Quando Emma saiu da sua mudez sublime, recostou-se sobre o meu hombro
com uma graça infantil:
--Ainda não sabes porque ando triste? Olha, uma tarde, puz-me a escutar
o murmurio de um regato; parecia-me ser uma musica interior. Tive
vontade de saber o que dizia, de confidenciar com elle, de communicar
minha alma, que aspirava n'uma sêde de amor. Ao trepidar mavioso da vêa
crystallina, scismava, devaneiava, enleiada, embevecida. Adormeci.
Pareceu-me então aquelle cicio, como de azas de um cherubim que baixasse
a meu lado; via a claridade de alvura de suas roupagens longas, estava
silencioso ao pé de mim. Mostrava a expressão da serenidade augusta, uma
apparencia que consolava. Acordei, e o mundo affigurou-se-me um
desterro, a vida um carcere, tinha uma impaciencia de voar, de fugir, o
desejo irrepresivel de tornar a vêr o semblante risonho d'aquelle que me
veiu mostrar o mundo intransitavel para a vida, como sarçal espinhoso.
De outra vez appareceu-me, brilhante como Iahveh na sarça ardente. Era
sempre silencioso. O amor emmudecia-me diante d'elle, quiz seguil-o na
visão que se esvaecia lentamente, mas o corpo estava preso aos limos
terrenos, como o cordeiro que se prende nas urzes do matagal. A ancia do
extremo esforço despertou-me. Foi assim que nasceu essa melancholia
profunda, concebida diante do impossivel. Mais tarde conheci o mysterio
da _vontade_; isolei-a em mim, para revocar o ente dos meus sonhos á
realidade de um instante. Quasi que me abrasava na intensidade do
querer. Elle appareceu-me mais triste. Perguntei-lhe se amava?
Sorriu-se. Que era preciso para completarmos uma mesma essencia? o
sorriso converteu-se em uma alegria doida, e disse-me vagamente--vôa da
terra. Nunca mais tornou a visitar-me no desolamento em que vivo. A vida
assim é o vegetar do lichen na humidade das lagrimas derramadas de hora
em hora. Porque não hei de voar da terra?