IV

A tarde declinava amena, festiva, com o ultimo lampejo de graça que

deixa presentir já a melancholia do outomno. Emma ergueu-se da mesa; o

rosto estava deslumbrante de transfiguração, possuida do sentimento do

infinito, que lhe dava uma expressão sobrehumana, excelsa, que se não

podia fitar, similhante á _Seraphita_ enlevada nas illuminações

swedenborgianas, ao transpôr os precipicios icarios, inaccessiveis dos

_fiords_ da Norwega.

N'aquella tarde parecia oppressa por uma angustia mais intima. Segui-a,

queria admiral-a na altura a que se remontava, queria que me fizesse

herdeiro do seu manto prophetico, no instante em que se librasse no

carro de fogo, como Elias. E ella era bem a prophetisa do deserto.

Approximei-me. Estava serena e placida, como quem mergulhára no oceano

da contemplação. De mais perto vi que dormia, com um somno hypnotico.

Ficára-lhe um sorriso estampado nos labios; parecia o involucro de uma

chrysalida mysteriosa; a borboleta voára para a luz, abandonára-o na

terra.

Conservava então um livro sobre o regaço; a mão inerte repousava sobre a

pagina. Um leve signal notava uma phrase profunda em que a alma se lhe

absorvêra: «_Um anjo está presente a um outro, quando elle o deseja_.»

Procurei vêr de quem era o livro. Era escripto por Swedenborg, o

patriarcha dos theosophos do norte, o que levou mais longe as relações

com o mundo invisivel. O livro intitulava-se: _A sabedoria angelica da

omnipotencia, omnisciencia, omniprezensa dos que gosam a eternidade, a

immensidade de Deos._

Emma acordou de subito. Senti um estremecimento de terror, começava a

comprehender a sua solidão. Eu mesmo tinha estudado a _segunda vista_,

colligido alguns phenomenos de suggestão que se passavam no meu

espirito, conseguira por uma excitação nervosa perenne a hypnotisação

voluntaria.

V

Tambem no livro _De varietate rerum_ descreve Jeronymo Cardan a

faculdade que tinha de experimentar o extasis espontaneo, e de tornar

objectivas as imagens creadas na sua mente: «Quando eu _quero_, vejo o

que me apraz, e isto não só com o espirito, mas com os olhos, com

essas imagens que eu via na minha infancia. Mas agora creio que ellas

são o resultado de minhas occupações. É certo que nem sempre possúo esta

faculdade, comtudo não a tenho senão quando quero. As imagens que eu

vejo estão sempre em movimento; é assim que vejo as florestas, os

animaes, os diversos paizes e tudo quanto eu quero vêr. Creio que a

causa de todos estes effeitos está na actividade da minha imaginação e

n'uma vista penetrantissima. Desde a minha infancia tinha de commum com

Tiberio Cesar o poder vêr na obscuridade mais profunda, como em pleno

dia. Porém não conservei muito tempo esta faculdade. Apesar d'isso vejo

ainda alguma coisa, postoque não posso distinguir bem o que vejo; e

attribuo este effeito ao calor do cerebro, á subtileza dos espiritos

vitaes, á substancia do olho, e á energia da imaginação.» (Lib. IV c. 43.)

É esta uma qualidade vulgarissima nos povos do norte, principalmente os

insulares, conhecida sob a denominação de _Second sight_. Ahi a

imaginação tendo pouca variedade de paizagem que a fecunde, volta sobre

si o que ha edificado e exagera-lhe as proporções. Por isso as

theogonias do norte são terriveis. As avalanches suspensas a

precipitarem-se, os nevoeiros diffundidos por toda a parte como um

sudario immenso e frio, a aurora dos polos a desdobrar-se esplendida,

tudo faz sonhar de um mundo phantastico, escutar essas toadas vagas,

indefiniveis dos espiritos que se annunciam pelo ressoar de uma harpa

longinqua. O dom da visão é commum; é assim na ilha de Ferroë. Que

virgens se não ostentam n'uma apparição repentina, e que o vidente

procura, sem nunca mais poder encontral-as! Balzac, o observador sem

egual do coração, sentiu toda a poesia do norte no poema de _Seraphita_;

é um mysterio, o enlace da philosophia e da poesia, um extasis

indecifravel de Swedenborg, contemplado nas _fiords_ da Norwega. O

delirio de _Seraphita_ é o problema incessante da percepção immediata; o

seu amor é mais puro que o ideal de Dyotima, é elle que lhe dá a

_segunda vista_.

_Taishatrim_ e _Phissichin_ são os nomes que em lingua gaëlica se dão

aos que tem esta faculdade. Os factos observados são innumeros, o seu

estudo é dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de

Swedenborg, mas não attendeu que este phenomeno physico era todo

sentimental; viu no patriarcha dos videntes do norte um impostor. A vida

exemplarissima de Swedenborg é um desmentido completo e irretorquivel

aos argumentos d'esta ordem.

Como explicar a inspiração continua, a _segunda vista_? A alma paira

entre dois mundos--o physico com que se relaciona pelos sentimentos, o

psychico com que se relaciona pelos presentimentos; se é attrahida para

o mundo dos corpos, predominam n'ella os instinctos, e as sensações,

todas relativas, só lhe advém pela presença dos objectos; se a alma por

um desejo vehemente se eleva do estado de _anima_ ao de _spiritus_, os

sentimentos desprendem-se do nexo das relações terrestres, e

conhecem tudo independente das sensações pela representação subjectiva.

É o que acontece aos poetas, cantando a belleza de fórmas não sonhadas,

a reminiscencia de harmonias não ouvidas.

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 11 / 48 题