A tarde declinava amena, festiva, com o ultimo lampejo de graça que
deixa presentir já a melancholia do outomno. Emma ergueu-se da mesa; o
rosto estava deslumbrante de transfiguração, possuida do sentimento do
infinito, que lhe dava uma expressão sobrehumana, excelsa, que se não
podia fitar, similhante á _Seraphita_ enlevada nas illuminações
swedenborgianas, ao transpôr os precipicios icarios, inaccessiveis dos
_fiords_ da Norwega.
N'aquella tarde parecia oppressa por uma angustia mais intima. Segui-a,
queria admiral-a na altura a que se remontava, queria que me fizesse
herdeiro do seu manto prophetico, no instante em que se librasse no
carro de fogo, como Elias. E ella era bem a prophetisa do deserto.
Approximei-me. Estava serena e placida, como quem mergulhára no oceano
da contemplação. De mais perto vi que dormia, com um somno hypnotico.
Ficára-lhe um sorriso estampado nos labios; parecia o involucro de uma
chrysalida mysteriosa; a borboleta voára para a luz, abandonára-o na
terra.
Conservava então um livro sobre o regaço; a mão inerte repousava sobre a
pagina. Um leve signal notava uma phrase profunda em que a alma se lhe
absorvêra: «_Um anjo está presente a um outro, quando elle o deseja_.»
Procurei vêr de quem era o livro. Era escripto por Swedenborg, o
patriarcha dos theosophos do norte, o que levou mais longe as relações
com o mundo invisivel. O livro intitulava-se: _A sabedoria angelica da
omnipotencia, omnisciencia, omniprezensa dos que gosam a eternidade, a
immensidade de Deos._
Emma acordou de subito. Senti um estremecimento de terror, começava a
comprehender a sua solidão. Eu mesmo tinha estudado a _segunda vista_,
colligido alguns phenomenos de suggestão que se passavam no meu
espirito, conseguira por uma excitação nervosa perenne a hypnotisação
voluntaria.
V
Tambem no livro _De varietate rerum_ descreve Jeronymo Cardan a
faculdade que tinha de experimentar o extasis espontaneo, e de tornar
objectivas as imagens creadas na sua mente: «Quando eu _quero_, vejo o
que me apraz, e isto não só com o espirito, mas com os olhos, com
essas imagens que eu via na minha infancia. Mas agora creio que ellas
são o resultado de minhas occupações. É certo que nem sempre possúo esta
faculdade, comtudo não a tenho senão quando quero. As imagens que eu
vejo estão sempre em movimento; é assim que vejo as florestas, os
animaes, os diversos paizes e tudo quanto eu quero vêr. Creio que a
causa de todos estes effeitos está na actividade da minha imaginação e
n'uma vista penetrantissima. Desde a minha infancia tinha de commum com
Tiberio Cesar o poder vêr na obscuridade mais profunda, como em pleno
dia. Porém não conservei muito tempo esta faculdade. Apesar d'isso vejo
ainda alguma coisa, postoque não posso distinguir bem o que vejo; e
attribuo este effeito ao calor do cerebro, á subtileza dos espiritos
vitaes, á substancia do olho, e á energia da imaginação.» (Lib. IV c. 43.)
É esta uma qualidade vulgarissima nos povos do norte, principalmente os
insulares, conhecida sob a denominação de _Second sight_. Ahi a
imaginação tendo pouca variedade de paizagem que a fecunde, volta sobre
si o que ha edificado e exagera-lhe as proporções. Por isso as
theogonias do norte são terriveis. As avalanches suspensas a
precipitarem-se, os nevoeiros diffundidos por toda a parte como um
sudario immenso e frio, a aurora dos polos a desdobrar-se esplendida,
tudo faz sonhar de um mundo phantastico, escutar essas toadas vagas,
indefiniveis dos espiritos que se annunciam pelo ressoar de uma harpa
longinqua. O dom da visão é commum; é assim na ilha de Ferroë. Que
virgens se não ostentam n'uma apparição repentina, e que o vidente
procura, sem nunca mais poder encontral-as! Balzac, o observador sem
egual do coração, sentiu toda a poesia do norte no poema de _Seraphita_;
é um mysterio, o enlace da philosophia e da poesia, um extasis
indecifravel de Swedenborg, contemplado nas _fiords_ da Norwega. O
delirio de _Seraphita_ é o problema incessante da percepção immediata; o
seu amor é mais puro que o ideal de Dyotima, é elle que lhe dá a
_segunda vista_.
_Taishatrim_ e _Phissichin_ são os nomes que em lingua gaëlica se dão
aos que tem esta faculdade. Os factos observados são innumeros, o seu
estudo é dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de
Swedenborg, mas não attendeu que este phenomeno physico era todo
sentimental; viu no patriarcha dos videntes do norte um impostor. A vida
exemplarissima de Swedenborg é um desmentido completo e irretorquivel
aos argumentos d'esta ordem.
Como explicar a inspiração continua, a _segunda vista_? A alma paira
entre dois mundos--o physico com que se relaciona pelos sentimentos, o
psychico com que se relaciona pelos presentimentos; se é attrahida para
o mundo dos corpos, predominam n'ella os instinctos, e as sensações,
todas relativas, só lhe advém pela presença dos objectos; se a alma por
um desejo vehemente se eleva do estado de _anima_ ao de _spiritus_, os
sentimentos desprendem-se do nexo das relações terrestres, e
conhecem tudo independente das sensações pela representação subjectiva.
É o que acontece aos poetas, cantando a belleza de fórmas não sonhadas,
a reminiscencia de harmonias não ouvidas.