não. Combati hontem. Combati hoje. Estou prompto a combater ainda. Com
actas não tenho nada. E, com licença de V. Ex.ª, sigo, repito, o meu
destino para o Norte.
E Paiva Couceiro, cumprimentando, sahiu da sala. Cá em baixo, esperava-o
o tenente Rocha com a sua peça.
--Vamos para Queluz, disse-lhe Paiva Couceiro. E, com effeito, chamadas
as outras peças dos postos que occupavam, a bateria pôz-se a caminho.
Ás 8 e 30 da manhã, Machado Santos, avisado da concessão do armisticio,
recebia no acampamento da Rotunda o encarregado dos negocios da
Allemanha. Ás primeiras palavras trocadas, Machado Santos recusou o
pedido de treguas, allegando que a força estava do seu lado e que ao
general da 1.ª divisão é que pertencia render-se. O diplomata replicou
dizendo que nada tinha com as razões d'uma ou d'outra parte e insistindo
pelo armisticio ameaçou fazer intervir o governo do seu paiz no caso de
lh'o não concederem. Machado Santos limitou-se então a sorrir para o
engenheiro Antonio Maria da Silva que tambem se encontrava n'essa
occasião na Rotunda e disse-lhe:
--Ó Silva, faze de ministro dos estrangeiros da Avenida... Tomo absoluta
responsabilidade.
O diplomata allemão pedia uma hora para poder embarcar os seus
compatriotas. Foi-lhe concedida (das 8 e 45 ás 9 e 45 da manhã) mas com a
condição de não poderem as tropas inimigas retomar posições de que
tivessem sido desalojadas e não impedirem a adhesão das que quizessem
entrar no acampamento da Rotunda. Dada a resposta ao encarregado de
negocios, o engenheiro Silva convidou a ordenança de cavallaria que o
acompanhava a ficar com os revolucionarios e substituiu-a por uma
escolta da sua confiança.
A derrota da monarchia era um facto indestructivel. No Rocio e nos
outros pontos, onde momentos antes se combatia ardorosamente, chorava-se
de alegria. O espectaculo era de enternecer. O povo, longe de procurar
n'esse instante de predominio absoluto desforçar-se no inimigo,
perdoava-lhe generosamente as longas horas de angustia e de hostilidade
e confundia n'um abraço de sincero enthusiasmo vencedores e vencidos.
Poder-se-ha talvez suppôr que a circumstancia de apparecerem n'esse
momento entre as forças que acabavam de render-se á Republica officiaes
que se tinham compromettido a preparar-lhe o advento é indicação ou de
defecção ou de traição. Não é tal: surprehendidos, horas antes de se
iniciar o movimento, com umas medidas de prevenção com que não contavam,
esses officiaes sahiram dos quarteis, acompanhando, é certo, os seus
camaradas monarchicos, mas dispostos a evitar que as tropas do seu
commando chacinassem os revolucionarios.
E foi o que succedeu. Durante a noite de 4 para 5, alguns d'elles, como
o tenente Valdez, Gomes da Silva e Carvalhal Correia Henriques, apesar
de expostos no Rocio a um ataque vivissimo dos populares, conservaram
sempre uma attitude de disciplinada obediencia á Republica e impediram
por todos os meios ao seu alcance que infantaria e caçadores
massacrassem os elementos revolucionarios da classe civil. O general
Encarnação Ribeiro, n'essa noite de tragedia, tomando contacto com
diversos d'esses officiaes que elle conhecia das reuniões dos
conspiradores, assegurara-se plenamente d'essa attitude. O mesmo fizera
Pinto de Lima em especial junto dos elementos de infantaria 5,
considerados, como antes da revolução, republicanos. A organisação
revolucionaria não teve deserções. Os officiaes que não sahiram desde
logo a combater contra o regimen mantiveram até final da lucta uma
attitude que favorecia inteiramente a victoria da boa causa.
Dos outros, dos monarchicos, é egualmente justo consignar que á hora de
abaterem bandeiras ante a Republica triumphante não foram avaros em
reconhecer a magnanimidade do povo que com tanta rudeza haviam
hostilisado. Um d'elles confessou lealmente, minutos depois da rendição:
--Não sou republicano, mas agradeço a forma como os senhores me
trataram, permittindo-me que após a derrota eu regresse intacto para
junto dos meus. São muito generosos para com os vencidos! Obrigado!...
Uma revoada de enthusiastico applauso apagou as ultimas syllabas d'esta
declaração espontanea e honrada.
Machado Santos, entretanto, avistando do acampamento da Rotunda uma
grande multidão que subia a Avenida, calculou que era tempo de avançar
sobre o quartel general, deixando o entricheiramento sufficientemente
guarnecido. Á frente d'um batalhão de populares armados desceu até ao
Rocio e entrou no quartel general. Já lá estava José Barbosa que, em
nome do Directorio, apoiou a entrega do commando da divisão ao general
Carvalhal, antigo republicano, que Candido dos Reis indicara muitas vezes
como o successor logico do sr. Raphael Gorjão. O resto que se seguiu é
por demais conhecido para que nos detenhamos a narral-o.
[Ilustração: Busto official da Republica Portugueza]
Arvorou-se a bandeira republicana no quartel do Carmo; João Borges,
Estevão Pimentel e Manoel Bravo occuparam o telegrapho; duzentos civis
desembarcados dos navios de guerra tomaram o Museu d'Artilharia (que
fôra defendido por forças de engenharia e guarda-fiscal) e o Arsenal de
Exercito e marcharam depois para a Rotunda a juntar-se aos heroicos
revolucionarios ali installados; e cêrca das 9 horas da manhã, da
varanda da Camara Municipal soltavam-se aos quatro cantos do paiz a
proclamação solemne da Republica e a constituição do governo provisorio.
No governo civil, de que Celestino Steffanina e José Barbosa se
apossaram quasi sem esforço, não tardava a concentrar-se um nucleo de
forças republicanas para occorrer aos casos mais urgentes. O edificio
tinha até outro aspecto. Perdera n'esse momento o ar inquisitorial que
caracterisava a antiga Parreirinha. Tanto assim que um combatente da
Revolução, um sexagenario vigoroso, ao entrar d'ahi a horas no gabinete
do dr. Eusebio Leão, não se conteve e exclamou fremente de enthusiasmo:
--Agora, sim... já se respira á vontade!
As sombras negras dos policias, essas sombras que durante annos os
governos monarchicos tinham utilisado não para garantir a segurança do
cidadão, para auxiliar, para o coadjuvar, mas para o amachucar, para o
ferir nos dias de protesto ou de desespero, essas sombras execradas pelo
povo haviam desapparecido, haviam-se sumido como por encanto, ao
estridor do triumpho, ao soar o primeiro grito festivo consagrando a
conquista da Liberdade. Voltaram mais tarde, é certo; mas voltaram com o
accrescimo d'esses ornamentos vermelhos, que nos evocam a cada momento
esses longos minutos de lucta, strenua e heroica em que o sangue de uma
centena de sacrificados escreveu pelas ruas de Lisboa a pagina mais
brilhante da historia democratica.
Ao findar estas narrativas cabe-nos o dever de registar que do lado dos
elementos monarchicos houve a espaços, durante o periodo revolucionario,
o fulgurar de actos nobres, dignos, reveladores de verdadeira energia.
Não foram em quantidade sufficiente para que a balança pendesse
decisivamente em favor do antigo regimen. Mas bastaram para accentuar
que o sr. D. Manuel de Bragança, entre a enorme côrte que o servia e que
quasi por completo o abandonou no momento da derrota, ainda contava uma
boa meia duzia de dedicações sinceras. Um d'esses monarchicos liquidou,
no cano de um revolver, a carreira que abraçara e a existencia que lhe
sorria feliz; foi o tenente de marinha Frederico Pinheiro Chagas.
Ao lado, porém, d'esses homens que até á ultima deram provas de não ser
injustificada a confiança que o antigo regimen n'elles depositava,
surgem em destaque lamentável outras figuras, que, por medo, por
pusillanimidade, ou se retractaram no periodo da Revolução ou se
apressaram a bajular a Republica, logo que a Republica triumphou. D'um
monarchico sabemos nós que, occupando na monarchia um cargo proeminente,
cargo que lhe concitára as antipathias da população democratica, mal
defrontou na manhã de 5 de outubro um dos vultos preponderantes do
partido republicano, se apressou a affirmar que fôra sempre um
apologista da Ideia e que os incidentes desgraçados em que o antigo
regimen, para se defender, envolvera o seu nome, não tinham occorrido
sem o seu vehemente protesto.
Outro, um magistrado retintamente monarchico, servidor incondicional do
governo do sr. Teixeira de Sousa, perseguidor feroz dos republicanos,
que, porventura, cahiam na sua alçada, encontrámol-o dias depois de
proclamada a Republica na sala de visitas d'um venerando causidico
democrata, o dr. Manuel de Arriaga, asseverando-lhe que nunca defendera
outros principios que não fossem os do partido do povo. E accrescentava,
n'uma voz meliflua, implorador:
--Você sabe... accusam-me de ter procurado, no exercicio da minha
missão, aggravar intransigentemente a pleiade de homens honrados em que
você enfileira... É falso! Não sou monarchico e desgostar-me-hia
bastante o soffrer agora as consequencias d'uma accusação infundada.
O seu interlocutor sorriu ao ouvir estas palavras de subserviencia e
n'esse sorriso lia-se claramente a bondade de um coração diamantino que
se apiedava do terror cobarde do magistrado em questão...
E outros ainda, que ao perceberem que após trinta e seis horas de lucta
o antigo regimen se afundara definitivamente, compozeram uma attitude de
artificioso contentamento, exclamando ao mesmo passo:
--Até que emfim!... Ha quantos annos suspirava por este dia!...
Os mais apressados no reconhecimento da nova fórma de governo, esses,
então, como o momento era azado para distinguir ao primeiro golpe de
vista os adherentes dos não adherentes, não duvidaram pregar na
lapella do casaco uns laçarotes vermelhos, para que a _rajada
revolucionaria_--caso ella se manifestasse--os não subvertesse, os não
liquidasse.
Nas horas do combate encolheram-se a tiritar, calculando que a Revolução
os arrastaria pelos cabellos a uma chacina purificadora ou os penduraria
n'um candieiro. E, afinal, a Revolução não fez nada d'isso. A Revolução,
assim como teve um curto periodo de tiroteio sangrento, tambem se
caracterisou por diminutos instantes de delirio enthusiastico, mas
delirio inoffensivo, expansão de alegria desinteressada e generosa.
Ninguem assassinou, ninguem saqueou. A propria _artilharia civil_,
dispondo d'uma poderosa força destruidora, não commetteu excessos, não
praticou represalias. Applicou-se exclusivamente a atacar as forças do
antigo regimen, lançando as suas _granadas de mão_ sobre os cavalleiros
monarchicos, dispersando-os, derrotando-os mais pelo panico produzido
pelo ruido da explosão do que pelos effeitos contundentes da metralha.
Um episodio succedido na tarde do dia 4 de outubro dá bem a medida do
espirito de honestidade com que os revolucionarios sahiram então á rua a
combater contra a monarchia:
N'uma das avenidas de Lisboa modernamente rasgadas, á hora em que a
artilharia da Rotunda despejava sobre a de Queluz os seus tiros
certeiros... Um leiteiro que enfiava transido de medo para o portal de
uma casa rica é abordado por um popular armado que o intima a vender-lhe
uma porção de leite. O aspecto do revolucionario é de metter pavor: na
face ennegrecida lampeja uma decisão inquebrantavel; n'uma das mãos
agita uma pistola de grandes dimensões. O leiteiro estaca a tremer,
disposto já a abandonar toda a mercadoria, comtanto que lhe poupem a
vida. O revolucionario manda encher uma medida de lata, mas, quando se
dispõe a beber por ella o liquido que o ha de reconfortar, o leiteiro
observa-lhe que a policia não consente tal coisa, que isso é... contra a
postura.
--A policia... Mas onde está ella? replica o revolucionario n'uma
gargalhada escarninha.
E d'um trago sorve o liquido. O outro, morto por se safar, assim que lhe
restituem a medida de lata, prepara-se para uma correria desenfreada. É
de agradecer ao Deus creador o libertar-se do transe afflictivo apenas
com o dispendio d'uns decilitros de leite... Mas o revolucionario não o
consente. E, empunhando de novo a pistola com gesto ameaçador, obriga-o
a acceitar em pagamento umas moedas de cobre. Comprehende-se: esse homem
não fazia a Revolução para perpetuar os crimes da monarchia.
Quantos dos servidores do antigo regimen não procederam de modo diverso?
Quantos não beberam o leite, não o pagaram e até metteram na cadeia os
respectivos vendedores só pelo facto de lhes exigirem o pagamento?
Quantos?...
FIM
Indice
_DO TEXTO_
Falando aos leitores
CAPITULO I--Da perspicacia dos espiões ao serviço do antigo regimen
CAPITULO II--Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca
CAPITULO III--Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de
Janeiro
CAPITULO IV--A policia descobre um dos fios do «complot»
CAPITULO V--Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28
CAPITULO VI--A «ratoeira» do elevador da Bibliotheca insuccesso do
«complot»
CAPITULO VII--O regicidio?--Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?
CAPITULO VIII--Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria
imediatamente ao seu acto
CAPITULO IX--As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente
CAPITULO X--Os estudantes militares offerecem o seu concurso á
Revolução
CAPITULO XI--Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»
CAPITULO XII--As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven
Portugal»
CAPITULO XIII--O «comité» executivo de Lisboa procede a um inquerito
CAPITULO XIV--Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas
revolucionarias
CAPITULO XV--Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano
definitivo
CAPITULO XVI--No momento culminante, o desanimo invade os
organisadores da revolta
CAPITULO XVII--Uma parte das forças revolucionarias installa-se na
Rotunda
CAPITULO XVIII--Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a
lucta
CAPITULO XIX--O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio
CAPITULO XX--O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades
CAPITULO XXI--A artilharia revolucionaria repelle o ataque das
baterias de Queluz
CAPITULO XXII--Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas
casas
CAPITULO XXIII--Proclama-se a Republica no edificio da Camara
Municipal
_DAS GRAVURAS_
D. Carlos I
João Franco
Attentado de 1 de Fevereiro--Assassinato do Rei D. Carlos e Principe
D. Luiz Filipe
Alfredo Costa
D. Manuel II
Teixeira de Sousa
Anselmo Braamcamp Freire--Presidente da Camara Municipal Republicana
de Lisboa antes da Proclamação da Republica
Missão do Directório no estrangeiro
Luz d'Almeida--Chefe da Carbonaria
O Directorio da Revolução
Innocencio Camacho--Membro substituto do Directorio, em
effectividade
José Barbosa--Membro substituto do Directorio em effectividade
A barricada na Rotunda
José Nunes--Auctor de diversas bombas explosivas
Dr. Miguel Bombarda--Vice-almirante Candido dos Reis
Dr. Malva do Valle--Membro substituto do Directorio em effectividade
As forças revolucionarias na Rotunda
Machado Santos
O acampamento na Rotunda
Ladislau Parreira
A Bandeira da Revolução
Bombardeamento do Paço das Necessidades (Janela do quarto do rei)
José Carlos da Maia
Embarque da familia real na Ericeira
João Chagas
Moysés, o tambor dos Revolucionarios
Brito Camacho
Proclamação da Republica e do governo provisorio na Camara
Municipal de Lisboa em 5 d'Outubro de 1910
João de Menezes
Governo Provisorio da Republica Portugueza
General Antonio do Carvalhal--Comandante da 1.ª Divisão Militar
Proclamação da Republica Portugueza pelas camaras constituintes
Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade
A Bandeira Nacional
Manuel de Arriaga--Antigo deputado republicano e 1.º presidente
eleito da Republica Portugueza
Paiva Couceiro
Busto official da Republica Portugueza
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II--_A Daudet_--*A Creança Abandonada*.
III--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Condestavel).
IV--*A Vida dos Animaes* (No Paiz do Leão).
V--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (D. João I, o rei
eleito do povo).
VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.
VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os filhos de D.
João I).
VIII--*A Vida dos Animaes* (Os cães).
IX--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Infante D. Henrique).
X--*A Terra Portugueza* (Portugal Pitoresco).
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