Na Judiaria, habitava um velho negociante de joias e pedrarias; quando
algum potentado casava, mandava sempre ali escolher o presente de noiva,
a compra de corpo, o dom da manhã. Elle tinha as pérolas das mais lindas
do fundo do mar; as rochas mais encantadas do Oriente tinham
entregues ao joalheiro os brilhantes facetados da agua mais limpida;
topazios, esmeraldas, adereces, diademas, nunca o thesouro da Senhoria
de Veneza reuniu riquezas de tanto gosto e primor. Viera de Hespanha, no
tempo da grande expulsão dos judeus por Fernando e Isabel; o facho de
Torquemada allumiou-lhe o caminho de Portugal, terra da tolerancia e da
paz. O clima, o ár, a doçura do céo, lembram-lhe o Oriente; elle ama
como filho a boa terra luzitana. Voltava do trabalho á hora do sino
corrido; deixava o thesouro que faria a inveja de bastantes thronos, mas
vinha vêr outro thesouro, o mais querido, e extremecido--uma filha de
quinze annos. Chamava-lhe o bago das vinhas de Engadhi; chamava-lhe a
Rosa das campinas de Sáron, irmã gemea da filha de Jephté, pura como
Débora, deslumbrante como a Sulamite.