O pae entrara para casa; veiu a filha abraçal-o quasi á porta. Se o bom
do velho não recearia que lhe descobrissem essa flôr escondida!
Esperava-o a tranquillidade do lar; os risos e folguedos das outras
crianças faziam-lhe esquecer os apupos e maldições da gentalha. Jogral
de um povo rude, o lar tornava-o um patriarcha, um levita, sacrosanto
como Moysés descendo o Monte do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha
perto de si o _Guemára_; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim
chamada do nome da Lua, como conta o velho _Livro de Enoch_. Ebla
fallou-lhe:
--Nunca mais tornaremos a vêr Sião, e os tumulos dos prophetas? nem
escutaremos o susurro dos nossos rios?
O pae, emquanto as outras crianças brincavam, poisou o dedo sobre o
verso do _Guemára_, volveu-lhe um sorriso doloroso.
--Virgem do côro das donzellas de Sião, os nossos filhos continuam a
nossa existencia na terra; assim como o castigo vem dos paes sobre a
cabeça dos filhos, o Senhor tambem recompensa nos filhos os bens que os
paes tiverem merecido. Ha quantos seculos andamos longe de Sião bemdita;
eu sinto que os meus não pisarão o solo da terra promettida; mas vejo-te
ao meu lado, como a flôr que brota de uma ruina; eu não poderei entrar
na Cidade dos prophetas, serei como Moysés no alto do Abarim; mas o
Senhor deu-me uma esperança, fez-te nascer em meu lar, filha. Assim o
fanatismo e a atrocidade me não arranquem a vida. Uma noite, eras tu
ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e carregada, chovia,
cruzavam-se os raios. Soôu na Judiaria uma voz sinistra: Ás onze horas
do sino da Cathedral, a hora em que deviamos abraçar a religião de
Christo, seriamos lançados nas fogueiras das praças ou abandonar para
sempre a formosissima terra de Hespanha. Os meus thesouros lá
ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te commigo. Portugal anda entregue
ás descobertas e aventuras do mar; os odios de raça ainda cá não tinham
sido exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao collo, e tu me
deste animação e alento na fugida.
--Ó meu pae, accudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana,
cantando romances e siguidilhas de Hespanha, e pedi-lhe para ella cantar...
--E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.
--Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de
Fernando e Isabel a Catholica, e que ella só acceita a mão de esposo com
a condição de desterrar para sempre os judeus para fóra de Portugal. E
acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:
Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan
passar la mar.
O velho judeu ficou assombrado; fechou o _Guemára_, e repousou a cabeça
sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e
repetido de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das
justiças, bradar:
«Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com
uma dança judenga, guisos, touras e guinolas, para irem receber o
séquito da nova rainha. Soffrerá pena de morte o que levar armas
comsigo. O rabbi da Judiaria irá na frente das dansas.»
Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da
cigana revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.
--Patriarcha no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da
paz.--E levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi
sacudir a sua vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto
esperava o toque da alvorada.