Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flôres, salvas de
artilheria, estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da
infanta D. Isabel, mulher do monarcha Venturoso. Já se sentia o
estrépito do cortejo real; pelas portas da cidade vem entrando as dansas
dos mesteiraes. Primeiro, vinha a _Folia_, com gaitas e pandeiros á
velha portugueza, dansando em volta de um tambor; trazem guizos nos pés,
cantam letrilhas de folgar e sainetes galantes; os guizos dos artelhos
no reteninte som confundem as coplas. Com gentil ademan no ár volteiam
lenços acenando. Vinha depois a _Carraquisca_, a dansa dos barqueiros e
mareantes dos galeões do Tejo; trazem andando um balanço que imita
um bambula dos pretos, aprendido lá nas conquistas. Vae passando a
_Cativa_, uma outra dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da
Salé, vão confessando preito á nova rainha. Já vem perto a _Gitana_,
toda feita de ranchos de raparigas vestidas de variegados pannos, cintos
de ouro e vermelho; voam-lhes as roupagens com o vento cruzando facas
entre si, ao doce baylo da _Mourisca_, que os sentidos fez perder com a
trisca dos volteios. Eis que chega tambem a _Dansa judenga_! Os apupos
do povo alevantaram-se furiosos chamando-lhes traidores; as vaias e as
pedradas eram pelo ár sem conto; a plebe desenfreada atira-se de roldão
sobre a _judenga_ ao entrar da cidade, e abafam as queixas dos
opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi, dirigindo a
guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas. Os
olhos do veneravel velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a
palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do
atrevido, com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul.
O villão cahiu por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se
atropellava e ruía furibunda sobre a desgraçada dansa judenga. O velho
Rabbi fugiu a todo o custo; a multidão precipita-se apoz elle; gritando,
chamando-lhe réfece assassino. A noite vinha descendo, e protegido pelas
sombras do crepusculo se ia livrando dos golpes que lhe atiravam. O
velho ia quasi exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle;
já poucos o seguiam; mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem
falhar-lhe, falta-lhe o ar; sente vontade de atirar-se ao chão e
deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e de vigor lhe atravessou o
espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!
Ia o velho Rabbi a entrar já na Judiaria, estava quasi á porta de casa
quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a
mão. Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do
séquito do principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte
do seu joven amigo, sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu.
Desembainhou a espada e os populares retiraram-se. O Rabbi bateu á
porta; abriram. Á luz de um candil viu o moço cavalleiro a cara mais
linda de nazarena, os olhos mais languidos que não teria a Sulamite; o
sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de Quirub. Que
contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da candura a
allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.
O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla
tirou-lhe do pescoço um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido.
O moço cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.
--Quem és, que te mostras tão generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.
--Dom Tello; e adeos!
O moço cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora
entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o á pena do
fogo.
O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabeça encostada aos hombros da
filha. Quiz começar a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluços irrompiam
frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.
--Oh meu pae; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje
passou rente á gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei
D. Manuel casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu
dote era tirar aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e
baptisal-os á força, e matar os mais velhos e pol-os fóra de Portugal...
--Filha, é o céo que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.
E desceu a um subterraneo da casa, e lá se entreteve sósinho dispondo as
suas riquezas para a hora da expulsão.
Ebla ficára por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas
cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moço e
formoso a adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religião em
que nascera e seguil-a até aos confins do universo. E que se um dia
visse um moço trigueiro, de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era
D. Tello, aquelle que a adorava. Ebla atou na mente esta lembrança;
lembrou-se que Tello, o moço cavalleiro acabava n'esse instante de
salvar o pae. Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade
de vêl-o, de lhe fallar; notou a generosidade de não acceitar mas beijar
o collar de pérolas. Solícita e a medo assomou á gelosia; a luz do
candil reflectiu-se fóra, através das grades da adufa. Sentiu uns passos
na rua, depois uma voz mansa e suave que proferiu no silencio da noite:
--Ebla!
Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo á fascinação
d'aquella voz, lançou a cabeça de fóra. Viu na sombra um vulto, que a
irradiação lhe illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da
cigana. Aquella voz, como vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com
o imperio de uma vontade irresistivel:
--Vem.
Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abraço apaixonado,
vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se
levar sem saber porque, nem para onde.
N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as
portas da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na
escuridão da noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens
de armas e de cavallo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma
matraca restabelecera-se o silencio, e pela escuridão sombria e
soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:
«Pregão d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada,
embarcarem para fóra de Lisboa, sob pena de morte.»
A palavra morte accendia na multidão um enthusiasmo frenetico que
apupava, ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:
Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan
passar la mar.
Áquelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do
seu subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante.
Ouviu proferir a sentença ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar
as outras crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos
thesouros. Tornaram a chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da
multidão nada deixava perceber. Chamou por Ebla com uma afflicção de
morte; viram a porta aberta; multidão de gente que tripudiava, lançando
fogo ás casas. O velho pae parecia um leão ferido.
--A maldição d'esta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao
levarem-me essa filha. A minha condemnação, a minha morte para salval-a.
Se ha no mundo alguma força superior, que seja o destino das cousas,
Jahvé ou Jesus, acaso ou as potencias do inferno, conjuro tudo
sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De
que vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia
de mais valia, e com ella todas as esperanças e alegrias da minha vida...
Era incomportavel a dôr do velho; ia continuando, frenetico, doido;
queria fazer-se christão para procurar a filha, quando eccoou de novo a
voz do alcaide da alta justiça:
«Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra já na Judiaria!--Ao
embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte á escolha.»
O velho Rabbi saiu com sua mulher e dois filhos pequenos, levados em
tropel confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galeões de
Hollanda, e resoava o ecco lugubre:
los Reyes mandan
passar la mar.