«Fui á Estephania á procura d'um conhecido. Bati. Ninguem me

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Bibliotheca Historica

(Popular e Illustrada)

IV

A Revolução Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

por

JORGE D'ABREU

1912

Edição da casa Alfredo David

Encadernador

_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_

LISBOA

Bibliotheca Historica

(Popular e Illustrada)

IV

A Revolução Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

VOLUMES PUBLICADOS

I--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, por _F. Mignet_, 1.º volume.

II--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, 2.º volume.

III--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 31 DE JANEIRO (PORTO 1891), por _Jorge

d'Abreu_.

IV--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 5 DE OUTUBRO (LISBOA 1910), por _Jorge

d'Abreu_.

V--A REVOLUÇÃO E A REPUBLICA HESPANHOLA (1868 A 1874), por _Victor

Ribeiro_.

NO PRÉLO

VI--A REVOLUÇÃO NIHILISTA NA RUSSIA, por _Stepniak_.

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IV

A Revolução Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

POR

JORGE D'ABREU

1912

Edição da Casa Alfredo David

Encadernador

_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_

LISBOA

Composto e impresso na Imprensa Libanio da Silva = Travessa do Falla-Só,

24--Lisboa

Falando aos leitores

_De todos os relatos que vieram á tona da imprensa portugueza sobre

episodios do movimento que implantou a Republica no nosso paiz,

conclue-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do

programma revolucionario que se cumpriram á risca. No emtanto, o

movimento triumphou. As longas horas de espectativa dolorosa, que uns

passaram a desafiar a morte e outros a contas com a torturante

ignorancia da verdade, desfecharam na manhã de 5 de outubro em delirante

estralejar da victoria--alcançada simultaneamente pelo esforço heroico

de meia duzia de patriotas e a inacção de centenares de descrentes. O

movimento triumphou apesar de tudo: da ausencia, no momento supremo, de

elementos de coordenação revolucionaria, do desanimo que bem cedo

invadiu quasi a totalidade dos dirigentes da campanha, da falta sensivel

de armamento destinado aos carbonários e outros civis._

_Na madrugada de 4 de outubro, á hora em que um troço de populares e de

soldados arrastava pela Rotunda o enthusiasmo dos primeiros momentos de

combate bem succedido, ainda n'uma casa dos lados da Sé duas creaturas

devotadissimas fabricavam bombas que um emissario da Revolução d'ahi a

pouco devia ir buscar. Mas o emissario não appareceu e um dos

«fabricantes» sahiu á rua a inteirar-se da situação. Cahiu logo nas

garras da policia... E como este, muitos outros incidentes occorreram na

madrugada celebre, mais proprios, sem duvida, a embaraçar a eclosão do

triumpho do que a facilital-a._

_É que se do lado dos revolucionarios havia quem supportasse, com fé

inquebrantavel, todos os obstaculos--e não poucos--que surgiram ante o

seu designio, do lado do inimigo a convicção da perda irreparavel da

monarchia enraizara-se profundamente, abalando, com diminutas excepções,

as consciencias as mais empedernidas. Parece que, mal soaram no silencio

tragico da noite os primeiros tiros de canhão, a maioria das creaturas,

ás quaes incumbia a missão de luctar pelo regimen extincto, teve a visão

clara da inutilidade do seu esforço[1]._

_A influencia moral desprendida do acto revolucionario, já em

precipitado desenrolar, ajudou muito a conquista da liberdade. A

presença da artilharia no campo revoltoso, a immediata adhesão do

«Adamastor» e do «S. Rafael» ao movimento, o bombardeamento do paço, a

fuga do rei e a derrota das baterias de Queluz contribuiram

innegavelmente, e em larga escala, para assegurar a victoria da

Republica; mas, a par d'esses factores, não é licito esquecer a molleza,

a inercia dos que constituiam o inimigo, uma e outra derivadas d'um

scepticismo que a monarchia, sem dar por isso, inspirava desde muito aos

proprios que a serviam._

_É cedo, porém, para entrarmos na enumeração e apreciação d'esses

factores. O nosso proposito, narrando o que vae lêr-se, é fixar, com o

melhor methodo possivel, os pormenores da sacudidela feliz que destruiu

a monarchia portugueza, as «étapes» do verdadeiro sonho durante o qual

se desmoronou a dynastia dos Braganças. É um pouco a historia da

organisação revolucionaria seguida logicamente do relatorio da batalha

de 4 e 5 de outubro. Aqui e ali resaltarão diversas notas confiadas por

authenticos conspiradores ao signatario d'estas linhas e que, se não

modificam a impressão geral do quadro da revolta que os leitores

conhecem, emprestam-lhe, comtudo, «nuances» absolutamente ineditas que é

justo e necessario pôr em lettra redonda._

_A historia da organisação revolucionaria--sabemol-o

perfeitamente--escreveram-na tres homens durante o periodo febril da sua

preparação. Um d'elles, Miguel Bombarda, destruiu, pouco antes de

morrer, o capitulo mais interessante, o que delineava, em traços

symbolicos, todo o plano de ataque ás instituições monarchicas. Liam-se

n'esse capitulo a força imponente dos elementos revolucionarios e a sua

distribuição pelos pontos vulneraveis; era o balanço, lucidissimo para

os iniciados e inintelligivel para os profanos, do grande exercito

democratico que se aprestara a investir contra a realeza. Miguel

Bombarda destruiu-o receioso de que viesse a cahir, apoz a sua morte, em

poder do inimigo._

_O outro capitulo escreveu-o João Chagas ao sabor da opportunidade, em

minusculos pedaços de papel, nas margens livres de cartas e telegramas e

até em bilhetes de visita. Era o resumo fidelissimo das assembleias

revolucionarias que antecederam o movimento, as «actas» das reuniões

secretas de militares, o registo palpitante das adhesões que dia a dia

faziam engrossar a legião republicana. Esse capitulo não foi destruido.

Atravessou o periodo mais acceso da lucta escondido n'um chapéu

feminino--o chapeu da esposa do illustre pamphletario--e só reviu a luz

do dia quando o governo provisorio já tinha iniciado a sua obra de

reorganisação politica._

_Ainda outro capitulo--o da implantação da Republica, lista dos actos,

das determinações que deviam succeder immediatamente á consagração

solemne do triumpho. Esse esteve, por instantes, condemnado a

desapparecer nas profundezas d'um syphão, transitou depois de algibeira

para algibeira e por fim encontrou refugio seguro na redacção d'um

jornal, a «Lucta»... a dois passos da policia._

_Qualquer d'esses capitulos, publicado isoladamente despertaria um real

interesse e daria margem não só a variadissimos commentarios como a uma

legitima exclamação de não menos legitimo espanto. Mas a nossa pretensão

é mais modesta. Na leitura do que vae seguir-se, encontrar-se-hão

simplesmente os elementos aproveitaveis á formação d'um quarto capitulo,

meramente subsidiario, não traçado por espirito de revolucionario--que o

não fomos--mas annotado por quem, durante o periodo de incerteza,

limitou a sua acção pessoal a tomar apontamentos, a ouvir informações, a

apreciar incidentes, a defrontar muita decisão, muita coragem, e,

sobretudo muito medo, muito pavor. De mistura com isto, repetimos,

apparecerão os depoimentos dos revolucionarios authenticos, dos que

jogaram a vida n'uma cartada de exito._

J. DE A.

[1] _Em 1891, por occasião da revolta do Porto, não succedeu assim.

«Para o paço de Belem havia desde manhã cedo enorme affluencia de

personagens officiaes»--dissemol-o no 31 de Janeiro.--«Todos á

porfia accorriam á regia morada». Quasi vinte annos depois, no

instante do perigo, fugiam d'ella..._

CAPITULO I

Da perspicacia dos espiões ao serviço do antigo regimen

A policia, que o defunto juizo de instrucção criminal empregava

especialmente na espionagem dos chamados agitadores da opinião, recebeu

um bello dia do final do reinado de D. Carlos o encargo de averiguar o

que projectava de sensacional o partido republicano, que uma denuncia

affirmava mover-se activamente n'uma conspiração surda, mas tremenda. Os

_bufos_ puzeram-se immediatamente em campo e, dentro de curto prazo,

davam ao chefe conta pormenorisada da sua missão. O relatorio d'essa

espionagem, que pretendia, se não estamos em erro, elucidar

policialmente o trama revolucionario do 28 de janeiro, é a documentação

mais perfeita sobre a incapacidade dos que essa mesma espionagem

exerceram. Um dos _bufos_ diz pouco mais ou menos isto:

Na noite de... ás... horas, vi entrar na casa n.º... da rua de... um

individuo magro, trigueiro, nariz comprido e de oculos, que se me

constou ser empregado d'um judeu lá para os lados de... Sahiu da

mesma casa ás... horas e tambem se me constou que assistiu com mais

vinte e tantos individuos a uma reunião secreta.

Evidentemente, no relatorio do espião, faltam os dados essenciaes. É uma

cousa vaga, que nenhum chefe de policia podia acceitar de boa fé para

d'ella concluir que o revolucionario assim visado era um dos mais

solicitos republicanos de Alcantara. Mas servia ao momento para

justificar a verba ministerial applicada a esta e outras diligencias e

tudo conjugado, tudo espremido em volta d'outra informação policial que

descrevia um passeio de propaganda nocturna dado pelo sr. dr. Antonio

José de Almeida ás proximidades d'um cemiterio--onde conferenciara com

soldados e marinheiros--deu em resultado o supremo dirigente da

espionagem enveredar pelo caminho da phantasia, já que a verdade lhe não

era nitidamente facultada pelos vãos esforços dos seus subordinados.

Houve um momento em que a Parreirinha--ou a Bastilha, como

quizerem--suou em bica para achar o fio do _complot_. Pensou-se mesmo em

peitar uma creatura que se adivinhava intimamente ligada ao movimento

revolucionario e obter d'ella, com a promessa deslumbrante de farta

recompensa, as informações que os _bufos_ não conseguiam arranjar.

Apertou-se a rede da espionagem, principalmente sobre o rasto e os

menores gestos dos drs. Antonio José de Almeida e Affonso Costa e João

Chagas. Certa noite, o ex-ministro do interior, dirigindo-se para um

ponto da estrada da circumvalação onde projectava encontrar-se com

elementos republicanos, foi seguido por um _bufo_ que tinha jurado aos

seus deuses obter, custasse o que custasse, a revelação completa d'essa

conferencia secreta. Trabalho inutil. A meio da viagem, o _bufo_ perdeu

a pista do illustre caudilho da democracia e só logrou reavistal-o

quando elle já regressava, tranquilo e risonho, ao seu consultorio

medico. Pouco bastou para a Bastilha mandar enforcar o espião inhabil...

Em meio do seu desespero e da sua ignorancia, a policia teve um

sobresalto pavoroso. Outra denuncia, d'esta vez bem recheiada de

pormenores, assignalava ao juizo de instrucção criminal a organisação

d'um _complot_, cujo objectivo era não só a eliminação do dictador João

Franco, que se propunha á viva força consolidar e engrandecer o poder

real, mas o de derruir, n'um golpe de audacia, as instituições

monarchicas. Dizia-se que n'esta altura da conspiração os republicanos

não contavam simplesmente com o apoio e a collaboração dos dissidentes,

que, tendo começado por lançar a semente da revolta politica no cavaco

animado d'uma pastelaria da Avenida, já tratavam a serio d'uma mudança

de regimen. Dizia-se tambem que os chefes em evidencia, os organisadores

do movimento revolucionario--Antonio José de Almeida, Affonso Costa e

João Chagas--tinham procurado o auxilio d'uma parte dos libertarios,

homens de acção energica, dispondo de meios de combate essenciaes á

dispersão, no momento propicio, das forças defensoras da monarchia e que

essa fracção do partido anarchista portuguez promettera aos republicanos

uma parcella consideravel do seu esforço.

[Ilustração: D. Carlos I]

A bomba, o engenho destruidor, que é o pezadelo do que se convencionou

denominar uma sociedade regularmente constituida, passou então a ser a

sombra espectral das regiões policiaes. Descobrir a fabrica do

explosivo, desvendar o recanto solitario onde, dia a dia, homens sem

medo, sem hesitações, debruçados carinhosamente sobre pedaços de metal,

apparentemente insignificantes, jogavam a vida com um desprezo titanico,

era o sonho dourado do Cyro--o Cyro, que se gabava de conhecer todos os

anarchistas militantes--e d'uma longa theoria de famintos, que

espionavam para terem que comer.

Dois _accidentes de trabalho_, occorridos com pequeno intervallo um do

outro, ergueram aos olhos coruscantes da policia uma pontinha do veu. O

primeiro deu-se n'uma casa da rua de Santo Antonio á Estrella. Um

operario do Arsenal de Marinha e o professor de ensino livre Bettencourt

foram as victimas da explosão d'uma bomba--explosão provocada pela

imprudencia do operario ao tentar soldar o apparelho ao fogo d'uma

lampada. O segundo accidente alarmou a cidade na tarde d'um domingo

sombrio. As campainhas dos telephones vibraram apressadamente

communicando ás redacções dos jornaes a noticia do facto. Emquanto, a

poucos passos, na Avenida, uma banda regimental deliciava centenares de

pessoas descuidosas e a garridice feminina animava o quadro d'uns tons

voluptuosos, alguns revolucionarios, encafuados n'um modesto quarto de

estudante, na rua do Carrião, preparavam tranquillamente o exterminio da

guarda pretoriana. De repente, um estrondo formidavel sobresaltou a

visinhança. Viu-se sahir da janella d'esse compartimento acanhado e

inexpressivo uma lingua de fogo e d'ahi a momentos uns transeuntes mais

corajosos, um bombeiro voluntario e um policia defrontavam o espectaculo

commovedor de dois cadaveres mutilados em meio d'um armazem de bombas.

O Cyro, prevenido do facto, não tardou a apparecer no local,

esbofando-se por apprehender o alcance de tamanha revelação. Os nomes

dos dois mortos não figuravam na sua lista de anarchistas; o do preso

(Aquilino Ribeiro) que a judiciaria já fizera conduzir á esquadra

proxima e que evitara, n'um gesto de _gavroche_, o ser apanhado pela

machina photographica d'um _reporter_, tambem lhe não soava

familiarmente ao ouvido. O caso era de embatucar... Os outros chefes ao

serviço do juizo de instrucção perdiam-se egualmente em conjecturas.

Adivinhavam no desastre qualquer coisa de muito tragico e de muito

ameaçador para a segurança do regimen vigente, mas não ligavam a

occorrencia a outros incidentes de menor importancia, que, todos

arrumados methodicamente, poderiam talvez fornecer uma indicação preciosa.

Ao cahir da noite, quando a noticia do facto se divulgou pela Baixa e

pelos centros de palestra, o espanto e o terror invadiram e fizeram

emmudecer muita gente. A policia ainda tentou, com um _truc_ velho,

projectar alguma luz no inesperado acontecimento. Sem perda de tempo,

levou á Morgue o estudante preso no local da explosão e, collocando-o em

face dos corpos esphacelados dos seus dois camaradas, forcejou por

arrancar-lhe uma confissão plena. O sobrevivente do desastre

sensibilisou-se, é certo, á vista dos cadaveres, mas as lagrimas que no

momento derramou não lhe despegaram dos labios a denuncia apetecida. O

_truc_ não surtiu effeito.

Restava applicar á imprensa a mordaça do estylo. O dictador João Franco

fel-o sem rebuço, auxiliado por alguns jornaes que, longe de reagirem

contra esse costume intoleravel de consentir que o chefe do governo

ditasse pelo telephone as poucas phrases em que a noticia de qualquer

facto podia ser transmittida ao publico, se apressaram a recordar-lhe a

existencia d'uma lei, que era feroz armadilha para insubmissos. Quer

dizer: esses jornaes mettiam complacentemente, e até com certo jubilo, o

pescoço na canga da oppressão. Ainda não esquecemos o dialogo

telephonico travado na noite d'esse domingo melancholico entre o

presidente do conselho e a redacção d'um diario de Lisboa:

--V. ex.ª consente pormenores da explosão? perguntava o jornal.

--Não tenho nada com isso, respondia o primeiro ministro de D. Carlos...

os senhores bem sabem o que lhes compete fazer.

--Mas a lei de 13 de fevereiro?...

--Ah! sim, está em vigor...

--E... v. ex.ª applica-a?

--Naturalmente.

--Mas o publico precisa ser informado...

--Bem sei... mas eu nada tenho com isso... mandem ao governo civil. Vou

recommendar para ali que forneçam a todos os jornaes uma nota resumida

do caso.

E assim succedeu. Uma hora depois, os _reporters_ que tinham ido ao

bebedouro commum da informação officiosa regressavam com cinco

linhas--cinco linhas apenas, não exageramos--em que se registava, n'uma

linguagem quasi sybillina, a descoberta, por meio do desastre, do

fabrico de explosivos _para fins manifestamente criminosos_. Uns jornaes

publicaram essa nota na integra, sem resalvarem a proveniencia; outros,

mais escrupulosos, precederam-na d'outras linhas que a reduziam ao seu

justo valor; um unico teve a coragem de transgredir as ordens do

dictador, noticiando ao mesmo passo o nome d'uma das victimas da

explosão!...

O relato pormenorisado do acontecimento com as competentes gravuras

(photographias dos cadaveres na Morgue, _croquis_ do interior do quarto

de estudante e a reconstituição graphica da scena commovente) foi no dia

immediato exportado para o Brazil e inserto n'uma folha do Rio, afim de

que se não perdesse totalmente o trabalho do noticiarista, a presteza do

photographo e a habilidade do desenhador.

CAPITULO II

Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca

O proprio Aquilino Ribeiro--que, diga-se de passagem, é um

intellectual--descreveu mais tarde ao signatario d'estas narrativas como

occorrera o desastre da rua do Carrião.

--Aquillo foi assim--contou elle. Eu nunca tinha feito bombas, apesar

das minhas convicções já me terem enfileirado n'um grupo libertario.

Sabia que n'essa occasião, e mercê da preparação do movimento

revolucionario do 28 de janeiro, esse fabrico se alargara a diversos

pontos de Lisboa e mesmo fóra de Lisboa e dava-me intimamente com

diversos militantes e propagandistas da acção directa. Tinha até

cooperado na organisação do ataque aos quarteis e ás forças da

municipal, indo com Alfredo Costa e outros alugar quartos em varios

pontos estrategicos, d'onde projectavamos dynamitar essa legião fiel ao

regimen monarchico. Um bello dia o dr. Gonçalves Lopes pediu-me para

levar ao meu quarto dois caixotes com bombas. Hesitei, observando-lhe

que a dona da casa podia attentar no facto, mas elle desvaneceu-me todos

os receios, explicando-me que necessitava absolutamente transformar o

meu aposento n'um deposito eventual de explosivos.

[Ilustração: João Franco]

«Combinou-se o transporte dos caixotes do consultorio do dr. Gonçalves

Lopes, na rua do Ouro, para ali, mas, ou porque elle não me

pormenorisasse bem como a coisa devia ser feita, ou por outro motivo de

que me não recordo, o moço incumbido de os levar á rua do Carrião teve

de arripiar caminho e voltou com os caixotes para o consultorio. Grande

pasmo do dr. Gonçalves Lopes e, no dia seguinte, após uma breve

explicação que eu e elle tivemos no Suisso, os caixotes (cada um pesando

approximadamente sessenta kilos) tornaram a emprehender a viagem para o

meu quarto. Desde então, passei tambem a collaborar regularmente no

fabrico de explosivos.

«Vendo o dr. Gonçalves Lopes e o commerciante Belmonte, seu companheiro

na manipulação dos engenhos, carregarem umas tantas bombas, aprendi

facilmente a operação e no domingo do desastre em que nos reuniramos

para a continuar já me comportava ao lado de ambos como um _fabricante_

experimentado. Tinhamos carregado umas sessenta ou oitenta e faltava

ultimar muitas mais. O dr. Gonçalves Lopes parou a descançar e disse-me:

«--Você agora podia incumbir-se do resto...

«Eu não respondi de prompto e, ficando assente que á noite

recomeçariamos a operação, dispuzemo-nos, no emtanto, a carregar mais

tres para dar por finda a tarefa da tarde. Cada um de nós pegou n'uma

bomba vasia. Na minha frente estava o dr. Gonçalves Lopes e mais adeante

o seu companheiro. O dr. Gonçalves Lopes, descuidando-se um pouco nas

precauções que era de uso tomar em taes circumstancias, principiou a

martellar com força no engenho que tinha na mão. Ainda lhe recommendei

prudencia; mas elle sorriu-se, incredulo, do meu receio, e continuou o

trabalho. De repente, um grande estrondo atordoou-me sensivelmente. A

bomba do dr. Gonçalves Lopes explodira. Vi-o cahir esphacelado,

salpicando-me de sangue e vi o commerciante Belmonte avançar para mim,

soltando um grito como o d'um animal ferido de morte. Acolhi-o nos

braços, mas tive que o largar logo a seguir porque já agonisava.

«Foi um instante de dolorosissima atrapalhação. Dirigi-me a outro quarto

a lavar-me, porque estava negro como um carvoeiro e quando voltei ao meu

aposento pensei em fugir. Mas, como? O meu chapeu parecia um crivo, o

vestuario não inspirava confiança, as mãos e a cara denunciavam-me,

trahiam-me... Passeei uns segundos pelo quarto sem saber o que fazer e

quando percebi que gente estranha subia a escada, a inquirir do

estrondo, fui estupidamente esconder-me debaixo da cama. Os primeiros

minutos passei-os quieto e calado n'esse refugio d'occasião. Mas, logo

que ouvi a curta distancia os commentarios da policia e as interrogações

dos _reporters_, longe de procurar misturar-me com o meu amigo e os

nossos collegas--Aquilino Ribeiro era n'esse tempo collaborador da

_Vanguarda_--comecei a agitar-me e despertei a attenção do chefe

Ferreira. Estava apanhado.

[Ilustração: Attentado de 1 de Fevereiro.--Assassinato do Rei. D. Carlos

e Principe D. Luiz Filippe]

--Levaram-me para o governo civil e depois á Morgue. Assediaram-me de

interrogatorios. Pouco antes, com a explosão da rua de Santo Antonio, á

Estrella, tinham sido presas, por suspeitas, umas cem pessoas. Com a da

rua do Carrião, apesar da extensão enorme do fabrico das bombas em

Lisboa, restringi tanto o cerco da curiosidade policial, que o chefe

Ferreira apenas conseguiu incommodar um pobre homem em casa de quem foi

encontrado um cartão de visita com o meu nome. Depois; estive dois mezes

incommunicavel, durante os quaes só me queixei d'uma coisa: da má

qualidade da comida fornecida aos presos.

«Durante o periodo da incommunicabilidade procurei, naturalmente,

libertar-me da prisão. Fiz para isso, com a maior paciencia, variados

preparativos. Aproveitei o azeite que condimentava as minhas rações de

bacalhau para amaciar os gonzos e os ferrolhos do carcere. Com o miolo

de pão fiz prodigios de habilidade e de disfarce. Em summa, quando me

levantaram a incommunicabilidade já tinha quasi tudo organisado para a

evasão.

«Uns amigos prometteram-me auxilio. Era necessario arranjar um automovel

para me receber á sahida da esquadra do Caminho Novo e transportar-me a

logar seguro. Creio, porém, que os donos de dois d'esses vehiculos, aos

quaes os meus amigos se dirigiram, _os não puderam dispensar_ e uma

bella noite, quando consegui fugir do carcere, encontrei-me na rua, só,

exposto a uma chuva torrencial que me transformava n'um pintainho. Uma

vez transposto o muro do Posto de Desinfecção, contiguo á esquadra e

tendo-me deixado escorregar por uma guarita onde uns operarios guardavam

a ferramenta, atrevi-me a passar deante da sentinella da esquadra, como

se fôra um simples transeunte que recolhia a casa a deshoras.

«Fui á Estephania á procura d'um conhecido. Bati. Ninguem me respondeu.

Ou melhor, ninguem me abriu a porta. No trajecto, até lá, sempre debaixo

de agua, encontrei uma carruagem particular, vazia, mas o cocheiro,

quando lhe fallei em transportar-me, olhou-me de soslaio e respondeu com

uma evasiva. Que admira! A barba hirsuta dava-me certamente um aspecto

horrivel. Tinha sobre o casaco uma blusa com bolsos collados a miolo de

pão... As botas e as calças destilavam immensa lama... Da Estephania

dirigi-me á Praça da Figueira. Deram as oito da manhã e calculei que a

essa hora a policia, sabendo da minha fuga, já andasse pressurosa no

encalço do evadido. Na Praça comprei um molho de hortaliça e tratei de

occultar o rosto o mais possivel. Fui a casa do Alfredo Costa, á rua dos

Retrozeiros. Dormia ainda. Fui a outra casa. A pessoa que a habitava

aconselhou-me o esconderijo n'outro ponto. Não acceitei o conselho e

encafuei-me na taberna do João do Grão, na travessa da Palha.

«Ahi reparei as forças perdidas com essa noitada de anciedade, de

cançaço e de chuva, comendo _meia desfeita_ e tomando um litro de vinho.

Momentos depois, apparecia-me então o Alfredo Costa e eu entrava para

uma casa da maior confiança, conservando-me em Lisboa, escondido da

policia, durante dois mezes...»

Preso um dos _fabricantes_ de bombas, a policia volveu os olhos para

todos os amigos de Aquilino Ribeiro, calculando ser-lhe relativamente

facil capturar, acto continuo, o que ella appelidava os _cumplices das

vitimas_. Um dos alvejados pela perseguição da Bastilha, o dr. Alberto

Costa, tendo-se injustamente convencido de que o preso _falára_, abalou

para Hespanha. Deu-se a fuga de outros revolucionarios, as diligencias

policiaes arrastaram-se mollemente e com evidente desorientação e,

apezar de que o desasocego dos conspiradores era de molde a infundir

suspeitas aos menos precavidos, ainda d'esta vez a espionagem do juizo

de instrucção não logrou desenrolar o fio da meada. E que admira, se no

periodo de descuidosa imprevidencia em que o dr. Alberto Costa passeiava

nas ruas de Lisboa com uma maleta cheia de bombas e se divertia a bailar,

sobre uma cama que occultava uma caixa d'esses engenhos, os Argus da

Parreirinha nem por palpite o encaravam com desconfiança!...

O fabrico de explosivos não occupava simplesmente meia duzia de pessoas.

Absorvia os cuidados de diversos grupos. Generalisara-se por uma fórma

assombrosa e, dentro e fóra de Lisboa, trabalhava-se afincadamenteem

centenas de apparelhos destruidores. Cada dia que passava sobre as

arranhadelas da dictadura via surgir para a lucta novos combatentes e

novas dedicações. Então, não era só o partido republicano que protestava

contra o existente; os seus clamores de revolta echoavam na consciencia

de muitos monarchicos; a legião dos que, na primeira hora de enganadora

miragem, tinham acolhído o governo João Franco como o advento de um

Messias, esboroava-se a olhos vistos. A atmosphera em volta do throno

carregava-se progressivamente de indignação, de odio, de

intranquillidade e, a não ser D. Carlos, que nunca se sensibilisára com

a agitação da massa popular, e o ministerio franquista, que suppunha

governar a contento do paiz, todos os outros elementos argamassados

pelos favores do regimen sentiam, palpavam, futuravam, com maior ou

menor largueza de vistas, a derrocada imminente.

A preparação do 28 de Janeiro proseguia com alma, com actividade febril.

A compra de armamento e a sua introdução em Lisboa, atravez das

barreiras fiscaes, haviam tomado tal incremento que os proprios

organisadores do movimento se admiravam da cegueira da policia. As

reuniões secretas succediam-se vertiginosamente. Havia como que a ancia

de chegar ao fim da jornada revolucionaria, fazendo d'um só folego a

corrida heroica para o triumpho ou para a derrota.

CAPITULO III

Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de Janeiro

Quem, a dentro do partido democratico, teve a iniciativa da projectada

revolta? Não é facil responder, porque ella estava desde muito no animo

dos mais fogosos caudilhos d'esse partido. Entretanto, podemos

conjecturar que, sabendo João Chagas dos trabalhos revolucionarios que

alguns dos seus companheiros de lucta já tinham annos antes encetado,

procurasse aproveital-os, realisando ao mesmo tempo a approximação dos

republicanos e dos dissidentes, que a dictadura franquista hostilmente

arredara do contacto do rei Carlos. Os primeiros passos para o movimento

foram dados em casa do visconde da Ribeira Brava, de todos os amigos do

sr. Alpoim o que então se mostrava mais inclinado a abandonar a

monarchia. Conta elle o seguinte:

«Quando se tinham malogrado todos os esforços dos partidos para subjugar

o despotismo do rei e de João Franco fui procurado pelo infeliz Alberto

Costa, que me propoz tomar eu a iniciativa da revolta. Hesitei,

objectando que para isso me faltavam os elementos populares, que estavam

todos no partido republicano, e que sósinho nada poderia fazer.

[Ilustração: Manuel Buiça]

«--E se você se entendesse com o João Chagas?--retorquiu Alberto Costa.

«--N'esse caso estou certo de que fariamos alguma coisa de importante.

«Ficou logo aprazado um encontro com João Chagas, que se efetuou n'esse

mesmo dia, a dez de julho (1907) se não me engano, á meia noite, junto

do coreto da Avenida. Ahi assentámos nas linhas geraes do movimento

revolucionario, resolvendo-se nomear um _comité_ organisador. A primeira

reunião effectuou-se no dia seguinte, em minha casa, comparecendo a ella

Affonso Costa, Alexandre Braga, Egas Moniz, França Borges, Mascarenhas

Inglez, Marinha de Campos e Alpoim, tendo-se depois d'isso realisado

ainda uma entrevista entre José d'Alpoim e Antonio José d'Almeida.»

Na mesma reunião e em posteriores conferencias escolheram-se, para a

execução do plano revolucionario, dois _comités_: o civil composto pelos

srs. Bernardino Machado e Antonio José de Almeida, membros do

Directorio, e mais João Chagas, Affonso Costa e Augusto José da Cunha; o

militar formado por Candido dos Reis, José de Freitas Ribeiro, José

Carlos da Maia, Xavier Barreto, Sá Cardoso e Alvaro Pope. O primeiro

cuidado d'estes _comités_ foi o de aggregar os elementos que andavam

dispersos mas que se conservavam fieis á causa da democracia os que

restavam da mallograda revolta de 31 de Janeiro e se tinham preparado

para o movimento de 1896, que mal chegara a esboçar-se.

Houve divergencia entre os mais evidentes dos revolucionarios por causa

do plano a executar. Uma minoria, radicalissima na maneira de proceder,

não contrariava o projecto, delineado ao de leve, de se atacar o paço

das Necessidades e forçar o rei Carlos a um embarque consecutivo para o

estrangeiro. Os restantes queriam simplesmente limitar a revolta á

eliminação da monarchia com o menor dispendio de violencia. Por fim,

triumphou a parte moderada dos organisadores do movimento e

deliberou-se, em ultima analyse, fazer explodir a Revolução durante a

ausencia do monarcha em Cascaes, mesmo para que a sua estada em Lisboa

não influisse de qualquer modo na attitude que muitos dos officiaes, de

politica indefinida, por certo, adoptariam. Por outro lado, alguns dos

revolucionarios receiavam que um acto violento dirigido contra D. Carlos

creasse, no extrangeiro, difficuldades á futura Republica. Assentou-se,

portanto, em definitivo, que o movimento rebentaria quando o rei

estivesse fóra da capital. A Revolução, uma vez triumphante, prenderia

em Cascaes o soberano e a familia, e obrigal-os-hia a sahirem do paiz.

Mas, os trabalhos dos conspiradores alongaram-se mais do que seria

licito calcular, e, como a familia real regressasse, no entanto, a

Lisboa, houve precisão de concertar outro plano, que comprehendia,

novamente o assalto ao palacio das Necessidades. N'esta altura do

_complot_, um dos officiaes que os revolucionarios suppunham

inteiramente do seu lado commetteu uma traição e o plano soffreu grandes

modificações, recomeçando-se, n'outras bases, os trabalhos

indispensaveis á sua realisação pratica. Appareceram ainda difficuldades

de diversa natureza, contrariando fortemente a propaganda nos quarteis e

o aliciamento de elementos civis, e a situação só melhorou quando a

familia real partiu para Villa Viçosa, «simplificando bastante o

programma pela suppressão d'um dos seus numeros mais difficeis e

delicados...»

O plano da campanha, urdido por um official do estado-maior, passou

então a ser cuidadosamente preparado. A cidade foi dividida em diversos

sectores, comprehendendo cada um d'elles os pontos a atacar, isto é, os

pontos d'onde se calculava que surgiria, no momento supremo, a defesa do

regimen combalido. Cada quartel da municipal e de cavallaria era cercado

de uma verdadeira rede de dynamitistas que, conjugando a sua acção com

outros grupos de populares armados, procurariam impedir a sahida, para a

lucta, das forças declaradamente monarchicas. As esquadras de policia

tambem deviam soffrer o ataque dos populares; os officiaes de marinha e

outros elementos revolucionarios tomariam conta do _D. Carlos_ e do

quartel de Alcantara; a carreira de tiro em Pedrouços e todos os pontos

onde era relativamente facil encontrar armamento seriam egualmente

visados pela acção dos revoltosos.

Para o assalto aos quarteis das forças que constituiam propriamente a

guarnição de Lisboa, João Chagas organisára vários grupos de 30 a 60

homens de todas as classes--medicos, agronomos, engenheiros, advogados,

empregados do commercio, etc.--grupos que se distinguiam uns dos outros

por um emblema representando uma flor:--uma rodela de cartão aguarelado

que o revolucionario pendurava no forro do casaco e que só seria visivel

quando elle o abrisse perante um companheiro ou um chefe. Temos deante

de nós varias d'essas rodelas e uma nota escripta a lapis pelo punho de

João Chagas, que descrimina assim a formação das forças:

_Malmequer_, 60 homens.

_Rosa_, 30.

_Violeta_, 40.

_Cravo_, 60.

_Saudade_, 20.

_Crysanthemo_, 40.

_Papoula_, 30.

Total, 280 assaltantes para os quarteis das forças da guarnição. Cada

grupo tinha previamente conhecimento do regimento onde, no momento

opportuno, devia operar: isto com o fim de conhecer, tambem

antecipadamente, o quartel onde prestaria a sua coadjuvação. Os melhores

d'esses grupos eram os dirigidos pelo dr. Carlos Amaro, Sá Pereira, Saul

Simões Serio e Paulino de Freitas. Estavam armados de revolvers e

pistolas automaticas com cincoenta cargas cada.

Note-se incidentalmente que, n'essa época de preparação revolucionaria,

a propaganda entre militares conquistara talvez mais adeptos do que

annos depois, para o movimento que implantou a Republica. O numero de

officiaes adherentes era, sem duvida, maior. A dictadura franquista

despertára mais odios e sêde de liberdade do que a inacção, quasi

absoluta, do gabinete Teixeira de Sousa. A teia revolucionaria era,

innegavelmente, mais complicada. Comtudo, apesar das precauções tomadas

e da adhesão de elementos prestigiosos, a opinião auctorisada não

agourava bem do emprehendimento, exactamente por lhe parecer que havia

demasiada somma de creaturas na posse do grande segredo. É certo que na

constituição dos grupos de populares houvera o cuidado de erguer como

que uns compartimentos estanques, para impedir que, uma vez um d'elles

invadido pela onda da traição, os restantes se afundassem no mesmo

pelago. Mas não o é menos que a distribuição de armamento de toda a

especie fôra feita com excessiva antecipação--o que já não succedeu para

o movimento de 5 de outubro--e o corpo dirigente da organisação

revolucionaria admittia, pelas suas variadissimas ligações, uma maior

interferencia de indicações e de alvitres, nem sempre proprios a

favorecer o triumpho.

[Ilustração: Alfredo Costa]

A acção dos dissidentes na preparação do 28 de janeiro não ha duvida que

foi larga e abundante em peripecias. Os dissidentes e aquelles dos seus

amigos que entraram na revolta deram-lhe um apoio material efficaz. O

sr. Alpoim, quer em sua casa, ou na famosa pastelaria da

Avenida--conhecida como um baluarte dos monarchicos revoltados--ou ainda

na casa do visconde da Ribeira Brava, prodigalisava-se em insistente

propaganda contra o regimen, a dictadura Franco e até contra a

existencia do monarcha dos adeantamentos. Para o sr. Alpoim, como de

resto para toda a gente que ousava falar com franqueza, a franqueza

permittida pelo dictador, a suppressão de D. Carlos seria o golpe

decisivo n'uma situação como, então, se supportava, de intoleravel

arbitrio, de rancor, perseguição e delação ignobil. Não quer isto dizer

que o chefe da dissidencia progressísta aconselhasse a morte do rei como

um dos principaes numeros do programma dos revoltosos... Mas,

encarando-a como a solução do problema a liquidar, traduzia as

aspirações de muitos patriotas.

O sr. Alpoim, tendo palpitado o monarcha, convencera-se de que elle

ligara indissoluvelmente o seu destino ao destino politico do dictador.

O governo João Franco deslumbrara o espirito do rei Carlos,

mostrando-se-lhe como o unico capaz de confeccionar, para o livro do seu

reinado, uma pagina de certo relevo historico. O dictador era o ideal

para um soberano que, vivendo até então pouco menos que alheiado da

politica interna, resolvera d'um momento para o outro, assim como quem

acorda d'um sonho, interessar-se assiduamente pela mesma politica.

Eliminado o dictador, D. Carlos, se quizesse proseguir no seu proposito

de modificar o regimen da successão ministerial, teria fatalmente que

chamar ao poder o estadista ou estadistas que combatiam fortemente o

rotativismo.

Não é desasisado suppôr que só com esta esperança é que o sr. Alpoim não

adheriu desde logo á Republica. Veiu para a Revolução para trabalhar e

trabalhou. Mas, no fundo do seu pensar, talvez se convencesse de que o

movimento daria apenas em resultado o apeiar o governo João Franco do

pedestal que o monarcha lhe erguera nas columnas do _Temps_. De resto, o

sr. Alpoim confessou isso mesmo mais tarde n'estas linhas que recortamos

do seu antigo órgão na imprensa:

«O chefe dissidente, e outros seus correligionarios--não a dissidencia

progressista como partido--resolveram então collaborar com os

republicanos no intuito de aniquilar o regimen dictatorial que

assoberbava o paiz. Vinha a Republica? Tudo era preferivel, tudo, _fosse

o que fosse_, á continuação d'este estado de coisas que era um opprobrio

nacional.»

Decidido a trabalhar, tomou contacto com os chefes republicanos e

avistou-se com os elementos sem rotulo partidario que apoiavam o

movimento. Contribuiu immenso, e mais os seus amigos, para a compra de

armamento--e d'ahi o espalhar-se um boato insubsistente a que em breve

nos referiremos. A sua interferencia na collecta de fundos para o cofre

revolucionario exerceu-se com devotamento digno de registo. Os seus

amigos auxiliaram bastante a introducção do armamento em Lisboa e a

larga distribuição que d'elle se fez por diversos pontos estrategicos. E

se no dia primitivamente marcado para a explosão da revolta não a

iniciou com um arranco heroico sobre o ninho da realeza, é porque lhe

ponderaram a conveniencia de collaborar antes n'outro episodio não menos

importante. Por si, satisfazendo apenas o seu desejo ardente, o sr.

Alpoim teria defrontado, com as armas na mão, o monarcha provocador.

Dias antes do 28 de janeiro, Affonso Costa e João Chagas tentaram

filial-o no partido republicano. N'uma reunião em casa do visconde da

Ribeira Brava, a que tambem assistiu o dissidente Egas Moniz,

fizeram-lhe vêr que a hostilidade do paço contra o grupo politico da sua

chefia era invencivel e que, marchando elle para a Revolução, de mãos

dadas com os republicanos, forçoso se lhe tornava ingressar abertamente

na democracia. O sr. Alpoim, ás repetidas e persuasivas instancias que

lhe dirigiram n'esse sentido, respondeu:

«Que, sendo chefe d'um grupo politico, que tão dedicada e lealmente o

havia acompanhado sempre e onde havia um grande numero de individuos com

idéas adversas á Republica, não podia, sem praticar uma deslealdade,

abandonar esses amigos; que á causa da Revolução dava a sua pessoa; o

seu filho e o seu dinheiro. Estava prompto no momento da lucta a occupar

o ponto mais perigoso que lhe fosse distribuido; que nada queria, nem

pedia, como recompensa, á Republica, mas que não alterava a sua situação

politica.»

A seguir, perguntou ao visconde da Ribeira Brava o que tencionava fazer.

--Eu, meu caro Alpoim--retorquiu-lhe o visconde--já não volto para traz.

O inicio dos preparativos para o 28 de janeiro data de julho de 1907. Um

mez depois, Machado dos Santos, que collaborava com os officiaes de

marinha Serejo Junior e Soares Andréa n'um acanhado projecto de acção

anti-monarchica, foi abordado por Marinha de Campos e Mascarenhas

Inglez, que o convidaram a tomar parte no grande movimento organisado

pelos republicanos e os dissidentes. A principio desconfiado, Machado

dos Santos não tardou a acceder e em setembro, n'uma reunião effectuada

no escriptorio de Alexandre Braga, foi apresentado a João Chagas e

Candido dos Reis, que com aquelle illustre causidico, Serejo Junior,

Marinha de Campos e Alberto Costa, discutiam então a necessidade de

chamar o exército em auxilio da conjura. No relatorio que o triumphador

da Rotunda publicou em 1911 encontram-se estas passagens que

pormenorisam essa reunião:

«_Pad-Zé_ queria ir com 50 homens atacar a cidadela de Cascaes; Marinha

de Campos desejava sósinho agarrar a monarchia pelo pescoço e

apertar-lhe os gorgomilos. Candido dos Reis com a sua evangelica

paciencia deitava agua na fervura, aconselhava paternalmente a moderação

e João Chagas, contando os insuccessos de anteriores tentativas

revolucionarias, de que havia sido alma, dizia, com a auctoridade da sua

experiencia, que sem o exercito nada se devia tentar. «Mas o exercito é

nosso!» disse eu ingenuamente á illustre assembleia. Os sorrisos que

obtive em resposta convenceram-me do contrario.

«Chagas, o eterno sacrificado das revoluções frustradas, Chagas que,

melhor do que eu, melhor do que Candido dos Reis, conhecia os nossos

navios de guerra, por n'elles ter sido hospedado pela monarchia, Chagas

disse-me que não tivesse illusões, que era necessario trabalhar e

trabalhar muito para que alguma coisa se fizesse, e alvitrou uma

immediata convocação dos officiaes do exercito, para se saber se estavam

dispostos a sahir comnosco para a rua. Candido dos Reis encarregou-se de

os reunir e essa reunião ficou assente que se effectuaria tres dias

depois, para se conseguir que ella fosse bastante concorrida afim de

lhes dar uma impressão de força, que, reunidos em pequeno numero, os

officiaes não podiam ter.

«Chamando de parte o almirante, perguntei-lhe se os officiaes da marinha

com que contava estavam em commissão de embarque ou no quartel;

respondeu-me que poucos, muito poucos, estavam n'essa situação e que

d'um momento para o outro podiam ser transferidos e postos na condição

de nada nos poderem valer. Perguntei-lhe então se concordava na

organisação de fortes nucleos de marinheiros nas differentes unidades,

afim de podermos empregar os nossos officiaes no caso do governo os

deslocar das situações que tinham.

«Respondeu-me que isso seria optimo, mas que não via quem se quizesse

encarregar d'essa organisação, que achava perigosa para a pessoa que a

tentasse e que podia expôr o movimento a ser delatado pelo primeiro

tagarella de _camisola de alcaxa_ que aparecesse. Disse-me egualmente

que via inconvenientes pelo lado da disciplina, porque se o movimento

não lograsse exito havia de ser difficil mantêl-a a bordo e para a

conseguir muitos teriam que soffrer; comtudo concordava em que sem os

fortes nucleos de marinheiros nos diversos navios nunca a Revolução se

poderia levar a cabo.

«Ficou assente entre os dois que eu me incumbiria d'isso, declarando ao

almirante que me parecia que nenhum movimento os marinheiros deveriam

fazer sem a presença d'um official, limitando-se elles a passarem a

receber as ordens do official ou officiaes que fossem a bordo ou ao

quartel a uma hora combinada...»

D'ahi a dias, Machado dos Santos encetou a tarefa de alliciamento e,

dedicando-se especialmente aos frequentadores do bairro de Alcantara,

conseguiu juntar oitenta marinheiros, devotadissimos, que, por seu turno

se abalançaram, á conquista de novos camaradas, attrahindo-os

cuidadosamente á conjura.

CAPITULO IV

A policia descobre um dos fios do «complot»

Emquanto a preparação do combate proseguia sem desfallecimentos por

parte dos republicanos, dos dissidentes e d'uma fracção dos libertarios,

a policia, reforçada com uma nova remonta de espiões, espreitava anciosa

a agitação que percebia na sombra. De vez em quando, julgava apanhar uma

nesga de luz e ficava amarrada por instantes a um rasto sem valor. Para

não perder de todo o tempo e o feitio, vigiava impertinentemente as

creaturas em evidencia no partido republicano, sem seleccionar de entre

ellas as que conservavam realmente n'essa occasião estreitas ligações

com os revolucionarios. Marchava ás apalpadelas. Embasbacava ante o

menor grupo de transeuntes pacificos. Percorria os cafés, disfarçada em

padres, mestras, mendigos e moços de esquina, escutava ás portas,

farejava o ambiente e esquecia-se exactamente de topar com um dos muitos

caixotes de bombas que, em pleno dia, e ás costas de gallegos, se

entrecruzavam nas ruas de Lisboa.

Alcantara, os Loyos e até o Chiado, estavam minados de explosivos. No

Bairro Alto havia depositos d'armas que despertariam a inveja d'um

arsenal. Conspirava-se por todos os cantos, segredavam-se instrucções,

as reuniões secretas de officiaes tornavam-se mais frequentes, as lojas

dos armeiros esvasiavam-se como por encanto. Nada faltava para o bom

exito. De tudo se cuidara, até dos serviços de ambulancia e manutenção.

As offertas affluiam de todos os lados. (Um benemerito poz á disposição

dos conspiradores uma carroça cheia de chouriços).

A febre revolucionaria não diminuia. Approximava-se a data solemne.

Alguns dias mais e sobre Lisboa cahiria durante horas uma verdadeira

chuva de fogo...

É n'esse momento critico da organisação da revolta que a policia tem um

alegrão. Apanha, quasi sem dar por isso, um rasto de certa importancia e

desata a exploral-o com uma furia indescriptivel. Effectuam-se as

primeiras prisões de elementos revolucionarios conhecidos, tentando-se

assim fazer abortar, pela clausura dos chefes, o movimento projectado.

Contemos pormenorisadamente como isso se deu.

Alfredo Leal fôra incumbido de adquirir armamento para os 280

assaltantes dos quarteis, missão de que se desempenhou rebuscando as

casas de penhores, armeiros, etc. Como as ordens da policia eram

apertadas, fez essas compras pretextando umas encommendas da provincia

para confecção de panoplias e, ainda com o intuito de não despertar

desconfianças, munia-se sempre de dois recibos, um com desconto e outro

sem desconto, que era o destinado ao _freguez_. O dinheiro para esse

armamento forneceram-no, além do Directorio, José Relvas, que contribuiu

com uma importante quantia, o africanista João Baptista de Macedo e

outros individuos dedicados á boa causa.

Não tardou, portanto, que os armazens Leal, da Rua de Santo Antão,

ficassem transformados em arsenal, onde Alvaro Pope, João Chagas e José

Freitas Ribeiro analysaram detidamente o material destinado á revolta.

Esses armazens já tinham ao tempo uma fama revolucionaria, porque desde

muito eram o _rendez-vous_ dos insubmissos. Os conspiradores conheciam

as suas salas pelas _salas dos passos perdidos_... Para o movimento de

28 de Janeiro tambem serviram quasi diariamente ás reuniões de officiaes

do exercito de mar; para lá enviou o dr. Alberto Costa duas caixas de

bombas que mais tarde sahiram, a _pau e corda_, dos armazens para o

consultorio do dr. Gonçalves Lopes; ali se reuniram diversos cabos e

praças da guarda municipal aquartelada proximo das Necessidades, que

faziam então causa commum com os revoltosos, e os sete grupos de 40, 60

e 30 homens destinados ao assalto aos quarteis. A essas reuniões

assistiam sempre João Chagas, Alvaro Pope e Alfredo Leal. O proprietario

dos armazens chegou a mandar fazer caixas de embarque e n'esse

estabelecimento se encaixotaram as armas dos grupos populares, que

sahiram para o seu destino levando esta marca: _Telmo Bandeira, S.

Thomé_. E a policia, sempre ás aranhas...

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) · 第 1 / 14 段