«Entretanto, ainda vieram emissarios de Machado Santos insistindo pela

juncção e informando que a passagem por terra para as bandas de Leste

seria de pouca segurança, pois as ruas a atravessar estavam guarnecidas

pela municipal e interceptavam a passagem. Ficou então assente em

principio que seguiriamos por mar, embarcando nos cruzadores, varrendo

as ruas da baixa com bombardeamento do mar e procurando desembarcar a

leste do Terreiro do Paço, no caso que fosse mais accessivel.»

O primeiro projectil dos navios revoltados que cahiu no paço das

Necessidades lançou um panico medonho nas creaturas que então velavam

pela integridade do sr. D. Manuel. O paço estava guarnecido de tropas

que se suppunha fieis ao antigo regimen. O quartel general entendera

que, antes de mais nada, devia proteger a residencia do soberano e

accumulara ali todos os elementos militares que não tinham tido

cabimento no Rocio. Estes defendiam o quartel general; o restante

guardava o palacio do rei. E durante horas esta situação de pura

defensiva manteve-se inalteravel, apenas fracamente entrecortada por um

esboço de ataque ao quartel dos marinheiros delineado como que a medo

pelas tropas acantonadas nas Necessidades.

O panico que o bombardeamento produziu no paço foi enorme. O rei correu

ao oratorio a implorar a intervenção divina, e emquanto uma meia duzia

de servidores--dedicados não ha duvida--se conservava álerta, disposta a

acompanhar o monarcha nas suas glorias ou nas suas vicissitudes, os

outros servos--a grande maioria--abandonavam precipitadamente o

edificio, possuidos do mais extraordinario pavor. Até as cozinhas do

paço se resentiram da fuga... Como os tiros da artilharia naval

continuassem a incidir sobre as paredes que ainda abrigavam essa côrte

em perfeita dissolução, o rei teve um impulso de decisão. Chamou o

official da guarda e disse-lhe:

--Telephona ao presidente do conselho...

Mas o apparelho não funccionava convenientemente e o sr. D. Manuel,

decerto obcecado pelo que alguns aulicos lhe tinham dito em tempos sobre

um provavel apoio da Gran-Bretanha á dynastia de Bragança, exclamou para

um cortezão:

--Se estiver no Tejo algum _destroyer_ inglez, que metta no fundo os

navios revoltados!...

D'ahi a pouco, os dedicados servidores do palacio tomavam resoluções

importantes sobre a situação. Convidaram o soberano a sahir do edificio,

onde já corria grave risco, e acompanharam-no ao extremo da Tapada. Ahi

deviam tomar logar em dois automoveis e partir para Mafra--o unico ponto

de confiança para o antigo regimen e que podia proporcionar-lhe um

reducto de certa consistencia.

[Ilustração: Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade]

Assim se fez. O rei enfiou para o automovel d'uma _garage_ particular,

que haviam chamado á pressa, e no mesmo vehiculo metteram-se tambem os

srs. conde de Sabugosa e marquez do Fayal, o primeiro vestindo ainda a

casaca com que na vespera assistira ao banquete offerecido no paço de

Belem ao marechal Hermes da Fonseca. No outro automovel seguiram os dois

unicos creados que não tinham fugido do paço com os primeiros effeitos

do bombardeamento. Até certa altura, os dois vehiculos foram escoltados

por uma força de cavallaria da municipal. Contou mais tarde o

commandante d'essa força que por um triz uma granada da artilharia naval

não desfez o automovel que conduzia o sr. D. Manuel. Foi n'um momento em

que esse vehiculo soffreu uma _panne_. Instantes depois da avaria ser

remediada e do automovel ter proseguido de novo a sua marcha, a explosão

do projectil juncou de estilhaços mortiferos precisamente o ponto onde o

rei aguardara, triste e silencioso, o concerto do carro.

As duas rainhas, entretanto, esperavam anciosamente noticias de Lisboa:

a sr.ª D. Amelia no Castello da Pena e a sr.ª D. Maria Pia no palacio da

villa de Cintra. No dia 4, ás duas horas da madrugada, o telephone havia

annunciado á criadagem da mãe do monarcha que a Revolução estalara em

Lisboa. Como ella dormia, ninguem a quiz despertar para tão sensacional

noticia. Só ás oito da manhã é que lhe disseram francamente a verdade. A

sr.ª D. Amelia mandou ligar para o paço da villa e a sr.ª D. Maria Pia

decidiu logo ir á Pena com a s.ª marqueza de Unhão e o sr. conde de

Mesquitella. Junto da nóra, a viuva do sr. D. Luiz procurou mostrar-se

serena, resignada, possuida ainda d'uma energia fóra do commum. Mas a

sr.ª D. Amelia não se conteve e como o telephone para o paço das

Necessidades continuava a funccionar pessimamente, lançou-se n'um

desespero indescriptivel. Deu ordens e contra-ordens, tentou communicar

o mais rapidamente possivel com o chefe do governo e, ao cabo de

inauditos esforços, lá conseguiu que de Lisboa lhe dissesem que o rei

tinha sahido de casa, a caminho d'um refugio seguro.

No dia 5 de manhã, as duas rainhas partiam de Cintra para Mafra. O sr.

D. Manuel esperava-as no convento, rodeado pelos servidores fieis:

condes de Sabugosa e S. Lourenço, marquez do Fayal, tenente coronel

Waddington, Vellez Caldeira e dr. Mello Breyner. Depois do almoço, que

ainda foi servido em Mafra, uns emmissarios que surgiram offegantes

vindos de Cascaes, noticiaram que a Republica já havia triumphado. Logo

a seguir, outro emmissario notificou que o _yacht Amelia_ se encontrava

na Ericeira tendo a bordo o sr. D. Affonso e que a familia real devia

embarcar sem perda de tempo, para evitar que os revoltosos ainda a

surprehendessem em territorio portuguez. Como o _yacht_ tinha poucos

mantimentos, o monarcha, a mãe e a avó arranjaram farneis e puzeram-se a

caminho d'aquella praia.

Antes da partida, a sr.ª D. Maria Pia mostrou alguma relutancia em

abandonar o paiz sem ter sido primeiro intimada a fazel-o pelo governo

republicano. Mas quando lhe mostraram a inconveniencia d'esse

procedimento, ella mergulhou n'um silencio perturbador, que manteve até á

entrada no _yacht_. No primeiro automovel seguiram para a Ericeira a

sr.ª D. Amelia, a condessa de Figueiró, D. Maria de Menezes e Vasco

Belmonte; no segundo a sr.ª D. Maria Pia, a marqueza de Unhão e o conde

de Mesquitella; no terceiro, o sr. D. Manuel, os condes de Sabugosa e S.

Lourenço, marquez do Fayal, Waddington e Mello Breyner. Atraz uma

escolta de cavallaria. Na Ericeira juntaram-se aos fugitivos os srs.

Serrão Franco e dr. Eduardo Burnay. O mar estava agitado e o embarque

tornava-se difficil.

Ainda assim, com a promessa d'uma forte recompensa, o sr. Serrão Franco

obteve que os tripulantes de dois barcos de pesca se decidissem a

transportar a familia real para bordo do _yacht_. No primeiro embarcaram

as duas rainhas; no segundo o monarcha. A bagagem da sr.a D. Amelia

consistia apenas n'uma mala de folha com alguma roupa branca; a do sr.

D. Manuel n'uma caixa com meia duzia de lenços. A mãe do monarcha, ao

attentar na pobreza dos dois barcos de pesca que iam servir de

_galeotas_ á familia desthronada, ainda exclamou:

--Não esperava isto dos portuguezes!... _C'est une infamie_.

O rei, esse, contentou-se em affirmar a sua abnegação pelo povo que até

aquelle momento suppozera governar e, chamando de parte o sr. Serrão

Franco, pediu-lhe que entregasse ao presidente do conselho uma carta, em

que asseverava não abdicar mas apenas eximir-se por algum tempo ao

tumultuar da nação. Essa carta, diz-se, nunca chegou ao seu destino. No

emtanto, os telegrammas de Gibraltar para os jornaes de Paris

reproduziram dois dias depois o seu texto quasi na integra. É um

documento sem valor politico e que demonstra simplesmente quanto o rei

andava illudido sobre a situação da monarchia e... dos monarchicos.

Feito o embarque, o _yacht_ poz-se logo em andamento, indo dar a volta

ás Berlengas para tomar o rumo. Eram 4 da tarde do dia 5 de outubro de

1910.

CAPITULO XXI

A artilharia revolucionaria repelle o ataque das baterias de Queluz

Entretanto, na Rotunda, dava-se esta circumstancia feliz, que muito

contribuiu para o exito do movimento: o elemento popular, longe de

desanimar com a falta de noticias seguras sobre os episodios da

Revolução occorridos n'outros pontos de Lisboa, mostrava-se de instante

para instante mais corajoso, mais decidido a combater até á ultima pela

causa republicana. Ás 7 da manhã do dia 4, Pinto de Lima, que estivera

no quartel de marinheiros e fôra testemunha do combate de Alcantara,

entrou na Rotunda resolvido a dar noticias d'essa acção triumphante dos

revolucionarios commandados pelo tenente Parreira.

[Ilustração: A Bandeira Nacional]

No meio do acampamento, Sá Cardoso, que de madrugada repellira com

energia o primeiro ataque da municipal, dava do alto do cavallo que

montava umas instrucções aos outros officiaes que até ali o tinham

acompanhado. Perto andava o capitão Palla. Mas como este vestia o

uniforme de serviço interno e Sá Cardoso ostentava o dolman azul-ferrete

com os galões do seu posto, todas as attenções derivavam naturalmente

para o arrojado conspirador, que de resto, como já tivemos ensejo de o

dizer, era, n'aquella occasião, o commandante em chefe da columna

revoltada. Machado Santos dirigia n'outro ponto do acampamento uma força

mixta de populares e soldados de infantaria 16. A confusão era enorme.

Pairava no ambiente a duvida, a duvida terrivel de que a sahida dos dois

quarteis, o d'aquelle regimento e o de artilharia 1, não fôra secundada.

Pinto de Lima abeirou-se de Sá Cardoso e disse-lhe pormenorisadamente o

que sabia do quartel dos marinheiros, solicitando-lhe ao mesmo tempo uma

nota sobre a situação exacta das forças da Rotunda para a levar ao

tenente Parreira. Sá Cardoso acquiesceu, pediu um lapis ao capitão Palla

e escreveu n'um pedaço de papel:

Estou na Rotunda com os regimentos de infantaria 16 e artilharia 1,

completos.

_Sá Cardoso._

Pinto de Lima desceu a Avenida e lá foi a Alcantara communicar ao

tenente Parreira essa informação. Pouco depois, Sá Cardoso, o capitão

Palla e os outros officiaes que os tinham acompanhado á Rotunda,

decidiam não prolongar a resistencia, considerando-a absolutamente

inutil. Essa resolução, comprehende-se, tem sido apreciada de diverso

modo. Uns vêem n'esse acto uma fraqueza moral, resultante da deficiencia

de communicações entre o acampamento e os diversos focos

revolucionarios. Outros, filiam-n'o no reconhecimento technico por parte

d'esses officiaes de que a posição da Rotunda era insustentavel. Pelo

que ouvimos a creaturas que seguiram bem de perto esses acontecimentos,

o abandono do acampamento foi simplesmente provocado pela falta de

cohesão, de unidade de todos os elementos compromettidos na Revolta. O

programma previamente combinado não foi executado nos seus pontos

essenciaes. Querem um exemplo? Ahi vae.

Tres grupos de revolucionarios civis deviam pouco antes de se iniciar a

insurreição cortar em trez pontos differentes os fios telephonicos que

punham em contacto o quartel general da 1.ª divisão e outros quarteis,

nomeadamente os da guarda municipal. O primeiro grupo, que devia operar

em determinado local da rua de Santo Antão não levou a cabo a sua missão

perigosissima porque esbarrou com uma porta fechada... quando contava,

afinal, vêl-a aberta a um signal de convenção. O segundo grupo, operando

no Rocio proximo da rua do Amparo, tambem não poude cumprir o encargo

que espontaneamente assumira, pela falta de meios de accesso a uma certa

dependencia de certo edificio. Faltou-lhe uma chave, em summa. O

terceiro, com posto marcado na rua Augusta, viu-se egualmente

impossibilitado de executar o plano, por um incidente imprevisto, um

d'esses incidentes que, parecendo insignificantes, ás vezes mudam por

completo a face das coisas.

Resultado pratico de tudo isto: o quartel-general da 1.ª divisão que,

pela previsão dos revolucionarios, não devia, no momento opportuno,

poder communicar com os outros quarteis e nomeadamente com os da guarda

municipal, teve tempo e tempo de sobejo para dar varias ordens e fazer

sahir á rua os elementos indispensaveis a uma defeza efficaz das

instituições monarchicas. E d'aqui já se deprehende o seguinte: Sá

Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes que ás 9 horas da manhã

do dia 4 abandonaram a Rotunda não cederam n'esse instante d'uma

psychologia extremamente complicada ao receio de combater, de entrar em

fogo. Quem, como o capitão Palla--sem contar o seu infatigavel trabalho

de preparação revolucionaria--se resolve a um acto grave da vida

arrastando para a revolta dezenas de homens confiados ao seu commando;

quem, como Sá Cardoso se decide a montar a cavallo e sahir para a rua á

frente d'uma massa indomita e sedenta de liberdade; quem faz isso

apoz longos mezes de agitação mal reprimida, d'um balanço demorado aos

prós e contras da aventura--não pode succumbir a um arrepio de medo,

muito embora o medo seja uma impressão contagiosa que se propaga com

rapidez e com rapidez se extingue.

Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes abalaram na madrugada

de 4 para a insurreição com a convicção profunda de que serviam uma

causa justa. Do quartel de artilharia 1 até á Rotunda, essa abalada foi

vertiginosa, febril, apenas entrecortada por tres escaramuças que os

revolucionarios liquidaram n'um prompto, n'um _elan_ de energia, de

coragem, de decisão. Não lhes fez mossa a attitude de muitas

mulhersinhas que, despertadas na tranquilidade domestica pelo fragor

d'essa correria desenfreada, appareceram então ás janellas lamentando em

ais doridos a sorte futura dos revoltosos... Foram para a Rotunda com a

certeza do triumpho e que não tardariam a ser secundados pelos

marinheiros ou pelas forças de outros regimentos affectos á Ideia.

Ainda, mais: com a quasi certeza de que a municipal se veria

impossibilitada nas primeiras horas do movimento de exercer a sua acção

offensiva em favor da monarchia. Mas d'ahi a pouco essa certeza e quasi

certeza eram chocadas pela realidade. A municipal manobrava á vontade

pelas ruas de Lisboa, os marinheiros não tinham desembarcado e os outros

regimentos, se se moviam, mostravam antes hostilidade aos republicanos

do que auxilio á sua iniciativa. Alvorecia a manhã de 4 e com os

primeiros raios do sol nascente arrefecia o enthusiasmo dos

conspiradores. Estes, que tinham entrado na Rotunda sob o impulso de uma

fé intensa, d'uma confiança cega na victoria, que ali tinham cahido como

uma avalanche imponente, destruidora, começavam agora a encarar a

situação com a frieza e a calma que se succedem a uma phase, mais ou

menos curta, de excitação e de loucura patrioticas. O mar tempestuoso da

revolta principiava a sentir os effeitos calmantes da reflexão technica,

da apreciação profissional...

O resto d'esta historia é conhecidissimo do publico. Os officiaes,

reunidos em conselho--e custou reunil-os, porque os incidentes que então

occorriam na Rotunda attrahiam a attenção ora d'um ora d'outro--os

officiaes, repetimos, foram unanimes em concordar que a aventura só por

milagre deixaria de liquidar n'uma verdadeira hecatombe. Decidiram o

abandono do acampamento. N'essa hora de desanimo nenhum d'elles se

recordou que momentos antes praticára actos de bravura e que a logica

lhes aconselhava manter até final a attitude delineada no começo da

insurreição. Viram apenas isto: a responsabilidade que assumiam,

contribuindo com a sua presença na Rotunda para que os homens, que até

ali haviam arrastado, continuassem a sacrificar-se pelo ideal

republicano. Pensaram que a sua sahida do acampamento corresponderia a

um dispersar immediato do povo fardado e não fardado.

E afinal não succedeu assim. Apoz essa sahida, alguns dos elementos

revolucionarios, que até então se tinham limitado a executar as ordens

dos chefes, tomaram a iniciativa de preencher a vaga do commandante

supremo da _columna da Rotunda_ e manifestaram a Machado Santos o desejo

de combater _á outrance_. Diziam elles: no acampamento encontram-se

ainda sargentos de artilharia 1 que conhecem o manejo das peças, que são

poderosos instrumentos de guerra; temos, portanto, o necessario para

resistir com vantagem a um ataque serio do inimigo. Machado Santos

concordou e, tendo entrado na Revolução com o proposito firme de lhe

dedicar a pelle, decidiu queimar o ultimo cartucho na defeza da posição

que o acaso lhe confiára.

D'ahi a pouco, algumas das peças de artilharia foram transportadas da

Rotunda para o Parque Eduardo VII, em volta do acampamento levantaram-se

uns modestos obstaculos a fingir de barricadas e os revoltosos

dispozeram-se a morrer dentro d'esse fraco reducto com uma coragem e um

desprendimento da vida dignos do maior elogio. Pode mesmo dizer-se que

n'essa occasião poucos, muito poucos, dos elementos revolucionarios

tinham a noção exacta do valor da posição onde combatiam e

parallelamente do heroismo que a defeza d'essa posição representava.

Poucos, muito poucos, reflectiram que, se a artilharia de Queluz os

atacasse a coberto de qualquer elevação de terreno, a Rotunda soffreria

fatalmente uma _razzia_ sangrenta, difficil de impedir.

Cêrca do meio dia, alguns populares, que, pelo seu armamento

insignificante, diminuto auxilio podiam prestar aos defensores da

Rotunda, desceram a Avenida, com o intuito de conquistar a adhesão das

forças acampadas no Rocio. Machado Santos sabia perfeitamente que

n'essas forças existiam elementos revolucionarios e pretendia

attrahil-os ao seu acampamento. Os populares executaram a manobra ao

abrigo das arvores das ruas lateraes, mas, uma vez chegados á praça dos

Restauradores, as metralhadoras romperam fogo e obrigaram-nos a

retroceder com perdas sensiveis. Desde então, nunca mais se fez

reconhecimento tão arriscado das forças inimigas e todos os elementos de

utilidade á causa revolucionaria julgaram mais prudente conservar-se

dentro da Rotunda, aguardando um _corps-á-corps_ que, se se produzisse,

provocaria um desastre irreparavel.

Á 1 e 30 da tarde, um vigia empoleirado n'uma figueira do parque Eduardo

VII surprehendeu dois officiaes que, de espada desembainhada, se

escoavam proximo dos muros da Penitenciaria. O vigia desceu da arvore e

communicou as suas suspeitas a um sargento de artilharia 1, commandante

d'uma das peças. O sargento visou o local e dentro de poucos instantes a

columna do commando do coronel Albuquerque, que comprehendia lanceiros

2, cavallaria 4, a bateria de Queluz e infantaria 2, soffria o primeiro

revez.

Paiva Couceiro, que veraneava ao tempo em Cascaes, tinha apparecido em

Sete Rios, onde estacionava a columna de ataque, pouco antes do meio

dia. O coronel Albuquerque, logo que elle se lhe apresentou,

explicou-lhe que o quartel general o incumbira de investir contra a

Rotunda e o quartel de artilharia 1. Paiva Couceiro extranhou que,

dispondo ainda o quartel general de cinco regimentos de infantaria, de

toda a guarda municipal, da engenharia e da guarda fiscal, destinasse

para o ataque aos revoltosos apenas uma fracção minima dos effectivos e

constituida na sua maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa

menos apropriada ao assalto de muros ou barricadas. Mas não expressou

alto e bom som o seu reparo e limitou-se a dizer ao coronel Albuquerque:

--Bem, n'esse caso, temos de escolher primeiro a posição da artilharia.

Lembrou-lhe a Penitenciaria, mas, logo a seguir, outro official informou

que d'uma propriedade á esquerda, entre a Penitenciaria e o _chalet_ do

sr. Henrique de Mendonça, se podia fazer fogo, com exito, sobre a

Rotunda. Paiva Couceiro, acompanhado por um official de cavallaria,

reconheceu a posição indicada e, achando-a excellente, para lá conduziu

a bateria, apoiada n'uma columna de infantaria 2. Mas quando ia

precisamente iniciar o ataque da artilharia contra o quartel de

Entre-Muros, rebentaram sobre as tropas monarchicas tres granadas

despedidas do Parque Eduardo VII, ficando logo feridos um capitão, um

cabo e varios soldados. Cahiram mortas algumas muares, tresmalharam-se

os cavallos e as parelhas dos armões que ainda não tinham descoberto

abrigo e mais de metade da força de infantaria 2, com umas tantas praças

da bateria, poz-se em fuga desordenada.

O duello de artilharia prolongou-se durante uns tres quartos de hora,

findos os quaes, Paiva Couceiro, suppondo que os revoltosos haviam

desamparado as peças collocadas nas immediações do quartel de

Entre-Muros, mandou sahir uma força de infantaria que se estendeu em

atiradores no terreiro livre do lado opposto. Não tardou, porém, que

essa força experimentasse baixas sensiveis. Infantaria 2 já estava então

reduzida a umas cincoenta praças, que Paiva Couceiro, cêrca das 3 da

tarde, tentou novamente conduzir ao assalto de artilharia 1. Baldado

empenho. O tiroteio dos revoltosos não abrandava e o commandante do grupo

a cavallo, reconhecendo que com tão poucos soldados não lograva o seu

objectivo, mandou pedir ao quartel general que lhe facultasse duas

companhias de infantaria de linha e uma da municipal para produzir novo

ataque á posição de Entre-muros. A resposta do quartel general, levada a

Paiva Couceiro pelo capitão Martins de Lima e tenentes Wanzeller e

Ramos, foi que a bateria cessasse immediatamente o fogo e descesse outra

vez á estrada de Sete Rios. Paiva Couceiro obedeceu e mandou seguir as

forças do seu commando pela azinhaga da Fonte, Luz, Campo Grande,

Arroyos, rua Nova da Palma até o Rocio, onde chegou noite fechada.

Depois, indo apresentar-se ao quartel general, Paiva Couceiro recebeu

ordem de collocar duas peças na embocadura da rua Augusta e as outras

duas na embocadura da rua do Ouro para obstar a um possivel ataque da

marinha.

Ao cahir da tarde, resolveu-se que todos os insurrectos que se

encontravam no quartel de Alcantara entrassem no _Adamastor_. Este barco

de guerra, para o embarque se fazer mais rapidamente, atracou ao vapor

_Guiné_, da Empreza Nacional, que estava encostado á muralha,

utilisando-se tambem uma falua do Arsenal e o rebocador _Cabinda_.

Apesar d'isso, a operação decorreu com alguma morosidade, pois a columna

comprehendia cêrca de 1.500 homens e levava outra vez para bordo grande

quantidade de munições e uma metralhadora. Emquanto se effectuava o

embarque, a face da frente do quartel era defendida por umas tantas

praças e civis sob o commando do commissario Costa Gomes; o lado sul era

protegido pelas baterias de bordo.

Ás 5 horas, o _S. Raphael_ largou pelo rio acima, ficando o _Adamastor_

para defender qualquer invasão do quartel de Alcantara pelas forças

contrarias, mas com ordem de seguir mais tarde para o Terreiro do Paço,

depois de receber a bordo o resto dos combatentes que ainda se

encontravam n'aquelle edificio. O _S. Rafael_ navegou sem ser

hostilisado e até com applauso dos barcos mercantes fundeados entre

Alcantara e a Alfandega. Ao passar no quadro dos navios de guerra, viu

que o _D. Carlos_ e a fragata _D. Fernando_ continuavam a ostentar a

bandeira azul e branca. Os seus tripulantes deram vivas á Republica,

esperando despertar assim a inacção dos tripulantes de aquelles dois

navios, mas essas acclamações não encontraram echo. E descreve então o

tenente Parreira:

«Sabendo-se que os correios e telegraphos estavam defendidos por forças

da guarda municipal e que o Rocio e quartel general estavam occupados

por um grande nucleo de forças de infantaria 5 e caçadores 5, pelo

menos, e que seria necessario desfazer essa barreira para a nossa futura

juncção ás forças da Rotunda, resolveu-se, embora já proximo da noite,

desalojar primeiro as forças dos correios e telegraphos, o que se fez

com os tiros de artilharia de pequeno calibre e metralhadoras,

seguindo-se-lhe uns tiros sobre o Rocio pela rua do Ouro com pontarias

baixas.

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 12 / 14 段