mas arriscado. Ás tantas da noite marcada para o inicio do movimento, um
automovel deve levar à Escola do Exercito as munições de que os
estudantes necessitam; a chegada do vehiculo corresponderá para os
revolucionarios ao signal da insubordinação. Os audaciosos rapazes teem
que arrombar a casa das armas e conter quietos e calados os officiaes de
serviço e alguns estudantes reaccionarios; teem que proceder com cautela
para não despertar antes de tempo a atenção da guarda municipal
aquartelada em Cabeço de Bola; os estudantes da Polytechnica e do
Instituto Industrial aguardarão nas immediações da Escola do Exercito o
momento de se juntarem aos seus collegas...
Na tarde de 15 de julho de 1910--em que se suppõe azado o ensejo de
fazer rebentar a _bomba_--um grande nucleo de estudantes militares
organisa uma reunião no Jardim Botanico. Um d'elles, delegado pelos
restantes, recebe a incumbencia de ir falar ao almirante Candido dos
Reis e declarar-lhe que estão todos promptos a iniciar o movimento,
sahindo á rua ainda que isolados. Á primeira vista, talvez esta
declaração pareça uma fanfarronada. Mas não é. Os estudantes
revolucionarios teem parentes, paes, irmãos, etc., em todos os corpos da
guarnição de Lisboa e não julgam crivel que a dedicação a um principio
absurdo conduza ao sacrificio dos entes mais queridos... O delegado dos
estudantes ao falar a Candido dos Reis nota que o almirante o escuta com
as lagrimas nos olhos. Candido dos Reis ouve a declaração peremptoria e
energica do delegado e depois exclama commovido:
--E assim se perde este povo! O que o senhor me diz agora, já m'o
repetiram hoje dezenas de creaturas!...
É que o almirante não supporta em 15 de julho de 1910 o adiamento da
revolta, como de resto o já não tinha supportado em 28 de janeiro de
1908. Convencido em absoluto de que a Revolução conta suficientes
elementos para triumphar, não comprehende como, possuindo-se esses
elementos, alguem hesite em lançar fogo ao rastilho da _bomba_...
Para a _barraca_ organisada com estudantes militares, o revolucionario
de _elite_ que é Pinto de Lima contribue com uma grande parcella do seu
esforço individual. Esse rapaz modesto, em cujo olhar scintilla a fé
viva do propagandista incançavel, apparece-nos pela primeira vez
collocado no plano que justamente lhe compete, por effeito de uma phrase
elogiosa de João Chagas. O eminente publicista acaba de nos resumir por
uma fórma brilhante, clara e suggestiva, o prologo do movimento de 4 e 5
de outubro, quando o seu olhar, fixando-se em Pinto de Lima, que ao
nosso lado o escuta, toma uma expressão inilludivel. «É preciso
salientar o papel que elle assumiu na revolução», diz-nos João Chagas,
«trabalhou como poucos e a Republica deve-lhe muito».
Estas palavras na bocca d'um homem que, como João Chagas, as não
prodigalisa sem sinceridade, são o melhor diploma a qualificar a
actividade e a energia do valente rapaz. De resto, Pinto de Lima não
exerceu apenas a sua acção junto dos estudantes militares. Conquistou
para a boa causa dezenas de soldados, cabos e sargentos, entrou nos
quarteis a arranjar proselytos e ainda na madrugada de 5 de outubro,
quando entre as forças acampadas no Rocio lavrava a mais perigosa
incerteza, elle por là andou animando, encorajando e preparando o
terreno para um desenlace victorioso.
Com o regresso de Machado Santos do ultramar, o aspecto e a fórma da
propaganda da Carbonaria mudam por completo. Machado Santos substitue o
engenheiro Antonio Maria da Silva nos trabalhos de Alcantara,
disciplinando fortemente esses elementos, imprimindo-lhes toda a força
da sua fé e da sua coragem. O numero de adhesões cresce de maneira
assombrosa. Machado Santos faz prodigios; não descança, não trepida, não
hesita. Chega a expôr-se... Auxiliam-no Augusto Rodrigues e Franklin
Lamas. Após esse grandioso trabalho de Alcantara, examinados os
relatorios, o _comité Alta Venda_ conclue que esse bairro constitue um
baluarte inexpugnavel. É tempo de lançar as vistas para outros pontos.
Cabe a honra à infantaria 16. Machado Santos toma a seu cargo a tarefa,
auxiliado por Antonio Meyrelles e o soldado José, hoje sargento por
distincção, e faz comicios, verdadeiros comicios aos soldados, na Serra
de Monsanto, a que assistem dezenas de homens de artilharia 1 e
d'aquelle regimento. Em artilharia 1 é auxiliado por Armando Porphirio
Rodrigues, enfermeiro do hospital inglez, onde o engenheiro Antonio
Maria da Silva inicia o 2.º tenente José Carlos da Maia e varios outros.
Em engenharia, a propaganda é feita pelo alfaiate Antonio dos Santos e
pelo Oliveira dos _bonnets_. Em infantaria 5 é o cabo Benevides; na
guarda-fiscal o soldado Domingues e, em todos os regimentos, a
Carbonaria conta dentro em pouco com elementos de superior valia. O
numero é assombroso e a qualidade é fina, excepcionalmente corajosa e
dedicada.
Fóra de Lisboa a propaganda da Carbonaria tambem é intensissima. Malva
do Valle, Carlos Amaro, Carlos Olavo, Pires de Carvalho, Manuel Alegre,
Mario Malheiros e outros formam a _Junta Carbonaria da Região Central_
que abrange Aveiro, Coimbra e Vizeu. Por esse tempo tambem já existem
nucleos poderosos em Vianna do Castello, Braga e Villa Real de
Traz-os-Montes, distinguindo-se n'este ultimo os revolucionarios Adelino
Samardan e Antonio Granjo. Ao sul forma-se o nucleo de Evora, mercê dos
esforços de Estevão Pimentel que não tarda a trocar o conforto da sua
casa abastada pelas sensações e perigos do proselytismo; auxiliam-no
n'esse trabalho insano de todas as horas o dr. Feliciano Caeiro e o
sargento Andrade, um bravo do Cuamato. Em Beja, distingue-se na
propaganda revolucionaria o dr. Pereira Coelho; no Algarve, em Faro, o
tenente Stockler, o tenente Cerqueira e o dr. Gil. Mas, soccorramo-nos
mais uma vez das informações do engenheiro Antonio Maria da Silva:
[Ilustração: José Nunes
Auctor de diversas bombas explosivas]
«Ainda no Norte é o caixeiro viajante Alvaro Mendes que estabelece 20
_choças_ carbonarias, entre as quaes se destaca a do Entroncamento, por
causa dos elementos da Escola Pratica de cavallaria que inicia. Em
Santarem é o capitão de artilharia 3, Figueiredo, o agronomo Veiga e o
dr. Queiroz, secretario geral do governo civil. É Malva do Valle quem
impulsiona fortemente a Carbonaria Central. Em Estremoz é tambem Estevão
Pimentel que inicia varios sargentos de cavallaria 3 que foram
denunciados por um camarada, sendo transferidos. Em Lisboa organisa-se o
_comité_ dos correios e telegraphos, sendo meu auxiliar Amandio
Junqueiro. Distingue-se o carbonario Lameiras, telegraphista, auxiliado
por Balduino da Matta, Jacintho Henriques, Moysés Teixeira, Lorena
Queiroz e Gualberto Pires. Merece tambem especial menção a _barraca_
Garibaldi, onde trabalham Antonio Francisco dos Santos e o publicista
Ribeiro de Carvalho, iniciando um numero consideravel de empregados dos
electricos.»
Surge a difficultar a marcha do proselytismo o famoso caso de Cascaes. É
esse caso que põe inesperadamente o juiz de instrucção criminal na pista
dos trabalhos da Associação Carbonaria Portugueza; é elle egualmente que
contribue para que na imprensa appareçam pela primeira vez vagas
indicações sobre a constituição organica das associações secretas. Vem a
proposito pormenorisal-o.
CAPITULO XI
Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»
O caso de Cascaes veiu a publico em meiados de outubro de 1909. Um
incidente sem importancia fez descobrir o cadaver de Nunes Pedro sobre
uns rochedos da Bocca do Inferno. Ao principio suppôz-se que esse homem
se suicidara, atirando-se de grande altura; mas a breve trecho
percebeu-se que o cadaver apresentava signaes d'uma aggressão violenta e
as auctoridades locaes apressaram-se a communicar a descoberta ao juizo
de instrucção criminal. Por outro lado, o então administrador do
concelho de Cascaes, sr. Fernando Castello Branco, tendo encontrado no
fato do morto uns papeis que alludiam ás relações da victima com varios
carbonarios, metteu-se logo no comboio e veiu a Lisboa conferenciar com
a policia. Horas depois, a policia ia de Lisboa a Cascaes investigar o
caso e iniciava uma serie de prisões, tendentes a demonstrar que a morte
do Nunes Pedro fôra planeada e executada por uma terrivel associação
secreta inexoravel para todos os que a atraiçoavam.
A primeira d'essas prisões, a do empregado do commercio Domingos
Guimarães, foi effectuada em Villar Formoso por um agente da policia
repressiva da emigração clandestina. Uma vez realisada, espalhou-se: 1.º
que o Nunes Pedro estava implicado no desapparecimento de cartuchame
armazenado na Alfandega de Lisboa; 2.º que esse desapparecimento fôra
provocado por uma indicação de varios republicanos, que assim se
preparavam e armavam para um proximo movimento revolucionario; 3.º que,
apenas descoberta a falta de cartuchame, esses republicanos, tinham
compellido o Nunes Pedro a fugir para Badajoz, e que elle dias depois de
se ter acoitado n'essa cidade hespanhola escrevera duas cartas uma a
Domingos Guimarães e outra ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes
dinheiro e ameaçando-os de denunciar á policia portugueza a falta do
cartuchame; 4.º que, em face d'essa ameaça, o Domingos Guimarães partira
para Badajoz a socegar o Nunes Pedro, que o trouxera a Lisboa disposto a
fazel-o embarcar para a Africa, mas que depois de se encontrarem os dois
na capital, o Nunes Pedro renovara a ameaça, decidindo então os
carbonarios supprimil-o.
Isto, repetimos, foi o que se espalhou ou melhor foi o que a policia
espalhou, mal teve nas mãos o empregado do commercio amigo da victima e
denunciado como um dos principaes fautores do famoso caso. Após Domingos
Guimarães, o juizo de instrucção criminal capturou outro empregado do
commercio chamado Manuel Martins Pereira Ribeiro, accusando-o de ter
acompanhado o Guimarães e o Nunes Pedro a Cascaes e de ter cumplicidade
na morte do segundo. Affirmou-se até n'essa occasião que o Nunes Pedro
fôra violentamente aggredido com uma bengala pertencente ao Ribeiro e
que este e o Guimarães haviam declarado á policia:
_... terem deliberado fazer desapparecer o Manuel Nunes Pedro, visto
este ser prejudicial, pois podia revelar o segredo das associações
revolucionarias segundo as ameaças de denuncia que já tinha feito..._
Outra informação policial entregue á imprensa periodica disse tambem que
o Pereira Ribeiro reconhecera como sua a bengala acima referida, que o
Nunes Pedro soffrera primeiro a aggressão dos seus companheiros de
passeio a Cascaes e a seguir é que fora precipitado sobre os rochedos da
Bocca do Inferno. Calculavam os aggressores que o mar, lambendo os
rochedos, afastaria o cadaver para bem longe, mas o plano falhara e o
cadaver lá tinha ficado no local, a compromettel-os e a comprometter a
vasta organisação secreta a que elles pertenciam... Isto, tornamos a
insistir, dizia a policia com o ar sorridente e orgulhoso de quem
descobre uma boa pista e se dispõe a esclarecer um mysterio de alto
cothurno.
Uma nova prisão veiu complicar ainda mais o romance da Bastilha: a d'um
outro empregado do commercio, Adelino Luiz Fernandes, primo em segundo
grau de Manuel Nunes Pedro. A policia teve-o enclausurado,
incommunicavel, durante 92 dias, interrogou-o altas horas da noite,
exerceu sobre elle varias violencias e, no entanto, as suas declarações
em nada depuzeram contra os revolucionarios que o juizo de instrução
apontava teimosamente como os eliminadores d'aquelle seu parente.
Adelino Luiz Fernandes confirmava o facto do Nunes Pedro ter fugido para
Badajoz a fim de se eximir a qualquer responsabilidade no
desapparecimento do cartuchame; confirmava o ter elle escripto de
Badajoz ao Domingos Guimarães e ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes
dinheiro e envolvendo esse pedido n'uma ameaça clara; dizia mais--que
Nunes Pedro regressara de Badajoz a Lisboa em 16 de outubro de 1909,
indo para um armazem do Poço do Bispo, onde se conservara dois dias; que
sabendo que o primo era socio do Centro Antonio José d'Almeida, falara
ao presidente do Centro, o professor Camello Neves expondo-lhe as
difficeis circumstancias em que se encontrava a viuva do Nunes Pedro e
que o professor, condoido da sorte da infeliz, lhe dera uma pequena
quantia, uns cinco mil réis. Mas se o Adelino Luiz Fernandes affirmava
tudo isto, dizia egualmente que nunca percebera nos accusados a intenção
de eliminarem o primo, nunca relacionara a sua morte com a ameaça que
elle enviara de Badajoz e que o Nunes Pedro, por mais do que uma vez,
lhe significara o desejo ardente de sahir de Lisboa com destino á Africa
Portugueza.
[Ilustração: Dr. Miguel Bombarda e Vice Almirante Candido dos Reis]
A policia, porém, enlevada na descoberta d'um fio tenuissimo que a
collocara na pista da Carbonaria, torceu a seu talante essas declarações
e desatou a prender mais gente: o commerciante Jorge Francisco de
Carvalho, que sabia da estada do Nunes Pedro no armazem do Poço do
Bispo; o commerciante Joaquim Francisco e o vendedor de leite Joaquim
Adrião Alves, compadre do Domingos Guimarães. Este ultimo declarou no
juizo de instrucção que o compadre, sendo seu hospede desde o começo de
outubro de 1909, sahira de Lisboa no dia 13, que regressara no dia 16,
que passara fóra de casa a noite de 18 (a noite do celebre caso), que no
dia 19 fôra procurado por tres individuos e que no dia 21 fôra preso em
Villar Formoso.
Ainda outra prisão: a do professor do Instituto Brigantino Artur Alvaro
Pereira de Sousa. A policia implicou com elle e tentou ligal-o á morte
do Nunes Pedro apenas pelo seguinte:
O professor estava a ler os jornaes que relatavam o caso e ao ver que os
suppostos criminosos, no dizer dos mesmos jornaes, tinham deixado no
fato do morto uns papeis compromettedores, exclamou: «Deram _bota_!».
Foi o sufficiente. D'ahi a pouco era preso e fortemente assediado pelo
juiz de instrucção.
Por ultimo, a policia ainda enclausurou um antigo cobrador do Centro
Antonio José d'Almeida, Manuel José do Espirito Santo Amaro. Com este
accusado succedeu um episodio interessante. O juiz, prevenindo-o de que
o ia confrontar com o professor Camello Neves, insinuou-lhe:
--Quando eu o acarear com esse homem, affirme que elle o encarregou de
comprar pistolas automaticas e de guardar alguns cartuchos de dynamite.
Mas o antigo cobrador, chegado o momento da confrontação, não
representou o papel que o juiz lhe distribuira e a policia, indignada,
perdendo a cabeça, expulsou o Amaro do gabinete do _ex-irmão Hoche_.
De toda esta trapalhada de averiguações, de capturas a esmo, de clausura
rigorosa, de incommunicabilidade por largos periodos ao sabor da
_Bastilha_, resultou serem enviados ao tribunal como intromettidos no
caso de Cascaes apenas estes individuos: Domingos Guimarães, Manuel
Martins Pereira Ribeiro, o professor Camello Neves, o commerciante
Pereira de Sousa, o vidraceiro Agapito Vieira e Silva, o alfaiate
Eduardo Filippe Amores e o commerciante Manuel Mendes. Todos esses
homens foram julgados dias depois de proclamada a Republica e todos
elles foram absolvidos. E apesar de que, n'esse julgamento, o delegado
se esforçou por demonstrar que o Domingos Guimarães é que assassinara o
Nunes Pedro e que os outros accusados tinham sido seus cumplices, a
defeza, apreciando o caso á luz d'um criterio desapaixonado, evidenciou
sem hesitação que o processo fôra simplesmente um _vomito negro_ do
antigo juiz de instrucção e que n'elle não se devia tocar pelo receio do
contagio. O processo, accrescentou a defeza, não podia merecer a menor
confiança; forjado na _Bastilha_, que a Republica destruiu, n'elle
figuravam como testemunhas individuos que tinham estado presos durante
largos dias de regimen inquisitorial e n'elle existiam declarações
arrancadas aos accusados por meio de torturas que um moderno Scarpia
puzera em pratica a altas horas da noite. A um d'esses accusados o juiz
de instrucção dissera até uma vez, insurgindo-se contra a negativa
formal que elle oppunha a certas affirmações de accusação:
--Ah! você não confessa!... Pois emquanto não confessar não lhe dou cama
nem comida, nem consinto que sua mulher o visite!...
Mas se o caso de Cascaes, espremido até ao maximo pelo juiz de
instrucção, deu simplesmente a embrulhada, que já assignalámos e que o
julgamento em fins de 1910 liquidou n'um sopro, serviu, no emtanto, á
policia para arrancar com furia extranha sobre a Associação Carbonaria
Portugueza. As chamadas diligencias sobre aggremiações secretas
constituem um documento interessante e bem elucidativo da argucia do
_ex-irmão Hoche_ e dos seus sequazes. Cada _primo_ que entrava nos
calabouços da _Bastilha_ soffria um interrogatorio cerrado, que
degenerava a breve trecho n'umas insinuações capciosas, n'umas falinhas
mansas destinadas a seduzir a victima.
--Ora vamos lá, dizia o juiz pondo nos labios o seu melhor sorriso...
confesse, diga tudo o que sabe. É melhor para si porque beneficia d'uma
esplendida attenuante quando chegar ao tribunal e é melhor para mim,
porque termino mais rapidamente as minhas indagações. Confesse...
porque, se o fizer, levanto-lhe a incommunicabilidade...
A sereia policial envolvia assim o carbonario n'uma rede de encantos, de
miragens deliciosas, babujava-o d'uma peçonha que o _Sota da Praça_
tambem distillava ao tocar-lhe a vez de _palpar_ o paciente. Em regra, o
carbonario resistia. E então os dois, reassumindo toda a ferocidade que
os caracterisava, soccorriam-se das ameaças, das violencias, para obter
a tal confissão que, no seu acanhado entender, _simplificava tudo_. Um
dia, o presidente do conselho de ministros, espicaçado certamente pelas
referencias dos jornaes que qualificavam de inutil o supremo esforço do
_ex-irmão Hoche_, e se insurgiam contra o largo periodo de clausura
rigorosa em que elle encerrava os presos das associações secretas,
chamou o juiz ao seu gabinete e inquiriu d'elle o estado do famoso
processo e quaes os resultados alcançados pela averiguação da
_Bastilha_. O _ex-irmão Hoche_, suppondo ingenuamente que o trabalho já
feito era merecedor d'um elogio dispensado pelo chefe do governo,
desentranhou-se logo em pormenores do que sabia sobre a organisação da
Carbonaria.
O ministro ouviu-o attento, fel-o repetir a affirmação de que a
vastissima organisação revolucionaria comprehendia muitos milhares de
homens e, assim que elle acabou, perguntou-lhe quantos dos filiados nas
associações secretas conseguira prender em trez mezes de diligencia
policial. O _ex-irmão Hoche_ citou um numero: duas ou tres duzias de
carbonarios... O ministro deu um pulo na cadeira:
--O que? Pois o senhor tem a pretensão de capturar toda a gente que
pertence a essas associações?... Convence-se que pode metter na cadeia
muitos milhares de homens?... Pare lá com isso!... Mande para o tribunal
os que já conseguiu enclausurar e dê por concluida a investigação!...
[Ilustração: Dr. Malva do Valle
Membro substituto do Directorio em effectividade]
O juiz assim fez. Não evitou o fiasco, mas livrou-se de ser
surprehendido pela implantação da Republica, ainda a prender e a
interrogar os revolucionarios da Associação Carbonaria Portugueza. Para
mais, n'essa altura das suas diligencias, já um bom nucleo de
aggremiados sob a direcção do _comité Alta Venda_ tinha esboçado uma
diversão aos cuidados e ás attenções da _Bastilha_ com a explosão de um
petardo na egreja de S. Luiz e promettia continuar a série até que o
_ex-irmão Hoche_ se capacitasse da improficuidade das suas tentativas.
Disse-se por mais do que uma vez que muitos dos individuos capturados
por causa dos trabalhos da Carbonaria, apenas chegados ás mãos do juiz,
se _descosiam_ sem a menor hesitação e procuravam com uma denuncia
completa readquirir a liberdade sob fiança. O engenheiro Antonio Maria
da Silva, interrogado a tal respeito dias depois da Revolução, oppoz um
desmentido formal a esses boatos:
«Effectuadas as primeiras prisões, vimos logo que os chefes das _choças_
e _cabanas_ eram poupados--systematicamente poupados. Isto significava
que se os presos não tinham fórma de resistir á pressão inquisitorial do
Scarpia azul e branco e se viam arrastados, como unica solução, até á
denuncia, escolhiam de preferencia os camaradas de menor
responsabilidade. De resto, já tinhamos previsto que esse meio era o
unico para forçar a sahida do _cul de sac_ asphyxiante constituido pela
instrucção criminal. Esses homens não foram delatores: foram martyres. E
quizera poder, n'esta hora de resgate, abraçal-os como bons camaradas
que sempre foram e que tiveram a honra de occupar a vanguarda do
sacrificio.»
Encarando essas prisões sobre outro aspecto: o juiz, effectuando-as,
tinha a impressão de que dava assim um golpe bem fundo na organisação
revolucionaria. Pois succedia exactamente o contrario. A Carbonaria
fortaleceu-se de maneira consideravel logo que o _ex-irmão Hoche_
desatou a perseguir os seus filiados. A cada noticia de tortura
inflingida aos carbonarios encerrados na _Bastilha_ correspondia, por
parte da vastissima aggremiação, um impeto irreprimivel de
solidariedade. E assim se explica como, decorridos tres mezes de
sobresaltos, de anciedade, provocados pelas _démarches_ da policia e
apezar do exilio necessario de Luz d'Almeida e de alguns dos seus mais
valiosos collaboradores, a Carbonaria, longe de vêr diminuida a sua
expansão, tinha alargado tanto a sua rêde de iniciações que os
dirigentes suppunham attingido o maximo grau de propaganda util e
efficaz e julgavam desnecessario proseguir na conquista de novos adeptos.
Passemos a outro capitulo da historia revolucionaria: a prisão de João
Borges no _armazem_ de bombas da rua dos Correeiros, prisão que
patenteou á policia o auxilio que os dynamitistas deviam prestar aos
republicanos revolucionarios. Passadas algumas horas sobre ella, que na
tarde d'um _domingo morto_, fez despertar, curiosa e receiosa, uma boa
parte da população lisboeta, recebeu-se na redacção d'um jornal
republicano esta missiva, que é opportuno recordar e transcrever:
_Sr. redactor._--Como v. naturalmente sabe, o caso das _bombas_ é
mais uma fantochada preparada «ad hoc», para inglez ver e surtir um
effeito, que ainda ninguem attingiu, mas que innegavelmente dá
tolice. Para mim é ponto assente que o João Borges e o juiz de
instrucção vão feitos na manigancia; nem d'outra fórma se explica o
sangue frio e a confiança de que está investido o tal Borges. Se não
vae feito com o juiz, _um valente_ que pega assim em bombas á mão
como se mexesse em batatas, então vae feito com elementos
reaccionarios para fins que ninguem percebe.
O facto do juiz de instrucção criminal pegar assim em bombas á unha,
dá a nota de que sabia muito bem o quanto ellas tinham de
inoffensivas.
Se v., sr. redactor, fosse juiz d'instrucção, se fosse um Cyro, um
_Sota da Praça_, ou outro qualquer Sherlock Holmes de fancaria, já
teria perguntado ao tal Borges quem é que lhe offereceu 6 contos
para desempenhar aquelle papel e quem é que lhe dava 1$500 réis por
dia a elle e a algum outro dos que elle andou a convidar para a tal
farçada.
Em quanto o governo consentir um juiz d'aquella força e os
reaccionarios dentro do paiz, ha de haver destas scenas. Quem é que
come que na travessa da Palha, n'uma casa de meretrizes, se
fabricavam bombas? Aquella só do _ex-irmão Hoche_...
Se fossem bombas verdadeiras, aonde estava elle já?
Que paiz este!... Quando veremos nós isto ás direitas?--De v.
etc--_X_.
Commentemos esta carta, porque ella dá ensejo a desfazer umas _teias de
aranha_ que ainda velam o olhar indeciso de muito patriota.
CAPITULO XII
As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven Portugal»
Em primeiro logar, rememoremos os factos... Foi, como já dissémos, na
tarde d'um _domingo morto_ que a policia commandada pelo juiz de
instrucção pôz em alvoroço a rua dos Correeiros, investindo contra o
deposito de explosivos que João Borges ali estabelecera. O juiz tinha ido
ao cemiterio acompanhar um enterro. Em meio da cerimonia funebre,
appareceu-lhe um guarda da judiciaria, enviado pelo chefe Ferreira, e
disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O juiz surpreendido, chamou o Cyro,
que andava proximo, e, largando o enterro, veiu até á travessa da Palha
com o ar preoccupado de quem trazia um mysterio na consciencia.