[Ilustração: João Chagas]

O automovel poz-se de novo em andamento e foi direito ao largo do

Calvario. O regimento de infantaria 1 avançava sobre Alcantara dividido

em duas porções. «Os soldados,--disse-nos João Chagas recordando os

episodios d'essa madrugada de perfeita desillusão--davam mostras d'um

cançaço extremo. Vinham derreados, sem ordem na marcha, moviam-se

somnolentamente como se a noticia da revolta lhes tolhesse a vontade.

Tinham o aspecto d'um corpo já derrotado, desfeito, por longos minutos

de ataque renhido».

Do largo do Calvario, o automovel foi á Praça d'Armas. «Suppunha--é

ainda João Chagas que o diz--ir encontrar n'essa altura a reproducção

d'uma d'essas revoluções francezas em que um bairro inteiro, iniciando o

movimento, dava abrigo aos elementos insurreccionados. Calculava que

n'esse reducto nos defenderiamos então até a ultima, depois de bem

barricados contra os ataques do inimigo monarchico. Mas não...

Alcantara, o bairro que eu sonhara para esse papel historico, parecia

dormir serenamente, confiadamente, como se não suspeitasse da imminencia

d'uma grave agitação».

Na Praça d'Armas, estacionava outro grupo de populares. João Chagas

formulou a eterna pergunta:

--Que ha?

A resposta foi desanimadora:

--Nada... absolutamente nada. No quartel dos marinheiros houve qualquer

coisa, mas agora está tudo em socego...

Era de desesperar. O socego do quartel dos marinheiros, após _qualquer

coisa_ de anormal, significava claramente que a revolta no edificio fôra

promptamente suffocada. Não havia que insistir. O movimento falhara e

quasi sem resistencia, sem um impulso de heroismo que o dignificasse na

agonia. O silencio no local dizia-o melhor que quaesquer outros

depoimentos. A menor tentativa de reacção, a produzir-se, teria sido

assignalada no momento pelo estalar de uma bomba, pela percursão d'um

gatilho, por um grito de triumpho ou de raiva...

O automovel rodou para o balneario de S. Paulo, a confirmar o insucesso

do _complot_.

João Chagas mandou parar o vehiculo a certa distancia do edificio para

não despertar suspeitas, mas, antes de entrar, foi abordado por um amigo

que o aconselhou a retirar-se, affirmando que a policia cercava o

balneario.

--E os outros?--inquiriu João Chagas, alludindo aos restantes

revolucionarios que tinham ficado no quartel general.

--Os outros sahiram por uma porta das trazeiras... A policia não os

apanhou.

Perfeita _debacle_. O quartel general dissolvia-se inoportunamente,

desaggregando-se de modo a difficultar qualquer acção de conjuncto.

D'ahi por deante não se podia pensar rasoavelmente em estabelecer

communicações entre os diversos agrupamentos compromettidos na revolta.

A acção individual teria que substituir-se á acção collectiva dos

organisadores do movimento.

Afinal, o desanimo, essa dispersão dos elementos dirigentes da revolta,

não tinham verdadeiramente rasão de existir. Á mesma hora em que o

Directorio do partido republicano, o _comité_ executivo de Lisboa e

outros companheiros de lucta andavam perfeitamente ás cegas pelas ruas

da cidade, pousando aqui e ali, indagando anciosamente o que havia,

conjecturando para d'ahi a pouco uma terrivel repressão monarchica--um

nucleo de populares, fardados e não fardados, arvorava destemidamente a

bandeira vermelha e verde e caminhava para o triumpho n'uma marcha

desordenada, é certo, mas com a mais intensa fé, a fé que só por si

basta na maioria dos casos a garantir o exito e a victoria. Á mesma hora

tambem Alcantara, o bairro de gloriosas tradições revolucionarias que a

João Chagas parecera momentos antes alheiado do movimento, inerme ou

somnolento, derrotava um regimento inteiro de cavallaria e continha em

respeito um outro de infantaria; e d'uma loja da rua do Livramento

sahia, disciplinado e forte, um grupo de officiaes de marinha e de

carbonarios, a iniciar sem hesitações nem precipitações um dos feitos

mais brilhantes do ataque á monarchia.

CAPITULO XVII

Uma parte das forças revolucionarias installa-se na Rotunda

Já dissemos que o primeiro regimento a insurrecionar-se na madrugada de

4 de outubro foi o de infantaria 16, exactamente aquelle que menos

confiança inspirava aos organisadores da revolta. Esse episodio inicial

do movimento merece que o pormenorisemos.

Ás 9 horas da noite, logo que no quartel de Campo d'Ourique soou o toque

do silencio, os soldados que sabiam do _complot_ metteram-se na cama

vestidos e equipados, fingindo que dormiam a somno solto para não

despertar a attenção dos camaradas. Entretanto o cabo Correia e um

soldado mais animoso invadiam as arrecadações das companhias, tiravam

d'ali todo o armamento a que poderam lançar mão e conduziam-no para as

casernas--levando a cabo essa tarefa com grandes precauções e riscos

quasi irremoviveis.

Em certa altura, quando o cabo Correia estava fechado n'uma d'essas

arrecadações, ouviu bater á porta. Sentiu-se perdido... Quem seria? Um

official? Um amigo? Foi abrir, resolvido a tudo. Era o telegraphista do

regimento que, segundo uma combinação previa, lhe ia mostrar um

telegramma do quartel general recebido n'aquelle mesmo instante e em que

se mandava que infantaria 16 estivesse de prevenção. Passava das 9

horas. A ordem chegava, pois, demasiado tarde. O telegramma, seguiu, por

esse motivo, para as mãos do official de inspecção e a escolha das armas

e munições continuou, sem interrupção, até final, ao mesmo tempo que o

soldado 1.008, fingindo que estava de guarda, percorria, armado, todas

as casernas, despertando todos os adeptos e avisando os soldados do

serviço de policia, tambem no segredo do _complot_, de que não fizessem

fogo contra quem pretendesse entrar no quartel.

Ás 12 e 45 da madrugada estava tudo a postos, tudo combinado e

preparado. O cabo Correia soltou da sua caserna, que era a mais afastada

da secretaria, um assobio forte e prolongado--o signal da rebellião--e

os soldados revolucionarios juntaram-se immediatamente na parada, onde,

em dado momento, ergueram um côro triumphal de vivas á Republica. Da

parada foram depois á secretaria. Tornava-se indispensavel prender

quanto antes os officiaes não adherentes e abrir as portas do quartel ao

elemento civil--setenta homens armados que, momentos antes, tinham

sahido do Centro de Santa Izabel. N'esse instante, o commandante de

infantaria 16, tendo dado pela revolta, descera á parada e obrigara um

soldado a bradar ás armas, ameaçando-o de revolver em punho. O soldado

obedeceu, mas em seguida fugiu, indo juntar-se aos camaradas sublevados.

O coronel encaminhou-se para a caserna da 3.ª companhia do 3.º batalhão

e estacou á porta. A fusilaria crepitou pela primeira vez. Uma bala

attingiu o commandante, matando-o instantaneamente. O capitão Barros,

que se postara á entrada da arrecadação da sua companhia, oppondo-se a

que os soldados se armassem, teve sorte egual...

Os outros officiaes, desvairados ou desorientados, fugiram com medo que

lhes succedesse o mesmo que ao commandante e ao capitão Barros. As

chaves dos portões ficavam dentro d'uma barretina e, como não fosse

possivel encontral-as nos primeiros momentos, Machado Santos, que tambem

avançara sobre infantaria 16 á frente d'um grupo de homens armados, teve

que esperar alguns momentos na rua sem poder entrar. Entretanto,

apparecia um cabo que, estando de guarda em Valle de Pereiro, abandonara

o serviço. Foi elle que abriu caminho a Machado Santos pela porta da

arrecadação regimental, e sem difficuldade, porque a respectiva

sentinella não resistiu. Os sediciosos encaminharam-se então, já

senhores do quartel, para a sala dos officiaes, onde encontraram o major

Dias, que não quiz adherir, e as chaves dos portões dentro da tal

barretina. O quartel não tardou a ser completamente franqueado aos

revoltosos civis.

Era preciso, no emtanto, ir a artilharia 1, porque demais a mais já

correra uma noticia aterradora, a de que alguns officiaes do 16 tinham

ido á rua da Estrella chamar a guarda municipal. Essa sahida de

infantaria 16 não se fez, porem, sem grande confusão. Machado Santos

gritava, os outros barafustavam e por fim lá se conseguiu iniciar a

marcha para Entre-Muros, indo á frente o heroico commissario naval. Por

todo o trajecto, feito a galope, soltaram-se vivas enthusiasticos á

Revolução e á Republica. Á porta do quartel de artilharia 1 estava o

capitão Sá Cardoso. Ouvira repetidos toques de reunir em accelerado e

sahira a esperar as forças revolucionarias de infantaria. Logo que

defrontou Machado Santos, desembainhou a espada e collocou-se a seu

lado. Segundos depois, a porta do quartel de Entre-Muros tambem era

arrombada.

Como ahi o official de inspecção e o major do regimento não quizessem

adherir, o capitão Sá Cardoso convidou-os a afastarem-se do local e os

dois officiaes promptamente obedeceram. Na parada já andava o capitão

Palla na faina de preparar as baterias revolucionarias, coadjuvado pelo

alferes Brandão, que adherira espontaneamente. O capitão Sá Cardoso

montou a cavallo e, antes de sahir do quartel de Entre-Muros, recebeu a

adhesão do tenente Quaresma de infantaria 16, tenente Garcia, que estava

afastado d'esse regimento, como aliás de todos os outros, por causa do

28 de janeiro e dos tenentes Santos e Paes, que tinham vindo

expressamente de infantaria 3 para tomar parte no movimento. Infantaria

16--diga-se de passagem--não tinha sargentos; assim os respectivos

logares foram occupados por cabos.

Prompta uma bateria, o capitão Sá Cardoso tomou o commando, coadjuvado

pelo alferes Brandão, indo a escoltar a artilharia uma parte de

infantaria 16 commandada pelo tenente Garcia. Essa bateria sahiu do

quartel de artilharia 1 a caminho das Necessidades, mas a meio da rua

Ferreira Borges foi surprehendida pela companhia da guarda municipal,

aquartelada na Estrella, que fez fogo sobre os revolucionarios. Houve da

parte d'estes uma breve hesitação, propria de quem nunca tinha entrado

em fogo; mas a resposta á aggressão não se fez esperar e tres tiros de

peça destroçaram os municipaes. Como alguns populares avisassem o

capitão Sá Cardoso de que as forças fieis á monarchia se haviam postado

nas embocaduras das ruas, promptas a fusilal-o e aos seus soldados,

aquelle official resolveu voltar atraz, a juntar-se ao grosso da

columna insurreccionada, que encontrou na rua de S. João dos Bemcasados.

Ahi, os officiaes conferenciaram e decidiram, após breve discussão, que

a columna marchasse para a Avenida. O capitão Sá Cardoso, na qualidade

de official mais antigo, tomou o commando superior e Machado Santos

passou a dirigir a guarda avançada de infantaria 16 e grupos civis. Na

altura das Amoreiras, a cauda da columna foi atacada d'uns quintaes ou

coisa parecida e respondeu com uma descarga de infantaria. No largo do

Rato houve novo alarme, mas da policia, que rapidamente foi desarmada

por Machado Santos. Na rua Alexandre Herculano, deu-se uma scena que nos

primeiros momentos não foi facil explicar: os revolucionarios foram ali

recebidos com enorme tiroteio e a columna, desmantelando-se, marchou em

debandada até á rua Castilho. N'esta rua, os capitães Sá Cardoso e Palla

e Machado Santos lá conseguiram juntar de novo os elementos dispersos e

as forças revolucionarias, ainda que no meio de grande confusão,

conseguiram chegar á Rotunda.

Uma vez no famoso acampamento, o capitão Palla arranjou definitivamente

a artilharia e Machado Santos e outros officiaes a infantaria; á

esquerda d'esta formou um pelotão de 40 atiradores civis. O capitão Sá

Cardoso fez uma fala aos soldados e populares que estavam ali reunidos,

mostrando bem a responsabilidade que pesava sobre todos. Entretanto, a

força de policia que estava na feira de Agosto, commandada pelo chefe

Antunes, tinha retirado prudentemente do local; ao acampamento iam

chegando mais populares e entre elles dois guardas municipaes; todos os

individuos que passavam na Rotunda eram obrigados a pegar em armas. Ás 4

da manhã, a cavallaria da guarda municipal tentou um ataque pela frente

do acampamento. Não fôra completamente destroçada na Avenida pelo grupo

civil incumbido de o fazer, muito embora Silva Passos e outros

conjurados arriscassem a vida n'essa denodada investida--e assim

conseguira chegar a cincoenta metros das forças sublevadas. Mas estas

responderam logo com fusilaria e tres granadas e os cavalleiros fieis ao

antigo regimen tiveram que retroceder com algumas perdas.

Passemos agora da Rotunda a Alcantara e vejamos o que succedia n'esse

bairro de verdadeiras tradições revolucionarias. O quartel general dos

elementos que estavam no segredo do _complot_ era a typographia da rua

do Livramento, pertencente ao industrial sr. Franklin Lamas. Ninguem

dirá ao vêr esse modesto artifice da revolta que a sua pallida e

rachitica figura de anemico disfarça, além d'uma vontade de ferro, uma

tenacidade organisadora fóra do commum. E, no emtanto, Alcantara

deve-lhe assignalados serviços de acção republicana, em que a ousadia e

a fé inquebrantavel venceram multiplos obstaculos á propaganda do Ideal.

Na noite de 3 de outubro, logo que ao bairro chegou a noticia de que o

movimento seria iniciado d'ahi a poucas horas, os elementos

revolucionarios correram a reunir-se no estabelecimento do sr. Franklin

Lamas, ao tempo em que os centros republicanos da freguezia eram

invadidos por populares que disputavam entre si as poucas armas até

então ali armazenadas. Á 1 e 8 da madrugada de 4, reportamo-nos á

precisão mathematica do relatório do 1.º tenente Parreira--sahiram da

typographia, além d'esse denodado official de marinha, os 2.os tenentes

Sousa Dias e Carlos da Maia, commissarios navaes Costa Gomes e Guilherme

Rodrigues, 1.º sargento Gonçalves dos Santos, 2.os contra-mestres

Armando Barata e Correia da Silva, 2.º sargento José Rodrigues, Franklin

Lamas, seu irmão Francisco Lamas, Joaquim Alves, Joaquim Vaz e outros

civis. Este disciplinado nucleo revolucionario encaminhou-se para o

quartel de marinheiros, onde entrou pela chamada porta do jardim.

[Ilustração: Moysés, o tambor dos revolucionarios]

Lá dentro, depois de desarmada a sentinella, o grupo arrombou a

arrecadação do armamento, que foi distribuido pelos populares que ainda

o não tinham, preparando-se tudo para a prisão dos officiaes que estavam

no edificio. Ainda no jardim do quartel e a caminho da parada de cima, o

grupo defrontou quatro d'esses officiaes que faziam uma ronda. O 1.º

tenente Parreira não hesitou. Dirigiu-se-lhes energicamente,

intimando-lhes a rendição e os quatro officiaes entregaram as armas,

dando pouco depois entrada n'um dos calabouços. A seguir o grupo

revolucionario subiu ás casernas, o 1.º tenente Parreira mandou

levantar e armar todas as praças e como o sargento da guarda se mostrasse

hesitante, o illustre official obrigou-o a entrar na formatura e mais

tarde mandou-o prender, por não lhe merecer confiança. Faltava

aprisionar os dois commandantes do corpo de marinheiros para se

effectivar a posse completa do quartel.

Formou-se então um nucleo incumbido de defender as sahidas do edificio e

os restantes revolucionarios procederam a varias buscas. «O primeiro a

descer--conta o 1.º tenente Parreira no seu relatorio--foi o 1.º

commandante que vinha só e armado e ficou entre portas á entrada do

corredor da porta principal». O heroico commandante dos revoltosos

intimou-o a render-se. Elle resistiu, primeiro agitando a espada e

depois disparando tiros de pistola, e um grupo desfechou, attingindo-o e

prostrando-o ferido. Acudiram os criados que o transportaram para os

seus aposentos particulares e os contingentes das differentes casernas

principiaram a juntar-se na parada, onde já então se encontrava o 2.º

tenente Tito de Moraes, que tomou logo a iniciativa de activar a

formatura das praças.

D'ahi a momentos os civis empregados nas buscas correram sobre o 2.º

commandante do corpo, obrigando-o a fugir até á parada de cima, onde o

1.º tenente Parreira o aprisionou, mettendo-o no calabouço com os outros

officiaes suspeitos. Arrombou-se depois o paiol da polvora, os cunhetes

foram trazidos para a parada e, assim que se municiaram cerca de 50

praças, esta força installou-se nas janellas da frente do quartel sob o

commando do commissario Costa Gomes, recebendo incumbencia de impedir a

sahida do esquadrão de cavallaria da municipal e defender essa face do

edificio.

Ás 2 e meia da madrugada, concluido o municiamento das praças, os

revolucionarios arrombaram a porta sul do quartel e sahiram para a rua

24 de Julho, onde pouco antes tinham formado outras forças e grupos

civis. O nucleo organisado no quartel dos marinheiros, depois de leve

contacto com uma diminuta força de cavalaria em reconhecimento, que

retrocedeu logo que ouviu dar vivas á Republica, marchou em direcção á

rua da Costa, pretendendo assim cumprir uma parte do plano estabelecido

e que consistia em cercar o palacio das Necessidades, conjugando a sua

acção com a da columna de infantaria 16 e artilharia 1 do commando do

capitão Sá Cardoso. Já dissemos que essa columna se viu impossibilitada

de exercer tal missão, por ter sido atacada pela municipal na rua Borges

Carneiro. O nucleo do quartel dos marinheiros tambem não poude chegar

até junto do palacio, porque, tendo a sua guarda avançada avistado na

passagem da linha ferrea forças de cavallaria 4 e infantaria 1, o 1.º

tenente Parreira mandou fazer alto, encarregando entretanto alguns civis

de explorarem a rua Vieira da Silva.

N'esse mesmo instante, appareceu um capitão que as forças fieis ao

antigo regimen haviam destacado como parlamentario. Sahiu a reconhecel-o

uma vedeta revolucionaria commandada pelo 2.º tenente Carlos da Maia.

--Que defende? perguntou-lhe esse official de marinha.

Resposta do capitão:

--Tenho muita pena, mas sou obrigado a vir aqui...

--Mas que principio defende? insistiu o commandante da vedeta.

--As instituições.

--Mas que instituições? Republica ou monarchia?

--A monarchia.

E logo a seguir, o capitão accrescentou, visivelmente embaraçado:

--Mas eu vou contar tudo ao meu tenente coronel...

D'ahi a pouco surgiu na frente dos revolucionarios um tenente de

infantaria. Logo que chegou á fala, declarou que tambem ia pedir

instrucções ao tenente-coronel; e como as vedetas espalhadas pela rua

Vieira da Silva affirmassem que as forças contrarias estavam egualmente

desenvolvidas para esse lado e a cavallaria e a infantaria fieis á

monarchia tomassem posições de combate, o 1.º tenente Parreira desistiu

de avançar sobre o palacio das Necessidades e decidiu preparar as coisas

para um inevitavel recontro sangrento. Mandou arrombar parte do tapume

proximo á passagem de nivel do caminho de ferro de cintura e dividiu as

forças de marinha em dois pelotões. Um, sob o commando do tenente Carlos

da Maia, desenvolveu-se em angulo recto, parte com as costas no tapume e

com as armas dirigidas para a passagem de nivel, e outra parte dentro da

cêrca e com a frente para oeste. O outro pelotão dividiu-se em duas

fracções commandadas respectivamente pelos tenentes Sousa Dias e Tito de

Moraes e formou com as costas para a parede norte da rua 24 de Julho,

dirigindo as armas obliquamente para a passagem de nivel, cruzando, por

conseguinte, os fogos com as forças que lhe ficavam fronteiras.

O 1.º tenente Parreira, tomadas estas disposições, ainda esperou um

pouco antes de abrir as hostilidades. Mas, continuando a notar

movimentos na cavallaria e infantaria adversas, resolveu tomar a

offensiva e deu a voz de fogo. A fusilaria crepitou com energia e

violencia durante minutos. Do lado opposto, responderam ao ataque com

umas descargas que causaram algumas baixas nas forças revolucionarias. A

seguir, como a cavallaria inimiga, desembocando na rua Fradesso da

Silveira, desobedecesse á intimativa do 1.º tenente Parreira para fazer

alto, os revolucionarios e os populares atacaram-na rudemente,

secundados pela _artilharia civil_ e a cavallaria, dispersando-se, bateu

em retirada, com cêrca de 50 baixas entre mortos e feridos. Não se

calcula o effeito desmoralisador que n'esse regimento fiel á monarchia

produziu a explosão de varias bombas. Os soldados precipitaram-se

immediatamente das montadas, originando uma confusão enorme, e emquanto

uns se refugiavam aqui e ali buscando abrigo contra aquella arma

poderosa que lhes parecia ser lançada do inferno, outros corriam para

junto dos populares revoltosos, pedindo que os poupassem e declarando

abandonar d'uma vez para sempre o serviço do antigo regimen.

Terminado o primeiro combate serio entre republicanos e monarchicos e em

que os revolucionarios de Alcantara déram sobejas provas da sua grande

coragem, o 1.º tenente Parreira dividiu a columna em dois pelotões,

recolhendo o primeiro ao quartel de marinheiros, pela rua Baluarte para

o guarnecer e defender, ficando ainda o tenente Carlos da Maia com o

segundo pelotão até final da debandada do inimigo. Esta força recolheu

mais tarde ao quartel pela porta sul, ao tempo em que um automovel que

apparecera no local conduzindo os srs. Antonio José de Almeida e Pires

de Carvalho se incumbia de levar ao hospital alguns revolucionarios

feridos e um morto.

[Ilustração: Brito Camacho]

Uma vez no quartel, o 1.º tenente Parreira mandou reforçar a defeza da

face do edificio que olhava para a guarda municipal de Alcantara, defeza

que continuou a ser dirigida pelo commissario Costa Gomes, e guarneceu a

parada do sul, de modo a impedir a vinda do inimigo pela rua 24 de

Julho. D'esta fórma, o quartel ficou constituido em verdadeiro baluarte,

defendido não só pelas forças de marinha, mas por grande numero de

populares, que n'essa occasião se lhes aggregaram e foram logo armados e

municiados.

CAPITULO XVIII

Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a lucta

Voltemos á Rotunda. Logo de manhã, Machado Santos, que então commandava

uma força destinada a proteger o acampamento de qualquer assalto dos

monarchicos pelas avenidas Fontes Pereira de Mello e Duque de Loulé,

prendeu o 1.º tenente Victor Sepulveda, palaciano de fresca data, e que

pouco antes sahira de casa attrahido pelo estrondear dos canhões.

Machado Santos, que o conhecia dos tempos em que elle, Sepulveda, tambem

conspirava contra a monarchia e se affirmava, pelo menos apparentemente,

d'um radicalismo feroz, perguntou-lhe que fazia ali n'aquelle ponto da

cidade. O 1.º tenente Sepulveda illudiu a pergunta e inquiriu por sua vez:

--Ah! és tu?... A marinha está aqui?...

Resposta de Machado Santos:

--Não: aqui estão artilharia 1 e infantaria 16. E tu, para onde vaes?

--Ora essa! Vou apresentar-me ao major general da armada. Dizem que ha

barulho...

--Barulho?...

E Machado Santos, desferindo uma gargalhada, accrescentou:

--É a Revolução que está na rua. E tu, com muita pena minha, és meu

prisioneiro.

O 1.º tenente Sepulveda esboçou um gesto de resistencia e ameaçou:

--Vê o que fazes! Eu...

--Dois civis armados para levarem este senhor ao commandante da columna!

ordenou Machado Santos.

--Então, eu...

--Conduzam este senhor ao capitão Sá Cardoso, repetiu Machado Santos, e

digam-lhe que é official de marinha e que acho conveniente conserval-o

preso.

Os dois civis acquiesceram e emquanto o 1.º tenente Sepulveda,

formulando nova ameaça, se dispunha a acompanhal-os, Machado Santos,

pondo-lhe a mão no hombro, disse, a sorrir de ironia:

--Adeus, meu irmão da Montanha!...

O palaciano de fresca data estremeceu como se fôra tocado por um ferro

em braza. A allusão de Machado Santos era mordente e devia ter-lhe

evocado n'esse momento de lucta sangrenta os seus trabalhos de

conspirador, a sua propaganda d'outros tempos contra o soberano e o

antigo regimen...

Pouco depois, o capitão Sá Cardoso mandava-o pôr em liberdade.

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 9 / 14 段