O dr. Maximo Brou procurou desfazer essa apprehensão, argumentando

risonho com a belleza do dia--á 1 e 30 da tarde o sol inundava a cidade

de luz faiscante--mas o professor Buiça insistiu na previsão e d'ahi a

pouco um silencio melancholico amortalhou o ambiente. Ás 5 e tal, quando

o dr. Maximo Brou soube no Martinho que o rei Carlos fôra alvejado no

Terreiro do Paço, não poude conter-se, e recordando o que ouvira no

Gelo, exclamou para uns amigos:

--O Buiça não errou a pontaria!...

E não errara, com effeito. Até ha pouco, ainda se asseverava

convictamente que o primeiro regicida a atacar a carruagem real fôra o

Alfredo Costa e que o Buiça se limitara a secundar-lhe o gesto. Não

succedeu assim. O professor é que atirou primeiro, collocando-se no meio

da rua e visando serenamente o pescoço do rei Carlos que emergia da

capota do vehiculo. Depois, a policia postada do lado das arcadas do

ministerio da fazenda disparou sobre elle varios tiros de revolver,

emquanto mais adiante Alfredo Costa investia contra o lado direito da

carruagem.

Não admira, por isso, que o Buiça ficasse na chronica da execução como o

principal dos regicidas e que a opinião extrangeira o houvesse

immediatamente collocado em plano superior ao dos seus companheiros. De

resto, o nome do professor soou logo no dia 2 de fevereiro de modo

bastante suggestivo para o grande publico. Por outro lado, a

circumstancia de ter empunhado e desfechado uma carabina--arma que

exige, na sua utilisação, sangue-frio extraordinario; e a aureola que um

jornalista extrangeiro lhe teceu, evocando deante do seu cadaver na

Morgue uma vida de apostolado e de martyrio, o sacrificio da familia,

dos filhos votados á orphandade por amor da libertação do paiz; uma e

outra coisa concorreram egualmente para que elle alcançasse uma

supremacia de heroicidade que a historia futura indubitavelmente

conservará.

Mas, pergunta-se agora: os cinco homens que na tarde de 1 de fevereiro

se abalançaram ao regicidio tinham unicamente em mira supprimir um dos

seus semelhantes--o rei ou o dictador? O que previam afinal sobre as

consequencias do seu acto? Admittindo a hypothese de que pensavam apenas

em matar o dictador (e essa hypothese, repetimos, é a mais verosimil)

diremos que obedeciam naturalmente ao seguinte raciocinio:

[Ilustração: O Directorio da Revolução]

Attingido o primeiro ministro do rei Carlos, a policia, se os apanhasse

em flagrante, procuraria logicamente poupar-lhes as existencias,

esperançada em que qualquer d'elles, succumbindo cedo ou tarde ante o

juiz investigador, revelaria todos os pormenores do _complot_. Apoz a

suppressão de João Franco, rebentaria irremissivelmente a revolta e a

Republica, uma vez triumphante, veria com olhos differentes dos dos

monarchicos o arrojo e decisão de quem lhe facilitara a proclamação por

uma maneira tão notavel. O proprio Buiça, como n'outro logar registamos,

contava em que o degredo de Timor seria o mais provavel dos castigos que

sobre elle incidiria no momento opportuno.

CAPITULO IX

As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente

Falemos da carbonaria, a grande organisação secreta que representou um

papel importante na revolta de 4 e 5 de outubro. Tão importante, que

d'ella sahiram todos os grupos de populares armados que auxiliaram o

triumpho e um dos seus membros, da mais elevada cathegoria dentro da

associação vinculou indelevelmente o nome e os feitos á implantação da

Republica Portugueza.

A Carbonaria vinha de longe. Ha quem supponha, talvez, que ella nasceu

propositadamente para a preparação do 28 de janeiro. Não é exacto. Em

1893 já se falava vagamente na existencia d'essa organisação e em 1894

um bom nucleo de estudantes conimbricenses realisava nas margens do

Mondego, pela calada da noite, reuniões secretas com todo o cerimonial

mysterioso das chamadas _lojas revolucionarias_, independentes da

maçonaria regular.

A _gréve do grelo_, occorrida em Coimbra ahi por alturas de 1905-1906,

revelou pela primeira vez ao publico o funccionamento da Carbonaria

n'aquella cidade. Um jornal de Lisboa teve a idéa de entrevistar um dos

estudantes mandados sahir de Coimbra por essa occasião e elle, com uma

franqueza digna de nota, pôz a questão tal qual se lhe affigurava

veridica e irrefutavel. Explicou a interferencia que a Carbonaria

certamente poderia ter tido na agitação da população conimbricense, a

frequencia das reuniões no Choupal, estrada da Beira e para os lados de

Santa Clara, em recantos ignorados da policia e dos espiões monarchicos

e explicou... outras coisas mais. No dia seguinte, um grupo de

estudantes, alheio a essa organisação de insubmissos, apressou-se a

desmentir na imprensa as affirmações d'esse seu collega. A Carbonaria

sorriu, encolheu os hombros e o incidente não tardou a esquecer. E foi

bom que assim succedesse, para não reavivar as diligencias policiaes

effectuadas a proposito do apedrejamento proximo de Coimbra, do comboio

que transportava a Lisboa o negociador d'um famigerado convenio financeiro.

Mais tarde, Lisboa vê despontar _officialmente_ a Carbonaria para as

luctas politicas, embalada pela fé ardente, a tenaz propaganda de Luz

d'Almeida. É o momento em que a idéa inicial d'um nucleo forte,

aguerrido, de acção immediata e directa contra as instituições

monarchicas, apparece tomando corpo, adquirindo um relevo fóra do

commum. Da maçonaria regular, a que Luz d'Almeida já dava, n'essa época,

o melhor do seu esforço intelligente, sahe como que um filamento, que é

o rastilho a applicar a uma bomba monumental. Esse filamento avulta,

insinua-se vagarosamente na camada popular, contorce-se em evoluções

cautelosas e discretas e a Associação Carbonaria Portugueza, até então

uma sombra de resistencia nacional ao despotismo, á tyrannia do throno e

dos governantes deshonestos, começa a illuminar o futuro, projectando

sobre a treva que o envolve uma luz viva e inapagavel. A nova

aggremiação secreta não tem ainda aquelle nome. Tem outro bem differente

e não tarda a ser apadrinhada por um dos mais populares caudilhos

republicanos.

Luz d'Almeida multiplica-se na conquista de elementos revolucionarios. E

é curioso observar como esse homem calmo, d'uma calma que se confunde

com a indolencia, desenvolve uma energia rara, uma actividade

incomparavel. Conhecemol-o ha quinze annos, quando, ao lado d'um

companheiro inseparavel, Ferreira Manso, elle se demorava todas as

noites pelo Gelo em propaganda discreta, mas infatigavel. Sempre sereno,

sempre conciso, vagaroso no andar, conservando no rosto uma

impassibilidade caracteristica, o olhar incidindo certeiramente sobre o

pensamento de qualquer dos seus interlocutores, Luz d'Almeida é o typo

por excellencia do homem de acção que, uma vez lançado n'uma idéa de

combate, vae direito ao fim sem hesitações, sem pressas inuteis, sem

medo, sem precipitação. O gesto é sobrio e o vestuario tambem. Não faz

alarde da sua decisão nem da sua palavra persuasiva. É methodico,

correcto e cauteloso e, dentro d'essa couraça de apparente indifferença,

esboça os planos mais audaciosos, resolve as situações as mais difficeis.

Na primeira phase da Carbonaria é com o dr. Antonio José d'Almeida que

elle collabora assiduamente. A _Floresta_--o nome por que é então

conhecida a poderosa aggremiação secreta--conta a breve trecho milhares

de adeptos. Luz d'Almeida inicia-os dia a dia n'uma progressão

assombrosa. De sorte que, antes do 28 de janeiro, elle e o dr. Antonio

José d'Almeida adquirem a certeza absoluta de que é justificado confiar

ao elemento popular uma boa parte da execução da revolta. E se é certo

que na preparação d'aquelle movimento os grupos organisados de civis não

apparecem ainda, como na preparação do 4 e 5 d'outubro, totalmente

filiados na Carbonaria, não o é menos que a expansão da associação

secreta já é tão vasta e tende tão nitidamente a augmentar que Luz

d'Almeida, tres dias após o regicidio, inicia d'uma assentada cerca de

cincoenta conjurados.

Por essa altura, ao lado do vigoroso e tenaz propagandista, figuram

tambem dois revolucionarios de temperamento bem diverso, mas

devotadissimos ambos á causa da liberdade: Machado dos Santos e o

engenheiro Antonio Maria da Silva. As suas primeiras entrevistas

realisam-se no jardim de S. Pedro d'Alcantara. É ahi que esses tres

homens combinam de começo a forma de dar uma orientação absolutamente

pratica á Carbonaria, formando entre si o _Comité Alta Venda_ ou,

melhor, a cabeça dirigente da organisação secreta. Depois passam a

reunir em casa de Machado dos Santos, na rua José Estevão, casa que a

policia assalta uma bella noite, disfarçando esse assalto com uma proeza

de gatunos, e decidem levar aos quarteis a semente revolucionaria. É,

repetimos, no periodo de maior agitação popular provocada pela politica

nefasta do regimen monarchico. Rara é a noite em que se não inicia na

Carbonaria uma duzia de adeptos pelo menos.

[Ilustração: Innocencio Camacho

Membro substituto do Directorio, em effectividade]

As iniciações divergem no cerimonial. Ha iniciações rigorosas, com todos

os pormenores que constituem a bem dizer uma apertada _fieira_ e tambem

as ha _pró forma_, quando o adepto é sobejamente conhecido e inspira

absuluta confiança. Em qualquer dos casos, porém, o iniciado é sujeito a

um interrogatorio sobre as suas ideias politicas e aquillo de que se

julga capaz de executar no momento propicio. Muitos d'elles affirmam

desde logo as suas disposições para uma acção directa e individual;

outros limitam-se a prometter concurso efficaz n'uma acção collectiva. A

Carbonaria não repelle os que se declaram francamente incapazes d'um

acto isolado, mas que juram--o juramento é obrigatorio para

todos--auxiliar a communidade uma vez chegado o ensejo de luctar contra

a monarchia ou a tyrannia.

Em dado momento surge uma contrariedade. Machado dos Santos, tendo

escripto um artigo violento no _Radical_--jornal fundado e dirigido por

Marinha de Campos--é, dado o seu posto de commissario naval, levado a

conselho de guerra. Os juizes absolvem-no, mas como os inimigos dos

revolucionarios não descansam, conseguem em breve afastal-o de Lisboa,

desterrando-o para o ultramar. Esta contrariedade, porém, não impede que

a Carbonaria progrida a olhos vistos. O _comité Alta Venda_ decide abrir

a primeira _choça_ em Alcantara, bairro que sempre se evidenciou pelo

grande amor á causa, bairro revolucionario por excellencia.

O _comité_ recebe adhesões valiosas e a propaganda fructifica.

Marinheiros, contra-mestres, cabos, sargentos, artifices, operarios,

tudo acode á iniciação. Na conquista d'esses adeptos distinguem-se dois

homens: o _cabo Antonio_ (aliás sargento) e o artifice Carlos Freitas,

que um zelo excepcional caracterisa. Este revolucionario toma sobre os

hombros a ardua tarefa de desdobrar a _choça_ de Alcantara e funda outra

em Valle do Zebro, fornecendo ao _comité_ um plano da escola de torpedos

e varia documentação topographica.

Na _choça_ d'Alcantara, a direcção superior da Carbonaria possue

egualmente elementos civis de modelar actividade: entre muitos, Augusto

Rodrigues, chefe de _barraca_, e José Madeira. Da _choça_ de marinha

sahem elementos de propaganda para junto dos quarteis de infantaria 2 e

caçadores 2. É curiosa a forma por que esses elementos entram nos quarteis:

«A principio--reportamo-nos a uma informação do engenheiro Antonio Maria

da Silva--cada carbonario tinha um _primo_ no quartel; depois, conforme

a necessidade de repetir as entradas, assim ia augmentando o numero de

_primos_. Carbonario houve que, em pouco tempo, se tornou _primo_ de

toda a soldadesca. Naturalmente surgiram desconfianças por parte dos

officiaes, e estas avolumaram-se com a coincidencia do apparecimento

d'um folheto de Luz d'Almeida, intitulado _«Dialogo entre um medico

militar e um «magala»_, que foi largamente distribuido pelos elementos

militares.»

Principiam então as buscas nos quarteis, buscas rigorosas que lançam o

sobresalto no _comité Alta Venda_ por causa da dureza do castigo que os

iniciados certamente soffrem quando descobertos. Mas a dedicação dos

carbonarios é tão grande que os maiores escolhos são transpostos com

exito. Um exemplo: d'uma vez, o official de certo regimento revista a

caixa d'um _magala_ e o clarim que o acompanha na busca descobre o

interessante folheto de Luz d'Almeida. Não hesita; disfarça como pode a

comprometedora descoberta, apanha o folheto e occulta-o no

instrumento... O clarim tambem era carbonario. E assim se consegue que

esse _Dialogo_, d'uma propaganda utilissima, continue a espalhar pelas

forças militares a ideia da revolta, apesar da campanha que os jornaes

reaccionarios lhe movem sem treguas, apontando-o dia a dia ás attenções

e á revindicta do governo monarchico.

Tratando-se da Carbonaria e da sua acção nos movimentos revolucionarios

que caracterisam o ultimo periodo da vida monarchica portugueza, é

necessario, antes de proseguirmos na narrativa que vimos fazendo, abrir

um parenthesis que fixa um ponto de historia. Jà dissemos que Coimbra

antecedeu Lisboa na organisação d'essa força mysteriosa, que devia no 4

e 5 de outubro representar um papel importante. Podemos talvez falar do

assumpto ainda com maior precisão. A Carbonaria de Coimbra teve o seu

periodo aureo--digamos assim--de 1892 a 1894; a de Lisboa soltou os

primeiros vagidos em 1897, fundada por Heliodoro Salgado, Benjamim José

Rebello, Julio Dias, Sebastião Eugenio, José do Valle e varios

democratas de Alcantara, que constituiam o nucleo de resistencia da

chamada _Aliança Revolucionaria_. Pouco depois, a Alliança cedia o passo

á _loja irregular_ Obreiros do Futuro, installada na Rocha do Conde

d'Obidos n'uma casa pertencente ao Credito Predial e que foi alugada a

um dos carbonarios--a José do Valle se não estamos em erro--pelo sr.

José Bello, ao tempo administrador das propriedades d'aquella companhia.

Essa _loja irregular_ congregou durante largo tempo tudo o que Lisboa

possuia n'essa occasião de elementos avançados, radicalissimos. A ella

pertenceram os homens que mais tarde o juiz de instrucção criminal devia

encarcerar como implicados em incidentes da politica interna (que o

grande publico conheceu vagamente sob a designação de attentados

anarchistas) e d'ella sahiram resoluções vigorosas cuja descoberta o

_ex-irmão Hoche_ d'essa epoca pagaria por bom preço. Facto digno de nota

e que nos não cançaremos de repetir: a policia teve por vezes nas mãos,

fechados a sete chaves, os meios de esclarecer certos mysterios, de pôr

a nu intrincadas meadas revolucionarias. E não o fez porque? Porque,

para alcançar exito completo, bastava-lhe concatenar habilmente certas

informações. Tinha as informações, recebia denuncias que borboleteavam

em volta da verdade, mas como não dispunha de sangue-frio e de esperteza

sufficientes para as reunir, para as methodisar, disparatava

horrivelmente e, disparatando no começo, ia até final, cega, estupida,

laborando sempre no erro.

Occorre-nos n'este momento um incidente curioso a que é interessante

fazer referencia. A policia um dia--e quem diz policia diz juiz de

instrucção porque de certa altura por diante, desde que o Cyro e os seus

superiores hierarchicos se convenceram de que a engrenagem

revolucionaria não andava resumida aos tantos anarchistas que

enfileiravam na famosa _lista negra_, as diligencias importantes

passaram a ser encaminhadas com o auxilio de _personagens de

cathegoria_--a policia um dia, insistimos, ouviu falar em que um homem

de determinado appellido tomara parte saliente n'um facto que alarmou

Lisboa. Não quiz saber de mais nada. Lançou-se na pista d'um rapaz,

então ausente de Portugal, que usava do mesmo appellido, e forcejou

imbecilmente por trazel-o ás mãos, sem procurar obter a confirmação

absoluta da vaga denuncia. E tão cega, tão absorvida n'essa orientação

errada, que ainda pouco antes de ser implantada a Republica tentava

arrancar d'um prisioneiro politico a confissão de que esse tal rapaz

realmente preponderara na execução do facto alludido... O appellido

denunciado á policia era, effectivamente, o de um revolucionario ligado

intimamente a esse facto; o rapaz que a policia perseguia, embora de

appellido identico e amigo d'um outro que planeara o _complot_ de exito

indiscutivel, não entrara n'esse _complot_ e só d'elle tivera

conhecimento apoz a consumação do facto! É um pouco sybillino, mas é a

verdade...

[Ilustração: José Barbosa

Membro substituto do Directorio, em effectividade]

Outro caso pittoresco revelador da _argucia policial_: Certo dia os

espiões da _Bastilha_ descobriram a existencia d'um deposito de bombas

n'uma casa da Baixa. Prisões, buscas, etc., o juiz de instrucção poz em

scena todo o reportorio do costume. D'ahi a quarenta e oito horas, o

mesmo juiz, por effeito d'uma denuncia, mandou capturar um operario

extrangeiro, que se suspeitava ter no predio onde morava alguns

explosivos devidamente aprestados para uma acção decisiva. A noticia

d'essa captura lançou o alarme nos carbonarios que ainda andavam á

solta. A denuncia era fundada e d'esta vez a policia ia,

indubitavelmente, realisar uma diligencia de absoluto successo.

Tornava-se necessario afastar do predio suspeito as bombas

comprometedoras. Um grupo de homens decididos tomou sobre os hombros tal

encargo e, meia hora antes da policia passar a busca do estylo á casa do

operario, as bombas em questão eram transportadas para logar mais

seguro, atravessando impunemente diversas ruas de Lisboa.

No dia seguinte, o _ex-irmão Hoche_ chamou á sua presença o prisioneiro

e quasi lhe pediu desculpa de o ter incommodado _sem motivo_.

--Eu sempre me quiz parecer--disse o juiz ao operario anarchista--que o

senhor nada tinha com este caso das bombas... Vá descançado e trate de

não se misturar com os incidentes da nossa politica interna. A minha

opinião a seu respeito está formada.

O operario cumprimentou amavelmente o juiz e o juiz esfregou as mãos de

contente, murmurando para o _Sota da praça_:

--Eu bem dizia... este rapaz nada tem com o caso das bombas...

CAPITULO X

Os estudantes militares offerecem o seu concurso á Revolução

A explosão da rua de Santo Antonio á Estrella fez desapparecer a loja

Obreiros do Futuro, porque quasi todos os elementos que a compunham

deram entrada nos calabouços policiaes. Mas assim que a justiça libertou

esses carbonarios, a aggremiação secreta reviveu mais forte do que nunca

e ao lado da Associação Carbonaria Portugueza surgiu uma outra

associação retintamente anarchista, tendendo é certo para o mesmo fim

revolucionario, mas divergindo um pouco nos meios de acção e na

preparação e iniciação dos seus adeptos.

A carbonaria anarchista deu um contingente precioso para a revolução de

4 e 5 de outubro. E justo é dizel-o: _trabalhava_ quasi ás claras.

Alguns dos seus adeptos falavam de bombas e de dynamite como quem se

referia a objectos de uso corrente, a artigos de primeira necessidade. A

policia, entretanto, não ouvia nenhuma d'essas conversas e roçava pelo

perigo com uma inconsciencia extraordinaria. Uma noite, á meza de

determinado café de Lisboa que a tradicção popular apontava como _rendez

vous_ infallivel de exaltados, um anarchista conhecido propoz-se zombar

da espionagem da _Bastilha_. Sacou do bolso do casaco um rolo côr de

chocolate, mostrou-o aos convivas com o ar mais natural d'este mundo e

disse em voz alta, de modo a ser ouvido por um _bufo_ que abancára proximo:

--Sabem o que isto é? É _massa_ para um _foguinho de sala_.

Um dos assistentes duvidou e elle, então, exclamou a sorrir:

--Ah! sim, pois agora vou dizer a verdade... Isto é dynamite!...

Os convivas entreolharam-se receiosos, o _bufo_ espertou as orelhas e

durante alguns segundos fez-se o silencio das grandes occasiões. O

anarchista voltou á carga:

--Querem experimentar?...

O panico augmentou. Os assistentes, como movidos por uma unica mola,

recuaram os bancos d'um metro... O _bufo_ procurou abrigo n'uma outra

meza. O silencio e a anciedade eram de esmagar o mais animoso.

Percebia-se claramente que toda a freguezia do café queria pôr-se a

salvo, mas que toda ella tambem não queria passar por medrosa. O _bufo_,

esse, pingava suor por todos os póros.

O anarchista, sempre risonho e zombeteiro, pegou cautelosamente no rolo

de chocolate, raspou-o com a unha e destacando uma particula

insignificante collocou-a na pedra da meza. Depois accendeu um phosphoro

e approximou a chamma d'essa minuscula substancia ameaçadora. Houve uma

ligeira crepitação, a chamma lambeu por completo o ingrediente e em seu

logar ficou apenas um pó amarellado que o anarchista sacudiu com um

guardanapo. Nada mais... nem ruido, nem fumo, nem cheiro que se

percebesse sequer ao de leve.

A assistencia readquiriu a tranquilidade, o _bufo_ permitiu se um

sorriso de troça pelo medo que antes experimentára e toda a gente se

convenceu de que o anarchista mystificára o publico do café,

impingindo-lhe qualquer coisa inoffensiva por um dos mais terriveis

explosivos da actualidade. Toda a gente, sem exceptuar o _bufo_... E, no

emtanto, presados leitores, o rolo côr de chocolate era mais do que

sufficiente, quando applicado em circumstancias especiaes, para fazer

voar, feito em migalhas, um quarteirão da rua do Ouro!

Mas... prosigamos na narrativa da propaganda exercida pela Associação

Carbonaria Portugueza. O _comité Alta Venda_, uma vez bem minado o

bairro de Alcantara, passa a Belem e delega no pharmaceutico Abrantes o

encargo de reunir proselytos em infantaria 1, lanceiros 2 e cavallaria

4. As iniciações são ás dezenas entre soldados, cabos e sargentos. Os

officiaes, mais difficeis de conquistar, representam-se na Carbonaria em

reduzido numero. Os de cavallaria, então, possuem tal fama de

_thalassas_ que, durante um largo periodo, ninguem se atreve a

_palpital-os_. Em lanceiros 2 a organisação revolucionaria conta apenas

com um; em cavallaria 4 com dois e um d'elles em commissão fóra do

regimento. O resto permanece fiel á monarchia e ao monarcha.

Após Belem, funda-se uma _barraca_ exclusivamente destinada aos alumnos

militares--cadetes e aspirantes. É uma força disciplinada, consciente,

conhecendo bem o manejo das armas e que tem o merecimento especial de

ser o processo mais facil e seguro de alliciar futuros officiaes. Muitos

dos officiaes novos que mais tarde apparecem implicados na revolta de 4

e 5 de outubro procedem d'essa _barraca_ para onde haviam entrado quando

alumnos da Escola do Exercito. As entrevistas d'esses carbonarios com os

chefes do movimento realisam-se em regra no jardim do Campo de Sant'Anna

ou no jardim do Matadouro. Os alumnos da Escola do Exercito entendem-se

directamente com o ajudante de instructor, tenente de cavallaria José

Ricardo Cabral, e devem constituir, no momento opportuno, um batalhão de

_élite_ armado com as Mausers-Vergueiro existentes na Escola em numero

de quatrocentas. Os da Polytechnica entendem-se com um cadete que, por

seu turno, se relaciona intimamente com o tenente David Ferreira. Este

official distingue os conjurados pela maneira especial como elles lhe

fazem a continencia.

[Ilustração: A barricada na Rotunda]

Um episodio curioso: o maior numero de iniciações de estudantes

militares é feito n'uma casa da rua Paschoal de Mello, residencia d'um

guarda fiscal, dedicadissimo á ideia. N'esse predio a policia captura

tres paisanos filiados na Carbonaria e o irmão do dono da casa; mas não

fareja convenientemente essa _pepinière_ de revolucionarios e os briosos

estudantes que ali se reunem para conspirar conseguem escapar ao rigor

da _Bastilha_.

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 4 / 14 段