alludimos? D'este modo: ao chefe d'um dos grupos populares, Victor de
Sousa, aggregou-se mais um combatente, um policia, seu compadre e amigo,
de serviço, ao que parece, á porta do dictador. Iniciou-o no mysterio,
indicando, ao mostrar-lhe as armas já em sua casa na rua Luz Soriano,
que João Chagas e Alfredo Leal eram os incumbidos especialmente d'essa
distribuição de alta responsabilidade. Na madrugada seguinte era preso
Victor de Sousa. Alfredo Leal tinha ainda nos armazens grande quantidade
de armamento por entregar. Apesar do segredo em que a policia envolveu
aquella captura, Affonso Costa e João Chagas souberam-na a tempo e pelo
telephone avisaram o proprietario dos armazens para que puzesse a salvo
as armas restantes. Após o aviso, o visconde da Ribeira Brava correu á
rua de Santo Antão. Os armazens estavam cercados pela policia. Era
urgente proceder com habilidade e frustrar os designios do juizo de
instrucção.
Os armazens teem uma portinha que deita para as escadinhas de S. Luiz em
frente da entrada do Coliseu dos Recreios. A sahida das armas devia ser
feita por essa portinha, caso a policia não houvesse dado por ella...
como não deu. As armas foram enroladas, em tapetes e, constituindo tres
fardos, Alfredo Leal, seu filho José Saragga Leal e um criado de
confiança, transportaram-nas á calçada de Sant'Anna, onde o visconde da
Ribeira Brava as esperava mettido n'um _coupé_, para as ir occultar
provisoriamente na sua casa, em plena Avenida da Liberdade. O material
da revolta salvou-se, mas na madrugada seguinte Alfredo Leal era preso
no Dafundo. João Chagas, que na vespera jantara com elle na _Charcuterie
Française_, cahira em poder da policia ao sahir d'esse estabelecimento
da rua Nova do Carmo. Escusado será dizer que as buscas emprehendidas
nos armazens da rua de Santo Antão não deram o mais insignificante
resultado. No emtanto, o dictador fazia espalhar pouco depois que a
policia tinha ali encontrado armas e bombas em abundancia...
N'esta altura da narrativa cabe referir que muitos dos individuos, tanto
da classe civil como da classe militar, implicados na conspiração, só
foram sobejamente conhecidos do publico quando, insistindo na conjura,
se misturaram á organisação da revolta de 4 e 5 de outubro. Outros
houve, em compensação, que, vendo mallogrados os esforços applicados ao
28 de janeiro, abandonaram definitivamente os trabalhos revolucionarios
e foram surprehendidos pela proclamação da Republica n'um alheiamento
completo da agitação politica.
[Ilustração: D. Manoel II]
O almirante Candido dos Reis, cuja acção no _complot_ de 4 e 5 de
outubro teve uma evidencia excepcional, garantindo, além de tudo o mais,
pela sua figura de destaque, a adhesão de diversos officiaes do exercito
de mar e terra, no 28 de janeiro sobresahiu por uma forma inolvidavel.
Sob as suas ordens é que devia dar-se então o assalto ao _S. Gabriel_ e
ao quartel dos marinheiros; com elle conferenciaram muitas vezes o sr.
Alpoim e outros elementos da revolta; para elle estava naturalmente
destinado um papel preponderante, muito embora da sua acção individual
não dependesse, como de facto não dependia, pôr em andamento, com
determinado signal e no momento dado, o complicado mechanismo da
revolução; com elle estavam promptos a exercer acção decisiva alguns
officiaes dos quaes ninguem suspeitava e que á quasi totalidade dos
monarchicos pareciam indifferentes ou pelo menos indecisos.
Assim, a policia, prendendo alguns dos vultos do partido republicano
que, a bem dizer, não occultavam as suas _démarches_ revolucionarias,
deixava exactamente fóra da rêde de perseguições uma boa somma de
executores d'esse plano maduramente combinado e que, uma vez resolvido o
ataque formal ás instituições monarchicas, eram capazes de, readquirindo
certa autonomia, lançar fogo ao rastilho previamente preparado. É voz
corrente que o movimento do 28 de janeiro esteve para explodir antes
d'essa data e que n'aquelle mesmo dia soffreu de hora para hora diversos
adiamentos. Pois não andará longe da verdade quem affirmar tambem que,
se as prisões effectuadas na segunda quinzena de janeiro embaraçaram
fortemente a eclosão do movimento, só uma intervenção muito especial é
que impediu que, apesar de tamanho contratempo, a tentativa de revolta
se esboçasse com uma nitidez assombrosa.
Por mais do que uma vez, quando nos dirigentes da conspiração lavrava,
não diremos desanimo, mas comprehensivel reluctancia em impellir para o
campo de batalha a grande massa organisada dos revoltosos, houve
necessidade de refreiar com energia os impetos generosos de creaturas
ardentes, illuminadas, que não consentiam um minuto de reflexão sobre a
opportunidade da explosão revolucionaria. Essas creaturas tudo
sacrificavam ao desejo irreprimivel de combater a monarchia. E uma
d'ellas, ponderando-se-lhe um dia que, estando presos em quarteis da
municipal elementos de valor não só no partido republicano como na
organização do movimento, a menor agitação extemporanea, a menor revolta
imprudente, provocariam, sem duvida, a sua condemnação á morte, uma
d'ellas, repetimos, depois de pesar o argumento, replicou sem commover-se:
--Que importa!... São mais tres ou quatro cadaveres!...
Mas, retomemos o fio da narrativa. Presos e incommunicaveis dois dos
chefes da revolta, acompanhados d'outros individuos de menores
responsabilidades na empresa, não occorreu, como seria logico, uma
paragem na sua organisação. A idéa predominante, n'essa occasião, não
foi a de sustar os preparativos revolucionarios. Foi exactamente a
opposta: foi a de se dar pressa ao rebentar da bomba, porque todos ou
quasi todos se convenciam de que o dictador não perdoava aos inimigos
das instituições monarchicas. Para mais, n'essa altura do _complot_, o
governo João Franco, ainda que não possuisse na sua mão todos os fios do
trama revolucionario, sabia muito bem, por informações d'uma relativa
precisão de pormenores, que o movimento não era limitado a uma simples
insurreição de quartel nem a uma manifestação armada de meia duzia de
visionarios.
O governo João Franco sabia perfeitamente que na conjura entravam tropa
e a classe civil, que, se a primeira estava armada, a segunda não
sahiria á rua desprevenida e que a monarchia vivia sobre a ameaça
constante da fornalha republicana, para a qual a dictadura deitara o
melhor do seu combustivel.
Mas se o governo João Franco sabia tudo isto que o levava a acautelar-se
o melhor possivel contra a probabilidade de gravissimos acontecimentos,
ignorava, por outro lado, a fé que dominava o povo alliciado para a
revolta. O governo João Franco não fazia caso nenhum d'esse povo,
calculando erradamente que a massa soberana e anonyma só se moveria
tendo á frente os seus grandes idolos partidarios. Ignorava
absolutamente a importancia e a valentia d'essa massa e de quanto ella é
capaz, lançada decididamente no caminho da reacção ao despotismo. O povo
sem Antonio José, João Chagas, etc.--pensava o dictador--não se atreve a
protestar com as armas na mão. Uma vez presos esses homens, os
revolucionarios civis absteem-se da lucta e ficam só em campo os
militares, que uma serie de medidas urgentes e rigorosas recolhe
egualmente á inacção e ao silencio. Assim pensava o governo João Franco
alguns dias antes do 28 de janeiro e assim tinha pensado o juiz de
instrucção criminal, na parte referente a _fabricantes de bombas_,
quando a explosão da rua do Carrião lhe entrou pela porta dentro e
desauctorisou, por completo, a famosa lista negra do Cyro. Um e outro
viviam redondamente enganados.
CAPITULO V
Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28
A prisão do dr. Antonio José de Almeida contribuiu bastante para que a
febre revolucionaria augmentasse de modo consideravel. O dr. Affonso
Costa, que, absorvido pelo processo Djalme, andava um tanto afastado da
preparação da conjura, voltou a ella ainda com mais ardor. Os
conspiradores passaram a reunir-se n'uma casa da rua do Desterro,
pertencente ao sr. Luiz Grandella, fez-se nova acquisição de armamento
(parte d'elle fornecida pelos dissidentes) ultimaram-se as disposições
de ataque e de conquista e a data de 28 passou a ser mais anciosamente
esperada do que as que a tinham precedido na agenda dos revoltosos. O
_comité_ dirigente dos trabalhos era então composto de Affonso Costa,
visconde da Ribeira Brava, Alvaro Pope, Marinha de Campos, Ernesto Pope
e Arthur Cohen. Á casa da rua do Desterro foram dezenas e dezenas de
pessoas receber armamento, instrucções, etc. A senha de entrada era
_Jasmim_.
Não é facil, por variadas razões, reproduzir, na actualidade e na
integra, o plano do movimento. Já decorreram sobre elle alguns annos e
estamos certos de que n'esse projecto muita coisa havia que, a ser
cumprida rigorosamente, resultaria em fraco beneficio para o exito do
_complot_. Na revolta de 4 e 5 de outubro cremos mesmo que se emendou a
mão em varios pontos considerados essenciaes no plano do 28 de janeiro.
A experiencia ainda é, afinal, a grande mestra da vida.
Mas se não podemos dar muitos pormenores sobre o projecto da revolta, da
qual derivou logicamente o regicídio, é-nos licito, no emtanto, fixar
aquellas das suas bases que são do conhecimento da maioria dos
implicados na conspiração. Em primeiro logar, o exercito de terra e mar
só se sublevaria depois de vêr feitos certos signaes que lhe
communicariam a prisão do dictador João Franco. Quer dizer: a grande
orchestra do _complot_ não devia principiar o concerto sem que a batuta
do regente se movesse a romper a marcha...
[Ilustração: Teixeira de Souza]
A prisão do dictador devia ser levada a effeito por um grupo civil entre
as 4 e as 6 da tarde, quando elle, sahindo de casa, no alto da Avenida,
se dirigisse para o Terreiro do Paço. Preso, conduzil-o-hiam para bordo
d'um vapor de pesca, o _Dinorah_, d'onde o transportariam depois para
qualquer navio de guerra revoltado. Entretanto, Machado dos Santos e
Serejo Junior assaltariam o corpo de marinheiros; Soares Andréa tomaría
o Arsenal de Marinha, auxiliado pela respectiva guarda e um grupo civil;
Candido dos Reis iria a bordo do _S. Gabriel_, onde o 1.º tenente Branco
Martins teria á sua disposição grande parte da guarnição do navio e
muitos milhares de cartuchos; o visconde da Ribeira Brava, com um grupo
civil bem municiado, occuparia o Arco da Rua Augusta e todas as
platibandas dos ministerios que dominam as ruas da Prata, Augusta e Ouro
e embocaduras das ruas da Alfandega e Arsenal.
No ataque aos navios de guerra entraria, por conveniencia dos
marinheiros revolucionarios, o 2.º tenente de marinha Bernardo Alpoim,
que fizera n'alguns d'elles activa propaganda contra a dictadura
franquista. A sahida das forças da municipal aquarteladas no Carmo
estava cortada por uma rede de dynamitistas installados no Sacramento
(no Club dos Caçadores), na calçada do Duque, etc. A propria egreja do
Sacramento, onde os revolucionarios entrariam usando d'uma chave falsa,
serviria tambem a impedir que os janizaros do antigo regimen viessem cá
para fóra espingardear o povo. Proximo dos outros quarteis da municipal
e das esquadras de policia havia analogas disposições de ataque.
Os dissidentes tinham um logar marcado em especial: o elevador da
Bibliotheca. Aqui reunidos desde o começo da tarde, logo que pelo largo
do Pelourinho passasse um automovel conduzindo o dr. Affonso Costa,
deviam correr, armados, para a camara municipal, apossar-se d'ella
juntamente com aquelle estadista e outros individuos que o acompanhariam
e uma vez no edificio, proclamariam um governo provisorio. Essa passagem
do automovel conjugava-se com um signal dado no Tejo, que indicaria a
execução immediata d'outras manobras revolucionarias. Outro grupo
apossar-se-hia dos telegraphos e da rede telephonica. Em summa, mal que
fosse dada ordem para o rebentar do movimento, Lisboa vêr-se-hia
litteralmente enleiada n'um combate renhido, a menos que os defensores
da monarchia resolvessem momentaneamente não resistir aos revoltosos.
A prisão do dictador obstaria a que elle, sahindo da sua casa de
residencia, conseguisse communicar com os elementos militares de que
dispunha ou com qualquer dos seus collegas no gabinete. João Franco,
para que a sua acção não entorpecesse o que fôra planeado, devia
soffrer, acto continuo ao inicio da revolta, uma immobilisação rigorosa.
Não é facil asseverar até onde iria essa immobilisação, caso ella se
tivesse produzido; mas a verdade é que no espirito de todos havia a
noção clara de que o menor passo dado pelo dictador fóra das vistas dos
revolucionarios transtornaria, sem duvida, o exito da causa.
Na noite de 26 de janeiro era enorme a affluencia de conspiradores á
casa da rua do Desterro. De repente chega um aviso de que o edificio
estava cercado pela policia. Fecham-se todas as portas e Affonso Costa,
tomando a direcção da defeza, resolve resistir aos assaltantes,
exclamando no auge do enthusiasmo:
--Vamos a isto!... Será o inicio da Revolução!
Dentro de breves instantes verificou-se que o aviso não tinha
fundamento. Mas tornava-se necessario proceder com cautela e marcar
definitivamente a hora para o rebentar da revolta no dia 28. Escolheu-se
as 4 da tarde por ter a vantagem de coincidir com o maior transito das
ruas de Lisboa e a menor vigilancia nos quarteis da guarnição.
Na noite de 27, os conspiradores receberam na casa da rua do Desterro
uma carta anonyma, prevenindo-os de que se não abandonassem
immediatamente o edificio seriam denunciados á policia. A carta era,
evidentemente, d'um visinho medroso... Affonso Costa manda alugar outra
casa na rua de S. Julião, n.º 32 e, vestindo a farda de Marinha de
Campos, percorre varias ruas da cidade e entra em diversos portaes, sem
que a policia dê por tal...
«Essa noite (a de 27)--revelou-o mais tarde o visconde da Ribeira
Brava--foi tremenda de sensações! Alvaro e Ernesto Pope e Arthur Cohen
desenvolveram uma actividade inexcedivel. Os automoveis giravam
constantemente, percorrendo os postos, levando ordens e dando a ultima
demão nos preparativos do movimento. Essa noite, eu e Affonso Costa
passamol-a sem dormir, sentados os dois a uma meza, escrevendo em
pedaços de papel determinações que eram enviadas a todos os que dirigiam
grupos de combate, e ao mesmo tempo dando indicações para o fornecimento
de armas, que se encontravam no deposito principal. Sobre a madrugada
estavamos gelados. Entre essas ordens ha uma interessante para a
historia da Revolução. É a que enviámos a José d'Alpoim, concebida nos
seguintes termos:
«O sr. José d'Alpoim, com os seus amigos, irá postar-se no elevador
da Bibliotheca, para d'ali, na companhia de Affonso Costa e do povo
assaltarem a Camara Municipal e ahi proclamarem a Republica. Pelo
«comité» revolucionario, _Affonso Costa_ e _Ribeira Brava_».
Approximava-se o momento decisivo.
CAPITULO VI
A «ratoeira» do elevador da Bibliotheca insuccesso do «complot»
Todo o dia 28, desde as primeiras horas da manhã, foi passado n'uma
anciedade enorme indescriptivel. Os republicanos e os dissidentes, ainda
então á solta, sabiam perfeitamente que a policia os não desfitava e que
era uma questão de minutos, talvez, a perda da sua liberdade.
Proximo das 11 horas da manhã, o sr. Alpoim, que estava no centro da
dissidencia progressista, recebeu a ordem revolucionaria n'outro logar
transcripta, e ás 2 da tarde foi para o elevador da Bibliotheca com os
srs. João Pinto dos Santos, Egas Moniz, Cassiano Neves, Batalha de
Freitas e outros mais. Encafuaram-se todos n'um cubiculo, tendo á porta
uma vedeta que se revesava regularmente. Das 2 ás 4, nada occorreu ali
de anormal. Ás 4, os dissidentes, já então acrescidos de Marinha de
Campos e Alvaro Pope, esperaram que o _chefe da grande orchestra movesse
a batuta_. N'outros pontos de Lisboa, a scena era quasi identica. Estava
tudo a postos. Faltava apenas o signal combinado...
[Ilustração: Anselmo Braamcamp Freire
Presidente da Camara Municipal Republicana de Lisboa, antes da
proclamação da Republica]
Ao cahir da tarde, como se espalhasse o boato de que o movimento tinha
de soffrer novo adiamento de horas, Marinha de Campos, Alvaro Pope e o
visconde de Pedralva foram de automovel percorrer os quarteis,
transportando ao mesmo tempo armas e munições. Pouco depois, entrou no
elevador o tenente-coronel Amancio de Alpoim e communicou aos conjurados
que a revolta gorara e que era conveniente que abandonassem o edificio,
pois a policia já lhes andava no encalço.
Debandaram. Mas d'ahi a uma hora voltaram novamente a reunir-se na casa
do tenente Furtado, contigua ao elevador. Isso de nada serviu, porque
Alvaro Pope, que ali appareceu já noite fechada, tinha informações
identicas ás do tenente coronel Amancio de Alpoim. O movimento fôra mal
succedido, as tropas tinham sido postas de prevenção, as guardas dos
edificios publicos haviam sido reforçadas e o _comité_ revolucionario
ordenara definitivamente a _retirada_ das forças mobilisadas. O dr. Egas
Moniz, sabendo que o sr. Affonso Costa e o visconde da Ribeira Brava
tinham entrado no elevador, foi ao seu encontro. N'esse mesmo instante,
a policia principiava a cercar a casa do tenente Furtado. Era evidente
que se preparava para capturar o sr. Alpoim e os seus amigos, como d'ahi
a pouco capturou os srs. Affonso Costa, dr. Egas Moniz e visconde da
Ribeira Brava. Impunha-se a fuga.
O porteiro do edificio, informado do caso, communicou ao sr. Alpoim a
existencia d'uma sahida pelo lado da calçada de S. Francisco. Os
dissidentes aproveitaram-na, mas com dificuldade. A portinha era
estreita e o corredor que ali conduzia era lobrego e cheio de teias de
aranha. Os dissidentes desceram-no, cautelosamente, quasi roçando pelos
policias, que começavam então a invadir as escadas. Em baixo, novas
difficuldades e sobresaltos. A fechadura não servia desde annos e foi um
trabalhão para fazer girar a chave. Na calçada de S. Francisco não havia
um unico policia... O sr. Alpoim e alguns dos seus amigos foram ao
centro dissidente, no largo das Duas Egrejas. Ali souberam das prisões
effectuadas dentro do elevador da Bibliotheca. O visconde do Ameal
encaminhou-se logo para a estação do Rocio, d'onde fugiu para Villa
Franca e depois para Hespanha; o visconde de Pedralva imitou-o, e o sr.
Alpoim, mettendo-se n'um trem, foi para casa. Mas, calculando que ia
egualmente ser preso, passou, momentos antes da policia o procurar, para
a residencia do sr. Teixeira de Souza e no dia seguinte, á noite,
abrigou-se no palacete do sr. Henrique de Mendonça, d'onde se escapuliu,
em automovel, para o paiz visinho.
Quasi á mesma hora em que os dissidentes abandonavam a casa do tenente
Furtado, o dr. José d'Abreu corria ao Club dos Caçadores a convencer os
revolucionarios que ali se encontravam da inutilidade do seu esforço,
visto que o dr. Affonso Costa já tinha cahido nas garras da policia.
Egual prevenção era feita aos grupos capitaneados pelo engenheiro
Antonio Maria da Silva, professor Ferrão e tantos outros, que só
esperavam o signal combinado para luctarem com energia, coragem e
decisão em prol da liberdade politica. Depois, seguiram-se: o esboço de
ataque á esquadra do Rato, onde morreu um policia, a fusilaria na rua da
Escola Polytechnica e na rua Alexandre Herculano, a tentativa de ataque
á esquadra do Campo de Sant'Anna, os incidentes de Alcantara, etc.,
emfim varios episodios que mostraram claramente aos _profanos_
boquiabertos a extensão do movimento projectado.
Porque falhara? Já o dissemos: porque, dependendo em absoluto da prisão
do dictador e não tendo o grupo civil a isso compromettido levado a cabo
a sua missão, todos os elementos a postos se conservavam inactivos ou
procuraram escapar com presteza á desforra do governo franquista.
Todos... não dizemos bem. Affonso Costa, dentro do elevador da
Bibliotheca e cercado pela policia, puxou d'um revolver para resistir
até á ultima. O visconde da Ribeira Brava impediu-o de o desfechar.
Machado dos Santos, Serejo Junior e Helder Ribeiro pensaram, como ultimo
recurso, sublevar caçadores 2 e com esse regimento e o corpo de
marinheiros tentar a libertação dos chefes revolucionarios
encarcerados pela dictadura. Marinha de Campos alvitrou a sublevação da
fragata _D. Fernando_ e declarou-se prompto a fazel-o sem outro auxilio
de militares. Machado dos Santos tentou tambem approximar-se das
baterias de Queluz, onde os revolucionarios contavam um apoio fortissimo.
E descreve elle no seu relatorio de 1912:
«N'essa tragica noite tudo fugiu! O commandante audacioso d'um regimento
teria salvo o seu paiz. As portas do quartel de marinheiros estavam
completamente fechadas. Só o 2 de caçadores, que fôra reforçar a guarda
do paço (onde estavam officiaes nossos) o poderia ter feito. O terror
era grande na cidade. Encontro-me no Rocio com Candido dos Reis, Moura
Braz e Tito de Moraes, se não estou em erro; dirigimo-nos ao Club
Militar; o almirante Botto e um outro cujo nome me não occorre ouviram
Candido dos Reis tentar leval-os para o nosso lado. João de Freitas
Ribeiro gritava que uma dictadura nos não devia impôr um rei; os
almirantes e um capitão de mar e guerra que lá estava (cujo nome tambem
ignoro) ficaram mudos e quedos e nós retiramo-nos, ouvindo eu dizer a um
dos tenentes que comnosco se encontravam:
«--Almirantes de borra, que nem para um acto de dignidade servem!...
«Candido dos Reis (ainda não era almirante) dirigiu-se a casa do dr.
Bernardino Machado, levando-me em sua companhia; lá, falsas noticias nos
chegam, e, entre ellas, duas de calibre superior; infantaria 5 tinha-se
revoltado e tomado o Cabeço de Bolla e o 16 tinha-se batido contra a
guarda e vindo para a rua. Candido dos Reis ordena-me que vá averiguar
da verdade e, n'esse momento, chorando de raiva, lembro-me de ter sido
menos correcto com o dr. Bernardino Machado, o qual muito paternalmente
se não melindrou com isso, dizendo talvez no seu fôro intimo que eu era
um visionario e que, como tal, era muito desculpavel o meu estado de
exaspero. Ambos tínhamos razão; cada um via as coisas pelo seu prisma.
Elle estava informado do retrahimento dos officiaes e eu imaginava que
todos, até final, tinham obrigação de honrar os seus compromissos.»
Cumprindo a ordem de Candido dos Reis, Machado dos Santos encaminhou-se
para Campo de Ourique. Em volta do quartel de infantaria 16,
agglomeraram se muitos populares que affirmavam que o regimento tinha
sahido, _levando tudo adeante de si_. Machado dos Santos, incredulo,
approximou-se do edificio e perguntou á sentinella quem ia a commandal-o.
--Vá para o largo--foi a resposta que obteve.
E, quasi ao mesmo tempo, a guarda do quartel fez uma descarga de
fusilaría, seguida de alguns tiros espaçados que obrigaram o triumphador
da Rotunda a fugir até o largo da Estrella e depois até o Rato. Aqui
formava pacatamente o 16, commandado pelo respectivo coronel. Mais
adeante, em frente da casa do dictador, uma companhia d'aquelle
regimento fraternisava com um esquadrão da guarda municipal. Não havia
que duvidar; o 16 sahira do quartel, mas para defender a monarchia.
Em resumo; apesar do insuccesso palpavel da insurreição, é justo
consignar que, na noite de 28 de janeiro, muitas das creaturas n'ella
implicadas quizeram desobedecer á ordem do _comité_ revolucionario e
lançar-se corajosamente na revolta. Houve momentos de amargura, em que
esses homens attribuiram a responsabilidade do adiamento, _sine die_, da
insurreição, ás hesitações d'uns companheiros. Um grupo de sargentos de
artilharia chegou mesmo a propor a sedição do regimento 1 como inicio
immediato do movimento. Foi necessario que a vontade persuasiva de
alguns se impusesse fortemente para evitar um copioso derramamento de
sangue. O desejo de combater, a raiva que a contra ordem de revolução
provocara n'um grande numero de conjurados eram tamanhos que só por
milagre Lisboa não acordou a 29 de janeiro de 1908 mergulhada em
horrorosa chacina.