expressamente para se deliberar sobre a opportunidade d'uma obra, que se
esboça vagamente ser a Republica, mas que não é revelada nos seus traços
intimos á quasi totalidade dos irmãos». N'essa reunião, fala o
grão-mestre, o sr. dr. José de Castro, para propôr a nomeação d'um
_comité_ incumbido de executar ou, melhor, de preparar a execução da
obra citada. A assembléa toma conhecimento da proposta e o grão-mestre
reserva-se o direito de nomear elle proprio o _comité_ cuja formação
deve até ao ultimo momento constituir assumpto da maior reserva.
Impõe-se o segredo rigoroso, porque, a dentro da Maçonaria, existem
elementos de pouca confiança n'um tão grave emprehendimento.
O _comité_, que toma o nome de Commissão de Resistencia, fica composto,
além do dr. José de Castro, por Simões Raposo, Machado Santos, Miguel
Bombarda, Francisco Grandella e Cordeiro Junior. O seu primeiro cuidado
é o de approximar-se do Directorio do partido republicano, o de
estabelecer contacto com esse organismo para conjugar com elle os
esforços tendentes ao derrubar da monarchia. O Directorio acceita sem
restricções a intervenção do Grande Oriente, e, prévio accordo, o
_comité_ maçonico trata de agrupar, de disciplinar, de aproveitar os
organismos revolucionarios já então creados e que trabalham n'um
isolamento de pouca ou nenhuma proficuidade. Essa aggregação é feita com
extrema cautela. O _comité_ chama ao seu ambiente os elementos de que o
proprio Directorio dispõe, os da Carbonaria, representada pelo
engenheiro Antonio Maria da Silva, os do grupo Accacia, representado por
Martins Cardoso e os da Joven Portugal, a que pertence, entre outros, o
dr. Carlos Amaro. E uma vez combinada a acção commum, diligenciam passar
á fieira todos os individuos que se lhes affiguram capazes d'um esforço
em prol da Republica.
Ventila-se depois a questão do dinheiro. Uma revolução, nos tempos
modernos, não se faz sem essa móla imprescindivel. Ha necessidade de
comprar armamento e de subvencionar outras despezas e o cofre do
Directorio republicano não tem o sufficiente para tal empreza. Logo que
se pensa a sério na realisação do movimento, constitue-se uma commissão
financeira, inteiramente separada da commissão administrativa do partido
e formada por Antonio José d'Almeida, Bernardino Machado, Magalhães
Basto e José Barbosa. Constituida a commisssão, trata-se de calcular o
que custará o movimento.
Quinhentos contos? Quatrocentos contos? Trezentos?...
As opiniões variam e um dia em que isso se discute com um certo calor,
Affonso Costa apresenta uma base orçamental um pouco mais modesta:
setenta contos. Faz um calculo identico ou approximado aos de João
Chagas e almirante Candido dos Reis. Setenta contos, na opinião de
qualquer d'elles, deve chegar para as despezas da Revolução. Falta fixar
o modo de obter essa quantia. Como? Sacando antecipadamente sobre a
Republica? É processo que não encontra quem o defenda. Um emprestimo? De
todos os alvitres estudados é este, afinal, o que concita um maior
numero de adhesões. Mas, ainda assim, a idéa não tarda a ser posta de
parte e a commissão financeira assenta que será relativamente facil
reunir cem contos por intermedio de 25 correligionarios dedicados, cada
um d'elles procurando obter quatro contos entre os seus amigos pessoais.
A commissão financeira, porém, nunca funcciona regularmente e, após
diversas hesitações, Eusebio Leão, José Relvas, José Barbosa e
Innocencio Camacho deliberam formar o cofre revolucionario apenas com os
donativos secretos. Essa deliberação obedece talvez á velha idéa de que
_dinheiro não falta_. E como _dinheiro não falta_, José Barbosa,
Innocencio Camacho, Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da
Silva, reunindo-se frequentemente no escriptorio do _Estado de S.
Paulo_, occupam-se dedicadamente da acquisição de espingardas, pistolas
e revolvers. Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da Silva
descobrem a breve trecho o que elles chamam a solução do problema.
Encontra-se á venda um lote de 33:000 espingardas de bom modelo que a
Suissa acaba de substituir no armamento do seu exercito. Cada uma sahe
pelo preço de 3$000 réis. É de graça... Pelos calculos feitos a
Revolução Portugueza necessita de 5:000 armas, o que equivale a uma
somma approximada de dezeseis contos de réis. Toca a comprar. _Dinheiro
não falta_... Innocencio Camacho e José Barbosa escrevem a Antonio José
d'Almeida, solicitando-lhe a incumbencia de effectuar a transacção.
Antonio José d'Almeida accede de bom grado e aguarda n'uma capital
europeia que em Lisboa se reuna o dinheiro indispensavel.
Mas os dias passam, o dinheiro não apparece e a transacção não se
effectua. Uma parte do lote suisso vae para o Paraguay, onde d'ahi a
mezes serve n'uma revolta de caracter partidarista, e Antonio José
d'Almeida regressa a Lisboa sem ter conseguido remediar de qualquer modo
o _fiasco_. Isto, comtudo, não entrava seriamente a organisação do
movimento. Mantendo-se a ideia de alimentar o cofre revolucionario com
os donativos secretos, os organisadores tratam de, com a maior reserva,
expedir umas cartas aos elementos republicanos de reconhecida abnegação
e, dentro de semanas, de dias até, começam a affluir diversas quantias
que Eusebio Leão, como thesoureiro, escriptura de maneira symbolica. O
cofre-forte da Revolta é uma mala de viagem que Eusebio Lião, cauteloso
e meticuloso, faz guardar todos os dias no estabelecimento de modas de
seu irmão Ramiro e sem que este o saiba... Á medida que o dinheiro
afflue, vae-se realisando a compra de armamento, por pequenas porções,
ficando depositario do material o negociante Martins Cardoso.
[Ilustração: A Bandeira da Revolução]
Esta colheita secreta de dinheiro dá origem a varios incidentes
curiosos. José Barbosa narra d'este modo um d'esses incidentes:
«Um dia Manuel Bravo foi ao meu escriptorio confiar-me para a Revolução
200$000 réis do negociante Alves de Mattos. No dia immediato procurou-me
o socio d'esse negociante, Alexandre Paes, e, falando com animação
desusada, queixou-se de que Alves de Mattos desdenhara do proposito em
que estava de contribuir para o cofre revolucionario e que, para provar
ao socio que tambem possuia bens de fortuna, subscreveria para o mesmo
cofre com 1:000$000 de réis. Mas, na realidade, só me confiou, deante do
socio, a decima parte d'essa quantia e sahiu do meu escriptorio
agitadissimo e monologando cousas phantasticas. Á noite tive noticia de
que enlouquecera. Dias depois succedeu-me ir ás 10 e 50 á estação do
Rocio aguardar, na companhia de João Chagas, a chegada d'um
correligionario que vinha do Porto. Mal o comboio parou, vejo o Paes
sahir alvoroçado d'uma das carruagens e, defrontando-me, desatou a
alludir, em altos gritos, ao supposto donativo de 1:000$000 réis que
queria fazer ao cofre revolucionario. Perto andava um cabo de policia e,
segundo me contaram depois, o infeliz já dentro do comboio havia
affirmado em alto e bom som essa contribuição generosa. A imprudencia do
louco podia custar-nos cara.»
A provincia tambem se desentranha em dedicações extraordinarias para
alimentar o cofre revolucionario. Estevão Pimentel, Manuel Alegre, Malva
do Valle, Ricardo Paes e os republicanos de Alhandra, Villa Franca,
Portalegre, Porto e do Algarve tambem fornecem muitas armas.
Independentemente da actividade de todos esses correligionarios, muitos
outros se armam á sua custa e armam os amigos, comprando revolvers e
pistolas em Hespanha, passando-as para Portugal dentro de malas de mão,
arriscando descuidosamente a liberdade. Do Brazil os organisadores do
movimento recebem, por egual, valioso auxilio monetario e ainda já
depois de proclamada a Republica vem a caminho de Lisboa determinada
quantia ali angariada por intimos de José Barbosa.
N'um determinado momento, o almirante Candido dos Reis foi percorrer a
provincia para avaliar com segurança da situação creada pela organisação
revolucionaria Acompanhou-o n'essa missão o official de caçadores sr.
Pires Pereira. No regresso, a impressão do illustre marinheiro era tão
favoravel ao desenlace feliz do movimento que foi decidido desde logo
apressal-o e sahir á rua dentro de breve espaço de tempo. Ninguem
duvidava do exito. Tudo corria ás mil maravilhas. Os elementos
revolucionarios manifestavam um ardor que era impossivel conter.
CAPITULO XIV
Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas revolucionarias
O _comité_ de resistencia formado pela Maçonaria reunia, no emtanto, em
casa e no escriptorio do dr. José de Castro, nos Makavencos, no Gremio
Lusitano, no Centro de S. Carlos, em casa do sr. Francisco Grandella,
etc. Dos trabalhos d'esse _comité_, conta-nos o sr. Simões Raposo o
seguinte:
«A partir de determinado momento, as reuniões do _comité_ de resistencia
e seus adherentes passaram a effectuar-se diariamente no centro de S.
Carlos, presididas pelo dr. Miguel Bombarda que, diga-se desde já, foi
sempre d'uma assiduidade notavel, d'uma dedicação sem limites.
«Ao cabo d'algum tempo de preparação o _comité_ principiou a organisar
as suas forças de combate, distribuindo-as segundo um plano
cuidadosamente traçado e marcando bem nitidamente o papel que cada um
dos grupos de revoltosos devia desempenhar no momento propicio. No
emtanto, as adhesões chegavam-nos, sempre no meio de caloroso
enthusiasmo, e todas as noites, n'um gabinete do Centro de S. Carlos,
soldados, cabos e sargentos, populares á mistura, affirmavam
peremptoriamente a necessidade da Revolução, dispostos até a verdadeiros
actos de loucura. Candido dos Reis não assistia a essas vibrações da
alma revolucionaria mas palpitava-as atravez d'uma porta que separava
duas salas do centro e assim andava perfeitamente orientado sobre a
marcha crescente da nossa propaganda».
N'essa altura já estava constituido o _sub-comité_ militar formado por
Candido dos Reis, Fontes Pereira de Mello, coronel Ramos da Costa e
capitão Palla. Fixou-se uma data para a Revolução: a de 15 de julho de
1910. Mas, chegado o momento soube-se com alvoroço que o segredo dos
conspiradores fôra descoberto e que as auctoridades militares iam tomar
providencias para impedir que a revolta estalasse. O movimento foi adiado.
«O adiamento--refere-nos o sr. José Barbosa--impressionou
desagradavelmente os officiaes que estavam no segredo do _complot_. No
dia immediato, vi alguns d'elles arrepelarem-se com sinceridade,
verterem até lagrimas de raiva por se ter contra-mandado a revolta.
Carlos da Maia, official de rara valentia, entrou no meu escriptorio
agitadissimo e colerico, disposto, apesar de tudo, a tentar uma
sublevação de marinheiros. Estes, por seu lado, tambem não cessavam de
solicitar, de pedir que apressassemos o inicio do movimento, do
contrario suicidar-se-hiam n'uma tentativa de exito improvavel, sahindo
á rua contra todas as indicações dos organisadores da Revolução. A
propaganda de alguns mezes aquecera-os ao rubro».
Depois de 15 de julho, multiplicaram-se as reuniões de officiaes em
diversos pontos da cidade--na redacção das _Cartas Politicas_ no Arco do
Bandeira juntaram-se por vezes vinte e mais representantes da guarnição
de Lisboa--fez-se outra compra de armamento e, aproveitando-se a energia
do nucleo de militares que desde o começo haviam mantido a mais completa
adhesão á Republica, produziu-se um trabalho galopante que fatalmente
devia aluir com rapidez as instituições monarchicas.
«A primeira quinzena de agosto--affirma João Chagas--foi empregada
n'essa corrida veloz para a revolução. E tão bem e tão utilmente ou
proficuamente se trabalhou que tornámos a fixar data para o desenrolar
do movimento: a noite de 19 para 20 d'esse mez. E fixámol-a, porque,
segundo a opinião dos officiaes de marinha que nos acompanhavam, era a
noite em que a bordo do _D. Carlos_ se dava um conjuncto de
circumstancias absolutamente vantajoso para a revolta. N'essa noite tudo
concorreria para que a victoria fosse alcançada sem grandes difficuldades.
«Comtudo, á ultima hora, alguem denunciou o movimento ao chefe do
gabinete regenerador. E succedeu o que todos sabem: ordem aos navios de
guerra para sahirem a barra, prevenções nos quarteis, a policia vigiando
rigorosamente a cidade, etc. O Teixeira de Sousa teve perfeito e
minucioso conhecimento do _complot_ e informaram-no com verdade do
caracter que o revestia. Mas, para não desmentir os boatos postos em
circulação de que o governo contava n'esse momento com um falso apoio
dos republicanos, calou-se e habilmente attribuiu as medidas de rigor
que tomára á necessidade de suffocar uma _intentona_ reaccionaria».
Este segundo adiamento, longe de fazer esmorecer os organisadores da
revolta, produziu effeito diametralmente opposto. N'uma reunião especial
no Centro de S. Carlos, levada a effeito no domingo 25 de setembro, a
que assistiram, entre outros, Candido dos Reis, o capitão Sá Cardoso e o
tenente Helder Ribeiro, o _comité_ de resistencia submetteu á apreciação
dos representantes do _comité_ militar um resumo das suas forças
disponiveis, com as indicações dos locaes em que deviam operar e da
funcção attribuída a cada grupo de revoltosos, e esses representantes
estudaram minuciosamente o trabalho da organisação civil que, diga-se em
abono da verdade, embora não tivesse sido reproduzido em cifra no papel,
era absolutamente incomprehensivel para os profanos. N'outra reunião
effectuada no consultorio do dr. Eusebio Leão, Candido dos Reis affirmou
aos membros do Directorio que havia elementos em quantidade sufficiente
para tentar a queda da monarchia e em successivas conferencias os
officiaes que a ellas compareceram affirmaram a mesma coisa, dando a
certeza de que a Republica em breve seria proclamada.
Precisamos voltar atraz para registar um pormenor de organisação, que
José Barbosa descreve n'estes termos:
«Em outubro de 1909 a propaganda tomou maior incremento. Na primeira
reunião do Directorio e da Junta Consultiva, realisada n'esse mez, como
os marinheiros continuassem a affirmar que se sublevariam a breve trecho
e fosse necessario entrar a fundo nos trabalhos de preparação da
revolta, puz a questão com toda a franqueza: o partido republicano, no
caso d'uma insurreição naval, não abandonaria os insurrectos e antes
lhes daria a sua solidariedade moral e material. O assumpto foi
debatido. Affonso Costa apoiou-me energicamente e todos concordámos em
que era indispensavel atacar o regimen monarchico n'um golpe decisivo. A
Junta Consultiva tambem se pronunciou pela acção immediata e d'ahi a
dias tomámos conhecimento do inquerito feito pelo _comité_ executivo aos
officiaes republicanos, iniciando-se logo após esse inquerito as
ligações entre os elementos que se suppunham isolados. João Chagas e
Candido dos Reis trabalharam n'essa altura com uma febre indescriptivel.
Dia a dia, João Chagas reunia nas _Cartas Politicas_ tres e mais
officiaes de marinha e do exercito de terra que, ao entrarem em
contacto, se surprehendiam immenso de ver ao lado da Republica camaradas
do mesmo regimento ou do mesmo navio que consideravam monarchicos
retintos ou pelo menos indifferentes.
«Essa operação aggregadora representa um esforço extraordinario.
Coincidiu com uma phase activissima da Carbonaria, que contava no seu
seio, por interferencia propagandista do engenheiro Silva, soldados,
cabos e sargentos de toda a guarnição da capital. Precisavamos em cada
regimento, ou em cada navio, relacionar os officiaes republicanos com as
praças adherentes. Procedeu-se cautelosamente a essa ligação, pondo
primeiro em contacto um official com um sargento e depois o sargento com
um determinado numero de cabos e soldados.»
O engenheiro Antonio Maria da Silva completa assim o relato de José
Barbosa:
«Os officiaes passam depois a entender-se directamente com os seus
subalternos e estão permanentemente em contacto com carbonarios, a quem
dão indicações e de quem colhem informações rigorosas para se
confeccionar o plano da revolta.
«Indigitam-se para o elaborar os officiaes: Sá Cardoso, Helder Ribeiro e
Aragão e Mello. É preciso, todavia, dar aos officiaes a certeza material
das forças de que dispomos, e eu fico encarregado de os pôr em contacto
com essas forças. Organisam-se, por isso, verdadeiras revistas
militares. Aos soldados são dadas as respectivas senhas. Uma d'ellas é:
_pontapé na bola_. A _bola_, já se vê, é a monarchia com o seu farto
recheio de escandalos: muito _bojuda_, _brigantinamente bojuda_. De uma
vez, Aragão e Mello e o carbonario Alberto Meyrelles assistem no jardim
da parada de Campo d'Ourique ao desfile de 150 homens de infantaria 16,
dizendo cada um d'elles ao passar: _pontapé na bola_... Alguns até
cantarolavam disfarçadamente a senha. Helder Ribeiro fica encantado com
os resultados colhidos. O tenente José Ricardo Cabral e o soldado
Domingos passam revista aos postos fiscaes; Helder Ribeiro e o
pharmaceutico Abrantes revistam infantaria 1, lanceiros e cavallaria 4,
o tenente Ochôa infantaria 2 e Americo Olavo, caçadores 5.
«No Rocio realisa-se uma revista em noite de musica. Um verdadeiro
escandalo nas barbas da policia. N'essa noite vão para o largo do Caldas
conferenciar diversos elementos revolucionarios. Aragão e Mello passa
ainda em revista engenharia. D'estas experiencias resulta, como não
podia deixar de ser, adquirirem os officiaes a certeza de que, com os
elementos de que dispõem, a revolução tem todas as probabilidades de
triumpho.»
Entretanto, os elementos da classe civil prodigalisavam-se em reuniões,
em conciliabulos secretos, onde a palavra Revolução animava, todos os
assistentes, impellindo-os até ao sacrificio da propria vida. A
atmosphera carregava-se dia a dia e de maneira que já ninguem pensava em
adiar o movimento nem em demorar-lhe a marcha fulgurante. Era
absolutamente necessario abrir a valvula, porque, de contrario, a
explosão inevitavel redundaria em prejuizo dos que, com tanto amor e
tanta coragem, haviam projectado a emancipação da nacionalidade. Candido
dos Reis e Miguel Bombarda sustentavam-se corajosamente na brecha. Das
provincias vinham noticias calorosas, que demonstravam a anciedade dos
republicanos pelo rebentar da revolta. Era necessario fixar uma data,
apressar, custasse o que custasse, o advento do novo regimen. O balanço
dado pelo _comité_ executivo de Lisboa ás forças de que o partido
dispunha garantia a certeza da victoria.
Essa impressão de anciedade era facilmente apprehendida por todos os
organisadores do movimento. Até mesmo os temperamentos mais calmos, os
homens cujo sangue-frio repellia imprudencias perigosas, sentiam bem de
perto a necessidade urgente de se fazer _qualquer coisa_, que puzesse
breve termo a uma tal situação.
No dia 25 de setembro, pela 1 hora da tarde, José Barbosa e Innocencio
Camacho encontraram-se no campo de Sant'Anna com o general Encarnação
Ribeiro. Á primeira pergunta que os dois lhe dirigiram--o movimento é
viavel?--o denodado militar respondeu-lhes com uma affirmação
cathegorica. Restava organisar o plano de combate.
--E em quantos dias se arranja esse plano? inquiriram José Barbosa e
Innocencio Camacho.
--O maximo, oito.
[Ilustração: Bombardeamento do Paço das Necessidades (Janella do quarto
do rei)]
Em face d'esta asseveração nitida, os organisadores do movimento
resolveram incumbir immediatamente a elaboração do plano ao general
Encarnação Ribeiro, capitão Sá Cardoso, official de marinha Aragão e
Mello e tenente Helder Ribeiro. Para a acção civil dividiu-se a cidade
de Lisboa em varios sectores, correspondendo essa divisão á importancia
dos diversos nucleos da Carbonaria. O papel d'esses elementos consistia
essencialmente em facilitar a revolta nos quarteis e evitar a
agglomeração da guarda municipal--o tradicional papão dos revoltosos. Os
chefes de grupo eram os srs. Rodrigues Simões, intransigente republicano
de velha data; Antonio Francisco Santos, dr. Carlos Amaro, com larga
folha de serviços á causa; professor Antonio Ferrão, um conjurado
impenitente; Alberto Meyrelles e um empregado da Companhia das Aguas de
nome Sousa. Todos os chefes eram acompanhados d'um certo numero de
revolucionarios, armados de pistolas, revolvers ou bombas de dynamite e
embora a sua acção parecesse á primeira vista apenas limitada ao
_incendiar do rastilho_, a verdade é que do seu exito dependia o exito
da insurreição e a grande massa de conspiradores assim disseminada pela
cidade arriscava-se, mais facilmente do que qualquer outra, a soffrer as
consequencias funestas de um primeiro embate com as forças fieis á
monarchia.
Ainda havia, segundo o plano elaborado pelos officiaes citados--plano
que se concertava admiravelmente com as indicações da organisação civil
do movimento--um certo numero de revolucionarios que se entenderiam, na
madrugada propria e nos diversos quarteis, com os elementos
reconhecidamente republicanos ali existentes. Eram elles o tenente Pires
Pereira, o barbeiro Andrade, José Madeira, o empreiteiro Oliveira, o
ex-sargento Carvalho, os srs. Godinho e Abrantes e os irmãos Lamas, de
Alcantara. Infantaria 5 devia atacar a força da guarda municipal
aquartelada no Carmo, recebendo de caçadores 5 metralhadoras e de
artilharia 1 as peças indispensaveis a um resultado seguro. O ataque
seria feito pelo largo de S. Roque, rua da Trindade e largo da
Abegoaria. Com infantaria 5 cooperaria o regimento de engenharia, que se
esperava sahisse do quartel sob o commando do tenente Alvaro Pope. O
quartel de marinheiros seria invadido pelo 1.º tenente Parreira,
acompanhado de alguns officiaes de marinha e d'um grupo de
revolucionarios de Alcantara. O almirante Candido dos Reis iria com
outros officiaes a bordo do _D. Carlos_ e dos outros navios de guerra
para, com a sua presença, a sua coragem e o prestigio do seu nome,
dissipar quaesquer hesitações de momento.
Os barcos que tinham sahido de Lisboa, ao falhar a tentativa
revolucionaria dos meiados de agosto--por effeito da denuncia que o
chefe do gabinete regenerador recebera de determinado governador civil
fundadamente alarmado com os preparativos de insurreição que
surprehendera na capital do seu districto--voltaram ao fundeadouro no
Tejo em meiados de setembro. Pouco depois, a marinhagem enviava ao
Directorio e ao _comité_ executivo de Lisboa delegados especiaes e
declarava peremptoriamente que não tornava a sair a barra emquanto não
fôsse proclamada a Republica ou se procurasse, pelo menos, tentar abalar
o regimen monarchico. Essa resolução era inadiavel. O cabo Antonio, um
marinheiro decidido e leal, chegou a dizer no Directorio a José Barbosa
e Innocencio Camacho:
--Temos que sahir para a revolta custe o que custar. Perseguem-nos a
bordo mais do que nunca e eu e os meus camaradas estamos resolvidos ao
ultimo sacrificio, mesmo a um fuzilamento provavel. Não é possivel
prolongar a situação...
CAPITULO XV
Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo