III

O pae entrara para casa; veiu a filha abraçal-o quasi á porta. Se o bom

do velho não recearia que lhe descobrissem essa flôr escondida!

Esperava-o a tranquillidade do lar; os risos e folguedos das outras

crianças faziam-lhe esquecer os apupos e maldições da gentalha. Jogral

de um povo rude, o lar tornava-o um patriarcha, um levita, sacrosanto

como Moysés descendo o Monte do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha

perto de si o _Guemára_; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim

chamada do nome da Lua, como conta o velho _Livro de Enoch_. Ebla

fallou-lhe:

--Nunca mais tornaremos a vêr Sião, e os tumulos dos prophetas? nem

escutaremos o susurro dos nossos rios?

O pae, emquanto as outras crianças brincavam, poisou o dedo sobre o

verso do _Guemára_, volveu-lhe um sorriso doloroso.

--Virgem do côro das donzellas de Sião, os nossos filhos continuam a

nossa existencia na terra; assim como o castigo vem dos paes sobre a

cabeça dos filhos, o Senhor tambem recompensa nos filhos os bens que os

paes tiverem merecido. Ha quantos seculos andamos longe de Sião bemdita;

eu sinto que os meus não pisarão o solo da terra promettida; mas vejo-te

ao meu lado, como a flôr que brota de uma ruina; eu não poderei entrar

na Cidade dos prophetas, serei como Moysés no alto do Abarim; mas o

Senhor deu-me uma esperança, fez-te nascer em meu lar, filha. Assim o

fanatismo e a atrocidade me não arranquem a vida. Uma noite, eras tu

ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e carregada, chovia,

cruzavam-se os raios. Soôu na Judiaria uma voz sinistra: Ás onze horas

do sino da Cathedral, a hora em que deviamos abraçar a religião de

Christo, seriamos lançados nas fogueiras das praças ou abandonar para

sempre a formosissima terra de Hespanha. Os meus thesouros lá

ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te commigo. Portugal anda entregue

ás descobertas e aventuras do mar; os odios de raça ainda cá não tinham

sido exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao collo, e tu me

deste animação e alento na fugida.

--Ó meu pae, accudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana,

cantando romances e siguidilhas de Hespanha, e pedi-lhe para ella cantar...

--E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.

--Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de

Fernando e Isabel a Catholica, e que ella só acceita a mão de esposo com

a condição de desterrar para sempre os judeus para fóra de Portugal. E

acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:

Ea! Judios

á enfardelar!...

los Reyes mandan

passar la mar.

O velho judeu ficou assombrado; fechou o _Guemára_, e repousou a cabeça

sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e

repetido de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das

justiças, bradar:

«Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com

uma dança judenga, guisos, touras e guinolas, para irem receber o

séquito da nova rainha. Soffrerá pena de morte o que levar armas

comsigo. O rabbi da Judiaria irá na frente das dansas.»

Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da

cigana revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.

--Patriarcha no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da

paz.--E levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi

sacudir a sua vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto

esperava o toque da alvorada.

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 39 / 48 题