Sepulveda não tivesse, á ultima hora, assumido uma attitude de strenuo
paladino da monarchia e o seu nome não houvesse sido citado a proposito
da morte do almirante Candido dos Reis, prosigamos na narrativa do que
occorreu na Rotunda, ao alvorecer do dia 4.
Assim que rompeu a manhã, Machado Santos, muito embora as noticias
recebidas no acampamento fossem em extremo desanimadoras, desenvolveu
uma energia sem limites, vigiando tudo, tratando de tudo, sempre
incançavel e inattingivel pelo desalento. Ao contrario do heroico
official, os outros militares agaloados sentiam-se a pouco e pouco
invadidos pelo receio contagioso de que o movimento liquidasse n'um _31
de janeiro_ de peores e mais funestas consequencias.
Um alviçareiro dos muitos que irrompem no acampamento, anonymos alguns,
sobejamente conhecidos outros, affirma sem hesitações que _está tudo
perdido_. Lanceiros 2, infantaria 1 e a guarda municipal, que segundo o
plano revolucionario, não deviam ter sahido dos quarteis sem soffrerem
um ataque rude dos grupos de populares armados, andam pelas ruas de
Lisboa sem que ninguem os incommode e preparam-se, de certo, para
investir com os revoltosos acampados na Rotunda. A marinha não
desembarcou nem tomou conta dos telegraphos; e ha quem diga que acabou
de pôr um _ultimatum_: ou as forças de terra se rendem, ou ella
bombardeia a cidade e mette os navios no fundo. Outro alviçareiro, que
parece dar um recado de encommenda, confirma tudo isso e aconselha os
officiaes a não prolongarem a resistencia; de contrario, accrescenta, a
repressão será terrivel. Por ultimo, até a figura prestigiosa d'um
antigo combatente pelo ideal republicano manifesta opinião identica e
abandona o acampamento, onde momentos antes se mostrara corajoso e
enthusiasta.
O medo é contagioso, dizemos acima, e não ha duvida: esse contagio ganha
progressivamente os mais animosos e d'ahi a alguns minutos o capitão Sá
Cardoso convoca o conselho de officiaes e expõe-lhe a situação, tal como
elle a julga apprehender:
--Contra nós, cêrca de 3:000 homens, com as baterias a cavallo; a nossa
posição da Rotunda dominada pelas alturas como o Thorel, Graça, Penha,
S. Pedro d'Alcantara, etc. O inimigo tem quinze metralhadoras. Estamos
na imminencia d'um ataque simultaneo por todas as ruas e por todas as
alturas.
Todo o conselho--é o proprio capitão Sá Cardoso que o affirma--a começar
pelo official mais moderno, manifesta o parecer de que a situação é
desesperada e que a lucta provocará uma carnificina horrorosa. Todos os
officiaes estão desanimados. O capitão Sá Cardoso, terminada a reunião,
chama alguns sargentos de artilharia, diz-lhes nitidamente que o
movimento foi mal succedido e aconselha-os a voltar com as forças a
quarteis. As suas responsabilidades, accrescenta, são bem menores do que
as dos officiaes e estes teem que sahir do acampamento por outra fórma.
Um dos sargentos ainda lhe pergunta com as lagrimas nos olhos:
--Então, está tudo perdido?
[Ilustração: Proclamação da Republica e do governo provisorio na Camara
Municipal de Lisboa em 5 de outubro de 1910]
--Está, responde o capitão Sá Cardoso.
E afasta-se, dominado pela mesma commoção. N'esse instante supremo, em
que o desanimo dos officiaes combatentes podia ter conduzido
irremediavelmenteao insuccesso da tentativa revolucionaria, os civis dão
mostras de persistencia e fé inquebrantavel. Um dos populares
approxima-se d'um dos militares, que mais desalentado se mostra e
diz-lhe brutal, mas justamente:
--Quem quer chorar, vae para casa!... Mas não esteja aqui a enfraquecer
a coragem dos outros.
O capitão Sá Cardoso e o tenente José Ricardo Cabral vestem-se á paisana
e mettem-se n'um automovel. «Então, conta o primeiro d'esses officiaes,
Machado Santos acerca-se de nós, a querer convencer-nos a que fiquemos,
emquanto nós tentamos convencel-o a que nos acompanhe, para evitar uma
chacina. Elle, cheio de enthusiasmo, de bemdita loucura, teima em ficar
e nós partimos tristemente, convencidos de que, dentro em pouco, a
Rotunda será um horroroso mar de sangue».
A cidade, no emtanto, apesar de ter acordado na manhã do dia 4 de
outubro com a Revolução em plena actividade, conserva um aspecto
relativamente calmo, que é digno de registo. O tiroteio, que desde as
duas da madrugada se faz sentir aqui e ali, produz naturalmente uma
certa commoção e contribue para augmentar a anciedade do momento. Mas a
maioria dos habitantes continua a fazer a vida do costume, apenas
entrecortada pelos muitos boatos que circulam, pelas noticias, umas
falsas, outras verdadeiras, que lançam a confusão no ambiente. Ás 9 da
manhã, excepção feita das casas em cujas proximidades a lucta é accesa,
nas outras o ecco do movimento é fraco. Apparecem á hora habitual o
padeiro, o leiteiro, o homem do talho; a carroça do lixo arrasta-se
vagarosamente e recolhe os caixotes collocados ás portas; pelas janellas
ha cabeças curiosas que interrogam, surprehendidas, o azul do ceu.
Os grupos de revolucionarios, que horas antes não conseguiram executar o
programma da insurreição e se dissolveram mal a luz do sol illuminou o
quadro, tendem a reconstituir-se, cautelosa e prudentemente. Ha uma
falta sensivel de armamento; e, sobretudo, nota-se extraordinaria
difficuldade de communicações. A Rotunda fica no coração da cidade. O
quartel de marinheiros tambem não é muito distante. E no emtanto, pouca
gente sabe de verdade o que se passa n'uma e n'outro e sobre esses dois
fócos de rebeldia correm as mais desencontradas versões. Assim,
affirma-se que na Rotunda o capitão Palla commanda a artilharia e
elogia-se a precisão da sua pontaria. No quartel dos marinheiros,
accrescenta-se, está o almirante Candido dos Reis, e é elle quem dirige,
em chefe supremo da marinha revoltada, o ataque ás forças monarchicas
que rodeiam o palacio das Necessidades. Puro engano... Á hora a que
circulam taes boatos já Candido dos Reis cahiu morto na Azinhaga das
Freiras e o capitão Palla abandonou o acampamento da Avenida.
Entretanto, Machado Santos, apoz o abandono da Rotunda pelos outros
officiaes, convoca um conselho de sargentos de artilharia 1 e
pergunta-lhes se acceitam o seu commando.
--Estou decidido, diz elle, a não abandonar esta posição, custe o que
custar!...
Os sargentos respondem-lhe que morrerão combatendo até o ultimo momento
pela Republica. Machado Santos pede então um cavallo, monta e desde esse
instante é elle o unico dirigente dos revolucionarios concentrados no
alto da Avenida.
O sol doura o rio, onde se vêem passar, como a medo, pequenos barcos.
Para os lados do Rocio sente-se um movimento de tropas: fileiras de
soldados guarnecem a entrada da praça dos Restauradores. Machado Santos
dispõe as peças de artilharia, tomando as embocaduras do Rato, avenida
Fontes Pereira de Mello e avenida da Liberdade e colloca-as tambem no
parque Eduardo VII para defender o acampamento pelo lado norte.
Ao meio dia, n'um momento de treguas, os populares arranjam os
entrincheiramentos, que Machado Santos, elle proprio, considera
_platonicos_, mas que dão ás forças revoltosas a illusão perfeita d'um
forte abrigo contra as investidas dos monarchicos.
Na Rotunda já estão a essa hora uns quatrocentos homens, exhibindo
variado armamento. Estabelecem-se vedetas. A guarda das côrtes,
commandada por um sargento de infantaria 16, vem juntar-se aos
revoltosos. Apparecem outros destacamentos e praças isoladas que fugiram
dos respectivos corpos. Os viveres acodem em abundancia. Grupos de civis
vão de vez em quando ao Matadouro apprehender a carne ali abatida...
para que se não diga que a camara municipal a fornece de bom grado aos
revoltosos e é... seu cumplice.
A dispersão do quartel general revolucionario que, na madrugada de 4, se
installara no estabelecimento de banhos de S. Paulo, effectuara-se,
entretanto, por uma forma desanimadora. João Chagas e outros elementos
de organisação tinham abalado para os lados do Rocio e até que a manhã
clara lhes desse um vago indicio da situação, foram pousando aqui e ali,
hesitantes, indecisos, repugnando-lhes acreditar na derrota completa,
mas desalentados ao mesmo passo pela falta de noticias seguras, com a
ausencia de factos dos quaes dependia uma tal ou qual esperança de
victoria.
Primeiro estiveram n'uma casa da rua dos Correeiros, deposito d'aguas
mineraes; depois voltaram ao terceiro andar da rua da Esperança,
residencia da mãe de Innocencio Camacho e durante uma boa parte do dia 4
tentaram inutilmente approximar-se do acampamento da Rotunda. Ao cahir
da tarde, porém, João Chagas conseguiu passar do Rocio para a avenida
Fontes Pereira de Mello, ir a casa e a seguir áquelle fóco de
intensissima rebeldia. Mas o trajecto fel-o dominado pela ideia de que,
se os serventuarios da monarchia o reconhecessem, o victimariam sem
complacencia. Uma vez nas garras da municipal ou da policia, João Chagas
pagaria com a vida a sua temeridade. Tinha bem presente no espirito a
intranquilidade do sr. Malaquias de Lemos quando antes do 28 de janeiro
o trouxera encerrado no quartel dos Paulistas, e futurava logicamente
que, se o prendessem durante a revolta, lhe dariam destino egual ao de
tres desgraçados que no dia 5 appareceram fusilados n'outro quartel da
guarda pretoriana. Antes morrer do estilhaço d'uma granada que succumbir
a dentro d'umas grades de ferro, sem lucta, inerme, manietado por
algozes...
[Ilustração: João de Menezes]
Outros dos dirigentes revolucionarios percorreram na madrugada de 4 as
redacções dos jornaes, procurando anciosamente informar-se dos
acontecimentos. Outros ainda, como José Barbosa, Celestino Steffanina e
o engenheiro Antonio Maria da Silva, installaram-se no escriptorio do
primeiro á hora em que já havia correrias da municipal pelo Calhariz e o
Loreto e os soldados disparavam tiros para o ar, não tardando a occupar
as embocaduras das ruas, porque os grupos de civis os ameaçavam com
bombas. José Barbosa conta d'este modo essas horas de tragica anciedade:
«A madrugada ia rompendo e continuavamos sem saber positivamente o que
estava succedendo na cidade. Eu conservava em meu poder os papeis com os
nomes das pessoas que deviam constituir o governo provisorio e varias
indicações a cumprir logo que a Republica fosse proclamada. Relemol-os
até os fixarmos na memoria e preparámo-nos para os inutilisar logo que a
policia invadisse a casa. A anciedade era enorme. De positivo sabiamos
apenas que a guarda municipal cercara o telegrapho e não a marinha, como
fôra deliberado ao adoptar-se o plano revolucionario. Na estação do
Terreiro do Paço, todos os empregados que faziam serviço na madrugada de
4 eram republicanos e deviam retardar a transmissão dos telegrammas
officiaes. O engenheiro Silva conseguira, por meio d'umas trocas,
afastar n'esse momento os empregados que não tinham adherido ao
_complot_.
«De manhã, cedo, sahimos á rua a colher noticias. Na rua das Gaveas
encontrámos José da Costa Carneiro, que nos deu informações animadoras.
Mas surgiram outras, contradictorias, e a indecisão era manifesta.
Entrámos depois na pharmacia Durão, onde estacionavam alguns
revolucionarios. Necessitava-se antes de mais nada dar certas ordens,
restabelecer as communicações com os navios e o alto da Avenida,
reorganisar o quartel general. No Hotel Europe estavam José Relvas e
Eusebio Leão. Ambos haviam passado a noite entre os jornaes republicanos
e o consultorio do segundo. Fui ter com elles ao hotel e, depois de
almoçarmos, Relvas e eu fomos para a rua e mais tarde, na _Lucta_,
começámos a tomar as providencias que os factos impunham. Brito Camacho
procurava instantemente canalisar os elementos dispersos, impedir a
derrota e com uma calma que pouca gente, de certo, lhe conhece, com uma
coragem serena, imperturbavel, resolvia os problemas que de momento se
nos apresentavam.
«Em certa altura, discutimos o caso da morte de Candido dos Reis e
accordámos em mentir, affirmando que o vice-almirante vivia, para evitar
que o desanimo invadisse os elementos revolucionarios. Tratou-se da
interrupção das linhas ferreas e telegraphicas e de prevenir a hypothese
do governo monarchico receber qualquer auxilio da provincia, onde,
diga-se de passagem, a Carbonaria contava uma vasta rêde de ligações.
Silvestre Coelho, por indicação nossa, foi a Sacavem assegurar-se de que
a artilharia do forte estava disposta a obstar a qualquer avanço sobre
Lisboa de elementos fieis ao antigo regimen. E como em artilharia 3 os
revolucionarios tinham um camarada dedicado na pessoa do capitão
Figueiredo, em caçadores 6 havia dois ou tres officiaes declaradamente
republicanos e infantaria 15 estava por nosso lado, socegámos os mais
receiosos de um ataque vindo de fóra, explicando que as forças da
Revolução o não podiam temer e que tudo marchava para um triumpho
redemptor.
«Mas não limitámos a nossa acção a estas providencias. No Beato, no
Centro João Chagas, tinham-se concentrado 300 homens armados de
espingardas caçadeiras e praças da guarda fiscal. Indicámos-lhes a
conveniencia de descerem até ao Rocio, por um itinerario cuidadosamente
escolhido e se não se realisou esse avanço sobre as forças acampadas
n'aquella praça foi porque se reparou em dado momento que talvez esse
contingente de revolucionarios tivesse de desempenhar outra missão
importante no local da sua concentração. Emfim, ás quatro da tarde de 4,
a impressão era de que os acontecimentos se desenrolavam muito mais
favoravelmente para a Republica. Continuámos, no emtanto, a providenciar
no sentido de não se perder, com uma imprudencia ou um gesto de
desalento, o que até então fora feito á custa de muita dedicação. Jayme
Teixeira incumbiu-se de levar ao quartel de marinheiros uma communicação
tranquilisadora e outra communicação analoga foi enviada a Machado
Santos. N'uma e n'outra repetiamos que os revolucionarios estivessem
socegados porque não viria de fóra de Lisboa auxilio á monarchia. A
Machado Santos tambem o preveniamos da imminencia do ataque effectuado
pelas baterias de Queluz.»
No emtanto, Innocencio Camacho fôra a bordo dos navios insurreccionados
dar-lhes indicações seguras sobre o que se estava passando em terra.
Affonso Costa e Antonio José d'Almeida, depois de terem errado pelo
Hotel Central, a casa do dr. Augusto de Vasconcellos e outro ponto da
cidade, tinham ido parar a Algés, onde, a bem dizer, mal chegavam os
echos do tiroteio.
CAPITULO XIX
O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio
Tem-se dito por vezes, embora com todas as cautelas possiveis, que o
elemento popular _falhou_ na Revolução de 4 e 5 de outubro. E cita-se,
em abono d'esta asserção: 1.º o facto de não terem comparecido, na
madrugada de 5, no local previamente designado, os civis que deviam
acompanhar o almirante Candido dos Reis e outros officiaes a bordo dos
navios de guerra; 2.º a circumstancia da guarda municipal ter conseguido
sahir dos quarteis, pouco depois de iniciado o movimento, quando, pelo
plano estabelecido, os grupos de paisanos deviam impedir essa sahida ou,
pelo menos, retardal-a e tirar-lhe, por assim dizer, a utilidade do
momento.
A asserção não é fundada. O elemento popular não _falhou_. A Revolução,
se tinha de ser feita com o povo e com a tropa--o povo abrindo o caminho
á tropa--triumphou exactamente porque as melhores energias populares não
trepidaram no instante supremo. Os civis não compareceram, é certo, no
ponto marcado pelo almirante Candido dos Reis; mas não compareceram, e
isso já é do dominio publico, porque receberam na noite de 3 ordens em
contrario. De resto, a sua acção fez-se sentir efficazmente n'outro
ponto de Lisboa e o assalto aos navios de guerra não dependia
absolutamente da sua presença ao lado do almirante. Para obstar á sahida
da guarda municipal, havia escalonados diversos grupos, constituidos
cada um d'elles por uma duzia de homens, uns armados e outros não. Esses
grupos tinham recebido o encargo mais perigoso na distribuição dos
papeis revolucionarios: o de defrontar em _primeira mão_ a furia do
inimigo. Eram verdadeira _chair á canon_ e deviam iniciar o combate á
hora em que ninguem sabia ainda com precisão quaes os regimentos fieis á
monarchia e quaes os que adheriam á Republica.
[Ilustração: Governo Provisorio da Republica Portugueza]
Esses homens cumpriram o seu dever. Não obstaram completamente á sahida
da municipal, porque receberam na hora propria armamento insufficiente e
o itinerario do inimigo soffreu modificações, mas conservaram-se firmes
no seu posto durante longas horas de espectativa angustiosa, correndo a
todo o instante o risco de se lançarem na lucta antes d'um signal de
esperança e sem saberem se seriam ou não secundados. E uma vez
dispersos, muitos d'elles foram procurar outros sitios de combate, onde
se portaram com inexcedivel coragem e bravura. Falando d'alguns d'esses
homens que foram seus companheiros na primeira noite da revolta, dizia
dias depois do triumpho o dr. Carlos Amaro:
--Deve-se-lhes, principalmente, a força de fé indomavel que foi o
segredo da victoria e não ficar sendo a Revolução uma obra exclusiva do
heroismo militar.
E com effeito. Os civis estiveram na Rotunda ao lado de Machado Santos,
dando-lhe uma parcella de auxilio que o heroico revolucionario
certamente não desconhece; estiveram em Alcantara investindo contra as
forças organisadas da monarchia; entrincheiraram-se no quartel de
marinheiros e arrostaram o ataque da guarnição do paço das Necessidades;
foi um grupo de paisanos que denodadamente acompanhou um arrojado
official de marinha, o 2.º tenente Tito de Moraes, a tomar conta d'um
dos navios de guerra; os civis é que assaltaram o _D. Carlos_; na
madrugada de 5, foram ainda os grupos de populares que incommodaram as
forças militares acampadas no Rocio; e por ultimo, os paisanos
distinguiram-se no arriscado serviço de communicações durante esse
periodo de cruel incerteza em que cada passo dado na area da insurreição
correspondia ao sacrificio de tudo, desde o amor da vida ao amor da
familia.
Contou-nos José Barbosa, assim que se dissiparam os fumos do combate: na
madrugada de 4, apoz a dispersão do quartel general revolucionario,
quando elle, desalentado, entrava para o seu escriptorio da rua do
Loreto, viu um grupo de homens agitar-se com as armas na mão, em frente
da guarda municipal que guarnecia a Caixa Geral dos Depositos. Esse
grupo de homens não ignorava, decerto, que o seu acto era requerimento
para uma execução summaria. E comtudo, realisava-o ardorosamente,
enthusiasticamente, desprendendo-se da existencia com um desapego notavel.
Outro caso: Machado Santos estava na Rotunda sem saber o que occorria
nos diversos pontos da cidade. Pensava já em mandar um emissario
dedicadissimo á busca de noticias e não occultava o seu aborrecimento,
provocado pela falta de informações. De repente, apparecem no
acampamento dois rapazes e elucidam os revoltosos sobre a situação.
Esses dois rapazes tinham ido a pé do Dafundo ao Alto da Avenida, e ali
se conservaram, até á proclamação da Republica.
E outros, muitos outros casos poderiamos citar, evidenciando a energia
de que o elemento popular deu provas nos dias 4 e 5 de outubro,
expondo-se ás balas com uma coragem que por vezes roçou a mais
extraordinaria loucura. Na tropa revoltada houve legitimos heroes; mas
os civis não _falharam_ como se apregoa insistentemente. Foram os
obreiros humildes do movimento e só lhes resta, como premio de tanto
esforço e sacrificio, a orgulhosa consolação de terem sido os primeiros
a correr todos os riscos da aventura.
Folheemos agora uma pagina da Revolução, que, por muito discutida, nem
por isso deixa de merecer n'estas narrativas um registo especial.
Referimo-nos á acção do almirante Candido dos Reis nas primeiras horas
do movimento, ao desanimo que o invadiu e á sua morte.
O valente official devia embarcar no Caes do Gaz acompanhado por uns dez
militares agaloados e um grupo de civis. Estes não compareceram no
local. Dos militares compareceram oito: o capitão de fragata Fontes
Pereira de Mello, o tenente de caçadores Helder Ribeiro e os tenentes de
marinha Silva Araujo, Carvalho Araujo, Aragão e Mello, Monteiro
Guimarães, Sousa Junior e Assis Ferreira. O primeiro a chegar foi o
tenente Carvalho Araujo; Candido dos Reis, que, após a reunião da rua da
Esperança, fôra ao Centro de S. Carlos e de lá a casa d'umas pessoas de
familia residentes n'uma rua da Estephania, encontrou-se á meia noite
n'essa casa com o tenente Helder Ribeiro. Depois de breves palavras
sobre o movimento projectado, um e outro trataram de carregar as armas,
dois revolvers, de que estavam munidos.
Falou-se mais tarde, a proposito da morte do almirante, que o ferimento
encontrado na autopsia e a bala alojada dentro do craneo denotavam que
Candido dos Reis se servira para o provavel suicidio d'uma pistola
automatica. O tenente Helder Ribeiro é de opinião que elle não possuia
tal arma. «E--diz o arrojado official--a rasão é simples: quando quiz
carregar o meu revolver pedi-lhe algumas cargas do revolver que elle
tinha na mão. Cedeu-m'as, mas, como não servissem, trocámos ligeiras
impressões sobre a precipitação com que o armamento fôra distribuido aos
revolucionarios. Era natural, portanto, que, se elle tivesse na occasião
outra arma que não esse revolver vulgar, m'a emprestasse para eu não
sahir á rua, como sahi, quasi desarmado».
Pouco depois da meia noite, o almirante Candido dos Reis e o tenente
Helder Ribeiro sahiram da casa da rua da Estephania e encaminharam-se
para o Aterro. Um vapor de pesca devia conduzir os officiaes
revolucionarios a bordo dos navios de guerra. Qual era? Dil-o o 1.º
tenente Carvalho Araujo n'uma entrevista que concedeu a um jornal da manhã:
«Esse vapor era o _Chire_, que eu procurei ao longo da muralha, apenas
ali cheguei. N'esta rapida busca encontrei-me quasi de cara com uns
individuos, gente caracterisadamente de bordo, e eu, julgando tratar-se
de tripulantes do Chire, dirigi-lhes a senha: _Mandou-me procurar?_
Elles, porém, não me responderam o _Passe, cidadão!_ que os devia
denunciar como gente nossa... Aquelle mutismo fez-me recolher
prudentemente, e assim me conservei até que chegaram os meus collegas, a
quem o almirante, em breve, mandou embarcar no _Chire_.
«N'esse vapor chegaram a entrar alguns d'esses officiaes; lembro-me
muito bem: foram o Silva Araujo e o Sousa Junior, que por signal d'ahi a
pouco voltaram, com esta estranha noticia: o _Chire_ tinha as caldeiras
apagadas... Houve um momento de quasi indignação e,--porque não
dizêl-o?--de desanimo... Mas em breve nos refizemos, e, por um excesso
de boa vontade, accordámos em que nos tinhamos enganado no nome do
vapor--e n'este numero estava Candido dos Reis, que no emtanto se
mostrou visivelmente contrariado... Embora! Nem assim se esmoreceu. E,
um pouco ao acaso, fomos caminhando para o _Dinorah_, na esperança de
que fosse aquelle o vapor que nos esperava. Recordo-me de que quem
entrou ali foram Candido dos Reis, Monteiro Guimarães e eu...
«--Um momento--interrompeu o jornalista entrevistador--Isso realisou-se,
é claro, depois do assalto?...
«--Do assalto? Mas se não houve assalto nenhum...
«--Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco
fazia a descripção geral d'essa jornada...
«--Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em
contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Nós
entrámos no _Dinorah_ sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o
passo...
«--E uma vez lá dentro...
«--Mal punhamos pé no navio, um homem da tripulação veiu ter comnosco e,
sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via não
ser a de um iniciado, diz-nos: saberão vv. ss.as que o vapor não está
navegavel...» O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro
que descesse á casa das caldeiras a certificar-se...
«--E era certo?