VIII

Ouviu-se trindades n'esse instante; cerrava-se a noite, frigida; o luar

vinha saudoso. Emma pediu-me para deixal-a só. Por alta noite via-se a

luz derramar-se pela vidraça do seu quarto, luz viva, silenciosa, como

da alampada do philosopho hermetico surprehendendo a natureza em algum

dos seus segredos mais reconditos.

Emma lia no livro predilecto, que eu deparára aberto sobre o regaço.

Pouco depois começou a alvorada. Quando o silencio era mais solemne e a

natureza inteira parecia reconcentrar-se em santos mysterios, sentiu-se

em casa um estrondo surdo, como o baque de um corpo morto, depois o

bracejar, de quem se debatia nas vascas do paroxismo. Ergueram-se á

pressa, foram apoz o ecco. Era no quarto de Emma. Seria algum pezadello

longo? A porta cedeu á promptidão do soccorro. Foram encontral-a em

terra, morta, a pouca distancia do fogão, que saturava o ar ambiente de

exhalações carbonicas. O corpo já estava frio; o rosto tinha a pallidez

do marmore. A pouca distancia d'ella estava aberto o livro fatal das

exaltações mysticas de Swedenborg.

Lia-se esta phrase profunda:

«A innocencia dos céos produz uma tal impressão na alma, que os que são

affectados d'ella guardam um transporte que lhes dura toda a vida, como

eu mesmo experimentei. Basta talvez ter uma minima percepção para ser

para sempre _mudado_, para querer ir aos céos e entrar assim na esphera

da Esperança.»

Seguiam-se outras palavras. Tive medo de lêr mais, porque começava

tambem a sentir a seducção da melancholia e reconcentração subjectiva,

que leva ao suicidio.

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 14 / 48 题