IV

Mas ninguem póde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a

verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este

livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; não

obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar;

e, embora o negueis, é a vós mesmos que mentis. Negal-o-heis com a

bôcca; mas não com a consciencia.

V

Espero resignadamente as insolencias. Se m'as não disserem alto,

dil-as-hão baixinho. Este livro irá ao _Index_, e tal, que o não tiver

lido, se julgará abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros,

como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo

de sua recente conversão, de buscar aqui motivos para ser mais humilde;

vedar-se-ha á viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura.

Divulgar-se-ha que este livro é _tição do inferno_, que queima os dedos

que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa fé.

A Egreja não alenta curiosidades de espirito. Porquê? De que se teme?

Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiará

cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se

justifica; dispensa pregões; nos labios d'um menino inflora-se tão bella

como nos discursos d'um sabio.

As leis moraes não são arbitrarias; não são caprichos divinos nem

tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde á nossa intelligencia. São

perfeitamente adequadas á nossa natureza e necessidades. Não ha uma só,

cuja inobservancia não surta graves desordens; uma só que não proteja a

dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o

innocente contra o cavilloso. São freio de paixões, luz e regras

das acções publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas,

condição que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, caução de

nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos.

A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua força, se a discussão a

intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria

sua fraqueza, se tolerasse discussão de certos dogmas, e em particular

do dogma das penas eternas. Se quer que haja crença no inferno com fé

egual á crença da redempção; se quer a mesma fé para a colera sem fim e

para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que é

prudente. Mas d'essa imposição de silencio o resultado é este:

O Inferno · 第 136 / 158 题