Emma estava n'aquella tarde tão affavel! tinha por certo a consciencia
de ir em breve completar-se na essencia de algum anjo. As suas fallas
eram como suspiros. Lançou-me um olhar interrogativo, de quem temia
fazer-me uma pergunta indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquella
affabilidade de seraphim, costumado a vêl-a sempre aéria, desdenhosa do
mundo, radiante como na transfiguração do Thabor. Apertei as mãos d'ella
entre as minhas, queria tirar um som d'este instrumento celeste, cujo
segredo de harmonia era só percebido pelos anjos. Se podesse desferil-o,
havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a intensidade d'essa
dôr tão intima, tão espiritual, que se não póde exprimir na
materialidade phonica da palavra. Ella adivinhou o meu desejo:
--Tens uma _vontade_ energica?--perguntou-me quasi a medo e de um modo
sybillino. Seria uma phrase abrupta para qualquer, e inintelligivel até;
eu porém que devo á actividade só d'esta faculdade tudo quanto sou,
as grandes dôres, os impulsos irresistiveis, as glorias sonhadas, a
realisação dos mais exiguos appetites, que a encontro na intensidade
absoluta do _Fiat_, que é Deus, que a vejo nos grandes factos do
espirito, a Religião, o Direito e a Arte: na religião manifestando-se
emotivamente na fé; no direito, no accordo dos contractos individuaes;
na arte, no ponto onde os gostos diversissimos se harmonisam, isto é o
bello; eu, repito, comprehendi aquella interrogação na sua plenitude. E
começava a conhecer mais o poder da _vontade_ porque acabava de observar
o resultado do acto em que a exercera.
Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era magestoso e santo,
como o frontispicio de uma cathedral da Edade média; as flexas, as
linhas architectonicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus
cabellos; o olhar, o olhar que me opprimia n'esse instante, era
mysterioso como uma ogiva sombria. Tive o medo do neophyto, quando ouve
mugir a caverna, e escoar-se a brisa gelida e olorante pela fenda do
penhasco, e quasi que se esvae em terra sem sentidos, ao vêr attonito as
convulsões do hierophante. Emma perguntou-me se eu cria nas relações com
o mundo invisivel. Hesitei um instante, depois volvi:
--Creio, mas não as sei demonstrar por uma fórmula, que, embora
refutavel, tenha valor philosophico.--Ella ouviu-me com o pezar e
serenidade de uma joven esposa na sua viuvez, que ouve o filhinho a
perguntar-lhe pelo pae. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu
peito:
--És tão novo ainda, e porque matas em ti já o sentimento pela reflexão?
A reflexão é fria, é terrena, não comprehende sem decompôr para
recompôr. Como se ha de ella elevar ao simples, ao absoluto, que tem por
attributo supremo a indivisibilidade? A luz, que é incoercivel, não se
espelha na face quieta do lago? O sentimento é assim; só elle te póde
levar além das relações e das contingencias. A substancia é unica; esta
essencia d'ella é que prende pela unidade a multiplicidade dos
attributos. Todas as vezes que te absorveres na unidade que te allia
como attributo ou modo á substancia, entraste na essencia de todas as
cousas, porque o simples que actua n'esse momento em ti, é o mesmo em
que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.
E continuou com palavras quasi imperceptiveis. Estava em extasis, no
extasis da abstracção, como o sentia Newton quando determinava a
essencia de uma ordem de factos complexos, na lei que havia ficar
eterna, e a que havia imprimir o seu nome. Tive vontade de lançar-me por
terra, diante d'aquelle espirito incomprehensivel; precipitava-me se
ella me dissesse como satanaz, quando arrebatou Jesus ao pinaculo do
templo:--_Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me._