«--Um pouco. O Monteiro trouxe debaixo a noticia de que na verdade o

_Dinorah_ não tinha ainda pressão, mas poderia abalar dentro de meia

hora... N'estas circumstancias os officiaes resolveram esperar. E como

os outros collegas tinham ficado no caes, o almirante mandou-me que os

avisasse de que o vapor era o _Dinorah_. Desembarquei, indo pela muralha

adeante, em procura dos officiaes. Não estavam já no mesmo ponto onde

pouco antes os deixara. Tinham achado prudente desviar-se um pouco,

porque ali começava a concentrar-se a guarda fiscal, e tinha os seus

perigos uma tal visinhança... Estavam junto da cancela da linha ferrea,

e, para provar que me não escapou o mais pequeno pormenor d'essa noite,

direi que já lá encontrei o Monteiro Guimarães, a quem o almirante

mandara com uma ordem identica e que chegou antes de mim, por eu ter

perdido alguns minutos procurando os officiaes na muralha. No momento em

que transmittia a ordem do almirante ouviram-se no rio os primeiros

tiros de peça... Em terra já tinhamos tambem percebido o ruido da

fusilaria.

«Quasi ao mesmo tempo ouvia-se, em artilharia 1, nove tiros...

Contámol-os, offegantes, e, n'um grande alvoroço, ficámo-nos depois á

escuta, esperando o resto.... Mas nada mais se ouviu, o que levou um dos

officiaes a exclamar: «Dir-se-ia o signal das forças fieis...» (Correra

entre os officiaes que o signal das forças monarchicas eram nove tiros

de artilharia...) Mas estava escripto que aquella noite seria para nós

de dolorosas surprezas... No mesmo instante appareceu-nos, vindo de

fóra, das ruas, um collega que nos deu noticias vagas, mas muito

desanimadoras...

«--Quem era esse official?--perguntou-lhe o jornalista.

«--O tenente Aragão e Mello, homem que foi a alma revolucionaria dos

navios, no periodo da organisação. Porque, creia isto: no trabalho de

preparação dos espiritos houve muita heroicidade, muita valentia que

mereciam historia. O perigo não existiu apenas dentro das horas de

combate; existiu tambem, e permanentemente, durante a obra de aliciação,

que se fez, dentro dos navios e dos quarteis, á custa de sacrificios

tremendos. O Aragão, destacadamente, arriscou tudo, expondo-se

temerariamente, n'uma quasi loucura! Era vigiado, olhado com

desconfiança, e para isso concorria a clara falta de disciplina com que

as praças se lhe dirigiam, n'um quasi «tu cá, tu lá» nascido das

reuniões... O Aragão foi-se do caes, e, incançavel, expondo-se sempre,

andou pelas ruas, entrou nos quarteis, a sondar os acontecimentos; soube

depois que voltou lá abaixo, porém em occasião em que já lá não estava

nenhum official.

«--Essa ultima affirmação vae contra outras, que dão o tenente Aragão

falando da muralha para Candido dos Reis, e dizendo-lhe: «Meu almirante,

basta de sacrificios! Infantaria 16 está fuzilando o povo!»

«--O Aragão não pode ter communicado com o almirante. Pelo menos não o

fez emquanto lá estivemos. Quem lhe falou foi o Helder que, a nosso

pedido, se dirigiu ao _Dinorah_ a levar as ultimas noticias, e as

resoluções d'um pequeno conselho de officiaes que reunimos n'essa

occasião para apreciar immediatamente os acontecimentos.»

Esse conselho decidira adiar o embarque por mais algum tempo até os

officiaes alcançarem noticias exactas sobre o que se estava passando

n'outros pontos de Lisboa. As suas resoluções, claro é, ficaram, no

emtanto, dependentes do arbitrio do almirante. O tenente Helder, depois

de conferenciar sobre o assumpto com Candido dos Reis, voltou para junto

dos seus camaradas da marinha e communicou-lhes que o almirante desistia

do embarque. É o proprio tenente Helder quem nos refere esse incidente

da revolta:

«--Carlos Candido dos Reis desanimara e no meio d'esse desanimo ouvi-o

proferir estas palavras:

«--Está tudo perdido... Não podemos effectuar o desembarque da marinha,

porque os dois vapores não vão junto dos navios de guerra; infantaria 16

conserva-se fiel á monarchia; artilharia 1 não adheriu; dos outros

regimentos não ha signal de cooperarem na revolta. Falhou a tentativa...

O melhor agora é todos nós voltarmos cada um para sua casa, mas de modo

que a policia não nos surprehenda.

«E voltando-se para mim e outros officiaes:

«--Os senhores podem desembarcar já. Eu ainda me demoro no vapor alguns

minutos...

«Insistimos com elle para que saltasse immediatamente em terra, mas o

almirante teimou em conservar-se a bordo do rebocador, e só sahiu de lá

quando dispersámos no Aterro...»

Momentos depois, Candido dos Reis, sempre inquieto e desanimado, estava

á porta da casa de banhos em S. Paulo. Sahindo do _Dinorah_, com a

obcessão,--chamemos-lhe assim--de que o movimento abortára, fôra até

ali, não esperançado em obter noticias que o reconfortassem, mas para

ouvir os outros revolucionarios e combinar com elles o partido a tomar

em taes circumstancias. Talvez se extranhe que o valoroso almirante

houvesse succumbido logo após a primeira contrariedade--elle, tão

energico, tão cheio de fé, tão dedicado á propaganda republicana, em

summa, tão devotado á organisação revolucionaria. Mas, Candido dos Reis

soffrera com o 28 de janeiro uma desillusão profunda e ao perceber que

falhara o assalto aos navios de guerra--esse assalto que elle julgava

indispensavel ao bom exito da revolta--não se conteve e exclamou, fóra

de si, n'um arranco de patriotica indignação:

--Já não ha portuguezes!...

Em S. Paulo, Alfredo Leal encontrou-o á porta do balneario, ao lado de

Soares Guedes, com os braços cruzados e em attitude pensativa. D'ahi a

pouco, appareceu no local o dr. Affonso Costa, que extranhou vêl-o ali,

á hora em que o programma revolucionario o mandava ir a caminho dos

navios de guerra. Candido dos Reis respondeu-lhe contristado:

É verdade, estou aqui porque perdi a esperança no movimento e não sei o

que devo fazer. O meu logar era no caes, ao pé da Companhia do Gaz, onde

devia encontrar-me com os officiaes. Mas em vez de preparativos da

revolta eu apenas observei as evoluções da policia e da municipal, e

tenho o presentimento de que está tudo perdido.

Todos trataram de o serenar a tal respeito, e o dr. Affonso Costa

aconselhou-o a metter-se no automovel com Alfredo Leal, a fim de

verificarem o que se passava nos principaes pontos revolucionarios.

Foram e nada notaram de animador. Logo adeante de S. Paulo encontraram

dois policias fardados, que pareceram desconfiar do automovel. Proximo

do quartel de marinheiros apenas havia grupos de seis ou sete populares.

No caminho da Estephania e de Arroyos esbarraram com piquetes de policia

e guarda municipal que investigaram o auto com olhares prescrutadores.

N'essa altura, Candido dos Reis voltou a mostrar-se desanimado,

expressando-se, pouco mais ou menos, n'estes termos:

[Ilustração: General Antonio do Carvalhal

Comandante da 1.ª Divisão Militar]

--Extranho isto. Em vez de agitação revolucionaria, só se vê a policia e

tropas de prevenção. Presinto que vamos ser assaltados e que terei de

dar um tiro nos miolos. Você, Leal, não acha ridiculo que eu vá acabar

n'uma esquadra de policia? Isso de forma alguma. Sahi para me bater, e

ou hei de morrer na revolução ou hei de liquidar a vida pelas minhas

proprias mãos.

Alfredo Leal tratou novamente de tranquilisal-o, mas Candido dos Reis

insistiu na ideia do suicidio:

--Para uma esquadra, nunca... antes a morte!...

Como era arriscado andar na rua áquella hora, Alfredo Leal aconselhou o

almirante a recolher a casa e esperar ahi noticias do movimento. O

almirante concordou e n'esse sentido dirigiu-se o automovel para a rua

D. Estephania, dizendo Candido dos Reis ao seu companheiro:

--Bem. Eu vou para casa de minha irmã, n'esta mesma rua, n.º 153. Você

vae saber o que ha de novo, e, se a revolução estiver em bom caminho,

mande-me prevenir.

Quando o automovel ia a parar á porta do n.º 155, a attenção do

almirante foi despertada por um facto extranho. A porta da rua estava

aberta e um vulto desapparecia, n'esse momento, no limiar. Tanto Candido

dos Reis como Alfredo Leal viram distinctamente esse vulto e ficaram

hesitantes durante algum tempo, conjecturando sobre o que seria. Por

fim, Candido dos Reis, tranquilisando-se, a si proprio, resolveu entrar

em casa. Alfredo Leal ainda esperou que o almirante fechasse a porta

atraz de si e depois metteu-se de novo no automovel, scismando

apprehensivo no vulto que pouco antes vira. Seria um espião da

policia?... Alfredo Leal ficou com a impressão de que se tratava

realmente d'uma creatura assoldadada para vigiar o almirante. O que

succedeu depois, conta-o elle d'este modo:

«Como achasse imprudente voltar no automovel á casa de banhos, resolvi

dirigir-me a casa de meu irmão, em Santos, e ali ordenei ao _chauffeur_

que seguisse para o local onde se combinára estacionar. Mal ouvi a

fuzilaria, parti, a pé, para uma casa da travessa da Palha em que se

reuniam alguns revolucionarios. No caminho, tive a felicidade de

encontrar o automovel do irmão de Innocencio Camacho, que ia para o

mesmo destino, e tomei logar ao lado d'elle. Apenas chegado, contei a

João Chagas e outros o que se tinha passado, e como n'essa altura já o

tiroteio fôsse violento em toda a cidade, consultei os outros sobre a

maneira de prevenir Candido dos Reis. Assentou-se em mandar um popular

de confiança, porque, sendo eu conhecido da policia, podia esta deter-me

no caminho e impedir que o recado chegasse ao seu destino. Com effeito

fui procurar um republicano de confiança e encarreguei-o de levar o

recado a Candido dos Reis. Deviam ser, n'essa altura, 3 horas ou 3 e

meia da manhã.

«Pode calcular-se a anciedade com que ficámos esperando o regresso do

emissario. Mais de duas horas passaram e o homem não chegava. Por fim,

já muito inquieto, resolvi descer á rua e tive a felicidade de esbarrar

com o emissario, que regressava todo afflicto. Não tive tempo de lhe

perguntar o motivo da sua enorme demora. O homem desfechou-me

bruscamente a noticia da morte de Candido dos Reis, descrevendo assim

como se desempenhára da sua missão:

«--Quando cheguei á rua de D. Estephania, disseram-me ali que o

almirante tinha sahido ás 5 horas da manhã. Tratei então de saber onde

era a sua residencia, por calcular que elle tivesse seguido para lá.

Passado pouco tempo avistava-me effectivamente com a familia, a quem fui

encontrar no mais completo desolamento. Já lá tinha chegado a noticia de

que Candido dos Reis apparecera morto e de que o seu cadaver fôra

removido para a _Morgue_».

O que se tinha passado durante esse periodo de tempo que medeiou entre a

entrada do almirante no n.º 153 da rua de D. Estephania e a apparição do

seu cadaver na Azinhaga das Freiras, em Arroyos? O cadaver de Candido

dos Reis, quando uns populares o ergueram do solo, estava estendido ao

comprido e com os pés na direcção da estrada de Sacavem. Tinha o braço

direito afastado do corpo e proximo do antebraço uma pistola automatica.

No fato: uma bolsa de cabedal com 500 réis em prata, quatro nikeis de

100 réis e uma moeda de cinco réis nova em folha, e uma carteira com uma

nota de 5$000 réis e varios papeis...

A primeira pessoa que topou na Azinhaga das Freiras com o cadaver do

almirante foi o trabalhador João Augusto da Silva. Empregava-se ao tempo

na reconstrucção d'um muro proximo e passou no local ás 6 e um quarto da

manhã. A essa hora, a azinhaga estava deserta. Foi á arrecadação do

material, distante uns quarenta metros, pegou n'uma pá e voltou para o

amassadouro da cal, que era mesmo á esquerda. Candido dos Reis já estava

estendido no chão e agonizava. O trabalhador João Augusto da Silva

chamou então outros operarios, um servente requisitou a comparencia de

dois policias da esquadra de Arroyos e, depois de se verificar que o

almirante succumbira ao ferimento recebido na cabeça, transportaram o

cadaver para a Morgue. Os dois policias tomaram conta da pistola

automatica, da carteira e da bolsa a que atraz nos referimos.

Coisa curiosa: esse trabalhador, quando interrogado por um _reporter_

sobre os pormenores que acabamos de registar, affirmou peremptoriamente:

1.º que ás 6 horas e um quarto da manhã a Azinhaga das Freiras estava

deserta; 2.º que não ouvira nenhuma detonação durante o espaço de tempo

que medeiou entre a sua passagem á primeira vez no local e o encontro do

cadaver. Em contrario d'esta affirmação depôz a esposa d'um enfermeiro

residente na rua de Arroyos, que disse o seguinte:

--No dia 4 de outubro, cheguei á janella ás 6 da manhã, esperando a

leiteira. Vi que no passeio, em baixo, passeiava d'um lado para o outro,

n'uma extensão de dez metros, um individuo vestido todo de negro, que,

de quando em quando, me fitava, o que me obrigou a retirar para o

interior da casa. Passados dez minutos, quando novamente á janella, vi

esse individuo sentado n'um marco de pedra. Voltei dentro a buscar

vasilha para o leite, e quando assomei á porta senti um estalido secco,

a que não liguei importancia, tanto mais que só vi fugir alvoroçadas

algumas gallinhas. Instantes depois, percebi certo borborinho. Cheguei

novamente á janella, e o sr. Leitão, fiscal do hospital d'Arroyos,

disse-me:

«--Está ali um homem morto. Parece-me que é tio d'uma empregada. Vou

chamal-a.

«No emtanto, emquanto o fiscal se dirigia ao interior do hospital, desci

á rua, e, ao vêr o corpo estendido no chão, exclamei:

«--É o homem que ainda ha pouco ali passeava defronte...»

Mas ou seja o que contou o trabalhador João Augusto da Silva, que o

almirante surgiu na Azinhaga das Freiras ás 6 e 30 da manhã e, mal ali

surgiu, cahiu moribundo, ou como contou a esposa do enfermeiro, isto é,

que Candido dos Reis passeara algum tempo na azinhaga antes de morrer, a

verdade é que parece nitidamente averiguado que n'esse momento de

tragico desespero, no local do doloroso acontecimento, só estava o

almirante. Mais ninguem. E sendo assim, é forçoso arredar da narrativa

do caso a hypothese d'um crime. Fica, apenas, de pé, a do suicidio. E

será admissivel essa hypothese? É. O almirante, depois de ter entrado na

casa da rua D. Estephania, onde imprudentemente o deixou Alfredo Leal,

recolheu ao quarto de dormir, mas não enfiou logo na cama. Esteve um

pedaço a reflectir na situação, a ponderar no insuccesso do

movimento--que elle suppunha absolutamente perdido. Depois deitou-se.

Mas a idéa de que tudo liquidára n'uma desastrada aventura não o deixava

pregar olho. Ás quatro da manhã, ouvindo o estrondear do canhão,

ergueu-se e vestiu-se. E é natural que, n'esse instante, tendo recebido

a impressão de que n'um determinado ponto de Lisboa os revolucionarios

combatiam corajosamente contra o inimigo monarchico, ao seu espirito

acudiu tambem a idéa de que os bravos assim lançados em declarada

rebellião já o tinham talvez considerado, por o não verem a seu lado, um

medroso, um covarde.

E então, Candido dos Reis, que trabalhara com alma e decisão n'uma longa

preparação revolucionaria, como trabalharam Sá Cardoso, o capitão Palla,

Machado Santos e outros, sacudido por essa idéa, magoado porque o

pudessem suppôr o que elle nunca tinha sido, achando, certamente, que já

era tarde para enfileirar condignamente com os que luctavam desde a 1 e

30 da madrugada, elle, que estivera inactivo até esse momento, julgou

que desmerecera por completo no conceito dos seus amigos, dos seus

camaradas, dos seus correligionarios e... suicidou-se. Repetimos: isto é

uma hypothese que formulamos. Para nós, como para muita gente que seguiu

de perto a discussão jornalistica que apoz a revolução se estabeleceu

sobre o assumpto, a hypothese do suicidio é perfeitamente acceitavel.

Para outros não: para outros Candido dos Reis foi victima d'uma cilada

preparada pelos inimigos da Republica e argumentam que seria

coincidencia muito extraordinaria que, a dois passos da victoria,

desapparecessem exactamente duas grandes figuras da preparação

revolucionaria,--uma, Miguel Bombarda, attingido por um doido, a outra,

o valoroso almirante, esmagado pelo desespero.

CAPITULO XX

O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades

Deixámos os revolucionarios de posse do quartel de marinheiros na altura

em que, tendo destroçado as forças monarchicas em Alcantara, haviam

recolhido ao edificio e ali organisado uma defeza. Pouco depois,

amanheceu. «E então, relata o 1.º tenente Parreira, verificou-se que

pelo lado sul infantaria 1 estava occulta com as casas do caminho de

ferro e tapumes, desenvolvendo-se até á rua da Costa, acompanhada tambem

da guarda fiscal e d'alguma cavallaria 4. Ás 6 horas os navios, ainda a

leste, deram algumas salvas, içando nós no mastro da parada a bandeira

encarnada, para poder ser vista pelos navios. Ao mesmo tempo na rua

estabeleciam-se vedetas, que fizeram a apprehensão de varios artigos,

taes como uma carroça de pão da padaria militar e outra de carne que foi

levada para as cozinhas do quartel, bem como uma carroça de refrescos

que passava na occasião.

«Pelas 7 horas da manhã veiu um dos chefes de um dos grupos civis

informar que o _S. Raphael_ e _Adamastor_ tinham bandeira revolucionaria

içada, mas que a bordo do _Adamastor_ lhe haviam dito ser preciso um

official para commandar o _S. Raphael_, visto lá não haver official

algum, e o _Adamastor_ estar apenas commandado pelo tenente Cabeçadas

esperando ordens. Esta informação levou o tenente Parreira a ordenar ao

tenente Tito de Moraes que fosse tomar o commando do _S. Raphael_ e

indagasse o que succedera, o que elle fez, seguindo com 4 civis para o

Aterro, na intenção de tomar qualquer embarcação que lhe apparecesse ou

mesmo utilisar-se d'uma falua do Arsenal que ali estava ao serviço do

carvão e cujo encarregado se pôz á disposição dos revoltosos.

«Proximo das 9 horas veiu um sargento, que recolhia de licença,

communicar que tinha recebido ordem do commandante das forças fieis ao

regimen monarchico e que defendiam as Necessidades para da sua parte

intimar o commandante das forças de marinha a render-se no praso de 15

minutos, sob pena de mandar metralhar o corpo de marinheiros, ao que o

tenente Parreira respondeu, mandando armar o sargento e fazendo-o entrar

na linha de fogo.

«Algum tempo depois vimos o _S. Raphael_ seguir rio abaixo vindo fundear

em Alcantara em frente do quartel de marinheiros, e desembarcar uma

força com uma metralhadora e as munições precisas para guarnecer a gente

do quartel, e tambem os officiaes que faziam parte da guarnição do

navio, e que vieram presos para terra, sendo mettidos nos calabouços do

quartel.»

Mas, não prosigamos no desenrolar d'esta documentação sem uma referencia

demorada ás peripecias que precederam o desembarque dos marinheiros no

quartel de Alcantara e o bombardeamento do Paço das Necessidades. Como

já dissémos, ás 7 horas da manhã do dia 4, o tenente Parreira recebeu as

primeiras informações do que occorria a bordo dos navios revoltados: o

_Adamastor_ e o _S. Raphael_. Essas informações foram-lhe prestadas,

além de outros civis, por Estevão Pimentel, que já tinha estado a bordo

do _Adamastor_ e falara com o tenente Cabeçadas. Era forçoso ir tomar o

_S. Raphael_, não só porque o comando do barco devia ser exercido por um

official, mas porque os officiaes prisioneiros dos revoltosos se

esforçavam por convencer os seus aprisionadores a desistirem da

insurreição.

O tenente Parreira consultou os officiaes que o acompanhavam. O tenente

Tito de Moraes offereceu-se logo para ir desempenhar essa missão de

confiança e foi ao _Adamastor_, d'onde seguiu mais tarde para o _S.

Raphael_. Tomou conta do barco e quando os seus camaradas monarchicos

lhe manifestaram o receio de qualquer complicação, se o movimento,

porventura, não triumphasse, o distincto official pegou n'um papel e

n'uma penna e redigiu uma declaração honrada e firme que concentrava na

sua pessoa toda a responsabilidade do que de futuro succedesse.

Depois, ordenou aos officiaes do _S. Raphael_--que os marinheiros

revoltados tinham aprisionado--que se conservassem detidos até o momento

de irem para terra, e, assumindo o commando do cruzador, trouxe-o para

Alcantara. O _Adamastor_ preparava-se, no emtanto, para largar da boia e

ir occupar uma posição identica ao lado do _S. Raphael_. Á passagem do

_S. Raphael_ junto do _D. Carlos_, que ainda ostentava a bandeira azul e

branca, as poucas praças então a bordo do segundo d'esses cruzadores

proromperam em vivas á Republica. Um popular ainda lembrou ao tenente

Tito de Moraes:

--E se nós fossemos agora tomar o _D. Carlos_?

O denodado official hesitou uns segundos, mas depois replicou:

--Logo... fica para logo... Agora temos outro serviço a fazer.

[Ilustração: Proclamação da Republica Portugueza pelas Camaras

Constituintes]

Em Alcantara, no momento em que o tenente Tito de Moraes fazia

desembarcar do _S. Raphael_ os officiaes presos, cincoenta marinheiros

revoltados, uma metralhadora e alguns cunhetes de polvora, appareceu-lhe

n'um bote, em mangas de camisa, o commissario naval Marianno Martins,

que, sendo conspirador e não tendo recebido a tempo o aviso de

comparencia, resolvera no dia 4 de manhã dirigir-se a bordo d'aquelle

vaso de guerra, despindo a sobrecasaca do uniforme para que da majoria

general o não reconhecessem.

--Ás suas ordens, meu commandante!--disse Marianno Martins ao tenente

Tito de Moraes. Este agradeceu-lhe a collaboração n'um aperto de mão

cordealissimo e confiou-lhe, entretanto, o comando do cruzador. Marianno

Martins subiu a escada e quando se dispunha a entrar no barco olhou para

a fragata que transportava os seus camaradas prisioneiros e

perguntou-lhes, sem perceber no momento a situação em que todos elles se

encontravam:

--Então... vocês não ficam?

Um silencio doloroso acolheu a pergunta. Cortou-o um viva enthusiastico

á Republica soltado por um revolucionario e a fragata largou

immediatamente do _S. Rafael_.

No quartel dos marinheiros, porém, não havia a menor informação do que

se passara durante todo esse tempo na Rotunda ou em qualquer outra parte

da cidade. Só proximo do meio dia é que ali chegaram um dos membros do

Directorio, o sr. Malva do Valle, e Celestino Steffanina, expondo a

verdadeira situação das forças revolucionarias, que conheciam

pormenorizadamente por terem estado pouco antes no Alto da Avenida.

«Logo--conta o tenente Parreira--se impoz a juncção com as forças da

Rotunda, e julgando-se necessario inutilisar ou pelo menos enfraquecer,

desmoralisando-a, a brigada que defendia as Necessidades, foi ordenado o

bombardeamento do paço, que demorou algum tempo, e depois do corpo de

marinheiros estar debaixo de um intenso fogo das metralhadoras de

caçadores 2 e das restantes forças fieis á monarchia.

«O effeito d'este bombardeamento foi surprehendente, porque, levantando

o moral das nossas forças, provocou grande desanimo nas forças

contrarias. Ainda debaixo do fogo das metralhadoras tivemos a alegria de

ver entrar no quartel o medico Vasconcellos e Sá, cujo papel distribuido

não era ir para o corpo de marinheiros á 1 hora da noite, mas sim

esperar com automoveis o desembarque da gente dos navios na Rocha do

Conde de Obidos, ás 2 horas da manhã, desembarque que não se fez. Este

official, a quem não mandaram automoveis ao hospital da Marinha e que já

tinha feito seguir antes da 1 hora da noite os 4 enfermeiros com

ambulancias portateis para o Aterro e que se apresentaram depois no

corpo--apenas ouviu, no hospital, os tiros de peça, tentou seguir por

sua vez com um enfermeiro, deixando as ambulancias no Hospital da

Marinha e enfermeiros com ordem de as levarem para onde fosse preciso,

caso ainda apparecessem os automoveis promettidos. Não conseguindo

passar, em virtude de descargas das forças que a essa hora guarneciam o

Museu de Artilharia, voltou ao Hospital da Marinha, onde começou a fazer

operações e os curativos precisos nos feridos que vinham chegando, até

que finalmente, já cheio de impaciencia, conseguiu arranjar um automovel

que conduziu ambulancias, 4 enfermeiros e elle, medico, e, seguindo pelo

Aterro, atravessou as forças da municipal que estavam no Terreiro do

Paço, e, chegando ao quartel de marinheiros, entrou logo no exercicio

das suas funcções.

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 11 / 14 段