para Cascaes no começo de outubro e o almirante Candido dos Reis,
conferenciando de novo com o Directorio e o _comité_ militar,
ponderou-lhes a urgencia na fixação d'uma data para a revolta. Por outro
lado, o _comité_ de resistencia, conferenciando egualmente com o
Directorio, expôz-lhe claramente a situação e a impreterivel necessidade
de a liquidar. O Directorio pensou, e muito bem, que, embora estivesse
prompto a sanccionar a tentativa revolucionaria, precisava obter a
garantia de que o movimento, a realisar-se, não se desenrolaria
anarchicamente, mas sim com uma disciplina e uma ordem honrosas para a
collectividade democratica. Combinou-se então confiar essa affirmação
decisiva a um arbitro e o Directorio acceitou Candido dos Reis n'esse
posto de enorme responsabilidade moral. É justo accentuar que tal
exigencia do Directorio não representava desconfiança nos trabalhos do
_comité_ de resistencia. Em cada um dos membros d'essa organisação
republicana, como em cada um dos membros do _comité_, havia a convicção
inabalavel de que o movimento se iniciaria apesar de tudo e com
probabilidades de exito. A mais rudimentar prudencia, porém, aconselhava
que se averiguasse bem fundamente do estado dos elementos
revolucionarios dispostos ao combate e que n'um balanço seguro de forças
se baseasse a resolução definitiva do assumpto. N'outra reunião
effectuada no Centro de S. Carlos, Candido dos Reis proferiu perante o
Directorio a sua sentença arbitral.
--Individualmente, disse elle, eu, Candido dos Reis, simples soldado da
Revolução, entendo que mesmo anarchicamente ella deve fazer-se dentro
d'um curto praso. Não podemos admittir que a monarchia continue a
achincalhar-nos. Como arbitro, affirmo que, embora o movimento seja mal
succedido, não envergonhará, na derrota, o partido republicano.
Perante esta opinião, expressa energica e categoricamente, o Directorio
decidiu sanccionar a tentativa, dar-lhe, digamos assim, um caracter
official.
É interessante recordar que n'essa occasião em que o almirante Candido
dos Reis manifestava a sua _opinião technica_ ao Directorio do partido
republicano, um dos organisadores do movimento fez-lhe ligeira
observação sobre as probabilidades de triumpho. O almirante endireitou o
busto e n'um tom de voz que não admitia replica exclamou:
--Se me julgasse incapaz de assumir o commando das forças de marinha e
de as conduzir á victoria, dava um tiro na cabeça!...
Isto explica até certo ponto o _mysterio_ da sua morte, na madrugada de
4 de outubro, á hora exactamente em que principiava a ferir-se o
primeiro combate serio entre as forças revoltadas e os elementos
militares de que a monarchia até então ainda dispunha. Mas, não
antecipemos considerações sobre o fim tragico do almirante, visto que a
elle teremos de fazer referencia áparte.
A 30 de setembro, estando já resolvida a tentativa de revolta, um dos
membros do Directorio perguntou a Candido dos Reis qual a data que se
devia escolher para o _estalar da bomba_. Resposta do almirante:
--Os acontecimentos é que hão de fixal-a.
[Ilustração: José Carlos da Maia]
Essa data, no emtanto, não podia ser outra senão a de 4 de outubro, pois
que n'esse dia de manhã os barcos de guerra tinham ordem de mudar de
fundeadouro. A madrugada de 4, isto é, momentos depois de terminado o
banquete no paço de Belem, offerecido ao marechal Hermes da Fonseca,
estava naturalmente indicada para o começo da insurreição. De resto,
muito embora Candido dos Reis em 30 de setembro houvesse falado do caso
pela fórma vaga que acima registamos, verdade é que, dois dias antes, no
espirito do almirante já tinha perpassado a data de 4, apontando-a até
n'uma reunião a que presidira no dia 28 d'aquelle mez. Essa reunião fôra
convocada especialmente para o _comité_ de resistencia ouvir do _comité_
militar as indicações que, sobre a revolta, se lhe offerecesse apresentar.
No dia 1 de outubro, o engenheiro Antonio Maria da Silva e Machado
Santos reuniram-se no café Martinho e o primeiro, depois de communicar a
opinião de Candido dos Reis, de que o movimento se devia iniciar quanto
antes, ficou incumbido de prevenir os officiaes de marinha
revolucionarios para uma nova reunião de elementos militares no dia
seguinte, ás 4 da tarde, em pleno Chiado, no consultorio do dr. Eusebio
Leão. Era o dia 2, o dia marcado para a grandiosa manifestação que,
diga-se de passagem, não serviu apenas ao presidente dos Estados Unidos
do Brazil para avaliar com nitidez da expansão da idéa democratica entre
nós e para desfazer a má impressão provocada, á sua chegada á capital,
pelo _rapto_ imaginado e posto em execução pelo governo regenerador, mas
tambem para esclarecer os mais scepticos dos conspiradores sobre o
estado d'alma do elemento civil. Os milhares de manifestantes que na
tarde do dia 2 de outubro se agglomeraram em frente do paço de Belem e
nas arterias proximas mostraram bem claramente aos organisadores do
movimento que a Republica Portugueza era um facto e que a monarchia se
equilibrava a custo n'uma base tradicional, roída pela propaganda da
liberdade e pelos vicios inherentes ao antigo regimen.
Á reunião do Chiado compareceram uns quarenta officiaes. Entraram á
formiga no consultorio do dr. Eusebio Leão, emquanto, cá fora, na rua,
Innocencio Camacho, José Barbosa, Simões Raposo e outros revolucionarios
civis vigiavam attentamente pela segurança dos conspiradores militares.
Na reunião, os quarenta officiaes tomaram o compromisso solemne de se
insurreccionar, estabeleceram a _senha_ e o _signal de reconhecimento_,
cuja transmissão aos chefes de grupos populares seria feita por Miguel
Bombarda e depois de terem fixado definitivamente a madrugada de 4 de
outubro para o começo da Revolução, assentaram tambem decisivamente no
plano de combate, modificando n'alguns pontos o plano anterior, porque
os militares não queriam fornecer armas aos civis, receando desmandos e
vinganças pessoaes. Ficou por isso entendido o seguinte:
Engenharia, infantaria 5 e caçadores 5, sahindo dos seus quarteis,
dirigir-se-hiam para o Rocio, mandando-se depois a infantaria atacar o
quartel do Carmo, para obstar á sahida da municipal. Parte da marinha
desembarcava no Terreiro do Paço, apoderando-se do telegrapho e apoiando
as forças que deveriam estacionar no Rocio. Infantaria 2, caçadores 2 e
marinheiros do quartel d'Alcantara e parte da marinha dos navios cercava
o palacio das Necessidade para prender o rei. A artilharia dividia as
suas forças em duas fracções. Uma ia reunir-se a caçadores 2, ao palacio
das Necessidades e outra seguia para o largo de S. Roque, apoiando as
forças do Rocio e impedindo a communicação da guarda municipal pela rua
do Alecrim e praça Luiz de Camões. Os grupos civis, por sua vez, com
bombas e granadas de mão impediam em diversas ruas da cidade que as
forças da municipal evolucionassem para o ataque ás forças revoltadas.
_A senha_ e o _signal de reconhecimento_ eram _Mandou-me procurar?...
Passe, cidadão._ Candido dos Reis insistiu muito em que se adoptasse
_Mandou-me procurar?_ em vez de _Mandou-me chamar?_ por ser menos crivel
que um profano empregasse a primeira phrase de preferencia á segunda.
Ás 5 da tarde, Innocencio Camacho foi ao consultorio do dr. Eusebio Leão
e, logo que a reunião terminou, cêrca das 6, fechou a porta do
consultorio e seguiu para o Rocio a encontrar-se com José Barbosa afim
de lhe dar conta do que os quarenta officiaes, em ultima analyse, haviam
resolvido. Esqueceu-nos dizer que na mesma reunião se decidira que o
quartel general do _comité_ executivo de Lisboa e dos membros do
Directorio seria installado no estabelecimento de banhos de S. Paulo.
O dia 3 de outubro, uma segunda feira, amanhece prodigamente beijado
pelo sol. Todos os jornaes salientam a imponencia da manifestação da
vespera e o povo republicano prepara-se para repetil-a d'ahi a vinte e
quatro horas, quando o marechal Hermes da Fonseca, encaminhando-se para
bordo do _S. Paulo_, fizer na Camara Municipal as suas despedidas á
cidade de Lisboa. Projecta-se assim uma segunda parada das forças
democraticas, tão brilhante como a do dia 2, tão enthusiastica, tão
vibrante de commoção, tão anciosa de liberdade.
Antes do almoço, o marechal Hermes da Fonseca visita a Sociedade de
Geographia. É no regresso do illustre brazileiro ao paço de Belem que a
noticia tragica, a noticia sensacional, começa a circular primeiro nas
redacções dos diarios vespertinos e depois nos cafés, nos ajuntamentos
das ruas. «Um attentado contra o dr. Bombarda ... um louco desfechou
sobre elle tres tiros de pistola....» E a opinião alarma-se, a opinião
agita-se, um fremito de espanto e de pavor convulsiona d'um extremo ao
outro a capital, os jornaes são positivamente assaltados por creaturas
desejosas de saber pormenores, e em frente dos _placards_ agglomera-se
uma massa rumorejante, que ao dispersar lamenta sincera e doridamente o
succedido.
A caminho do hospital de S. José, para onde o ferido se fizera elle
proprio transportar, vae longa fila de intimos e de correligionarios. Os
primeiros que ouvem do dr. Bombarda a narração do attentado são, depois
dos seus collegas no corpo docente da Escola Medica, os srs. drs. Brito
Camacho e João de Menezes. O mallogrado professor fala-lhes sereno e
tranquillo e descreve sem a menor difficuldade como o caso se deu.
Estava no gabinete de consultas de Rilhafolles e o creado annunciou-lhe
a visita d'um antigo pensionista do hospital, o tenente de estado maior
Apparicio Rebello. Mandou-o entrar e assim que o teve em frente da sua
secretaria, manifestou-lhe, n'uma phrase amavel, a sua surpreza por
vêl-o restabelecido. O tenente não disse palavra. Tirou do bolso do
casaco uma Browning--este systema de pistolas vulgarisou-se em Portugal
com o 28 de janeiro e o regicidio--e alvejou o dr. Bombarda primeiro no
peito e a seguir no ventre. O eminente psychiatra ergueu-se
corajosamente da cadeira e ainda conseguiu deitar as mãos ao aggressor.
Mas este continuou a desfechar e só quando um dos guardas de Rilhafolles
o subjugou é que o dr. Bombarda poude dirigir-se á porta do hospital e
metter-se no mesmo trem que ali conduzira o tenente, ordenando ao
cocheiro que o levasse sem demora ao banco de S. José.
Examinado por tres dos seus collegas, resolve-se a soffrer uma operação
dolorosa. É o ultimo recurso á sciencia, recurso, aliás, de successo
problematico. Mas, antes, o dr. Bombarda tira do bolso uns papeis e
queima cuidadosamente um d'elles. É a lista da organisação civil da
revolta que não tarda a estalar, o registo das forças populares que
dentro em pouco serão chamadas a collaborar na implantação da Republica.
Ainda na vespera, ao concluir uma reunião de conspiradores, o grande
propagandista liberal pedira esse papel ao sr. Simões Raposo,
justificando o pedido d'este modo:
[Ilustração: Embarque da familia real na Ericeira]
--Eu guardo-o, porque estou menos arriscado que você a ser preso. Mesmo
no caso d'uma busca policial a Rilhafolles, escondo-o facilmente nas
folhas d'um livro da minha bibliotheca.
E o sr. Simões Raposo concordara com o alvitre porque, tendo
secretariado desde o começo dos trabalhos o _comité_ de resistencia,
conservara de memoria tudo o que o papel dizia e de um instante para o
outro recompol-o-hia sem grande difficuldade. Mas, prosigamos na
narrativa dos tragicos incidentes de 3...
Feito o singelo auto de fé, o sabio professor volta-se para os
operadores e colloca-se á sua inteira disposição. O trabalho dos
cirurgiões é demorado e extenuante. Dura longos minutos, porque os
projecteisda Browning perfuraram violentamente os intestinos e ha o
justo receio de uma peritonite fatal. Cá fóra, nas immediações do
hospital e da Escola Medica, a multidão de curiosos engrossa a olhos
vistos. Os _placards_ augmentam de momento a momento a anciedade do
publico com as informações sobre o estado do enfermo.
Ao cahir da tarde, não ha esperanças de o salvar. A opinião corrente é
de que o criminoso foi suggestionado pelo clericalismo. O dr. Bombarda
combatera desde annos distantes a reacção e o fanatismo e aventa-se a
hypothese de que elle succumbe a um manejo cruel d'esses seus dois
inimigos. A excitação popular é tão intensa que um padre, no Rocio,
passa um mau bocado, só porque alguem lhe ouviu dizer a respeito do
attentado:
--Foi bem feito!... Não se perde nada.
No Chiado e na Avenida da Liberdade ha correrias da policia, tentando
inutilmente abafar essa colera surda que estremece em ondas ameaçadoras.
De grupo para grupo, faiscam exclamações de desespero. Pensa-se
abertamente n'uma desforra retumbante. O povo liberal, que a essa hora
ainda não sabe que um grupo de homens decididos resolveu fazer dentro de
pouco a Revolução, prepara-se expontaneamente para _qualquer coisa_ que
o attentado decerto provocará. Os mais impulsivos gritam ás escancaras:
--Ah! os clericaes querem guerra!... Pois tel-a-hão!
Ninguem duvida. O assassinio do dr. Bombarda vae ser o ponto de partida
para uma lucta sem treguas entre liberaes e reaccionarios, tanto mais
accesa quanto é certo que o governo regenerador anda a burlar a opinião,
fingindo satisfazer-lhe as reclamações no tocante á expulsão dos
congreganistas de Aldeia da Ponte e do Barro.
Ás seis e minutos, o eminente democrata exhala o ultimo suspiro. Mas,
facto extranho: n'esse momento de verdadeira crise, quando se suppõe que
a agitação popular vae assumir um caracter gravissimo, aquecida ao rubro
pela noticia da morte, na atmosphera da cidade como que perpassa uma voz
mysteriosa mas incisiva, recommendando socego e prudencia. Alguns
jornaes republicanos recebem mesmo indicações n'esse sentido. Nada de
_placards_ que enfureçam o povo: nada de titulos berrantes que augmentem
o alarme e a indignação. Calma, muita calma... energia, sim, mas sem
furia. A Revolução está á porta. E, se o governo monarchico se assusta
com a attitude hostil do povo... toma as suas medidas de precaução e
embaraça, ainda que inconscientemente, a eclosão do movimento.
Entretanto, os organisadores da revolta escoam-se silenciosamente por
entre a multidão, dando a ultima demão aos preparativos. Previnem-se
amigos e companheiros do ideal, chamam-se urgentemente a Lisboa os
conspiradores que dias antes se tinham ausentado da cidade, ha
conciliabulos rapidos em diversos pontos, os chefes de grupo são
convocados para o Centro de S. Carlos a receberem armas e instrucções. A
esta reunião devia presidir o dr. Bombarda... O dr. Bombarda, estendido
n'um leito de morte, é substituido pelo sr. Simões Raposo. O material
revolucionario, que até então estivera quasi todo abrigado sob as vistas
cautelosas do sr. Martins Cardoso, é canalisado para aquella
aggremiação, a dois passos da policia e sem que a policia dê por isso.
Os massos com revolveres entram, sem recato, sem precauções, no
edificio... Nas salas do Centro allude-se ao movimento em tom tão claro
e expressivo que um dos revolucionarios que estaciona no largo, em
frente do theatro lyrico, galga apressadamente as escadas, a recommendar
maior discreção:
--Falem mais baixo!... Na rua ouve-se tudo...
CAPITULO XVI
No momento culminante, o desanimo invade os organisadores da revolta
A ultima reunião dos organisadores do movimento realisou-se na noite de
3 no terceiro andar do predio 106 da rua da Esperança, residencia da mãe
de Innocencio Camacho, que elle, nas vesperas, transferira para Cintra,
receioso de que os acontecimentos a envolvessem nas suas graves
consequencias.
Na tarde d'esse mesmo dia Innocencio Camacho e José Barbosa tinham ido
ao escriptorio do dr. Affonso Costa avisal-o, por incumbencia do
almirante Candido dos Reis, da data fixada para a revolta. O dr. Affonso
Costa ouviu attentamente a communicação ensaiando algumas vezes o
_santo_ e a _senha_ e depois limitou-se a puxar d'um _carnet_ e a
escrever ali o numero do predio da rua da Esperança. Sabia perfeitamente
o que se tramava, mas não calculava que o movimento rebentasse d'ahi a
horas. Marinha de Campos, que José Barbosa tambem prevenira do facto,
cumprindo egualmente uma determinação do almirante, metteu-se n'um
automovel com Alfredo Leal e foi a Cintra chamar o dr. Eusebio Leão, que
adoecera na vespera.
Ás 7 da tarde, emquanto o engenheiro Antonio Maria da Silva ia tratar de
arranjar uns doze automoveis que eram indispensaveis para o serviço de
communicações, João Chagas e José Barbosa foram jantar a um restaurante
da Baixa, pretendendo dar uma tregua á agitação que os dominava. O que
foi esse jantar não se descreve com facilidade. Decorreu tristemente,
quasi silencioso, pois que até João Chagas parecia n'esse momento avaro
da viveza e do espirito de brilhante _causeur_ que o caracterisam. «Mal
comemos, contou-nos mais tarde José Barbosa; e o pouco que ingerimos não
tinha o menor sabor».
Ás 8 os conjurados principiaram a affluir á rua da Esperança. Innocencio
Camacho appareceu mais cedo para abrir as portas e fazer as honras da
casa. Os outros eram, além dos revolucionarios representantes da armada
e de todos os corpos da guarnição da capital, Candido dos Reis, Affonso
Costa, José Relvas, José Barbosa, João Chagas e Antonio José d'Almeida.
Eusebio Leão, que viera de Cintra apesar da doença que o affligia, fôra
deitado n'um sophá e ardia em febre. A sala, onde só cabiam á vontade
dez pessoas, tinha apenas uma meza e sobre ella um candieiro de
petroleo. Em volta da meza perambulavam cerca de cincoenta conjurados. A
atmosphera era irrespiravel. Asphyxiava-se lá dentro.
Na reunião, Candido dos Reis falou com rara energia, accentuando
nitidamente que se não fosse capaz de collocar-se á frente dos
marinheiros e de os conduzir á victoria não tinha o direito de viver.
Examinou-se a situação. Os revolucionarios contavam em absoluto com
elementos de lanceiros 2, cavallaria 4, caçadores 2, infantaria 5 e
caçadores 5. De infantaria 16 comparecera á reunião apenas um alferes e
havia duvidas sobre se o regimento podia entrar desde logo na revolta.
Infantaria 1 não adheria, mas tambem não contrariava a acção conjuncta
dos militares e do povo. Dentro da sala, repetimos, abafava-se... Isso
não impedia, entretanto, que todos os conjurados se mantivessem n'um
estado de espirito que removia mentalmente quaesquer obstaculos que
surgissem ante o projecto de insurreição.
A reunião acabou ás 10 e 30, dando-se alguns dos officiaes presentes
_rendez-vous_ na rua do Livramento, depois de se fardarem
convenientemente. O movimento seria iniciado á 1 hora da madrugada com
uma salva de 31 tiros dada pelos navios de guerra fundeados no Tejo,
salva que teria o seu echo no quartel de artilharia 1. O Directorio e os
outros elementos de organisação installar-se-hiam, como já dissémos, no
balneario de S. Paulo, d'onde, uma vez iniciada a revolta, sahiriam para
Alcantara e ao encontro do monarcha João Chagas, José Relvas e Affonso
Costa. Tencionavam, n'essa altura, pegar em D. Manuel e mettel-o a bordo
d'um navio.
Dissolvida a reunião, José Barbosa foi ao Centro de S. Carlos,
encontrando ali tres officiaes de marinha que pediam armas. Como lhes
fosse respondido que no momento as não havia, retorquiram immediatamente:
--Não ha duvida. Voltaremos, fardados, a buscal-as!...
E voltaram. No Centro tambem estava o engenheiro Oliveira, que em
companhia de Alvaro Pope devia iniciar o ataque ao quartel de
engenharia. De tarde, falaram na necessidade de arranjar um _pé de
cabra_ para arrombar a porta d'um edificio militar. O empreiteiro
Oliveira, embora lhe repugnasse usar tal instrumento, tanto forcejou que
o obteve e á noite lá estava no Centro com o _pé de cabra_,
tranquilisando d'este modo a sua consciencia:
--Como é para servir a boa causa...
Candido dos Reis appareceu no Centro de S. Carlos ás 11 e 50. Combinou
com Simões Raposo que este iria a Belem aguardar o inicio da revolta, a
Belem, onde o pharmaceutico Abrantes, como já tivemos ensejo de
registar, organisára um nucleo fortemente combativo e que depois falaria
com elle na Rocha do Conde d'Obidos, dando-lhe Simões Raposo n'essa
occasião conta do que se passasse n'aquelle ponto da cidade. Candido dos
Reis ainda alludiu á morte do dr. Miguel Bombarda e elle e Simões Raposo
assentaram em que esse facto doloroso não influira de modo algum no
projecto da revolta, quer para a adiar, quer apenas para a modificar em
determinado sentido.
Proximo da meia noite, juntaram se no estabelecimento de banhos de S.
Paulo: Affonso Costa, José Relvas, Eusebio Leão, Innocencio Camacho,
José Barbosa, Antonio José d'Almeida, João Chagas, Joaquim Pessoa,
Celestino Steffanina, Ricardo Durão, Manuel Duarte, engenheiro Antonio
Maria da Silva, Malva do Valle, Marinha de Campos, Alfredo Leal, Simões
Raposo e Soares Guedes. Este revolucionario e Joaquim Pessoa tinham-se
incumbido de arranjar os barcos necessarios para o embarque de officiaes
e forças de marinha nos caes do Gaz e da Viscondessa. Não se faz ideia
da agitação moral que a todos dominou durante a longa hora em que esse
grupo de conjurados esperou que os navios ancorados no Tejo dessem o
signal para o começo da revolta. Ao soar a 1 hora da madrugada, nada se
percebendo, vindo do exterior, que lhes indicasse o cumprimento do que
momentos antes fôra decidido, a anciedade recrudesceu. Vinte minutos
depois, ouviam-se apenas tres tiros de peça; a seguir alguns tiros
isolados que muito pouco podiam significar para a satisfação do seu
espirito... Nada ou quasi nada do que fôra combinado se produzia. Os
factos succediam-se por modo a fazer desesperar os mais optimistas. Até
o primeiro regimento a sahir á rua era exactamente aquelle com que os
organisadores do movimento menos contavam: infantaria 16.
Não constitue segredo para ninguem que os organisadores do movimento
revolucionario tiveram um momento de desanimo, um momento em que
suppozeram tudo perdido. Foi durante o espaço de tempo que decorreu
entre a hora anteriormente marcada para o inicio da revolta e o
alvorecer do dia 4, quando um nucleo de republicanos se defrontava já
com uma fracção das forças fieis á monarchia. Esse momento, em que as
melhores energias sentiram um desfallecimento semelhante ao do 28 de
janeiro, marca uma _étape_ curiosissima da Revolução.
No estabelecimento de banhos de S. Paulo--já o dissemos concentrara-se
proximo da meia noite uma duzia de homens decididos e resolutos, tendo
cada um d'elles uma missão definida a cumprir. D'ahi, d'esse quartel
general, os revolucionarios partiriam ao signal combinado para diversos
pontos da cidade a executar o plano fixado. Aguardavam, portanto, esse
signal com a anciedade precursora dos grandes acontecimentos decisivos.
Mergulhados quasi na treva, dir-se-hia que continham a respiração para
evitar que do exterior surprehendessem o menor symptoma agitador. Um
relogio proximo bateu a uma da madrugada e todos os ouvidos se apuraram.
A incerteza, dominava-os. Escoaram-se alguns minutos que pareceram
seculos. Do grupo destacaram-se então tres ou quatro que foram percorrer
as immediações do balneario. Nada se percebia que denotasse o começo da
refrega e o desalento--uma interrogação insatisfeita--pairava no ambiente.
Á uma e vinte, os tiros de peça que soaram no Tejo deram o alarme.
Contaram-nos um a um. Não correspondiam ao que fôra planeado. Que se
passaria a bordo n'esse instante supremo? Que significava esse troar
d'artilharia que não tranquilisava os espiritos? Alguem aventou a ideia
de que os tiros constituiam um signal pedindo soccorro. Mas soccorro
para qual dos barcos de guerra? Evidentemente, um d'elles fôra atacado
pelos outros e solicitava para terra urgente auxilio.
A situação complicava-se. Para mais, logo a seguir a esse alarme tudo
recahira no silencio. A cidade dormia em plena paz. A curta distancia do
balneario vigiavam mollemente tres policias. Affonso Costa, Alfredo Leal
e Malva do Valle tomaram uma resolução: ir a Alcantara vêr o que se
passava. Sahiram de S. Paulo n'um automovel e recommendaram aos que
ficavam:
--Se dentro de vinte minutos não voltarmos, siga para o quartel de
marinheiros outro grupo...
Foi o que succedeu. Affonso Costa, Alfredo Leal e Malva do Valle não
regressaram ao balneario dentro do praso marcado e João Chagas e Antonio
José d'Almeida, enfiando n'outro automovel, abalaram pelo Aterro
adeante.
O silencio da madrugada ainda se não rompera com os echos do tiroteio. A
meio do Aterro, João Chagas e Antonio José d'Almeida encontraram um
official de marinha, que assistira, no 3.º andar da rua da Esperança, á
ultima reunião dos conjurados. Andava agitadissimo d'um lado para o
outro, como a procurar um ponto de embarque ou quaesquer amigos que já
se lhe deviam ter reunido. Falaram-lhe e elle não occultou a sua
decepção. Falhara tudo... O movimento liquidara n'um pessimo esboço de
insurreição.
O automovel andou mais uns metros e estacou em frente do quartel dos
marinheiros, do lado em que o edificio olha para o Tejo. As janellas do
quartel estavam illuminadas. Um grupo de populares avançou ao encontro
de João Chagas.
--Que ha?--perguntou-lhes o grande publicista.
--Nada... Absolutamente nada.
E um dos revolucionarios, apontando para o quartel, accrescentou:
--Ali parece ter havido qualquer coisa, mas agora está tudo em socego.