VII

Quando Emma saiu da sua mudez sublime, recostou-se sobre o meu hombro

com uma graça infantil:

--Ainda não sabes porque ando triste? Olha, uma tarde, puz-me a escutar

o murmurio de um regato; parecia-me ser uma musica interior. Tive

vontade de saber o que dizia, de confidenciar com elle, de communicar

minha alma, que aspirava n'uma sêde de amor. Ao trepidar mavioso da vêa

crystallina, scismava, devaneiava, enleiada, embevecida. Adormeci.

Pareceu-me então aquelle cicio, como de azas de um cherubim que baixasse

a meu lado; via a claridade de alvura de suas roupagens longas, estava

silencioso ao pé de mim. Mostrava a expressão da serenidade augusta, uma

apparencia que consolava. Acordei, e o mundo affigurou-se-me um

desterro, a vida um carcere, tinha uma impaciencia de voar, de fugir, o

desejo irrepresivel de tornar a vêr o semblante risonho d'aquelle que me

veiu mostrar o mundo intransitavel para a vida, como sarçal espinhoso.

De outra vez appareceu-me, brilhante como Iahveh na sarça ardente. Era

sempre silencioso. O amor emmudecia-me diante d'elle, quiz seguil-o na

visão que se esvaecia lentamente, mas o corpo estava preso aos limos

terrenos, como o cordeiro que se prende nas urzes do matagal. A ancia do

extremo esforço despertou-me. Foi assim que nasceu essa melancholia

profunda, concebida diante do impossivel. Mais tarde conheci o mysterio

da _vontade_; isolei-a em mim, para revocar o ente dos meus sonhos á

realidade de um instante. Quasi que me abrasava na intensidade do

querer. Elle appareceu-me mais triste. Perguntei-lhe se amava?

Sorriu-se. Que era preciso para completarmos uma mesma essencia? o

sorriso converteu-se em uma alegria doida, e disse-me vagamente--vôa da

terra. Nunca mais tornou a visitar-me no desolamento em que vivo. A vida

assim é o vegetar do lichen na humidade das lagrimas derramadas de hora

em hora. Porque não hei de voar da terra?

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 13 / 48 题