Felizmente, não succedeu assim. O dictador, tendo-se-lhe desenrolado

ante a vista turva uma boa parte da machinação revolucionaria, embrenhou

se, naturalmente, n'um amontoado de providencias de occasião. Primeiro

que tudo, collocou a mordaça do estylo na bocca da imprensa; ordenou uma

sahida de tropas que equivalia á declaração do estado de sitio, visto

que ellas é que fizeram na madrugada de 29 a policia da cidade; ordenou

rusgas; remetteu para os fortes grandes levas de presos; exhibiu a

cavallaria da municipal em diversos locaes para aterrar, para suffocar o

menor impulso de reacção; e no dia 29 preparou-se para completar a sua

obra de repressão com o famoso decreto que o ministro Teixeira de Abreu

levou a Villa Viçosa á assignatura do rei Carlos.

O governo franquista, não satisfeito com o ter lançado á tôa para

diversas prisões todas as creaturas que a policia encontrou nas ruas da

cidade, momentos depois do ataque á esquadra do Rato, aprestava-se a

expellir pela barra de Lisboa todos os politicos, todos os cidadãos que,

n'uma hora de legitima revolta contra um regimen de perfeita tyrannia,

tinham ousado preparar a queda logica, indispensavel, do throno dos

Braganças. Á atmosphera de pavôr immenso, que creara com essas

perseguições arbitrarias--o governo civil de 28 para 29 encheu-se

rapidamente de populares--queria sobrepôr uma verdadeira mortalha,

embrulhando no famoso decreto todas as individualidades que elle

suppunha, com bom ou mau fundamento, implicadas na conspiração.

Não o conseguiu, porém. E não o conseguiu, porque, mal o decreto foi

publicado no _Diario do Governo_ e antes que o dictador iniciasse a sua

applicação feroz, outra força, e extraordinaria força, com que elle

nunca sonhara, impediu a consecução dos seus designios. O regicidio

travou a corrida vertiginosa para a selvajaria que o gabinete João

Franco desfechara, pretendendo convencer o paiz de que assim cumpria uma

missão patriotica. O regicidio... sim, foi o regicidio que evitou um

authentico attentado brutal, anti-politico, libertou dos ferros da prisão

alguns dos organisadores da revolta de 4 e 5 de outubro e impediu que

muitos dos que implantaram a Republica em Portugal gemessem até essa

data gloriosa no desterro abrasador...

CAPITULO VII

O regicidio--Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?

Chegámos ao ponto menos esclarecido d'este periodo historico. Desde a

tarde de 1 de fevereiro de 1908, em que o rei Carlos e seu filho Luiz

Filippe baquearam no Terreiro do Paço sob as balas desferidas por um

reduzido numero de conjurados, tem-se dito tanta coisa sobre esse

acontecimento que e licito suppôr que a verdade ainda permaneça envolta

em denso veu. Não temos a pretenção de proferir a ultima palavra a tal

respeito; mas ouvimos mais do que uma vez a pessoas bem informadas

referencias ao caso, e essas referencias auctorisam-nos a considerar o

regicidio sob um aspecto muito diverso do que aquelle por que é

vulgarmente conhecido.

A propria policia, apesar de haver conseguido em dado momento obter um

ou dois depoimentos razoaveis, nunca tirou a limpo a veridica historia

do caso. E porque? Pela razão muito simples de que, tendo orientado as

suas diligencias n'um determinado sentido, d'essa orientação nunca se

desviou, apezar de errada. Teimou em ver no regicidio o acto de muitos

conspiradores, longamente deliberado, e d'ahi não se afastou, embora o

seguimento da instrucção do processo por mais de uma vez lhe indicasse o

contrario. Persistiu em ver sobre as cabeças dos regicidas uma

influencia especial, uma sugestão de politicos burguezes, sem coragem

para perpetrarem o acto e confiando esse encargo a creaturas exaltadas,

a libertarios decididos e energicos, e afinal, por aquillo que ouvimos

ás pessoas as quaes já alludimos, nada d'isso existiu senão para ser

utilisado no momento opportuno como uma arma de combate nas mãos dos

reaccionarios.

Comprehende-se perfeitamente que, após o insuccesso do 28 de janeiro e o

conhecimento das medidas ferozes preparadas pelo dictador, a opinião

soffresse immediatamente um accrescimo de odio contra esse governo que

não hesitava em immolar no altar da sua vingança diversos patriotas,

cujo unico crime era o de se terem eximido, ou procurado eximir-se, ás

suas prepotencias. Essa exaltação da opinião devia ter-se reflectido

mais fundamente nos elementos revolucionarios que para o movimento de 28

de janeiro haviam prometido o concurso d'uma acção efficaz sobre os

tyrannos do paiz. Quantos d'esses revolucionarios na madrugada de 31 e

no periodo de horas que decorreu até ao desembarque da familia real no

Terreiro do Paço, não pensaram n'outra coisa que aliás dominava o

espirito até dos mais conservadores: a necessidade de se eliminar o

dictador? Quantos? Essa eliminação estendiam-na naturalmente, sem

hesitações, ao monarcha dos adiantamentos, porque a verdade é que para

um revolucionario que pretendia supprimir uma situação de absolutismo

não bastava, de certo, fazer desapparecer o braço executor do regimen de

oppressão. Tornava-se imprescindivel liquidar a personificação

individual d'esse mesmo regimen. Esta é a verdade e já explica, de

certo, muitos dos episodios que caracterisaram a tragedia do Terreiro do

Paço.

Quem passasse n'aquelle ponto da cidade na tarde de 1 de fevereiro,

momentos antes do desembarque da familia real, ainda que totalmente

alheio ao que d'ahi a pouco se ia desenrolar, teria a impressão de que a

atmosphera, excessivamente carregada, por força desabaria em medonha

tempestade. No Terreiro do Paço havia relativamente poucos curiosos a

aguardarem aquelle desembarque. Em compensação, a policia, fardada e á

paisana, mobilisara-se á valentona, circulando desconfiadissima por

entre a assistencia.

O momento era solemne. As creaturas que palpitavam com frequencia a

opinião desde o insuccesso do 28 de janeiro, calculavam com fundamento

que alguma coisa se produziria, quanto mais não fosse uma manifestação

platonica de desagrado ao monarcha e ao seu primeiro ministro. Outras,

pelo contrario, não acreditavam n'uma explosão do odio popular e sorriam

desdenhosamente perante as menores apprehensões. Acreditavam demasiado

na indolencia do povo escravisado e no falso prestigio do soberano.

[Ilustração: Missão do Directorio no estrangeiro]

A policia, repetimos, a propria policia, que conhecia sufficientemente a

extensão do trama revolucionario, que afinal se não desfizera ao

mallogro da projectada revolução, tambem não tinha a noção do perigo que

ameaçava o throno. Esse perigo, voltamos a insistir, não derivava

simplesmente de uma combinação prévia feita entre meia duzia de homens

desejosos de reintegrar o paiz na normalidade. Nascera e progredira na

consciencia da maioria dos revolucionarios e até dos que não commungavam

nos segredos da revolta. Era uma coisa acceite em principio e se toda a

grande massa de povo soffredor possuisse a energia, a decisão prompta

dos poucos homens que collaboraram no regicidio, este acontecimento

teria sido da responsabilidade directa, não de cinco, como se affirma,

mas de cincoenta, de quinhentos, de cinco mil...

Ha um relatorio policial, elaborado tempos depois da morte de D. Carlos

e de seu filho, que pretende filial-a n'uma conjura mais radical nos

seus meios de acção do que a que preparou o 28 de janeiro. Fala-se ahi

de varios individuos, amigos do professor Buiça e de Alfredo Costa, como

implicados n'essa conjura e até quasi se assegura que o grupo decidido a

executar o monarcha e o principe comprehendia duas ou tres duzias de

homens, escalonados desde o Terreiro do Paço ás Necessidades para a

execução d'essa sentença lavrada em conciliabulo tenebroso.

Na realidade, para a nossa phantasia de meridionaes, não se percebia que

um acto de tanta repercussão mundial fosse praticado sem o apparato

scenico de muitas reuniões secretas, com as indispensaveis capas de

embuçados e o juramento terrivel prestado em meio d'um silencio

aterrador. E a policia influenciou-se d'essa phantasia, apesar de uma

das suas averiguações consignar claramente um facto que reputou

verdadeiro e de grande importancia para o esclarecimento do regicidio: o

cavaco animado travado entre cinco homens na madrugada de 1 de fevereiro

á esquina do Café Suisso. N'esses cinco homens contavam-se o professor

Buiça e Alfredo Costa. Os restantes, quem eram? Vivem ainda? A policia

chegou a conhecel-os? E que projectavam n'essa madrugada celebre?

Decidiam ali, em plena rua, o plano do regicidio, ou apromptavam-se para

um acto bem diverso?

O sr. José de Alpoim, que se occupou do assumpto pouco depois de

implantada a Republica Portugueza, procurando expurgal-o das falsidades

e das invenções dos reaccionarios, que durante dois annos o exploraram

sem pudor pela verdade, parece inclinar-se para esta hypothese, embora o

não diga claramente:

Os cinco revolucionarios que na madrugada de 1 de fevereiro um espião

policial surprehendeu em conciliabulo á esquina do Café Suisso (ou

outros cinco, mas comprehendendo tambem o Buiça e o Costa) projectavam

simplesmente eliminar o dictador. Subiram a Avenida com esse intuito,

esperando poder executal-o á sahida da casa onde elle morava. Por

qualquer circumstancia que não vale a pena mencionar, esse designio

falhou. Os cinco revolucionarios desceram novamente a Avenida,

dispersaram-se durante um pequeno espaço de tempo e voltaram a reunir-se

no Terreiro do Paço, ainda com a intenção de desfecharem as armas de que

estavam munidos sobre o primeiro ministro de D. Carlos. Essa tentativa

foi, como a antecedente, mal succedida; e elles então, não vendo o

dictador mas vendo chegar o rei, _resolveram n'um lance impulsivo

descarregar_ sobre a carruagem do monarcha.

Por outro lado, Alfredo Costa, vinte e quatro horas antes de consumado o

regicidio, dissera a alguem que no dia immediato se abalançaria a ir

_para a cabeça do touro_. Que quereria elle dizer com essa phrase

pittoresca? Referir se-hia já n'essa altura á probabilidade do rei

Carlos ser attingido pela sua Browning, ou pensava apenas no primeiro

ministro que submettera á assignatura do rei o famoso decreto da _morte

civil_ de dissidentes revolucionarios e republicanos? No emtanto, ha uma

coisa que o sr. Alpoim registou no artigo a que n'outro logar alludimos

e que é digno de relevo n'uma narrativa em que se fale do regicidio: o

acto não foi combinado antes do 28 de janeiro, pelo motivo bem simples

de que a revolta devia rebentar estando a familia real em Villa Viçosa;

a carabina utilisada pelo professor Buiça, comprada em casa do armeiro

Heitor Ferreira por um rapaz que não era o professor, só entrou na posse

d'aquelle revolucionario depois de reconhecido o mallogro do movimento

em que entravam republicanos e dissidentes.

Por ultimo, se é certo que o professor Buiça se dispoz antecipadamente a

morrer em prol da liberdade--prova-o o seu testamento, que a imprensa

publicou--se é geralmente sabido que no seu espirito fulgurou mais do

que uma vez a ideia de se exterminar o rei dos adeantamentos, idea

acceite não só por Alfredo Costa mas por outros tres homens fundamente

exaltados contra o regimen de absolutismo, não é menos certo que até o

momento do desembarque da familia real no Terreiro do Paço esse grupo de

destemidos tinha em mira liquidar o chefe do governo e, se este escapou

da chacina, a um quasi milagre o deve. Com um pouco menos de sorte, o

dictador teria perecido sob a fusilaria do grupo, a policia teria

despertado da molleza com que vigiava a integridade do monarcha, e a

tarde de 1 de fevereiro, longe de marcar uma _étape_ formidavel de

revolução, ficaria limitada á queda do gabinete João Franco, pela queda

mortal da sua cabeça dirigente.

Vejamos agora outro ponto do regicidio muito discutido até pelas

proprias testemunhas do acto: quem atirou primeiro sobre a carruagem

real? Foi Alfredo Costa ou o professor Buiça? Tentemos esmiuçal-o.

Assim que a familia real, vinda de Villa Viçosa, desembarcou na ponte

dos vapores do Sul e Sueste, o rei Carlos approximou-se do

tenente-coronel Dias, que dirigia no local o serviço da policia fardada,

e perguntou-lhe á queima roupa:

--_Isto_... como vae?

(_Isto_ era a situação da população lisbonense, o estado da opinião

publica após o famoso decreto de _morte civil_).

O tenente-coronel Dias hesitou um momento antes de responder, mas,

quando se decidiu a fazel-o, disse peremptoriamente ao monarcha:

--Meu senhor, _isto_ vae muito mal!...

D. Carlos encolheu os hombros n'um significativo desdem e foi falar ao

primeiro ministro que, dir-se-hia, esfregava as mãos de contente pelo

que a publicação do tal decreto representava de força do ministerio e de

provocação altiva, ironica, de desafio insolente á _ralé insubordinada_.

Não sabemos o teor d'essa conversa; mas é de crer que o monarcha

houvesse interrogado o dictador de modo identico ao do tenente-coronel

Dias, e que o dictador, emphatico, lhe tivesse respondido de modo

differente do do mesmo tenente-coronel. O primeiro ministro, n'essa

altura, ainda desprezava a _agitação da escumalha_, considerando-a

incapaz de ferir o poder real, que elle procurava engrandecer.

D'ahi a instantes, a familia real sahiu da estação do Sul e Sueste e

tomou logar n'uma carruagem descoberta. A multidão formava alas pouco

compactas para a ver passar. Em frente das arcadas do ministerio da

fazenda, um homem que até então se conservara immovel e sereno do lado

da Praça do Commercio, olhou para um outro que se especára mais aquem e

transmittiu-lhe um imperceptivel signal de cabeça. O segundo fez um

gesto affirmativo e o primeiro, saltando para o meio da rua,

desembaraçou-se do varino que tinha dependurado dos hombros e, apontando

uma carabina á capota da carruagem real, desfechou-a. Esse homem, o

professor Buiça, fizera tudo isso n'um relampago. O rei Carlos

agonisou... Quasi ao mesmo tempo, a carruagem real era atacada de flanco

pelo outro homem empunhando uma pistola Browning. Alfredo Costa,

correndo por diante d'um antigo kiosque da Praça do Commercio,

conseguira alcançal-a na volta para a rua do Arsenal. O principe Luiz

Filippe ergueu meio corpo no vehiculo e, tambem de pistola em punho,

tentou attingir o regicida. Mas feriram-n'o de morte como ao rei Carlos.

A rainha Amelia, vendo a curta distancia da carruagem um terceiro

individuo em attitude hostil, quiz sacudil-o, ameaçando-o com o ramo de

flores que tinha na mão, mas n'esse momento o panico já era enorme e,

dentro de segundos, o Terreiro do Paço transformava-se em verdadeiro

campo de batalha, onde os defensores do regimen disparavam á tôa e a

maioria dos populares fugia em diversas direcções, confusos, medrosos,

sem atinar com a importancia do facto que acabavam de presenciar.

O resto é sabido. A carruagem real, depois de ter parado uns momentos,

hesitante, seguiu apressadamente para o Arsenal, emquanto a policia e

uns officiaes do exercito, n'uma furia extranha de exterminar

revolucionarios, espadeiravam, disparavam tiros e cevavam um odio

inconcebivel não só sobre os dois homens que realmente tinham atacado a

carruagem real, como sobre creaturas inoffensivas, que, por curiosidade,

haviam comparecido ao desembarque do rei e da sua familia. N'esse lapso

de tempo decorrido entre a morte do monarcha e a installação dos dois

corpos, o d'elle e o do filho, no Arsenal da Marinha, a policia

commetteu brutalidades sem nome. D'uma d'ellas resultou a morte de

Alfredo Costa e d'um modesto empregado de ourives, João Sabino da Costa.

Alfredo Costa vivia ainda quando o transportaram para a esquadra da

Camara Municipal. Dentro d'essa mesma esquadra, a piedade de um guarda

impediu que uma duzia de selvagens massacrasse varios populares

capturados no momento do regicidio e que, repetimos, não tinham

responsabilidades effectivas na execução do monarcha dos adeantamentos.

CAPITULO VIII

Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria imediatamente ao seu

acto

É natural que o leitor d'estas narrativas, chegado a este ponto da

chacina de 1 de fevereiro, deseje saber os nomes dos tres companheiros

de Buiça e Costa. O mysterio tem attractivos poderosissimos e não é

facil contentar em absoluto o publico apenas com a promessa vaga de que

o futuro desvendará o que o presente não permitte conhecer em todos os

seus pormenores.

N'este caso especial, porém, o mysterio não pode ser, não deve ser

profundado. De resto, mesmo que o quizessemos fazer por um impulso de

furiosa _reportage_, esbarravamos com esta muralha impenetravel: o

segredo dos conspiradores. A quem não andou implicado em qualquer

movimento revolucionario é difficil affirmar que as cousas se passaram

de tal ou tal modo. Ha naturalmente quem possua informações precisas

sobre o regicidio; entre o muito de phantastico e de tendencioso que a

esse respeito se disse na imprensa, ha, evidentemente, uma nesga da

verdade; mas d'ahi a garantir a narrativa completa do facto vae uma

distancia consideravel, que poucos ousariam transpôr.

Durante muito tempo disse-se que o individuo que a rainha Amelia, no

instante da tragedia, sacudira com um ramo de flôres era um dos filhos

do visconde da Ribeira Brava. Lembra-nos perfeitamente que, tendo

recebido n'essa tarde ordem de ir ao Terreiro do Paço e ao Arsenal

verificar a exactidão das noticias alarmantes que o telephone

transmittira á redacção do _Seculo_ (onde trabalhavamos), o primeiro

pormenor que alcançámos, repetido por meia duzia de pessoas, foi o de

que um dos regicidas era o sr. Francisco Heredia. Um popular asseverava

até que esse _sportsman_ é que disparara primeiro que qualquer outro uma

carabina sobre a carruagem real. Mais tarde, julgando-se insubsistente

esse boato malevolo, engendrou-se um outro: o de que o sr. Francisco

Heredia emprestara um varino ao professor Buiça e lhe offerecera a

famosa arma, instrumento da execução. A propria policia, orientada no

mesmo sentido, fez varias tentativas para enredar no regicidio aquelle

nome tão citado pelos reaccionarios á bocca pequena. E mais do que uma

vez pelas redacções dos jornaes se affirmou discretamente que o juiz de

instrucção criminal passara um mandato de captura contra o pretendido

regicida. O sr. Alpoim, referindo-se ao caso, commenta-o deste modo:

«Nenhum dos tres filhos do sr. visconde da Ribeira Brava, _nenhum_,

tomára parte no movimento; _nenhum_ se inscrevera; seu pae não os

implicara em qualquer facto revolucionario; sobre nenhum d'elles incidia

qualquer responsabilidade, como incidia sobre o tenente Bernardo

d'Alpoim que, de combinação com seu pae, collaboraria n'um dos factos

mais graves da Revolução. Valentissimos, lealissimos, mas casados e com

filhos, seu pae sequestrara-os a todas as responsabilidades. Pois foi um

d'esses bons, admiraveis rapazes, que a gente do Paço e a escoria

clerical escolheram para alvo dos seus odios e accusações! Chegou-se a

comprar policias para falarem no seu nome; e o sr. visconde da Ribeira

Brava procurou o ultimo juiz de Instrucção Criminal para lhe communicar

factos gravissimos a tal respeito!

«Aconteceu que o sr. D. Francisco Heredia, á hora em que o attentado se

commettia, estava com pessoas respeitabilissimas que depozeram. E--o que

ninguem sabe!--a pessoa mais indignada foi a rainha sr.ª D. Amelia, que

recebeu sempre no Paço, com todo o affecto, o sr. D. Francisco e sua

esposa. Ao chefe dissidente contou aquella senhora que era uma infamia

semelhante accusação e que ella propria dissera ao juiz de Instrucção

Criminal que, conhecendo muito bem o sr. D. Francisco Heredia, estava

prompta a affirmar que não se achara entre os que assaltaram o coche

real e sobre elle dispararam. Garantimos esta affirmação, estas palavras

da rainha; e, comtudo, ellas não desarmaram gente da côrte e politicos

que tinham todo o empenho em envolver o nome d'um dissidente, ou de

pessoa que lhe fosse proxima, no tragico acontecimento do Terreiro do

Paço!»

[Ilustração: Luz d'Almeida Chefe da Carbonaria]

Mas não foi só o sr. Francisco Heredia que a opinião desvairada apontou

como tendo tomado parte no regicidio. Na tarde de 1 de fevereiro de

1908, a policia prendeu, como suspeitos, varios individuos, entre elles

um de nacionalidade hespanhola. Durante oito dias, approximadamente,

teve-os incommunicaveis no governo civil e findo esse periodo de

clausura libertou-os. O hespanhol sahiu logo de Lisboa e foi para San

Sebastian. Passados mezes, quando a policia voltou a proceder a

investigações minuciosas sobre a morte do rei Carlos e do principe Luiz

Filippe, teve denuncia de que o hespanhol realmente atirára sobre um e

outro, e um dos agentes do juiz de instrucção encaminhou-se para o paiz

visinho na peugada do supposto companheiro do professor Buiça. Baldado

empenho: o hespanhol já não vivia em San Sebastian e o seu rasto

perdera-se completamente. Seria, com effeito, esse homem o tal que a

rainha Amelia viu atirar sobre o marido e o filho e de quem, d'ahi a

semanas, fez um _croquis_, fixando-o bem nos seus traços physionomicos?

Não é possivel dizel-o com segurança. Pessoas que se nos affiguram bem

informadas desmentem redondamente esse boato, como antes já tinham

egualmente desmentido o que incidia sobre o sr. Francisco Heredia. E uma

d'ellas declarou-nos terminantemente, assim que o juiz Silva Monteiro

recomeçou a respectiva indagação policial:

--O X... que o juiz procura não é nem o filho do Visconde da Ribeira

Brava nem o hespanhol de S. Carlos (o individuo suspeito fôra musico no

nosso theatro lyrico). Tambem não é, como para ahi se disse, o estudante

preso por causa da explosão na rua do Carrião, que ao tempo se achava

escondido em Lisboa (Aquilino Ribeiro). Pelo pouco que sei do regicidio

creio que o X... é outro rapaz bem differente d'esses tres, pouco

conhecido como revolucionario, mas dispondo d'uma energia capaz de um

acto semelhante á execução do monarcha dos adeantamentos.

«Cousa curiosa... Ia jurar que a policia teve em seu poder durante

alguns mezes o X... do regicidio. Não por esse facto... Capturou-o,

conservou-o por semanas incommunicavel, mas sem suspeitar sequer ao de

leve que aferrolhava nos seus calabouços um authentico companheiro do

Buiça e do Costa, o tal regicida de quem a rainha Amelia fez um

_croquis_ elucidativo. Eram cinco os do _complot_... Alfredo Costa, o

professor Buiça, o X..., o Y... e o Z. Os dois primeiros morreram na

tragedia; os restantes escaparam...»

Vamos concluir este capitulo da historia contemporanea, mas antes

faremos referencia a uma conversa trocada entre o professor Buiça e

Alfredo Costa á 1 e 30 da tarde de 1 de fevereiro de 1908. Foi no _Café

do Gelo_, a conhecida cervejaria que desde tempos immemoraveis tem

servido a _rendez-vous_ de estudantes e... estudantes de idéas avançadas.

Na vespera do regicidio, o professor Buiça, que tinha no café do Gelo o

seu quartel-general de propaganda libertaria, apareceu ali, acompanhado

de Alfredo Costa e d'um outro rapaz, e abancou a uma das mezas. Os tres

conversaram demoradamente e ha todas as razões para crêr que só se

separaram na manhã de 1. Á 1 e 30 da tarde d'esse dia, o professor Buiça

e Alfredo Costa voltaram ao Gelo e tomaram logar n'uma das mezas da sala

que deita para a rua do Principe. O professor Buiça bebeu uma cerveja e

Alfredo Costa serviu-se d'uma _omolette_. Na mesma sala, alem dos dois

revolucionarios, encontravam-se apenas o dr. Maximo Brou e um cadete da

Escola do Exercito. O professor Buiça desenvolveu um plano qualquer ao

seu companheiro e fel-o sem reservas, alto e bom som, completando a

palavra com gestos expressivos:

--A carruagem avança, disse elle, a carroça apparece, esbarra e eu

intervenho...

E ao affirmar a sua _intervenção_, o professor Buiça moveu os dois

braços de modo significativo, como se mettesse uma espingarda á cara.

--E nós? perguntou-lhe Alfredo Costa... O que fazemos?

--Vocês... procederão como a opportunidade indicar.

O outro calou-se e continuou a comer a _omolette_. O professor Buiça

piscou um olho ao dr. Maximo Brou e disse lentamente e ironico:

--Estamos aqui, estamos em Timor...

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 3 / 14 段