IV

Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flôres, salvas de

artilheria, estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da

infanta D. Isabel, mulher do monarcha Venturoso. Já se sentia o

estrépito do cortejo real; pelas portas da cidade vem entrando as dansas

dos mesteiraes. Primeiro, vinha a _Folia_, com gaitas e pandeiros á

velha portugueza, dansando em volta de um tambor; trazem guizos nos pés,

cantam letrilhas de folgar e sainetes galantes; os guizos dos artelhos

no reteninte som confundem as coplas. Com gentil ademan no ár volteiam

lenços acenando. Vinha depois a _Carraquisca_, a dansa dos barqueiros e

mareantes dos galeões do Tejo; trazem andando um balanço que imita

um bambula dos pretos, aprendido lá nas conquistas. Vae passando a

_Cativa_, uma outra dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da

Salé, vão confessando preito á nova rainha. Já vem perto a _Gitana_,

toda feita de ranchos de raparigas vestidas de variegados pannos, cintos

de ouro e vermelho; voam-lhes as roupagens com o vento cruzando facas

entre si, ao doce baylo da _Mourisca_, que os sentidos fez perder com a

trisca dos volteios. Eis que chega tambem a _Dansa judenga_! Os apupos

do povo alevantaram-se furiosos chamando-lhes traidores; as vaias e as

pedradas eram pelo ár sem conto; a plebe desenfreada atira-se de roldão

sobre a _judenga_ ao entrar da cidade, e abafam as queixas dos

opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi, dirigindo a

guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas. Os

olhos do veneravel velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a

palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do

atrevido, com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul.

O villão cahiu por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se

atropellava e ruía furibunda sobre a desgraçada dansa judenga. O velho

Rabbi fugiu a todo o custo; a multidão precipita-se apoz elle; gritando,

chamando-lhe réfece assassino. A noite vinha descendo, e protegido pelas

sombras do crepusculo se ia livrando dos golpes que lhe atiravam. O

velho ia quasi exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle;

já poucos o seguiam; mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem

falhar-lhe, falta-lhe o ar; sente vontade de atirar-se ao chão e

deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e de vigor lhe atravessou o

espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!

Ia o velho Rabbi a entrar já na Judiaria, estava quasi á porta de casa

quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a

mão. Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do

séquito do principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte

do seu joven amigo, sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu.

Desembainhou a espada e os populares retiraram-se. O Rabbi bateu á

porta; abriram. Á luz de um candil viu o moço cavalleiro a cara mais

linda de nazarena, os olhos mais languidos que não teria a Sulamite; o

sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de Quirub. Que

contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da candura a

allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.

O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla

tirou-lhe do pescoço um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido.

O moço cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.

--Quem és, que te mostras tão generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.

--Dom Tello; e adeos!

O moço cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora

entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o á pena do

fogo.

O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabeça encostada aos hombros da

filha. Quiz começar a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluços irrompiam

frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.

--Oh meu pae; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje

passou rente á gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei

D. Manuel casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu

dote era tirar aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e

baptisal-os á força, e matar os mais velhos e pol-os fóra de Portugal...

--Filha, é o céo que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.

E desceu a um subterraneo da casa, e lá se entreteve sósinho dispondo as

suas riquezas para a hora da expulsão.

Ebla ficára por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas

cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moço e

formoso a adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religião em

que nascera e seguil-a até aos confins do universo. E que se um dia

visse um moço trigueiro, de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era

D. Tello, aquelle que a adorava. Ebla atou na mente esta lembrança;

lembrou-se que Tello, o moço cavalleiro acabava n'esse instante de

salvar o pae. Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade

de vêl-o, de lhe fallar; notou a generosidade de não acceitar mas beijar

o collar de pérolas. Solícita e a medo assomou á gelosia; a luz do

candil reflectiu-se fóra, através das grades da adufa. Sentiu uns passos

na rua, depois uma voz mansa e suave que proferiu no silencio da noite:

--Ebla!

Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo á fascinação

d'aquella voz, lançou a cabeça de fóra. Viu na sombra um vulto, que a

irradiação lhe illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da

cigana. Aquella voz, como vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com

o imperio de uma vontade irresistivel:

--Vem.

Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abraço apaixonado,

vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se

levar sem saber porque, nem para onde.

N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as

portas da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na

escuridão da noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens

de armas e de cavallo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma

matraca restabelecera-se o silencio, e pela escuridão sombria e

soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:

«Pregão d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada,

embarcarem para fóra de Lisboa, sob pena de morte.»

A palavra morte accendia na multidão um enthusiasmo frenetico que

apupava, ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:

Ea! Judios

á enfardelar!...

los Reyes mandan

passar la mar.

Áquelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do

seu subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante.

Ouviu proferir a sentença ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar

as outras crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos

thesouros. Tornaram a chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da

multidão nada deixava perceber. Chamou por Ebla com uma afflicção de

morte; viram a porta aberta; multidão de gente que tripudiava, lançando

fogo ás casas. O velho pae parecia um leão ferido.

--A maldição d'esta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao

levarem-me essa filha. A minha condemnação, a minha morte para salval-a.

Se ha no mundo alguma força superior, que seja o destino das cousas,

Jahvé ou Jesus, acaso ou as potencias do inferno, conjuro tudo

sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De

que vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia

de mais valia, e com ella todas as esperanças e alegrias da minha vida...

Era incomportavel a dôr do velho; ia continuando, frenetico, doido;

queria fazer-se christão para procurar a filha, quando eccoou de novo a

voz do alcaide da alta justiça:

«Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra já na Judiaria!--Ao

embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte á escolha.»

O velho Rabbi saiu com sua mulher e dois filhos pequenos, levados em

tropel confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galeões de

Hollanda, e resoava o ecco lugubre:

los Reyes mandan

passar la mar.

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 40 / 48 题