a quem falei essa tão decantada fé monarchica. O

primeiro official a quem falei foi ao tenente Americo Cruz, o qual,

depois das considerações que lhe fiz sobre a enormidade dos

acontecimentos, fuga do rei, tibieza dos chefes e sobretudo do

sacrificio que ali estavamos cumprindo por um que, a essas horas, estava

são e salvo, me respondeu com igual criterio, accrescentando que tinha

já achado o commandante abalado.»

Na Rotunda, Machado Santos passava verdadeiras torturas, porque via

diminuir-se-lhe a provisão de munições e não sentia que de fóra o

auxiliassem como elle realmente necessitava. Quem entrasse ás dez horas

da noite no acampamento perceberia claramente que se tinha attingido a

culminancia critica do movimento revolucionario. Havia lá dentro mais

gente do que na madrugada de 4. Havia mais disciplina, mais silencio

commovedor, mais solemnidade, em summa. De vez em quando a grave

quietude do ambiente era interrompida por uma descarga de fusilaria, a

explosão d'uma granada ou o crepitar enervante das metralhadoras.

Machado Santos tinha entregue ao tenente Pires Pereira o commando da

bateria e das linhas de fogo do lado da Avenida e ficara a vigiar as

posições do norte e leste. De repente um dos predios novos d'aquella

arteria incendiou-se casualmente e o clarão da enorme fogueira illuminou

por algum tempo o acampamento revolucionario, até então immerso na

obscuridade.

E que fazia, entretanto, o governo monarchico? O ministro da guerra

installara-se no Quartel General da 1.ª divisão e d'ahi seguia absorto

todas as phases da contenda. O presidente do conselho, depois de ter

conferenciado com o general Gorjão e o seu collega da guerra, fôra para

casa e antes de entrar no edificio soffrera o ataque de um grupo

revolucionario que o deixou mal ferido. Dos outros ministros podemos

dizer que vagabundearam por diversas casas amigas até o momento solemne

da proclamação da Republica.

Proximo da meia noite, o tiroteio entre os dois nucleos de forças

militares, o do Rocio e o da Rotunda, augmentou de intensidade. A

artilharia monarchica tentou fazer calar a do Alto da Avenida, mas sem

resultado. Adivinhava-se n'essa occasião que a victoria não tardaria a

pertencer aos revoltosos. De todos os lados surgiam novos elementos de

combate. Os organisadores do movimento, que na primeira hora de desanimo

tinham dispersado, principiavam a acercar-se do principal fóco da

contenda, procurando assim conservar-se mais em contacto com os seus

adeptos. O Hotel Europa foi um dos pontos escolhidos para essa

concentração dos vultos em destaque na acção revolucionaria. Para ali

foram, ao começo da noite de 4, José Relvas, José Barbosa e outros que

até então haviam tentado, na redacção da _Lucta_, reatar as ligações

entre os revoltosos--interrompidas pela _debacle_ do balneario de S. Paulo.

«A rua do Carmo, contou-nos mais tarde José Barbosa, era, n'essa noite,

um ponto visado pelas tropas fieis ao antigo regimen. Um grupo de doze

populares devidamente equipados protegeu-me e a José Relvas mais do que

uma vez, sempre que tentámos vir á rua orientarmo-nos sobre a marcha da

Revolução. E essa protecção foi tanto mais efficaz quanto é certo que

d'uma das vezes as balas silvaram sobre as nossas cabeças. Depois da

meia noite, installámo-nos no ponto mais alto do hotel. D'ahi viamos

distinctamente as operações dos navios de guerra e apercebiamos todas as

phases do tiroteio renhido entre as forças do Alto da Avenida e as do

Rocio. Houve um momento em que a batalha assumiu taes proporções, que

hesitámos sobre de que lado ia surgir a victoria. A escuridão

deixava-nos desnorteados. Chegou Celestino Steffanina e fomos os dois

para o meu quarto. Era preciso descançar; mas era impossivel! Da rua do

Ouro vinham até nós, de mistura, com o fuzilar da infantaria, gritos de

desespero, de agonia, d'uma tortura infinita. A situação, ahi pela 1 e

30 da madrugada, não podia ser mais angustiosa. Celestino Steffanina

sahiu do Hotel Europa a colher informações.

«Entretanto, no Rocio, o elemento popular não cessava de atacar as

forças ali estacionadas. Cabe referir que entre os meios de que a

Revolução dispunha para triumphar, se salientava notavelmente a chamada

_artilharia civil_, isto é, as bombas explosivas. Utilisadas como

verdadeiras granadas de mão, posso affirmar, porque é a expressão da

verdade, que os revolucionarios não praticaram com ellas nenhum acto

inutil, não damnificaram qualquer propriedade, não as empregaram para

satisfazer rancores individuaes ou represalias censuraveis. As bombas

explosivas serviam para atacar as forças fieis ao antigo regimen e todas

as que foram lançadas com exito visaram, naturalmente, a que essas

forças não incommodassem sériamente os soldados da Republica.»

Ás 2 da madrugada, Paiva Couceiro foi chamado ao quartel general e o

chefe do estado maior ordenou-lhe que antes do romper da manhã

collocasse algumas das suas peças em posição conveniente para incommodar

as forças installadas na Rotunda, propondo para esse effeito o pateo do

Thorel. Antes, a força disponivel de cavallaria 4 e um esquadrão da

guarda municipal fizeram um reconhecimento de accesso pelas calçadas do

Garcia e de San'Anna. Ás 3 horas, Paiva Couceiro, a pedido de dois

officiaes da infantaria que guarnecia o norte do Rocio, collocou duas

peças na entrada da Avenida, junto das metralhadoras que ali estavam e

com as restantes seguiu para o pateo do Thorel, installando-se no jardim

do palacete do sr. Manuel de Castro Guimarães.

Emquanto isto se fazia, Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões

Raposo iam a bordo do _S. Rafael_ communicar ao tenente Parreira que

Machado Santos instava pelo immediato desembarque dos marinheiros. O

tenente Parreira, n'essa occasião, já havia ordenado o desembarque d'um

grande nucleo de civis, que sob o commando do capitão Nascimento, da

administração militar, devia impôr a rendição ás praças monarchicas que

guarneciam o Museu de Artilharia. O _S. Rafael_ suspendera para proteger

esse desembarque e tencionava collocar-se em frente do Terreiro do Paço,

bombardear o Rocio, enfiando os tiros pela rua do Ouro e rua Augusta e

depois effectuar o desembarque d'uma forte companhia de guerra,

constituida pelo maximo das forças disponiveis dos trez cruzadores

revoltados, sob as ordens dos tenentes Parreira, Sousa Dias, Maia e do

medico Vasconcellos e Sá, que se offerecera para commandar um pelotão.

A chegada a bordo de Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo

fez apressar os preparativos para o desembarque. O tenente Parreira

mandou prevenir os grupos populares que estacionavam no Rocio, ruas

Augusta e do Ouro, de que ia começar o bombardeamento, e o mesmo

emissario, Pinto de Lima, recebeu a incumbencia de communicar na Rotunda

a proxima juncção das forças revolucionarias. Pinto de Lima

desempenhou-se da primeira parte do encargo, isto é, da prevenção do

bombardeamento e ao passar no largo de S. Domingos, em direcção á

Rotunda, teve ensejo de falar a um major que commandava, a pequena

distancia do quartel general, um troço de tropas monarchicas e disse-lhe

o que se ia em breve passar.

--O que? retorquiu afflicto o major... A marinha vae bombardear-nos?

Diga isso ali ao coronel.

[Ilustração: Paiva Couceiro]

Pinto de Lima assim fez e o coronel mostrou não menos surpreza que o

outro official:

--Mas eu já adheri!... Para bordo já foi um official de caçadores!...

E logo a seguir, como quem toma uma resolução energica:

--É preciso mandar outro official ao _S. Raphael_... O senhor

acompanha-o n'essa missão?...

Pinto de Lima acceitou gostosamente o novo encargo e lá foi rua Augusta

abaixo acompanhado do emissario do coronel, doido de contentamento,

dando vivas á Republica. Era o momento em que já vinham de bordo o

alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins. O que

determinara a _démarche_ d'esse official revolucionario junto do tenente

Parreira? Descreve-o elle proprio do seguinte modo:

«Cêrca das 6 e 30 da manhã de 5, o tenente coronel Peixoto reuniu os

officiaes para lhes participar que infantaria 5 se negava a fazer fogo e

que em presença d'esta deliberação desejava ouvir os seus officiaes.

Fez-se na corporação um silencio que foi roto quasi simultaneamente pelo

capitão Penha Coutinho e por mim, que dissemos que era tambem a opinião

dos nossos soldados. Ao ouvir as nossas palavras, respondeu o

tenente-coronel Peixoto que n'este caso era melhor retirarmos.

«Ditas estas palavras enfiei pela rua Augusta e ao chegar ao Terreiro do

Paço fui immediatamente cercado pelo povo, a quem communiquei o que se

passava e dirigi-me a bordo do _S. Raphael_, aonde participei aos

tenentes Parreira e Souza Dias que infantaria 5 e caçadores 5 se tinham

negado a fazer fogo, e portanto achava asado e propicio o momento para

desembarcar os marinheiros e tomarmos o quartel general. Não sem reparos

pela estranheza que esta communicação lhes causava, apesar de ser

conhecido de um d'elles como official implicado no movimento,

exigiram-me a palavra de honra que as tropas do Rocio não fariam fogo

sobre elles, mas era-me absolutamente impossivel acceitar tão grande

responsabilidade, porque a resolução de ir a bordo havia sido tomada por

mim por entender propicio o momento de obter a submissão do quartel

general.

«Respondi-lhes, entretanto, que viesse um d'elles comigo ao quartel

general, onde poriamos tudo a limpo. Foi acceite este meu alvitre e

parti, acompanhado pelo commissario naval Marianno Martins, para o

quartel general, onde vimos ainda arvorada a bandeira branca, tendo já

retirado caçadores 5, restando apenas infantaria 5, que, comtudo, já

estava cercada pelo povo, a quem o tenente Valdez havia dado entrada

pela rua de S. Domingos...»

Approximava-se o momento da rendição. Não tardaria que a bandeira branca

do quartel general fosse substituida pela da Revolução triumphante.

CAPITULO XXIII

Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal

Pouco antes das 7 da manhã, o encarregado dos negocios da Allemanha

procurou o general Gorjão e pediu-lhe o armisticio de uma hora. O

general concedeu-lh'o e escreveu este papel, cujo original, pertencente

ao denodado republicano sr. Rodrigues Simões, figurou no Museu

Revolucionario:

COMMANDO

DA

1.ª DIVISÃO MILITAR

Gabinete do General

_Eu abaixo assignado, commandante da 1.ª divisão militar, declaro

que concederei um armisticio de uma hora a fim de que os

estrangeiros residentes em Lisboa possam embarcar. Faço esta

concessão por me ser pedida pelo Ex.mo Sr. Encarregado dos negocios

da Allemanha._

_Lisboa, 5 de outubro de 1910._

_a) Manuel Rafael Gorjão._

General de divisão.

Assim que o diplomata allemão sahiu do quartel general em direcção á

Rotunda, escoltado por uma ordenança de cavallaria que desfraldava uma

bandeira branca, o povo, que se amontoava nas immediações, julgando que

se tratava da rendição das forças monarchicas, prorompeu em applausos

enthusiasticos. Era no momento em que o alferes Gomes da Silva e o

commissario naval Marianno Martins se faziam annunciar ao general

Gorjão. Este recebeu-os e Marianno Martins explicou-lhe:

--O official que me acompanha foi a bordo do _S. Rafael_ participar que

infantaria 5 e caçadores 5 se negam a fazer fogo sobre os marinheiros.

Desejo, portanto, saber em que condições v. ex.ª acceita a paz para eu

as transmittir ao meu commandante.

O general Gorjão encolerisou-se e, voltando-se para o alferes Gomes da

Silva, perguntou-lhe:

--Quem foi que lhe deu auctorisação para ir a bordo dizer tal coisa?

--Ninguem, explicou o official interpellado; fui a bordo, por minha

livre vontade, transmittir a resolução dos soldados de infantaria 5 e

caçadores 5.

O general tornou a vociferar furioso, exclamando que o alferes Gomes da

Silva fizera uma salsada, uma burla, que o havia desgraçado, pois

concedera apenas um armisticio para dar tempo a que os subditos allemães

embarcassem, e concluiu d'este modo:

--Não me rendo!... Ainda disponho de muitos soldados!...

O alferes interveiu logo:

--V. ex.ª tem essa impressão... mas eu affianço-lhe que já não tem

soldados!...

O general fitou-o demoradamente e depois, attentando no numero do bonet

de Gomes da Silva, insistiu:

--Demais, caçadores 5 tem sido fiel, continuará a ser fiel e com

soldados assim não me rendo!...

Nova replica do alferes, affirmando-lhe sob sua palavra de honra que

n'aquelle batalhão o general não dispunha d'uma unica praça. Para

terminar a discussão, Marianno Martins interveiu marcando o praso d'uma

hora para a rendição do quartel general. Findo elle, o _S. Rafael_

varreria as ruas Augusta e do Ouro com as suas peças.

--Façam o que entenderem, retorquiu o general, não me rendo... Ainda

tenho muita gente.

Cá fóra, o povo, enthusiasmado, continuava a dar vivas delirantes á

Republica e ao exercito, confraternisando com os soldados, que

disparavam as armas para o ar, evidenciando uma alegria doida. Cessara o

tiroteio entre os combatentes. O general, observando isto, reuniu o

conselho de officiaes, chamando para essa reunião todos os commandantes

de unidades, e falou-lhes n'estes termos:

--Tendo de tomar resoluções, convoquei os senhores. As circumstancias

são as seguintes: ordenou hontem este Quartel General ás forças que

guarneciam as Necessidades que se approximassem d'este local, e que, ou

por S. Roque ou por onde entendessem conveniente, tentassem obstar á

descida da artilharia revoltosa para S. Pedro de Alcantara, d'onde

constava que ella procuraria bombardear o Rocio. Apezar de repetidas

vezes transmittida, esta ordem não foi cumprida até agora. As baterias

de artilharia 3 encontraram cortada a ponte de Sacavem e não podemos por

conseguinte contar com ellas.

«O sr. general Sequeira informa-me que as munições de artilharia

armazenadas em Beirolas não podem d'ahi obter-se, porque o impedem

barricadas com fortes guarnições de paisanos armados. Não temos por isso

possibilidade de remuniciar a bateria a cavallo de Queluz, á qual apenas

resta um pequeno numero de tiros. Os srs. commandantes das forças de

infantaria do Rocio fizeram-me constar a fadiga das suas praças; e mais

tarde, sabendo-se que os marinheiros, senhores do Arsenal, procediam ao

desembarque para investir o Rocio, os mesmos srs. commandantes

informaram-me das más disposições dos seus soldados para fazerem fogo

contra os ditos marinheiros.

«Finalmente, ha cêrca de meia hora, apresentou-se me um representante da

Allemanha pedindo auctorisação para tratar com os revoltosos no sentido

de obter um armisticio, afim de que os seus nacionaes pudessem sahir a

salvo. Entendendo que não devia recusar, forneci para o effeito um

parlamentario com bandeira branca. Mas mal a bandeira branca sahiu o

portão d'este edificio, isso foi como que um signal de destroçar,

sahindo todas as praças das fileiras e misturando-se com os magotes de

povo que, a agitar bandeiras brancas, surgia pelas embocaduras das

diversas ruas. N'estas circumstancias...»

N'esta altura, Paiva Couceiro, que tambem assistia ao conselho,

levantou-se e interrompeu o general:

--N'estas circumstancias, disse elle, vista a exposição de V. Ex.ª, e

visto o espectaculo da quebra dos laços de disciplina que por esta

janella se avista concluo que V. Ex.ª já não tem soldados. Eu não o

abandono; mas V. Ex.ª é que já não precisa de mim. Sigo, pois, o meu

destino.

--Mas, observou o general Gorjão, ha de haver uma acta a assignar!...

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 13 / 14 段