Em 14 de junho de 1909 a Maçonaria effectua uma sessão magna, «convocada

expressamente para se deliberar sobre a opportunidade d'uma obra, que se

esboça vagamente ser a Republica, mas que não é revelada nos seus traços

intimos á quasi totalidade dos irmãos». N'essa reunião, fala o

grão-mestre, o sr. dr. José de Castro, para propôr a nomeação d'um

_comité_ incumbido de executar ou, melhor, de preparar a execução da

obra citada. A assembléa toma conhecimento da proposta e o grão-mestre

reserva-se o direito de nomear elle proprio o _comité_ cuja formação

deve até ao ultimo momento constituir assumpto da maior reserva.

Impõe-se o segredo rigoroso, porque, a dentro da Maçonaria, existem

elementos de pouca confiança n'um tão grave emprehendimento.

O _comité_, que toma o nome de Commissão de Resistencia, fica composto,

além do dr. José de Castro, por Simões Raposo, Machado Santos, Miguel

Bombarda, Francisco Grandella e Cordeiro Junior. O seu primeiro cuidado

é o de approximar-se do Directorio do partido republicano, o de

estabelecer contacto com esse organismo para conjugar com elle os

esforços tendentes ao derrubar da monarchia. O Directorio acceita sem

restricções a intervenção do Grande Oriente, e, prévio accordo, o

_comité_ maçonico trata de agrupar, de disciplinar, de aproveitar os

organismos revolucionarios já então creados e que trabalham n'um

isolamento de pouca ou nenhuma proficuidade. Essa aggregação é feita com

extrema cautela. O _comité_ chama ao seu ambiente os elementos de que o

proprio Directorio dispõe, os da Carbonaria, representada pelo

engenheiro Antonio Maria da Silva, os do grupo Accacia, representado por

Martins Cardoso e os da Joven Portugal, a que pertence, entre outros, o

dr. Carlos Amaro. E uma vez combinada a acção commum, diligenciam passar

á fieira todos os individuos que se lhes affiguram capazes d'um esforço

em prol da Republica.

Ventila-se depois a questão do dinheiro. Uma revolução, nos tempos

modernos, não se faz sem essa móla imprescindivel. Ha necessidade de

comprar armamento e de subvencionar outras despezas e o cofre do

Directorio republicano não tem o sufficiente para tal empreza. Logo que

se pensa a sério na realisação do movimento, constitue-se uma commissão

financeira, inteiramente separada da commissão administrativa do partido

e formada por Antonio José d'Almeida, Bernardino Machado, Magalhães

Basto e José Barbosa. Constituida a commisssão, trata-se de calcular o

que custará o movimento.

Quinhentos contos? Quatrocentos contos? Trezentos?...

As opiniões variam e um dia em que isso se discute com um certo calor,

Affonso Costa apresenta uma base orçamental um pouco mais modesta:

setenta contos. Faz um calculo identico ou approximado aos de João

Chagas e almirante Candido dos Reis. Setenta contos, na opinião de

qualquer d'elles, deve chegar para as despezas da Revolução. Falta fixar

o modo de obter essa quantia. Como? Sacando antecipadamente sobre a

Republica? É processo que não encontra quem o defenda. Um emprestimo? De

todos os alvitres estudados é este, afinal, o que concita um maior

numero de adhesões. Mas, ainda assim, a idéa não tarda a ser posta de

parte e a commissão financeira assenta que será relativamente facil

reunir cem contos por intermedio de 25 correligionarios dedicados, cada

um d'elles procurando obter quatro contos entre os seus amigos pessoais.

A commissão financeira, porém, nunca funcciona regularmente e, após

diversas hesitações, Eusebio Leão, José Relvas, José Barbosa e

Innocencio Camacho deliberam formar o cofre revolucionario apenas com os

donativos secretos. Essa deliberação obedece talvez á velha idéa de que

_dinheiro não falta_. E como _dinheiro não falta_, José Barbosa,

Innocencio Camacho, Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da

Silva, reunindo-se frequentemente no escriptorio do _Estado de S.

Paulo_, occupam-se dedicadamente da acquisição de espingardas, pistolas

e revolvers. Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da Silva

descobrem a breve trecho o que elles chamam a solução do problema.

Encontra-se á venda um lote de 33:000 espingardas de bom modelo que a

Suissa acaba de substituir no armamento do seu exercito. Cada uma sahe

pelo preço de 3$000 réis. É de graça... Pelos calculos feitos a

Revolução Portugueza necessita de 5:000 armas, o que equivale a uma

somma approximada de dezeseis contos de réis. Toca a comprar. _Dinheiro

não falta_... Innocencio Camacho e José Barbosa escrevem a Antonio José

d'Almeida, solicitando-lhe a incumbencia de effectuar a transacção.

Antonio José d'Almeida accede de bom grado e aguarda n'uma capital

europeia que em Lisboa se reuna o dinheiro indispensavel.

Mas os dias passam, o dinheiro não apparece e a transacção não se

effectua. Uma parte do lote suisso vae para o Paraguay, onde d'ahi a

mezes serve n'uma revolta de caracter partidarista, e Antonio José

d'Almeida regressa a Lisboa sem ter conseguido remediar de qualquer modo

o _fiasco_. Isto, comtudo, não entrava seriamente a organisação do

movimento. Mantendo-se a ideia de alimentar o cofre revolucionario com

os donativos secretos, os organisadores tratam de, com a maior reserva,

expedir umas cartas aos elementos republicanos de reconhecida abnegação

e, dentro de semanas, de dias até, começam a affluir diversas quantias

que Eusebio Leão, como thesoureiro, escriptura de maneira symbolica. O

cofre-forte da Revolta é uma mala de viagem que Eusebio Lião, cauteloso

e meticuloso, faz guardar todos os dias no estabelecimento de modas de

seu irmão Ramiro e sem que este o saiba... Á medida que o dinheiro

afflue, vae-se realisando a compra de armamento, por pequenas porções,

ficando depositario do material o negociante Martins Cardoso.

[Ilustração: A Bandeira da Revolução]

Esta colheita secreta de dinheiro dá origem a varios incidentes

curiosos. José Barbosa narra d'este modo um d'esses incidentes:

«Um dia Manuel Bravo foi ao meu escriptorio confiar-me para a Revolução

200$000 réis do negociante Alves de Mattos. No dia immediato procurou-me

o socio d'esse negociante, Alexandre Paes, e, falando com animação

desusada, queixou-se de que Alves de Mattos desdenhara do proposito em

que estava de contribuir para o cofre revolucionario e que, para provar

ao socio que tambem possuia bens de fortuna, subscreveria para o mesmo

cofre com 1:000$000 de réis. Mas, na realidade, só me confiou, deante do

socio, a decima parte d'essa quantia e sahiu do meu escriptorio

agitadissimo e monologando cousas phantasticas. Á noite tive noticia de

que enlouquecera. Dias depois succedeu-me ir ás 10 e 50 á estação do

Rocio aguardar, na companhia de João Chagas, a chegada d'um

correligionario que vinha do Porto. Mal o comboio parou, vejo o Paes

sahir alvoroçado d'uma das carruagens e, defrontando-me, desatou a

alludir, em altos gritos, ao supposto donativo de 1:000$000 réis que

queria fazer ao cofre revolucionario. Perto andava um cabo de policia e,

segundo me contaram depois, o infeliz já dentro do comboio havia

affirmado em alto e bom som essa contribuição generosa. A imprudencia do

louco podia custar-nos cara.»

A provincia tambem se desentranha em dedicações extraordinarias para

alimentar o cofre revolucionario. Estevão Pimentel, Manuel Alegre, Malva

do Valle, Ricardo Paes e os republicanos de Alhandra, Villa Franca,

Portalegre, Porto e do Algarve tambem fornecem muitas armas.

Independentemente da actividade de todos esses correligionarios, muitos

outros se armam á sua custa e armam os amigos, comprando revolvers e

pistolas em Hespanha, passando-as para Portugal dentro de malas de mão,

arriscando descuidosamente a liberdade. Do Brazil os organisadores do

movimento recebem, por egual, valioso auxilio monetario e ainda já

depois de proclamada a Republica vem a caminho de Lisboa determinada

quantia ali angariada por intimos de José Barbosa.

N'um determinado momento, o almirante Candido dos Reis foi percorrer a

provincia para avaliar com segurança da situação creada pela organisação

revolucionaria Acompanhou-o n'essa missão o official de caçadores sr.

Pires Pereira. No regresso, a impressão do illustre marinheiro era tão

favoravel ao desenlace feliz do movimento que foi decidido desde logo

apressal-o e sahir á rua dentro de breve espaço de tempo. Ninguem

duvidava do exito. Tudo corria ás mil maravilhas. Os elementos

revolucionarios manifestavam um ardor que era impossivel conter.

CAPITULO XIV

Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas revolucionarias

O _comité_ de resistencia formado pela Maçonaria reunia, no emtanto, em

casa e no escriptorio do dr. José de Castro, nos Makavencos, no Gremio

Lusitano, no Centro de S. Carlos, em casa do sr. Francisco Grandella,

etc. Dos trabalhos d'esse _comité_, conta-nos o sr. Simões Raposo o

seguinte:

«A partir de determinado momento, as reuniões do _comité_ de resistencia

e seus adherentes passaram a effectuar-se diariamente no centro de S.

Carlos, presididas pelo dr. Miguel Bombarda que, diga-se desde já, foi

sempre d'uma assiduidade notavel, d'uma dedicação sem limites.

«Ao cabo d'algum tempo de preparação o _comité_ principiou a organisar

as suas forças de combate, distribuindo-as segundo um plano

cuidadosamente traçado e marcando bem nitidamente o papel que cada um

dos grupos de revoltosos devia desempenhar no momento propicio. No

emtanto, as adhesões chegavam-nos, sempre no meio de caloroso

enthusiasmo, e todas as noites, n'um gabinete do Centro de S. Carlos,

soldados, cabos e sargentos, populares á mistura, affirmavam

peremptoriamente a necessidade da Revolução, dispostos até a verdadeiros

actos de loucura. Candido dos Reis não assistia a essas vibrações da

alma revolucionaria mas palpitava-as atravez d'uma porta que separava

duas salas do centro e assim andava perfeitamente orientado sobre a

marcha crescente da nossa propaganda».

N'essa altura já estava constituido o _sub-comité_ militar formado por

Candido dos Reis, Fontes Pereira de Mello, coronel Ramos da Costa e

capitão Palla. Fixou-se uma data para a Revolução: a de 15 de julho de

1910. Mas, chegado o momento soube-se com alvoroço que o segredo dos

conspiradores fôra descoberto e que as auctoridades militares iam tomar

providencias para impedir que a revolta estalasse. O movimento foi adiado.

«O adiamento--refere-nos o sr. José Barbosa--impressionou

desagradavelmente os officiaes que estavam no segredo do _complot_. No

dia immediato, vi alguns d'elles arrepelarem-se com sinceridade,

verterem até lagrimas de raiva por se ter contra-mandado a revolta.

Carlos da Maia, official de rara valentia, entrou no meu escriptorio

agitadissimo e colerico, disposto, apesar de tudo, a tentar uma

sublevação de marinheiros. Estes, por seu lado, tambem não cessavam de

solicitar, de pedir que apressassemos o inicio do movimento, do

contrario suicidar-se-hiam n'uma tentativa de exito improvavel, sahindo

á rua contra todas as indicações dos organisadores da Revolução. A

propaganda de alguns mezes aquecera-os ao rubro».

Depois de 15 de julho, multiplicaram-se as reuniões de officiaes em

diversos pontos da cidade--na redacção das _Cartas Politicas_ no Arco do

Bandeira juntaram-se por vezes vinte e mais representantes da guarnição

de Lisboa--fez-se outra compra de armamento e, aproveitando-se a energia

do nucleo de militares que desde o começo haviam mantido a mais completa

adhesão á Republica, produziu-se um trabalho galopante que fatalmente

devia aluir com rapidez as instituições monarchicas.

«A primeira quinzena de agosto--affirma João Chagas--foi empregada

n'essa corrida veloz para a revolução. E tão bem e tão utilmente ou

proficuamente se trabalhou que tornámos a fixar data para o desenrolar

do movimento: a noite de 19 para 20 d'esse mez. E fixámol-a, porque,

segundo a opinião dos officiaes de marinha que nos acompanhavam, era a

noite em que a bordo do _D. Carlos_ se dava um conjuncto de

circumstancias absolutamente vantajoso para a revolta. N'essa noite tudo

concorreria para que a victoria fosse alcançada sem grandes difficuldades.

«Comtudo, á ultima hora, alguem denunciou o movimento ao chefe do

gabinete regenerador. E succedeu o que todos sabem: ordem aos navios de

guerra para sahirem a barra, prevenções nos quarteis, a policia vigiando

rigorosamente a cidade, etc. O Teixeira de Sousa teve perfeito e

minucioso conhecimento do _complot_ e informaram-no com verdade do

caracter que o revestia. Mas, para não desmentir os boatos postos em

circulação de que o governo contava n'esse momento com um falso apoio

dos republicanos, calou-se e habilmente attribuiu as medidas de rigor

que tomára á necessidade de suffocar uma _intentona_ reaccionaria».

Este segundo adiamento, longe de fazer esmorecer os organisadores da

revolta, produziu effeito diametralmente opposto. N'uma reunião especial

no Centro de S. Carlos, levada a effeito no domingo 25 de setembro, a

que assistiram, entre outros, Candido dos Reis, o capitão Sá Cardoso e o

tenente Helder Ribeiro, o _comité_ de resistencia submetteu á apreciação

dos representantes do _comité_ militar um resumo das suas forças

disponiveis, com as indicações dos locaes em que deviam operar e da

funcção attribuída a cada grupo de revoltosos, e esses representantes

estudaram minuciosamente o trabalho da organisação civil que, diga-se em

abono da verdade, embora não tivesse sido reproduzido em cifra no papel,

era absolutamente incomprehensivel para os profanos. N'outra reunião

effectuada no consultorio do dr. Eusebio Leão, Candido dos Reis affirmou

aos membros do Directorio que havia elementos em quantidade sufficiente

para tentar a queda da monarchia e em successivas conferencias os

officiaes que a ellas compareceram affirmaram a mesma coisa, dando a

certeza de que a Republica em breve seria proclamada.

Precisamos voltar atraz para registar um pormenor de organisação, que

José Barbosa descreve n'estes termos:

«Em outubro de 1909 a propaganda tomou maior incremento. Na primeira

reunião do Directorio e da Junta Consultiva, realisada n'esse mez, como

os marinheiros continuassem a affirmar que se sublevariam a breve trecho

e fosse necessario entrar a fundo nos trabalhos de preparação da

revolta, puz a questão com toda a franqueza: o partido republicano, no

caso d'uma insurreição naval, não abandonaria os insurrectos e antes

lhes daria a sua solidariedade moral e material. O assumpto foi

debatido. Affonso Costa apoiou-me energicamente e todos concordámos em

que era indispensavel atacar o regimen monarchico n'um golpe decisivo. A

Junta Consultiva tambem se pronunciou pela acção immediata e d'ahi a

dias tomámos conhecimento do inquerito feito pelo _comité_ executivo aos

officiaes republicanos, iniciando-se logo após esse inquerito as

ligações entre os elementos que se suppunham isolados. João Chagas e

Candido dos Reis trabalharam n'essa altura com uma febre indescriptivel.

Dia a dia, João Chagas reunia nas _Cartas Politicas_ tres e mais

officiaes de marinha e do exercito de terra que, ao entrarem em

contacto, se surprehendiam immenso de ver ao lado da Republica camaradas

do mesmo regimento ou do mesmo navio que consideravam monarchicos

retintos ou pelo menos indifferentes.

«Essa operação aggregadora representa um esforço extraordinario.

Coincidiu com uma phase activissima da Carbonaria, que contava no seu

seio, por interferencia propagandista do engenheiro Silva, soldados,

cabos e sargentos de toda a guarnição da capital. Precisavamos em cada

regimento, ou em cada navio, relacionar os officiaes republicanos com as

praças adherentes. Procedeu-se cautelosamente a essa ligação, pondo

primeiro em contacto um official com um sargento e depois o sargento com

um determinado numero de cabos e soldados.»

O engenheiro Antonio Maria da Silva completa assim o relato de José

Barbosa:

«Os officiaes passam depois a entender-se directamente com os seus

subalternos e estão permanentemente em contacto com carbonarios, a quem

dão indicações e de quem colhem informações rigorosas para se

confeccionar o plano da revolta.

«Indigitam-se para o elaborar os officiaes: Sá Cardoso, Helder Ribeiro e

Aragão e Mello. É preciso, todavia, dar aos officiaes a certeza material

das forças de que dispomos, e eu fico encarregado de os pôr em contacto

com essas forças. Organisam-se, por isso, verdadeiras revistas

militares. Aos soldados são dadas as respectivas senhas. Uma d'ellas é:

_pontapé na bola_. A _bola_, já se vê, é a monarchia com o seu farto

recheio de escandalos: muito _bojuda_, _brigantinamente bojuda_. De uma

vez, Aragão e Mello e o carbonario Alberto Meyrelles assistem no jardim

da parada de Campo d'Ourique ao desfile de 150 homens de infantaria 16,

dizendo cada um d'elles ao passar: _pontapé na bola_... Alguns até

cantarolavam disfarçadamente a senha. Helder Ribeiro fica encantado com

os resultados colhidos. O tenente José Ricardo Cabral e o soldado

Domingos passam revista aos postos fiscaes; Helder Ribeiro e o

pharmaceutico Abrantes revistam infantaria 1, lanceiros e cavallaria 4,

o tenente Ochôa infantaria 2 e Americo Olavo, caçadores 5.

«No Rocio realisa-se uma revista em noite de musica. Um verdadeiro

escandalo nas barbas da policia. N'essa noite vão para o largo do Caldas

conferenciar diversos elementos revolucionarios. Aragão e Mello passa

ainda em revista engenharia. D'estas experiencias resulta, como não

podia deixar de ser, adquirirem os officiaes a certeza de que, com os

elementos de que dispõem, a revolução tem todas as probabilidades de

triumpho.»

Entretanto, os elementos da classe civil prodigalisavam-se em reuniões,

em conciliabulos secretos, onde a palavra Revolução animava, todos os

assistentes, impellindo-os até ao sacrificio da propria vida. A

atmosphera carregava-se dia a dia e de maneira que já ninguem pensava em

adiar o movimento nem em demorar-lhe a marcha fulgurante. Era

absolutamente necessario abrir a valvula, porque, de contrario, a

explosão inevitavel redundaria em prejuizo dos que, com tanto amor e

tanta coragem, haviam projectado a emancipação da nacionalidade. Candido

dos Reis e Miguel Bombarda sustentavam-se corajosamente na brecha. Das

provincias vinham noticias calorosas, que demonstravam a anciedade dos

republicanos pelo rebentar da revolta. Era necessario fixar uma data,

apressar, custasse o que custasse, o advento do novo regimen. O balanço

dado pelo _comité_ executivo de Lisboa ás forças de que o partido

dispunha garantia a certeza da victoria.

Essa impressão de anciedade era facilmente apprehendida por todos os

organisadores do movimento. Até mesmo os temperamentos mais calmos, os

homens cujo sangue-frio repellia imprudencias perigosas, sentiam bem de

perto a necessidade urgente de se fazer _qualquer coisa_, que puzesse

breve termo a uma tal situação.

No dia 25 de setembro, pela 1 hora da tarde, José Barbosa e Innocencio

Camacho encontraram-se no campo de Sant'Anna com o general Encarnação

Ribeiro. Á primeira pergunta que os dois lhe dirigiram--o movimento é

viavel?--o denodado militar respondeu-lhes com uma affirmação

cathegorica. Restava organisar o plano de combate.

--E em quantos dias se arranja esse plano? inquiriram José Barbosa e

Innocencio Camacho.

--O maximo, oito.

[Ilustração: Bombardeamento do Paço das Necessidades (Janella do quarto

do rei)]

Em face d'esta asseveração nitida, os organisadores do movimento

resolveram incumbir immediatamente a elaboração do plano ao general

Encarnação Ribeiro, capitão Sá Cardoso, official de marinha Aragão e

Mello e tenente Helder Ribeiro. Para a acção civil dividiu-se a cidade

de Lisboa em varios sectores, correspondendo essa divisão á importancia

dos diversos nucleos da Carbonaria. O papel d'esses elementos consistia

essencialmente em facilitar a revolta nos quarteis e evitar a

agglomeração da guarda municipal--o tradicional papão dos revoltosos. Os

chefes de grupo eram os srs. Rodrigues Simões, intransigente republicano

de velha data; Antonio Francisco Santos, dr. Carlos Amaro, com larga

folha de serviços á causa; professor Antonio Ferrão, um conjurado

impenitente; Alberto Meyrelles e um empregado da Companhia das Aguas de

nome Sousa. Todos os chefes eram acompanhados d'um certo numero de

revolucionarios, armados de pistolas, revolvers ou bombas de dynamite e

embora a sua acção parecesse á primeira vista apenas limitada ao

_incendiar do rastilho_, a verdade é que do seu exito dependia o exito

da insurreição e a grande massa de conspiradores assim disseminada pela

cidade arriscava-se, mais facilmente do que qualquer outra, a soffrer as

consequencias funestas de um primeiro embate com as forças fieis á

monarchia.

Ainda havia, segundo o plano elaborado pelos officiaes citados--plano

que se concertava admiravelmente com as indicações da organisação civil

do movimento--um certo numero de revolucionarios que se entenderiam, na

madrugada propria e nos diversos quarteis, com os elementos

reconhecidamente republicanos ali existentes. Eram elles o tenente Pires

Pereira, o barbeiro Andrade, José Madeira, o empreiteiro Oliveira, o

ex-sargento Carvalho, os srs. Godinho e Abrantes e os irmãos Lamas, de

Alcantara. Infantaria 5 devia atacar a força da guarda municipal

aquartelada no Carmo, recebendo de caçadores 5 metralhadoras e de

artilharia 1 as peças indispensaveis a um resultado seguro. O ataque

seria feito pelo largo de S. Roque, rua da Trindade e largo da

Abegoaria. Com infantaria 5 cooperaria o regimento de engenharia, que se

esperava sahisse do quartel sob o commando do tenente Alvaro Pope. O

quartel de marinheiros seria invadido pelo 1.º tenente Parreira,

acompanhado de alguns officiaes de marinha e d'um grupo de

revolucionarios de Alcantara. O almirante Candido dos Reis iria com

outros officiaes a bordo do _D. Carlos_ e dos outros navios de guerra

para, com a sua presença, a sua coragem e o prestigio do seu nome,

dissipar quaesquer hesitações de momento.

Os barcos que tinham sahido de Lisboa, ao falhar a tentativa

revolucionaria dos meiados de agosto--por effeito da denuncia que o

chefe do gabinete regenerador recebera de determinado governador civil

fundadamente alarmado com os preparativos de insurreição que

surprehendera na capital do seu districto--voltaram ao fundeadouro no

Tejo em meiados de setembro. Pouco depois, a marinhagem enviava ao

Directorio e ao _comité_ executivo de Lisboa delegados especiaes e

declarava peremptoriamente que não tornava a sair a barra emquanto não

fôsse proclamada a Republica ou se procurasse, pelo menos, tentar abalar

o regimen monarchico. Essa resolução era inadiavel. O cabo Antonio, um

marinheiro decidido e leal, chegou a dizer no Directorio a José Barbosa

e Innocencio Camacho:

--Temos que sahir para a revolta custe o que custar. Perseguem-nos a

bordo mais do que nunca e eu e os meus camaradas estamos resolvidos ao

ultimo sacrificio, mesmo a um fuzilamento provavel. Não é possivel

prolongar a situação...

CAPITULO XV

Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 7 / 14 段