VI

Emma estava n'aquella tarde tão affavel! tinha por certo a consciencia

de ir em breve completar-se na essencia de algum anjo. As suas fallas

eram como suspiros. Lançou-me um olhar interrogativo, de quem temia

fazer-me uma pergunta indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquella

affabilidade de seraphim, costumado a vêl-a sempre aéria, desdenhosa do

mundo, radiante como na transfiguração do Thabor. Apertei as mãos d'ella

entre as minhas, queria tirar um som d'este instrumento celeste, cujo

segredo de harmonia era só percebido pelos anjos. Se podesse desferil-o,

havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a intensidade d'essa

dôr tão intima, tão espiritual, que se não póde exprimir na

materialidade phonica da palavra. Ella adivinhou o meu desejo:

--Tens uma _vontade_ energica?--perguntou-me quasi a medo e de um modo

sybillino. Seria uma phrase abrupta para qualquer, e inintelligivel até;

eu porém que devo á actividade só d'esta faculdade tudo quanto sou,

as grandes dôres, os impulsos irresistiveis, as glorias sonhadas, a

realisação dos mais exiguos appetites, que a encontro na intensidade

absoluta do _Fiat_, que é Deus, que a vejo nos grandes factos do

espirito, a Religião, o Direito e a Arte: na religião manifestando-se

emotivamente na fé; no direito, no accordo dos contractos individuaes;

na arte, no ponto onde os gostos diversissimos se harmonisam, isto é o

bello; eu, repito, comprehendi aquella interrogação na sua plenitude. E

começava a conhecer mais o poder da _vontade_ porque acabava de observar

o resultado do acto em que a exercera.

Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era magestoso e santo,

como o frontispicio de uma cathedral da Edade média; as flexas, as

linhas architectonicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus

cabellos; o olhar, o olhar que me opprimia n'esse instante, era

mysterioso como uma ogiva sombria. Tive o medo do neophyto, quando ouve

mugir a caverna, e escoar-se a brisa gelida e olorante pela fenda do

penhasco, e quasi que se esvae em terra sem sentidos, ao vêr attonito as

convulsões do hierophante. Emma perguntou-me se eu cria nas relações com

o mundo invisivel. Hesitei um instante, depois volvi:

--Creio, mas não as sei demonstrar por uma fórmula, que, embora

refutavel, tenha valor philosophico.--Ella ouviu-me com o pezar e

serenidade de uma joven esposa na sua viuvez, que ouve o filhinho a

perguntar-lhe pelo pae. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu

peito:

--És tão novo ainda, e porque matas em ti já o sentimento pela reflexão?

A reflexão é fria, é terrena, não comprehende sem decompôr para

recompôr. Como se ha de ella elevar ao simples, ao absoluto, que tem por

attributo supremo a indivisibilidade? A luz, que é incoercivel, não se

espelha na face quieta do lago? O sentimento é assim; só elle te póde

levar além das relações e das contingencias. A substancia é unica; esta

essencia d'ella é que prende pela unidade a multiplicidade dos

attributos. Todas as vezes que te absorveres na unidade que te allia

como attributo ou modo á substancia, entraste na essencia de todas as

cousas, porque o simples que actua n'esse momento em ti, é o mesmo em

que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.

E continuou com palavras quasi imperceptiveis. Estava em extasis, no

extasis da abstracção, como o sentia Newton quando determinava a

essencia de uma ordem de factos complexos, na lei que havia ficar

eterna, e a que havia imprimir o seu nome. Tive vontade de lançar-me por

terra, diante d'aquelle espirito incomprehensivel; precipitava-me se

ella me dissesse como satanaz, quando arrebatou Jesus ao pinaculo do

templo:--_Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me._

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 12 / 48 题