Referido este episodio, que não merecia relevo especial se o 1.º tenente

Sepulveda não tivesse, á ultima hora, assumido uma attitude de strenuo

paladino da monarchia e o seu nome não houvesse sido citado a proposito

da morte do almirante Candido dos Reis, prosigamos na narrativa do que

occorreu na Rotunda, ao alvorecer do dia 4.

Assim que rompeu a manhã, Machado Santos, muito embora as noticias

recebidas no acampamento fossem em extremo desanimadoras, desenvolveu

uma energia sem limites, vigiando tudo, tratando de tudo, sempre

incançavel e inattingivel pelo desalento. Ao contrario do heroico

official, os outros militares agaloados sentiam-se a pouco e pouco

invadidos pelo receio contagioso de que o movimento liquidasse n'um _31

de janeiro_ de peores e mais funestas consequencias.

Um alviçareiro dos muitos que irrompem no acampamento, anonymos alguns,

sobejamente conhecidos outros, affirma sem hesitações que _está tudo

perdido_. Lanceiros 2, infantaria 1 e a guarda municipal, que segundo o

plano revolucionario, não deviam ter sahido dos quarteis sem soffrerem

um ataque rude dos grupos de populares armados, andam pelas ruas de

Lisboa sem que ninguem os incommode e preparam-se, de certo, para

investir com os revoltosos acampados na Rotunda. A marinha não

desembarcou nem tomou conta dos telegraphos; e ha quem diga que acabou

de pôr um _ultimatum_: ou as forças de terra se rendem, ou ella

bombardeia a cidade e mette os navios no fundo. Outro alviçareiro, que

parece dar um recado de encommenda, confirma tudo isso e aconselha os

officiaes a não prolongarem a resistencia; de contrario, accrescenta, a

repressão será terrivel. Por ultimo, até a figura prestigiosa d'um

antigo combatente pelo ideal republicano manifesta opinião identica e

abandona o acampamento, onde momentos antes se mostrara corajoso e

enthusiasta.

O medo é contagioso, dizemos acima, e não ha duvida: esse contagio ganha

progressivamente os mais animosos e d'ahi a alguns minutos o capitão Sá

Cardoso convoca o conselho de officiaes e expõe-lhe a situação, tal como

elle a julga apprehender:

--Contra nós, cêrca de 3:000 homens, com as baterias a cavallo; a nossa

posição da Rotunda dominada pelas alturas como o Thorel, Graça, Penha,

S. Pedro d'Alcantara, etc. O inimigo tem quinze metralhadoras. Estamos

na imminencia d'um ataque simultaneo por todas as ruas e por todas as

alturas.

Todo o conselho--é o proprio capitão Sá Cardoso que o affirma--a começar

pelo official mais moderno, manifesta o parecer de que a situação é

desesperada e que a lucta provocará uma carnificina horrorosa. Todos os

officiaes estão desanimados. O capitão Sá Cardoso, terminada a reunião,

chama alguns sargentos de artilharia, diz-lhes nitidamente que o

movimento foi mal succedido e aconselha-os a voltar com as forças a

quarteis. As suas responsabilidades, accrescenta, são bem menores do que

as dos officiaes e estes teem que sahir do acampamento por outra fórma.

Um dos sargentos ainda lhe pergunta com as lagrimas nos olhos:

--Então, está tudo perdido?

[Ilustração: Proclamação da Republica e do governo provisorio na Camara

Municipal de Lisboa em 5 de outubro de 1910]

--Está, responde o capitão Sá Cardoso.

E afasta-se, dominado pela mesma commoção. N'esse instante supremo, em

que o desanimo dos officiaes combatentes podia ter conduzido

irremediavelmenteao insuccesso da tentativa revolucionaria, os civis dão

mostras de persistencia e fé inquebrantavel. Um dos populares

approxima-se d'um dos militares, que mais desalentado se mostra e

diz-lhe brutal, mas justamente:

--Quem quer chorar, vae para casa!... Mas não esteja aqui a enfraquecer

a coragem dos outros.

O capitão Sá Cardoso e o tenente José Ricardo Cabral vestem-se á paisana

e mettem-se n'um automovel. «Então, conta o primeiro d'esses officiaes,

Machado Santos acerca-se de nós, a querer convencer-nos a que fiquemos,

emquanto nós tentamos convencel-o a que nos acompanhe, para evitar uma

chacina. Elle, cheio de enthusiasmo, de bemdita loucura, teima em ficar

e nós partimos tristemente, convencidos de que, dentro em pouco, a

Rotunda será um horroroso mar de sangue».

A cidade, no emtanto, apesar de ter acordado na manhã do dia 4 de

outubro com a Revolução em plena actividade, conserva um aspecto

relativamente calmo, que é digno de registo. O tiroteio, que desde as

duas da madrugada se faz sentir aqui e ali, produz naturalmente uma

certa commoção e contribue para augmentar a anciedade do momento. Mas a

maioria dos habitantes continua a fazer a vida do costume, apenas

entrecortada pelos muitos boatos que circulam, pelas noticias, umas

falsas, outras verdadeiras, que lançam a confusão no ambiente. Ás 9 da

manhã, excepção feita das casas em cujas proximidades a lucta é accesa,

nas outras o ecco do movimento é fraco. Apparecem á hora habitual o

padeiro, o leiteiro, o homem do talho; a carroça do lixo arrasta-se

vagarosamente e recolhe os caixotes collocados ás portas; pelas janellas

ha cabeças curiosas que interrogam, surprehendidas, o azul do ceu.

Os grupos de revolucionarios, que horas antes não conseguiram executar o

programma da insurreição e se dissolveram mal a luz do sol illuminou o

quadro, tendem a reconstituir-se, cautelosa e prudentemente. Ha uma

falta sensivel de armamento; e, sobretudo, nota-se extraordinaria

difficuldade de communicações. A Rotunda fica no coração da cidade. O

quartel de marinheiros tambem não é muito distante. E no emtanto, pouca

gente sabe de verdade o que se passa n'uma e n'outro e sobre esses dois

fócos de rebeldia correm as mais desencontradas versões. Assim,

affirma-se que na Rotunda o capitão Palla commanda a artilharia e

elogia-se a precisão da sua pontaria. No quartel dos marinheiros,

accrescenta-se, está o almirante Candido dos Reis, e é elle quem dirige,

em chefe supremo da marinha revoltada, o ataque ás forças monarchicas

que rodeiam o palacio das Necessidades. Puro engano... Á hora a que

circulam taes boatos já Candido dos Reis cahiu morto na Azinhaga das

Freiras e o capitão Palla abandonou o acampamento da Avenida.

Entretanto, Machado Santos, apoz o abandono da Rotunda pelos outros

officiaes, convoca um conselho de sargentos de artilharia 1 e

pergunta-lhes se acceitam o seu commando.

--Estou decidido, diz elle, a não abandonar esta posição, custe o que

custar!...

Os sargentos respondem-lhe que morrerão combatendo até o ultimo momento

pela Republica. Machado Santos pede então um cavallo, monta e desde esse

instante é elle o unico dirigente dos revolucionarios concentrados no

alto da Avenida.

O sol doura o rio, onde se vêem passar, como a medo, pequenos barcos.

Para os lados do Rocio sente-se um movimento de tropas: fileiras de

soldados guarnecem a entrada da praça dos Restauradores. Machado Santos

dispõe as peças de artilharia, tomando as embocaduras do Rato, avenida

Fontes Pereira de Mello e avenida da Liberdade e colloca-as tambem no

parque Eduardo VII para defender o acampamento pelo lado norte.

Ao meio dia, n'um momento de treguas, os populares arranjam os

entrincheiramentos, que Machado Santos, elle proprio, considera

_platonicos_, mas que dão ás forças revoltosas a illusão perfeita d'um

forte abrigo contra as investidas dos monarchicos.

Na Rotunda já estão a essa hora uns quatrocentos homens, exhibindo

variado armamento. Estabelecem-se vedetas. A guarda das côrtes,

commandada por um sargento de infantaria 16, vem juntar-se aos

revoltosos. Apparecem outros destacamentos e praças isoladas que fugiram

dos respectivos corpos. Os viveres acodem em abundancia. Grupos de civis

vão de vez em quando ao Matadouro apprehender a carne ali abatida...

para que se não diga que a camara municipal a fornece de bom grado aos

revoltosos e é... seu cumplice.

A dispersão do quartel general revolucionario que, na madrugada de 4, se

installara no estabelecimento de banhos de S. Paulo, effectuara-se,

entretanto, por uma forma desanimadora. João Chagas e outros elementos

de organisação tinham abalado para os lados do Rocio e até que a manhã

clara lhes desse um vago indicio da situação, foram pousando aqui e ali,

hesitantes, indecisos, repugnando-lhes acreditar na derrota completa,

mas desalentados ao mesmo passo pela falta de noticias seguras, com a

ausencia de factos dos quaes dependia uma tal ou qual esperança de

victoria.

Primeiro estiveram n'uma casa da rua dos Correeiros, deposito d'aguas

mineraes; depois voltaram ao terceiro andar da rua da Esperança,

residencia da mãe de Innocencio Camacho e durante uma boa parte do dia 4

tentaram inutilmente approximar-se do acampamento da Rotunda. Ao cahir

da tarde, porém, João Chagas conseguiu passar do Rocio para a avenida

Fontes Pereira de Mello, ir a casa e a seguir áquelle fóco de

intensissima rebeldia. Mas o trajecto fel-o dominado pela ideia de que,

se os serventuarios da monarchia o reconhecessem, o victimariam sem

complacencia. Uma vez nas garras da municipal ou da policia, João Chagas

pagaria com a vida a sua temeridade. Tinha bem presente no espirito a

intranquilidade do sr. Malaquias de Lemos quando antes do 28 de janeiro

o trouxera encerrado no quartel dos Paulistas, e futurava logicamente

que, se o prendessem durante a revolta, lhe dariam destino egual ao de

tres desgraçados que no dia 5 appareceram fusilados n'outro quartel da

guarda pretoriana. Antes morrer do estilhaço d'uma granada que succumbir

a dentro d'umas grades de ferro, sem lucta, inerme, manietado por

algozes...

[Ilustração: João de Menezes]

Outros dos dirigentes revolucionarios percorreram na madrugada de 4 as

redacções dos jornaes, procurando anciosamente informar-se dos

acontecimentos. Outros ainda, como José Barbosa, Celestino Steffanina e

o engenheiro Antonio Maria da Silva, installaram-se no escriptorio do

primeiro á hora em que já havia correrias da municipal pelo Calhariz e o

Loreto e os soldados disparavam tiros para o ar, não tardando a occupar

as embocaduras das ruas, porque os grupos de civis os ameaçavam com

bombas. José Barbosa conta d'este modo essas horas de tragica anciedade:

«A madrugada ia rompendo e continuavamos sem saber positivamente o que

estava succedendo na cidade. Eu conservava em meu poder os papeis com os

nomes das pessoas que deviam constituir o governo provisorio e varias

indicações a cumprir logo que a Republica fosse proclamada. Relemol-os

até os fixarmos na memoria e preparámo-nos para os inutilisar logo que a

policia invadisse a casa. A anciedade era enorme. De positivo sabiamos

apenas que a guarda municipal cercara o telegrapho e não a marinha, como

fôra deliberado ao adoptar-se o plano revolucionario. Na estação do

Terreiro do Paço, todos os empregados que faziam serviço na madrugada de

4 eram republicanos e deviam retardar a transmissão dos telegrammas

officiaes. O engenheiro Silva conseguira, por meio d'umas trocas,

afastar n'esse momento os empregados que não tinham adherido ao

_complot_.

«De manhã, cedo, sahimos á rua a colher noticias. Na rua das Gaveas

encontrámos José da Costa Carneiro, que nos deu informações animadoras.

Mas surgiram outras, contradictorias, e a indecisão era manifesta.

Entrámos depois na pharmacia Durão, onde estacionavam alguns

revolucionarios. Necessitava-se antes de mais nada dar certas ordens,

restabelecer as communicações com os navios e o alto da Avenida,

reorganisar o quartel general. No Hotel Europe estavam José Relvas e

Eusebio Leão. Ambos haviam passado a noite entre os jornaes republicanos

e o consultorio do segundo. Fui ter com elles ao hotel e, depois de

almoçarmos, Relvas e eu fomos para a rua e mais tarde, na _Lucta_,

começámos a tomar as providencias que os factos impunham. Brito Camacho

procurava instantemente canalisar os elementos dispersos, impedir a

derrota e com uma calma que pouca gente, de certo, lhe conhece, com uma

coragem serena, imperturbavel, resolvia os problemas que de momento se

nos apresentavam.

«Em certa altura, discutimos o caso da morte de Candido dos Reis e

accordámos em mentir, affirmando que o vice-almirante vivia, para evitar

que o desanimo invadisse os elementos revolucionarios. Tratou-se da

interrupção das linhas ferreas e telegraphicas e de prevenir a hypothese

do governo monarchico receber qualquer auxilio da provincia, onde,

diga-se de passagem, a Carbonaria contava uma vasta rêde de ligações.

Silvestre Coelho, por indicação nossa, foi a Sacavem assegurar-se de que

a artilharia do forte estava disposta a obstar a qualquer avanço sobre

Lisboa de elementos fieis ao antigo regimen. E como em artilharia 3 os

revolucionarios tinham um camarada dedicado na pessoa do capitão

Figueiredo, em caçadores 6 havia dois ou tres officiaes declaradamente

republicanos e infantaria 15 estava por nosso lado, socegámos os mais

receiosos de um ataque vindo de fóra, explicando que as forças da

Revolução o não podiam temer e que tudo marchava para um triumpho

redemptor.

«Mas não limitámos a nossa acção a estas providencias. No Beato, no

Centro João Chagas, tinham-se concentrado 300 homens armados de

espingardas caçadeiras e praças da guarda fiscal. Indicámos-lhes a

conveniencia de descerem até ao Rocio, por um itinerario cuidadosamente

escolhido e se não se realisou esse avanço sobre as forças acampadas

n'aquella praça foi porque se reparou em dado momento que talvez esse

contingente de revolucionarios tivesse de desempenhar outra missão

importante no local da sua concentração. Emfim, ás quatro da tarde de 4,

a impressão era de que os acontecimentos se desenrolavam muito mais

favoravelmente para a Republica. Continuámos, no emtanto, a providenciar

no sentido de não se perder, com uma imprudencia ou um gesto de

desalento, o que até então fora feito á custa de muita dedicação. Jayme

Teixeira incumbiu-se de levar ao quartel de marinheiros uma communicação

tranquilisadora e outra communicação analoga foi enviada a Machado

Santos. N'uma e n'outra repetiamos que os revolucionarios estivessem

socegados porque não viria de fóra de Lisboa auxilio á monarchia. A

Machado Santos tambem o preveniamos da imminencia do ataque effectuado

pelas baterias de Queluz.»

No emtanto, Innocencio Camacho fôra a bordo dos navios insurreccionados

dar-lhes indicações seguras sobre o que se estava passando em terra.

Affonso Costa e Antonio José d'Almeida, depois de terem errado pelo

Hotel Central, a casa do dr. Augusto de Vasconcellos e outro ponto da

cidade, tinham ido parar a Algés, onde, a bem dizer, mal chegavam os

echos do tiroteio.

CAPITULO XIX

O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio

Tem-se dito por vezes, embora com todas as cautelas possiveis, que o

elemento popular _falhou_ na Revolução de 4 e 5 de outubro. E cita-se,

em abono d'esta asserção: 1.º o facto de não terem comparecido, na

madrugada de 5, no local previamente designado, os civis que deviam

acompanhar o almirante Candido dos Reis e outros officiaes a bordo dos

navios de guerra; 2.º a circumstancia da guarda municipal ter conseguido

sahir dos quarteis, pouco depois de iniciado o movimento, quando, pelo

plano estabelecido, os grupos de paisanos deviam impedir essa sahida ou,

pelo menos, retardal-a e tirar-lhe, por assim dizer, a utilidade do

momento.

A asserção não é fundada. O elemento popular não _falhou_. A Revolução,

se tinha de ser feita com o povo e com a tropa--o povo abrindo o caminho

á tropa--triumphou exactamente porque as melhores energias populares não

trepidaram no instante supremo. Os civis não compareceram, é certo, no

ponto marcado pelo almirante Candido dos Reis; mas não compareceram, e

isso já é do dominio publico, porque receberam na noite de 3 ordens em

contrario. De resto, a sua acção fez-se sentir efficazmente n'outro

ponto de Lisboa e o assalto aos navios de guerra não dependia

absolutamente da sua presença ao lado do almirante. Para obstar á sahida

da guarda municipal, havia escalonados diversos grupos, constituidos

cada um d'elles por uma duzia de homens, uns armados e outros não. Esses

grupos tinham recebido o encargo mais perigoso na distribuição dos

papeis revolucionarios: o de defrontar em _primeira mão_ a furia do

inimigo. Eram verdadeira _chair á canon_ e deviam iniciar o combate á

hora em que ninguem sabia ainda com precisão quaes os regimentos fieis á

monarchia e quaes os que adheriam á Republica.

[Ilustração: Governo Provisorio da Republica Portugueza]

Esses homens cumpriram o seu dever. Não obstaram completamente á sahida

da municipal, porque receberam na hora propria armamento insufficiente e

o itinerario do inimigo soffreu modificações, mas conservaram-se firmes

no seu posto durante longas horas de espectativa angustiosa, correndo a

todo o instante o risco de se lançarem na lucta antes d'um signal de

esperança e sem saberem se seriam ou não secundados. E uma vez

dispersos, muitos d'elles foram procurar outros sitios de combate, onde

se portaram com inexcedivel coragem e bravura. Falando d'alguns d'esses

homens que foram seus companheiros na primeira noite da revolta, dizia

dias depois do triumpho o dr. Carlos Amaro:

--Deve-se-lhes, principalmente, a força de fé indomavel que foi o

segredo da victoria e não ficar sendo a Revolução uma obra exclusiva do

heroismo militar.

E com effeito. Os civis estiveram na Rotunda ao lado de Machado Santos,

dando-lhe uma parcella de auxilio que o heroico revolucionario

certamente não desconhece; estiveram em Alcantara investindo contra as

forças organisadas da monarchia; entrincheiraram-se no quartel de

marinheiros e arrostaram o ataque da guarnição do paço das Necessidades;

foi um grupo de paisanos que denodadamente acompanhou um arrojado

official de marinha, o 2.º tenente Tito de Moraes, a tomar conta d'um

dos navios de guerra; os civis é que assaltaram o _D. Carlos_; na

madrugada de 5, foram ainda os grupos de populares que incommodaram as

forças militares acampadas no Rocio; e por ultimo, os paisanos

distinguiram-se no arriscado serviço de communicações durante esse

periodo de cruel incerteza em que cada passo dado na area da insurreição

correspondia ao sacrificio de tudo, desde o amor da vida ao amor da

familia.

Contou-nos José Barbosa, assim que se dissiparam os fumos do combate: na

madrugada de 4, apoz a dispersão do quartel general revolucionario,

quando elle, desalentado, entrava para o seu escriptorio da rua do

Loreto, viu um grupo de homens agitar-se com as armas na mão, em frente

da guarda municipal que guarnecia a Caixa Geral dos Depositos. Esse

grupo de homens não ignorava, decerto, que o seu acto era requerimento

para uma execução summaria. E comtudo, realisava-o ardorosamente,

enthusiasticamente, desprendendo-se da existencia com um desapego notavel.

Outro caso: Machado Santos estava na Rotunda sem saber o que occorria

nos diversos pontos da cidade. Pensava já em mandar um emissario

dedicadissimo á busca de noticias e não occultava o seu aborrecimento,

provocado pela falta de informações. De repente, apparecem no

acampamento dois rapazes e elucidam os revoltosos sobre a situação.

Esses dois rapazes tinham ido a pé do Dafundo ao Alto da Avenida, e ali

se conservaram, até á proclamação da Republica.

E outros, muitos outros casos poderiamos citar, evidenciando a energia

de que o elemento popular deu provas nos dias 4 e 5 de outubro,

expondo-se ás balas com uma coragem que por vezes roçou a mais

extraordinaria loucura. Na tropa revoltada houve legitimos heroes; mas

os civis não _falharam_ como se apregoa insistentemente. Foram os

obreiros humildes do movimento e só lhes resta, como premio de tanto

esforço e sacrificio, a orgulhosa consolação de terem sido os primeiros

a correr todos os riscos da aventura.

Folheemos agora uma pagina da Revolução, que, por muito discutida, nem

por isso deixa de merecer n'estas narrativas um registo especial.

Referimo-nos á acção do almirante Candido dos Reis nas primeiras horas

do movimento, ao desanimo que o invadiu e á sua morte.

O valente official devia embarcar no Caes do Gaz acompanhado por uns dez

militares agaloados e um grupo de civis. Estes não compareceram no

local. Dos militares compareceram oito: o capitão de fragata Fontes

Pereira de Mello, o tenente de caçadores Helder Ribeiro e os tenentes de

marinha Silva Araujo, Carvalho Araujo, Aragão e Mello, Monteiro

Guimarães, Sousa Junior e Assis Ferreira. O primeiro a chegar foi o

tenente Carvalho Araujo; Candido dos Reis, que, após a reunião da rua da

Esperança, fôra ao Centro de S. Carlos e de lá a casa d'umas pessoas de

familia residentes n'uma rua da Estephania, encontrou-se á meia noite

n'essa casa com o tenente Helder Ribeiro. Depois de breves palavras

sobre o movimento projectado, um e outro trataram de carregar as armas,

dois revolvers, de que estavam munidos.

Falou-se mais tarde, a proposito da morte do almirante, que o ferimento

encontrado na autopsia e a bala alojada dentro do craneo denotavam que

Candido dos Reis se servira para o provavel suicidio d'uma pistola

automatica. O tenente Helder Ribeiro é de opinião que elle não possuia

tal arma. «E--diz o arrojado official--a rasão é simples: quando quiz

carregar o meu revolver pedi-lhe algumas cargas do revolver que elle

tinha na mão. Cedeu-m'as, mas, como não servissem, trocámos ligeiras

impressões sobre a precipitação com que o armamento fôra distribuido aos

revolucionarios. Era natural, portanto, que, se elle tivesse na occasião

outra arma que não esse revolver vulgar, m'a emprestasse para eu não

sahir á rua, como sahi, quasi desarmado».

Pouco depois da meia noite, o almirante Candido dos Reis e o tenente

Helder Ribeiro sahiram da casa da rua da Estephania e encaminharam-se

para o Aterro. Um vapor de pesca devia conduzir os officiaes

revolucionarios a bordo dos navios de guerra. Qual era? Dil-o o 1.º

tenente Carvalho Araujo n'uma entrevista que concedeu a um jornal da manhã:

«Esse vapor era o _Chire_, que eu procurei ao longo da muralha, apenas

ali cheguei. N'esta rapida busca encontrei-me quasi de cara com uns

individuos, gente caracterisadamente de bordo, e eu, julgando tratar-se

de tripulantes do Chire, dirigi-lhes a senha: _Mandou-me procurar?_

Elles, porém, não me responderam o _Passe, cidadão!_ que os devia

denunciar como gente nossa... Aquelle mutismo fez-me recolher

prudentemente, e assim me conservei até que chegaram os meus collegas, a

quem o almirante, em breve, mandou embarcar no _Chire_.

«N'esse vapor chegaram a entrar alguns d'esses officiaes; lembro-me

muito bem: foram o Silva Araujo e o Sousa Junior, que por signal d'ahi a

pouco voltaram, com esta estranha noticia: o _Chire_ tinha as caldeiras

apagadas... Houve um momento de quasi indignação e,--porque não

dizêl-o?--de desanimo... Mas em breve nos refizemos, e, por um excesso

de boa vontade, accordámos em que nos tinhamos enganado no nome do

vapor--e n'este numero estava Candido dos Reis, que no emtanto se

mostrou visivelmente contrariado... Embora! Nem assim se esmoreceu. E,

um pouco ao acaso, fomos caminhando para o _Dinorah_, na esperança de

que fosse aquelle o vapor que nos esperava. Recordo-me de que quem

entrou ali foram Candido dos Reis, Monteiro Guimarães e eu...

«--Um momento--interrompeu o jornalista entrevistador--Isso realisou-se,

é claro, depois do assalto?...

«--Do assalto? Mas se não houve assalto nenhum...

«--Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco

fazia a descripção geral d'essa jornada...

«--Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em

contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Nós

entrámos no _Dinorah_ sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o

passo...

«--E uma vez lá dentro...

«--Mal punhamos pé no navio, um homem da tripulação veiu ter comnosco e,

sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via não

ser a de um iniciado, diz-nos: saberão vv. ss.as que o vapor não está

navegavel...» O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro

que descesse á casa das caldeiras a certificar-se...

«--E era certo?

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 10 / 14 段