ante a vista turva uma boa parte da machinação revolucionaria, embrenhou
se, naturalmente, n'um amontoado de providencias de occasião. Primeiro
que tudo, collocou a mordaça do estylo na bocca da imprensa; ordenou uma
sahida de tropas que equivalia á declaração do estado de sitio, visto
que ellas é que fizeram na madrugada de 29 a policia da cidade; ordenou
rusgas; remetteu para os fortes grandes levas de presos; exhibiu a
cavallaria da municipal em diversos locaes para aterrar, para suffocar o
menor impulso de reacção; e no dia 29 preparou-se para completar a sua
obra de repressão com o famoso decreto que o ministro Teixeira de Abreu
levou a Villa Viçosa á assignatura do rei Carlos.
O governo franquista, não satisfeito com o ter lançado á tôa para
diversas prisões todas as creaturas que a policia encontrou nas ruas da
cidade, momentos depois do ataque á esquadra do Rato, aprestava-se a
expellir pela barra de Lisboa todos os politicos, todos os cidadãos que,
n'uma hora de legitima revolta contra um regimen de perfeita tyrannia,
tinham ousado preparar a queda logica, indispensavel, do throno dos
Braganças. Á atmosphera de pavôr immenso, que creara com essas
perseguições arbitrarias--o governo civil de 28 para 29 encheu-se
rapidamente de populares--queria sobrepôr uma verdadeira mortalha,
embrulhando no famoso decreto todas as individualidades que elle
suppunha, com bom ou mau fundamento, implicadas na conspiração.
Não o conseguiu, porém. E não o conseguiu, porque, mal o decreto foi
publicado no _Diario do Governo_ e antes que o dictador iniciasse a sua
applicação feroz, outra força, e extraordinaria força, com que elle
nunca sonhara, impediu a consecução dos seus designios. O regicidio
travou a corrida vertiginosa para a selvajaria que o gabinete João
Franco desfechara, pretendendo convencer o paiz de que assim cumpria uma
missão patriotica. O regicidio... sim, foi o regicidio que evitou um
authentico attentado brutal, anti-politico, libertou dos ferros da prisão
alguns dos organisadores da revolta de 4 e 5 de outubro e impediu que
muitos dos que implantaram a Republica em Portugal gemessem até essa
data gloriosa no desterro abrasador...
CAPITULO VII
O regicidio--Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?
Chegámos ao ponto menos esclarecido d'este periodo historico. Desde a
tarde de 1 de fevereiro de 1908, em que o rei Carlos e seu filho Luiz
Filippe baquearam no Terreiro do Paço sob as balas desferidas por um
reduzido numero de conjurados, tem-se dito tanta coisa sobre esse
acontecimento que e licito suppôr que a verdade ainda permaneça envolta
em denso veu. Não temos a pretenção de proferir a ultima palavra a tal
respeito; mas ouvimos mais do que uma vez a pessoas bem informadas
referencias ao caso, e essas referencias auctorisam-nos a considerar o
regicidio sob um aspecto muito diverso do que aquelle por que é
vulgarmente conhecido.
A propria policia, apesar de haver conseguido em dado momento obter um
ou dois depoimentos razoaveis, nunca tirou a limpo a veridica historia
do caso. E porque? Pela razão muito simples de que, tendo orientado as
suas diligencias n'um determinado sentido, d'essa orientação nunca se
desviou, apezar de errada. Teimou em ver no regicidio o acto de muitos
conspiradores, longamente deliberado, e d'ahi não se afastou, embora o
seguimento da instrucção do processo por mais de uma vez lhe indicasse o
contrario. Persistiu em ver sobre as cabeças dos regicidas uma
influencia especial, uma sugestão de politicos burguezes, sem coragem
para perpetrarem o acto e confiando esse encargo a creaturas exaltadas,
a libertarios decididos e energicos, e afinal, por aquillo que ouvimos
ás pessoas as quaes já alludimos, nada d'isso existiu senão para ser
utilisado no momento opportuno como uma arma de combate nas mãos dos
reaccionarios.
Comprehende-se perfeitamente que, após o insuccesso do 28 de janeiro e o
conhecimento das medidas ferozes preparadas pelo dictador, a opinião
soffresse immediatamente um accrescimo de odio contra esse governo que
não hesitava em immolar no altar da sua vingança diversos patriotas,
cujo unico crime era o de se terem eximido, ou procurado eximir-se, ás
suas prepotencias. Essa exaltação da opinião devia ter-se reflectido
mais fundamente nos elementos revolucionarios que para o movimento de 28
de janeiro haviam prometido o concurso d'uma acção efficaz sobre os
tyrannos do paiz. Quantos d'esses revolucionarios na madrugada de 31 e
no periodo de horas que decorreu até ao desembarque da familia real no
Terreiro do Paço, não pensaram n'outra coisa que aliás dominava o
espirito até dos mais conservadores: a necessidade de se eliminar o
dictador? Quantos? Essa eliminação estendiam-na naturalmente, sem
hesitações, ao monarcha dos adiantamentos, porque a verdade é que para
um revolucionario que pretendia supprimir uma situação de absolutismo
não bastava, de certo, fazer desapparecer o braço executor do regimen de
oppressão. Tornava-se imprescindivel liquidar a personificação
individual d'esse mesmo regimen. Esta é a verdade e já explica, de
certo, muitos dos episodios que caracterisaram a tragedia do Terreiro do
Paço.
Quem passasse n'aquelle ponto da cidade na tarde de 1 de fevereiro,
momentos antes do desembarque da familia real, ainda que totalmente
alheio ao que d'ahi a pouco se ia desenrolar, teria a impressão de que a
atmosphera, excessivamente carregada, por força desabaria em medonha
tempestade. No Terreiro do Paço havia relativamente poucos curiosos a
aguardarem aquelle desembarque. Em compensação, a policia, fardada e á
paisana, mobilisara-se á valentona, circulando desconfiadissima por
entre a assistencia.
O momento era solemne. As creaturas que palpitavam com frequencia a
opinião desde o insuccesso do 28 de janeiro, calculavam com fundamento
que alguma coisa se produziria, quanto mais não fosse uma manifestação
platonica de desagrado ao monarcha e ao seu primeiro ministro. Outras,
pelo contrario, não acreditavam n'uma explosão do odio popular e sorriam
desdenhosamente perante as menores apprehensões. Acreditavam demasiado
na indolencia do povo escravisado e no falso prestigio do soberano.
[Ilustração: Missão do Directorio no estrangeiro]
A policia, repetimos, a propria policia, que conhecia sufficientemente a
extensão do trama revolucionario, que afinal se não desfizera ao
mallogro da projectada revolução, tambem não tinha a noção do perigo que
ameaçava o throno. Esse perigo, voltamos a insistir, não derivava
simplesmente de uma combinação prévia feita entre meia duzia de homens
desejosos de reintegrar o paiz na normalidade. Nascera e progredira na
consciencia da maioria dos revolucionarios e até dos que não commungavam
nos segredos da revolta. Era uma coisa acceite em principio e se toda a
grande massa de povo soffredor possuisse a energia, a decisão prompta
dos poucos homens que collaboraram no regicidio, este acontecimento
teria sido da responsabilidade directa, não de cinco, como se affirma,
mas de cincoenta, de quinhentos, de cinco mil...
Ha um relatorio policial, elaborado tempos depois da morte de D. Carlos
e de seu filho, que pretende filial-a n'uma conjura mais radical nos
seus meios de acção do que a que preparou o 28 de janeiro. Fala-se ahi
de varios individuos, amigos do professor Buiça e de Alfredo Costa, como
implicados n'essa conjura e até quasi se assegura que o grupo decidido a
executar o monarcha e o principe comprehendia duas ou tres duzias de
homens, escalonados desde o Terreiro do Paço ás Necessidades para a
execução d'essa sentença lavrada em conciliabulo tenebroso.
Na realidade, para a nossa phantasia de meridionaes, não se percebia que
um acto de tanta repercussão mundial fosse praticado sem o apparato
scenico de muitas reuniões secretas, com as indispensaveis capas de
embuçados e o juramento terrivel prestado em meio d'um silencio
aterrador. E a policia influenciou-se d'essa phantasia, apesar de uma
das suas averiguações consignar claramente um facto que reputou
verdadeiro e de grande importancia para o esclarecimento do regicidio: o
cavaco animado travado entre cinco homens na madrugada de 1 de fevereiro
á esquina do Café Suisso. N'esses cinco homens contavam-se o professor
Buiça e Alfredo Costa. Os restantes, quem eram? Vivem ainda? A policia
chegou a conhecel-os? E que projectavam n'essa madrugada celebre?
Decidiam ali, em plena rua, o plano do regicidio, ou apromptavam-se para
um acto bem diverso?
O sr. José de Alpoim, que se occupou do assumpto pouco depois de
implantada a Republica Portugueza, procurando expurgal-o das falsidades
e das invenções dos reaccionarios, que durante dois annos o exploraram
sem pudor pela verdade, parece inclinar-se para esta hypothese, embora o
não diga claramente:
Os cinco revolucionarios que na madrugada de 1 de fevereiro um espião
policial surprehendeu em conciliabulo á esquina do Café Suisso (ou
outros cinco, mas comprehendendo tambem o Buiça e o Costa) projectavam
simplesmente eliminar o dictador. Subiram a Avenida com esse intuito,
esperando poder executal-o á sahida da casa onde elle morava. Por
qualquer circumstancia que não vale a pena mencionar, esse designio
falhou. Os cinco revolucionarios desceram novamente a Avenida,
dispersaram-se durante um pequeno espaço de tempo e voltaram a reunir-se
no Terreiro do Paço, ainda com a intenção de desfecharem as armas de que
estavam munidos sobre o primeiro ministro de D. Carlos. Essa tentativa
foi, como a antecedente, mal succedida; e elles então, não vendo o
dictador mas vendo chegar o rei, _resolveram n'um lance impulsivo
descarregar_ sobre a carruagem do monarcha.
Por outro lado, Alfredo Costa, vinte e quatro horas antes de consumado o
regicidio, dissera a alguem que no dia immediato se abalançaria a ir
_para a cabeça do touro_. Que quereria elle dizer com essa phrase
pittoresca? Referir se-hia já n'essa altura á probabilidade do rei
Carlos ser attingido pela sua Browning, ou pensava apenas no primeiro
ministro que submettera á assignatura do rei o famoso decreto da _morte
civil_ de dissidentes revolucionarios e republicanos? No emtanto, ha uma
coisa que o sr. Alpoim registou no artigo a que n'outro logar alludimos
e que é digno de relevo n'uma narrativa em que se fale do regicidio: o
acto não foi combinado antes do 28 de janeiro, pelo motivo bem simples
de que a revolta devia rebentar estando a familia real em Villa Viçosa;
a carabina utilisada pelo professor Buiça, comprada em casa do armeiro
Heitor Ferreira por um rapaz que não era o professor, só entrou na posse
d'aquelle revolucionario depois de reconhecido o mallogro do movimento
em que entravam republicanos e dissidentes.
Por ultimo, se é certo que o professor Buiça se dispoz antecipadamente a
morrer em prol da liberdade--prova-o o seu testamento, que a imprensa
publicou--se é geralmente sabido que no seu espirito fulgurou mais do
que uma vez a ideia de se exterminar o rei dos adeantamentos, idea
acceite não só por Alfredo Costa mas por outros tres homens fundamente
exaltados contra o regimen de absolutismo, não é menos certo que até o
momento do desembarque da familia real no Terreiro do Paço esse grupo de
destemidos tinha em mira liquidar o chefe do governo e, se este escapou
da chacina, a um quasi milagre o deve. Com um pouco menos de sorte, o
dictador teria perecido sob a fusilaria do grupo, a policia teria
despertado da molleza com que vigiava a integridade do monarcha, e a
tarde de 1 de fevereiro, longe de marcar uma _étape_ formidavel de
revolução, ficaria limitada á queda do gabinete João Franco, pela queda
mortal da sua cabeça dirigente.
Vejamos agora outro ponto do regicidio muito discutido até pelas
proprias testemunhas do acto: quem atirou primeiro sobre a carruagem
real? Foi Alfredo Costa ou o professor Buiça? Tentemos esmiuçal-o.
Assim que a familia real, vinda de Villa Viçosa, desembarcou na ponte
dos vapores do Sul e Sueste, o rei Carlos approximou-se do
tenente-coronel Dias, que dirigia no local o serviço da policia fardada,
e perguntou-lhe á queima roupa:
--_Isto_... como vae?
(_Isto_ era a situação da população lisbonense, o estado da opinião
publica após o famoso decreto de _morte civil_).
O tenente-coronel Dias hesitou um momento antes de responder, mas,
quando se decidiu a fazel-o, disse peremptoriamente ao monarcha:
--Meu senhor, _isto_ vae muito mal!...
D. Carlos encolheu os hombros n'um significativo desdem e foi falar ao
primeiro ministro que, dir-se-hia, esfregava as mãos de contente pelo
que a publicação do tal decreto representava de força do ministerio e de
provocação altiva, ironica, de desafio insolente á _ralé insubordinada_.
Não sabemos o teor d'essa conversa; mas é de crer que o monarcha
houvesse interrogado o dictador de modo identico ao do tenente-coronel
Dias, e que o dictador, emphatico, lhe tivesse respondido de modo
differente do do mesmo tenente-coronel. O primeiro ministro, n'essa
altura, ainda desprezava a _agitação da escumalha_, considerando-a
incapaz de ferir o poder real, que elle procurava engrandecer.
D'ahi a instantes, a familia real sahiu da estação do Sul e Sueste e
tomou logar n'uma carruagem descoberta. A multidão formava alas pouco
compactas para a ver passar. Em frente das arcadas do ministerio da
fazenda, um homem que até então se conservara immovel e sereno do lado
da Praça do Commercio, olhou para um outro que se especára mais aquem e
transmittiu-lhe um imperceptivel signal de cabeça. O segundo fez um
gesto affirmativo e o primeiro, saltando para o meio da rua,
desembaraçou-se do varino que tinha dependurado dos hombros e, apontando
uma carabina á capota da carruagem real, desfechou-a. Esse homem, o
professor Buiça, fizera tudo isso n'um relampago. O rei Carlos
agonisou... Quasi ao mesmo tempo, a carruagem real era atacada de flanco
pelo outro homem empunhando uma pistola Browning. Alfredo Costa,
correndo por diante d'um antigo kiosque da Praça do Commercio,
conseguira alcançal-a na volta para a rua do Arsenal. O principe Luiz
Filippe ergueu meio corpo no vehiculo e, tambem de pistola em punho,
tentou attingir o regicida. Mas feriram-n'o de morte como ao rei Carlos.
A rainha Amelia, vendo a curta distancia da carruagem um terceiro
individuo em attitude hostil, quiz sacudil-o, ameaçando-o com o ramo de
flores que tinha na mão, mas n'esse momento o panico já era enorme e,
dentro de segundos, o Terreiro do Paço transformava-se em verdadeiro
campo de batalha, onde os defensores do regimen disparavam á tôa e a
maioria dos populares fugia em diversas direcções, confusos, medrosos,
sem atinar com a importancia do facto que acabavam de presenciar.
O resto é sabido. A carruagem real, depois de ter parado uns momentos,
hesitante, seguiu apressadamente para o Arsenal, emquanto a policia e
uns officiaes do exercito, n'uma furia extranha de exterminar
revolucionarios, espadeiravam, disparavam tiros e cevavam um odio
inconcebivel não só sobre os dois homens que realmente tinham atacado a
carruagem real, como sobre creaturas inoffensivas, que, por curiosidade,
haviam comparecido ao desembarque do rei e da sua familia. N'esse lapso
de tempo decorrido entre a morte do monarcha e a installação dos dois
corpos, o d'elle e o do filho, no Arsenal da Marinha, a policia
commetteu brutalidades sem nome. D'uma d'ellas resultou a morte de
Alfredo Costa e d'um modesto empregado de ourives, João Sabino da Costa.
Alfredo Costa vivia ainda quando o transportaram para a esquadra da
Camara Municipal. Dentro d'essa mesma esquadra, a piedade de um guarda
impediu que uma duzia de selvagens massacrasse varios populares
capturados no momento do regicidio e que, repetimos, não tinham
responsabilidades effectivas na execução do monarcha dos adeantamentos.
CAPITULO VIII
Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria imediatamente ao seu
acto
É natural que o leitor d'estas narrativas, chegado a este ponto da
chacina de 1 de fevereiro, deseje saber os nomes dos tres companheiros
de Buiça e Costa. O mysterio tem attractivos poderosissimos e não é
facil contentar em absoluto o publico apenas com a promessa vaga de que
o futuro desvendará o que o presente não permitte conhecer em todos os
seus pormenores.
N'este caso especial, porém, o mysterio não pode ser, não deve ser
profundado. De resto, mesmo que o quizessemos fazer por um impulso de
furiosa _reportage_, esbarravamos com esta muralha impenetravel: o
segredo dos conspiradores. A quem não andou implicado em qualquer
movimento revolucionario é difficil affirmar que as cousas se passaram
de tal ou tal modo. Ha naturalmente quem possua informações precisas
sobre o regicidio; entre o muito de phantastico e de tendencioso que a
esse respeito se disse na imprensa, ha, evidentemente, uma nesga da
verdade; mas d'ahi a garantir a narrativa completa do facto vae uma
distancia consideravel, que poucos ousariam transpôr.
Durante muito tempo disse-se que o individuo que a rainha Amelia, no
instante da tragedia, sacudira com um ramo de flôres era um dos filhos
do visconde da Ribeira Brava. Lembra-nos perfeitamente que, tendo
recebido n'essa tarde ordem de ir ao Terreiro do Paço e ao Arsenal
verificar a exactidão das noticias alarmantes que o telephone
transmittira á redacção do _Seculo_ (onde trabalhavamos), o primeiro
pormenor que alcançámos, repetido por meia duzia de pessoas, foi o de
que um dos regicidas era o sr. Francisco Heredia. Um popular asseverava
até que esse _sportsman_ é que disparara primeiro que qualquer outro uma
carabina sobre a carruagem real. Mais tarde, julgando-se insubsistente
esse boato malevolo, engendrou-se um outro: o de que o sr. Francisco
Heredia emprestara um varino ao professor Buiça e lhe offerecera a
famosa arma, instrumento da execução. A propria policia, orientada no
mesmo sentido, fez varias tentativas para enredar no regicidio aquelle
nome tão citado pelos reaccionarios á bocca pequena. E mais do que uma
vez pelas redacções dos jornaes se affirmou discretamente que o juiz de
instrucção criminal passara um mandato de captura contra o pretendido
regicida. O sr. Alpoim, referindo-se ao caso, commenta-o deste modo:
«Nenhum dos tres filhos do sr. visconde da Ribeira Brava, _nenhum_,
tomára parte no movimento; _nenhum_ se inscrevera; seu pae não os
implicara em qualquer facto revolucionario; sobre nenhum d'elles incidia
qualquer responsabilidade, como incidia sobre o tenente Bernardo
d'Alpoim que, de combinação com seu pae, collaboraria n'um dos factos
mais graves da Revolução. Valentissimos, lealissimos, mas casados e com
filhos, seu pae sequestrara-os a todas as responsabilidades. Pois foi um
d'esses bons, admiraveis rapazes, que a gente do Paço e a escoria
clerical escolheram para alvo dos seus odios e accusações! Chegou-se a
comprar policias para falarem no seu nome; e o sr. visconde da Ribeira
Brava procurou o ultimo juiz de Instrucção Criminal para lhe communicar
factos gravissimos a tal respeito!
«Aconteceu que o sr. D. Francisco Heredia, á hora em que o attentado se
commettia, estava com pessoas respeitabilissimas que depozeram. E--o que
ninguem sabe!--a pessoa mais indignada foi a rainha sr.ª D. Amelia, que
recebeu sempre no Paço, com todo o affecto, o sr. D. Francisco e sua
esposa. Ao chefe dissidente contou aquella senhora que era uma infamia
semelhante accusação e que ella propria dissera ao juiz de Instrucção
Criminal que, conhecendo muito bem o sr. D. Francisco Heredia, estava
prompta a affirmar que não se achara entre os que assaltaram o coche
real e sobre elle dispararam. Garantimos esta affirmação, estas palavras
da rainha; e, comtudo, ellas não desarmaram gente da côrte e politicos
que tinham todo o empenho em envolver o nome d'um dissidente, ou de
pessoa que lhe fosse proxima, no tragico acontecimento do Terreiro do
Paço!»
[Ilustração: Luz d'Almeida Chefe da Carbonaria]
Mas não foi só o sr. Francisco Heredia que a opinião desvairada apontou
como tendo tomado parte no regicidio. Na tarde de 1 de fevereiro de
1908, a policia prendeu, como suspeitos, varios individuos, entre elles
um de nacionalidade hespanhola. Durante oito dias, approximadamente,
teve-os incommunicaveis no governo civil e findo esse periodo de
clausura libertou-os. O hespanhol sahiu logo de Lisboa e foi para San
Sebastian. Passados mezes, quando a policia voltou a proceder a
investigações minuciosas sobre a morte do rei Carlos e do principe Luiz
Filippe, teve denuncia de que o hespanhol realmente atirára sobre um e
outro, e um dos agentes do juiz de instrucção encaminhou-se para o paiz
visinho na peugada do supposto companheiro do professor Buiça. Baldado
empenho: o hespanhol já não vivia em San Sebastian e o seu rasto
perdera-se completamente. Seria, com effeito, esse homem o tal que a
rainha Amelia viu atirar sobre o marido e o filho e de quem, d'ahi a
semanas, fez um _croquis_, fixando-o bem nos seus traços physionomicos?
Não é possivel dizel-o com segurança. Pessoas que se nos affiguram bem
informadas desmentem redondamente esse boato, como antes já tinham
egualmente desmentido o que incidia sobre o sr. Francisco Heredia. E uma
d'ellas declarou-nos terminantemente, assim que o juiz Silva Monteiro
recomeçou a respectiva indagação policial:
--O X... que o juiz procura não é nem o filho do Visconde da Ribeira
Brava nem o hespanhol de S. Carlos (o individuo suspeito fôra musico no
nosso theatro lyrico). Tambem não é, como para ahi se disse, o estudante
preso por causa da explosão na rua do Carrião, que ao tempo se achava
escondido em Lisboa (Aquilino Ribeiro). Pelo pouco que sei do regicidio
creio que o X... é outro rapaz bem differente d'esses tres, pouco
conhecido como revolucionario, mas dispondo d'uma energia capaz de um
acto semelhante á execução do monarcha dos adeantamentos.
«Cousa curiosa... Ia jurar que a policia teve em seu poder durante
alguns mezes o X... do regicidio. Não por esse facto... Capturou-o,
conservou-o por semanas incommunicavel, mas sem suspeitar sequer ao de
leve que aferrolhava nos seus calabouços um authentico companheiro do
Buiça e do Costa, o tal regicida de quem a rainha Amelia fez um
_croquis_ elucidativo. Eram cinco os do _complot_... Alfredo Costa, o
professor Buiça, o X..., o Y... e o Z. Os dois primeiros morreram na
tragedia; os restantes escaparam...»
Vamos concluir este capitulo da historia contemporanea, mas antes
faremos referencia a uma conversa trocada entre o professor Buiça e
Alfredo Costa á 1 e 30 da tarde de 1 de fevereiro de 1908. Foi no _Café
do Gelo_, a conhecida cervejaria que desde tempos immemoraveis tem
servido a _rendez-vous_ de estudantes e... estudantes de idéas avançadas.
Na vespera do regicidio, o professor Buiça, que tinha no café do Gelo o
seu quartel-general de propaganda libertaria, apareceu ali, acompanhado
de Alfredo Costa e d'um outro rapaz, e abancou a uma das mezas. Os tres
conversaram demoradamente e ha todas as razões para crêr que só se
separaram na manhã de 1. Á 1 e 30 da tarde d'esse dia, o professor Buiça
e Alfredo Costa voltaram ao Gelo e tomaram logar n'uma das mezas da sala
que deita para a rua do Principe. O professor Buiça bebeu uma cerveja e
Alfredo Costa serviu-se d'uma _omolette_. Na mesma sala, alem dos dois
revolucionarios, encontravam-se apenas o dr. Maximo Brou e um cadete da
Escola do Exercito. O professor Buiça desenvolveu um plano qualquer ao
seu companheiro e fel-o sem reservas, alto e bom som, completando a
palavra com gestos expressivos:
--A carruagem avança, disse elle, a carroça apparece, esbarra e eu
intervenho...
E ao affirmar a sua _intervenção_, o professor Buiça moveu os dois
braços de modo significativo, como se mettesse uma espingarda á cara.
--E nós? perguntou-lhe Alfredo Costa... O que fazemos?
--Vocês... procederão como a opportunidade indicar.
O outro calou-se e continuou a comer a _omolette_. O professor Buiça
piscou um olho ao dr. Maximo Brou e disse lentamente e ironico:
--Estamos aqui, estamos em Timor...